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O Poder da Mente sobre a Matéria

 

Bem senhores, vão ter de desculpar o facto, do recinto ser algo pequeno e que tenhamos que fechar as portas para que não entre tanto ruído, mas como o tema de hoje é sobre o poder da mente sobre a matéria, o melhor que podemos fazer é abstrair-nos, um pouco, do nosso mundo físico e tratar de partilhar alguns minutos em contacto com este tema.

Eu vou falar muito brevemente – sempre o faço – vou expor alguns dos temas fundamentais, alguns contactos axiais fundamentais sobre este ponto e depois, se quiserem, podem fazer-me perguntas. Tenho a intenção, esta tarde, de esclarecer pontos fundamentais. Sabem que poderíamos falar muito do poder da mente sobre a matéria, poderíamos desenvolver longos discursos, mas creio que, de alguma maneira e de alguma forma, todos estamos um pouco cansados de discursos e de muitas palavras que não se concretizam em elementos práticos. Portanto, o que vou tentar, com toda a humildade, é passar-vos alguns elementos práticos que vos permitam realmente tomar contacto com o tema.


Este poder da mente sobre a matéria é um – talvez o mais velho – de todos os poderes do homem. Desde que o mundo é mundo, o homem tratou de fazer com que a matéria o servisse, de fazer com que a matéria lhe fosse útil; porém, para conseguir que a matéria lhe fosse útil teve não só que trabalhar a matéria, mas primeiro teve que pensar a matéria.

É o velho exemplo do oleiro; o homem que quer fazer um cântaro ou que quer fazer um copo, primeiro pensa-o, sonha-o, projecta-o, logo luta com a matéria, que geralmente resiste. A matéria tem uma inércia que é própria, a chamada tendência até ao abismo, a queda para baixo. Qualquer objecto físico que temos nesta habitação, se o mantivermos no ar ou o soltamos, cai inexoravelmente até ao centro da Terra. As pedras que coroam os castelos, os obeliscos, os templos de Luxor, estão a esperar pacientemente para caírem até à sua Mãe Terra. A matéria tem uma tendência para cair sobre a Terra, a participar daquilo do qual se levantou.

A mente, pelo contrário, é a forjadora da forma. A forma não é material, a forma é mental. Se eu tivesse aqui um pau de giz com forma cilíndrica ou poliédrica, se moesse esse pau de giz o que obteria seria um pó.

Esse pó deixaria de ser giz? Não, continuaria a ser giz. Qual é a diferença? É que se perdeu a forma. Se agora o pusesse num novo molde e fizesse com ele uma esfera, agora seria giz, em forma de esfera. Ou seja, a forma não é estritamente material, a forma tem raízes mais altas e mais espirituais.

Para poder entender isto não creio que bastem as fontes comuns ocidentais. No Ocidente, os estudos sobre psicologia e mesmo sobre parapsicologia são relativamente novos desde o ponto de vista científico. Vocês viram esse simpático jovem que torcia – ou não – as famosas colherezinhas, vimo-lo através do aparelho de televisão. Fazia-o ou não o fazia? A ciência, as investigações não se puseram totalmente de acordo e as fontes que consultamos, umas dizem que sim e outras dizem que não. Se no Ocidente tivéssemos realmente uma ciência de estudos psicológicos e parapsicológicos saberíamos ao que nos encostar.

 

"A mente, pelo contrário, é a forjadora da forma."


Perante um fenómeno físico qualquer, como a evaporação da água, ou químico, como o fabrico de gás metano, se perguntamos aos químicos: «Senhores, este fabrico de gás metano, com que elementos se realiza, com carbono, com hidrogénio ou com oxigénio?» os químicos saberiam dizer-nos imediatamente com o que é que se faz? Haveria neles um conhecimento da intimidade daquilo que estão a tratar? Ou seja, a matéria é relativamente conhecida, mas a mente não; o alcance da mente não é conhecido, e, no entanto, o homem caracteriza-se por possuir mente.

Em sânscrito a palavra «homem» é muito parecida ao inglês, é man; e Manu é o homem por excelência, ou seja, o que dirige homens, «o Rei de Homens». E fala-se do Maná como do poder de plasmar com a mente coisas, o misterioso poder de Kriyâ-sakti. E fala-se também que o homem está constituído, em grande parte, por um elemento chamado Manas, «a mente».

Para os orientais, a mente é uma espécie de ponte ou de elemento copulativo entre o espiritual e o material. O material – o prakrítico – e o espiritual – o purushíaco – encontrar-se-iam na Índia unidos e atados por este elemento Manas, pela parte mental. Platão também nos dizia que os Arquétipos construíram todas as coisas e dizia que Deus, de alguma maneira, sonhou o Universo e logo este se plasmou; todos nós para podermos plasmar as coisas necessitamos chegar ao nosso próprio Arquétipo, ao nosso próprio Logos, ao nosso próprio mundo dos inteligíveis.

Há algo que quero destacar – visto ter-vos dito que quero entrar em contacto com vocês de uma maneira mais prática e não somente através de uma conferência de palavras difíceis, mas antes de coisas que se possam apreender rapidamente – há algo que geralmente confundimos: o que é a mente com o que é a imaginação.

Teríamos que ver primeiro o que é a mente em si, que é difícil de definir; e o que é a matéria em si, que também é difícil de definir, de definir de maneira racional; e, no entanto, todos usamos ambas, todos sabemos o que é.

Porquê?

Porque onde começa e onde termina a matéria?

Não nos podemos enjaular nos conceitos do século XIX, onde a matéria era tudo aquilo que pode ser medido e pesado, porque determinados gases ou determinadas formas de energia não seriam matéria; e até onde podemos dizer que são estritamente materiais?

Do mesmo modo, no plano material, temos que entender que o que devemos fazer em primeiro lugar é estudar, ver ou apalpar a matéria que temos em nosso redor; e no plano mental o que temos que fazer, em primeiro lugar, é manejar a nossa mente, a nossa consciência, a nossa possibilidade de consciencializar.

Se agora houvesse um ruído forte no final desta habitação – algum libertino que atirasse um petardo, por exemplo – todo vocês voltar-se-iam e eu também, para ver o que se passava. Nesse momento, para vocês, eu deixo de existir, porque retirariam a vossa mente, guiada pela vossa imaginação, até ao lugar do ruído. Para vocês eu existo novamente quando vocês me prestam atenção, enquanto vocês dirigem a vossa possibilidade mental, os olhos da vossa mente, para mim. As coisas existem para nós quando nós tomamos consciência delas.

Vamos supor que ninguém se tivesse fixado neste relevo de bronze ou que houvesse alguém que não se fixou. Vou pensar que houve alguém que não se fixou, que não o viu, que não o observou; mas quando eu digo que este é um relevo de bronze, vocês começam a tomar consciência da existência deste relevo; para vocês toma existência este relevo ou tomaria existência aquele quadro religioso que está naquela parede. Isto quer dizer que as coisas ganham existência para vocês quando as podem pensar, quando as podem assimilar com o vosso pensamento.

Daí que a mente, se bem que não possa ser definida, podemos dizer sim que é um instrumento de consciência que está adornado pela imaginação e, às vezes, está travado pela fantasia. Tudo é conforme a qualidade da nossa mente e a possibilidade de fixar a nossa mente numa coisa ou noutra.

Se começamos a pensar em tudo o que nos ocorreu no passado, ele revive para nós, e outra vez vivemos a má noite da morte de algum parente ou amigo, ou outra vez vivemos um bom momento de uma amizade. A mente é a que nos leva – como se fosse uma espécie de aparelho mágico, tapete voador ou nave espacial – de um lugar a outro, a que nos põe em contacto com uma coisa ou com outra. Dependendo da maneira como nós dirigimos o foco da nossa mente vamos estar em contacto com um tipo de coisas ou com outro tipo de coisas. Daí que, desde o ponto de vista dos filósofos antigos – quer sejam os filósofos gregos, quer sejam aqueles que, embora não se chamassem filósofos o eram e muito, que havia na Índia, na China e no Japão –, e mesmo desde o nosso, desde o nosso ponto de vista da Filosofia Acropolitana, sustentamos que a direcção da mente é fundamental.


"Daí que a mente, se bem que não possa ser definida, podemos dizer sim que é um instrumento de consciência que está adornado pela imaginação e, às vezes, está travado pela fantasia."


A mente participa de uma parte espiritual e de uma parte material. Para os antigos indianos este Manas tem duas formas ou dois aspectos: um aspecto arûpa, um aspecto não condicionado e um aspecto rûpa, um aspecto condicionado. Se nós situamos a nossa mente no incondicionado, tudo aquilo que está condicionado não nos toca ou toca-nos relativamente; se estamos aferrados às coisas da matéria, isso toca-nos e de que maneira. Por exemplo, esta é uma coluna de estuque, tem um valor «X», muito pouco, mas se esta coluna me agrada, se eu a mentalizo, se eu a sinto, ou se está unida a recordações da minha infância, quando esta coluna se quebra, de certa forma também eu me quebro, porque uno-me ou relaciono-me com isto através da minha mente. Daí que o domínio da mente é fundamental, e sem o domínio da mente não pode haver domínio sobre a matéria.

Mas vamos tocar dois pontos, um deles, o domínio comum e o outro, o domínio não comum. O domínio comum da mente sobre a matéria podemos constatá-lo todos os dias, cada vez que queremos fazer algo; primeiro mentalizamo-lo, pensamo-lo e logo o plasmamos, como no exemplo do cântaro do oleiro que vos contei. Daquilo a que se chama fora do comum, parapsicológico ou mesmo milagroso, até onde o é? Uma lâmpada que ardesse na Babilónia, há 4000 anos, sem deitar fumo teria sido considerada milagrosa; um carro que não tivesse cavalos à frente e que andasse por uma estrada seria considerado milagroso. O nosso conceito de milagre está, também, limitado pela nossa própria possibilidade de captação dos fenómenos físicos. Para um homem que não sabe como se produz o trovão, que não conhece as descargas da electricidade no céu entre as nuvens, esse homem pode acreditar que esse fenómeno é um fenómeno mágico divino. Para o homem que conhece os seus fundamentos científicos, perde o sentido de divino e diz que é um fenómeno material, que é um simples facto físico.

Daí que o materialismo que hoje reina entre nós está dado por uma falsa extensão, por uma alienação mental, por uma forma de loucura; é que descobrimos tantas coisas desde há um século até agora, inventámos tantas coisas, valemo-nos de tantas coisas, explicámos fisicamente tantas coisas que, por extensão, dizemos: «Tudo é matéria.» Inclusive há alguns pensadores que dizem que a mente é uma espécie de secreção do cérebro. Se bem que isso já não se use, até há pouco tempo afirmava-se. Porquê? Porque este sentido materialista da História chegou a tingir todas as coisas de cor material e mesmo que não sejam materiais vêem-se como elementos materiais.

Disse-vos que ia falar um pouco das coisas extraordinárias. Pode-se realmente, mediante o poder da vontade, dobrar uma colherzinha ou levantar alguma coisa no ar?

Pessoalmente sei que sim, mas isso é um pouco difícil de transmitir. Mas digo-vos isto, sim, a mente maneja a energia; com o calor podemos dobrar um metal; hoje sabemos que as ondas hertzianas passam através das paredes para chegar aos nossos aparelhos de rádio e também o vemos com os raios X; hoje sabemos que as coisas que são diques inamovíveis para formas de matéria não o são para formas de energia; sabemos também, por dedução, que podemos pôr em movimento forças da Natureza que fazem com que muitos objectos se comportem de uma maneira atípica, de uma maneira incomum; e quando eu vos falo através das minhas cordas vocais, através da vocalização do ar, não me estou a pôr em contacto com vocês, a fazer telepatia, porque nos estamos a comunicar à distância?

O que acontece é que, utilizo um meio aéreo; mas isto não ocorreria se não existisse este ar ou se eu fosse mudo. E porque não pensar que, se desenvolvesse o meu poder da vontade e da mente – da mesma forma como pude desenvolver a minha língua ou a minha garganta – poderia chegar a vós, se não com as minhas palavras, com os meus pensamentos. E quantos de nós não temos a experiência de, muitas vezes, estar a ler a mente daquele que está à nossa frente e saber o que está a pensar? E quantos de nós não temos experiência de saber, às vezes, que a um parente ou a uma pessoa querida algo está a acontecer, e senti-lo como se fosse connosco?

É uma prova mais do que científica, é uma prova pessoal, tangível e objectiva, da existência de um mundo mental, de uma dimensão na qual se move a mente. Porque se nós falamos, como dizem os orientais, que para além de ter um corpo físico, temos um corpo energético, temos um corpo psíquico em distintos graus, um corpo mental, cada um destes corpos, destes veículos, terá que se mover numa dimensão. Eu movo-me fisicamente na dimensão física, mas mentalmente movemo-nos numa dimensão mental. Seria bom conhecer como é este mundo da mente, como é o nosso mundo mental.

O nosso mundo mental é um mundo muito parecido ao físico. O mundo físico não é mais do que um reflexo do mundo mental. O nosso problema é que, às vezes, não nos damos conta – porque o materialismo nos cegou – de que necessitamos cuidar desse mundo mental, da mesma maneira como cuidamos do mundo físico. Porque todos nós quando nos levantamos de manhã lavamos os dentes, todos nós nos penteamos um pouco, enfim, pomos uma roupa limpa, tomamos banho, mas e quem faz isso com a sua mente? Quem é que dedica algo à sua mente, à sua parte mental ou superior em primeiro lugar? Essa é a questão das velhas avós, daquelas que faziam orações, daquelas que rezavam o terço, enfim, da gente de antes.

 

"O nosso mundo mental é um mundo muito parecido ao físico. O mundo físico não é mais do que um reflexo do mundo mental."



Agora, sobretudo os mais jovens, rejeitam essas posições e, no entanto, isso é fatal para os seres humanos, porque abandonamos a nossa mente e a nossa mente suja-se e a nossa mente debilita-se. Sabem que o exercício de um músculo faz com que esse músculo possa ter uma determinada força; sabem que o costume de dar golpes de um karateca ou de alguém que pratica artes marciais, permite-lhe golpear algo de uma maneira que não o pode fazer quem não o praticou. Da mesma maneira e da mesma forma, se nós podemos manejar os nosso elementos mentais, poderemos tê-los depurados e bem. Algum de vós daria ao seu filho comida contaminada, comida enlatada em mau estado? Não, ninguém. E, no entanto, preocupamo-nos da mesma forma para que eles não leiam revistas ou não leiam às vezes elementos nada construtivos que muito apodrecem e deformam a mente? Esse é o nosso problema.

Depois estabelecemos: «Mas eu não tenho poder mental, eu não posso imaginar, não posso recordar.» Mas como cuidamos da nossa mente? Quantos de nós se preocupam em limpar a própria mente todos os dias, de lavá-la, de alimentá-la? Porque se este corpo físico se alimenta de coisas físicas, de que é que se alimentará a mente? De ideias, exactamente igual; a mente alimenta-se de ideias. Se se alimenta de ideias corruptas ou de pequenas ideias, ou muito de vez em quando lhe damos uma sandes de ideias, lógico, a mente apenas se poderá manter em pé; mas se todos os dias alimentássemos a mente e a tivéssemos bem nutrida e a curássemos quando está doente, teria outra robustez, teria outra potência, teria outra possibilidade.

Os orientais também ensinam que esta mente tem veículos imediatos; os veículos imediatos não seriam de nenhuma maneira a parte física, mas sim a parte energética. Os orientais ensinam que correm através do nosso corpo três energias que eles chamam Idâ, Pingalâ e Sushumnâ. Idâ e Pingalâ são forças positivas e negativas, masculinas e femininas; Sushumnâ é uma força vertical. Estas três energias, devidamente coordenadas, permitiriam a realização desses fenómenos parapsicológicos, ou seja, desse poder de Kriyâ-sakti que, para aqueles que fizeram os estudos no Longínquo Oriente ou para aqueles que os possuem de maneira natural, não têm nenhuma importância, como sucede numa velha parábola de Buda que vos vou contar.

Diz-se que Sidharta Gautama, o Buda – quando era muito jovem, quase um rapaz – tinha um mestre de sabedoria que, na verdade, não era de sabedoria, mas de poderes, e que realizava toda a espécie de fenómenos. Separou-se deste senhor que tinha desenvolvido os siddhis – em sânscrito «os poderes» – e foi fazer toda a sua peregrinação e a sua vida de santidade... Um bom dia, depois de muito tempo, Sidharta Gautama, o Buda, volta a encontrar-se com os seus velhos companheiros. Os companheiros dizem-lhe: «Sidharta, porque é que não continuaste com aquele velho mestre que podia ensinar-te os siddhis? Se tivesses continuado, agora cruzarias o Ganges caminhando sobre as águas.» Sidharta Gautama disse: «Tendo um barqueiro e uma moeda de cobre, para quê vos esforçais em cruzar o Ganges caminhando sobre as águas?»

Se retirarem a fantasia, se retirarem a impressão de: «Oh, caminha sobre as águas!» O que se ganha em caminhar sobre as águas a partir do momento em que se inventaram os barcos? O que é que se ganha em levantar-se do solo um metro, dois ou três, fazendo levitação, desde o momento, em que se inventaram os helicópteros? Nada! O que pode servir é para provar que a mente vence a matéria. O helicóptero também serve para provar que a mente vence a matéria, porque foi a mente quem o fez e quem o construiu. Os helicópteros não cresceram nas árvores, foram os homens quem os fizeram.

A nossa aplicação do poder da mente sobre a matéria deve dar-se não tanto para realizar fenómenos mais ou menos impressionantes, mas para realizar um fenómeno muito mais importante, meus queridos amigos, um fenómeno mais humanístico, mais pessoal. O poder da mente sobre a matéria deve utilizar-se para manejarmos a nós próprios, para não nos deixarmos arrastar pelas nossas paixões, para não choramingar as nossas doenças, para poder ter sentido de vontade, para realizar o que queremos fazer, para memorizar o que lemos, para recordar os bons amigos, para velar diante daqueles que nos querem fazer dano, para nos atrevermos a dar um passo para diante que nos melhore. Esse é o verdadeiro poder da mente sobre a matéria.

É óbvio que a matéria se defende com a sua inércia. Tratem de mover de repente um cubo de granito e verão de que maneira tem essa inércia. Se alguma vez tiverem empurrado um carro quando tem uma avaria num caminho, saberão bem que, quando se começa a empurrar, apenas se move ligeiramente. Agora quando tem um pouco de impulso empurra-se mais facilmente.

E isto é igual. O primeiro que há que fazer, para o domínio da mente sobre a matéria, é fazer duas listas básicas: o que gosto, o que não gosto. E todos os dias, tratar de não se entregar ao que, gosto e fazer ainda que seja uma pequena coisa do que não gosto. Se descubro em mim a gula e quero combatê-la, devo entender que não posso mudar de um dia para o outro. Devo tratar de, em lugar de comer dez sandes por dia, começar pouco a pouco e no primeiro dia comerei nove, e no seguinte oito e assim sucessivamente. Não dizer: «Abandono, deixo-o, de agora em diante a minha mente triunfará sobre a matéria.» Não, isso é estupidez, porque quem faz isso cai ao solo doente e depois tem que comer quinze sandes. Não, não, não.
Tem que ser pouco a pouco.

A matéria é inteligente, a matéria é muito inteligente, não acreditem que a matéria é bruta. Parece-vos que a matéria é bruta? De maneira nenhuma. A matéria sabe o que quer, sabe aonde vai, sabe de onde vem, tem a sua inteligência – antes chamavam-lhe diabolismo –, tem a sua espécie de inteligência elementar.

Se atacamos directamente os nossos defeitos, os nossos defeitos transformam-se e enganam-nos. Tem que ser pouco a pouco. Tão pouco proclamar: «Vou deixar de fumar agora mesmo, fora os cigarros, fora, fora, fora.» Não, essas são atitudes infantis e exteriores. Simplesmente em vez de fumar dois maços por dia, fumar um e meio, sem lhe dar mais importância. Tudo está segundo onde pusermos a mente.

 

"Se atacamos directamente os nossos defeitos, os nossos defeitos transformam-se e enganam-nos. Tem que ser pouco a pouco."



Tudo depende de onde pusermos a mente. Agora estou concentrado a falar para vocês, mas se eu vos esqueço, já não estão mais na minha mente. Ou seja, o fundamental é dirigir a mente, o poder da imaginação. A imaginação torna-se fantasia quando cria ideias circulares. Sabem como nascem as ideias? Muito simples. De onde nascem os cavalos? Pois de cavalos. E de onde nascem os pássaros? Pois de pássaros. As ideias na mente também nascem assim. Uma ideia encontra-se com outra ideia, simpatizam, casam-se e depois temos várias ideiazinhas. E isso acontece-nos a todos. Quando as ideias são negativas, junta-se uma ideia negativa com outra ideia mais negativa ainda e fazem uma família de ideias degeneradas. Então, temos que tratar de controlar essa vida íntima dentro de nós, tratar de dominar a nossa imaginação e a fixação da nossa imaginação, que não se torne numa fantasia como um polvo enlouquecido que nos arraste.

Temos então que fazer essas duas listas e ir individualmente tirando uma e outra. Depois, é óbvio que, aquele que está na Nova Acrópole será assessorado sobre isso nas matérias da escola de filosofia e aquele que não esteja, não improvise técnicas, mas trate sempre de recordar isso, de poder dominar aquilo que não gosta, de poder começar a não fazer tanto aquilo de que gosta.

Como diferenciar o que é próprio de nós e da alma, daquilo que se aderiu, que se pegou na alma? Muito simples. Aquilo que é próprio da alma é aquilo que dura muito, aquilo que não dura muito não é próprio da alma. Como saber se uma coisa é um capricho ou se realmente sentimos a necessidade de fazer algo – vamos supor, aprender a tocar violino –, se é um capricho o facto de eu agora querer tocar violino ou se realmente me faz falta para expressar o meu espírito, a minha alma, ou simplesmente é para me deleitar tocando o violino? Muito simples. Esperar seis meses. Ou seja, não correr por impulso, não correr por paixão: «Vamos ver! Onde há um violino? Vou comprar o violino! Onde está o professor de violino?» Porque nos encontramos assim geralmente. Compramos o violino, gastamos o dinheiro, vamos ao professor – ni, ni, ni – «ah! Não posso, não sirvo!» Outra coisa: «Quero pintar, quero pintar! Onde há pincéis?» E assim, corro como louco onde está uma coisa, onde está a outra. Começo mil coisas, não termino nenhuma.

Não, esperem, esperem um tempo. Seis meses, um ano. Se depois de seis meses ou um ano quiserem estudar violino é porque é algo mais profundo, não é superficial. Estes são métodos práticos para o domínio da mente e da matéria.

No Oriente, na parte dos ensinamentos búdicos, há uma parábola. Diz que, uma vez, havia um macaco sobre uma árvore e tinha muita fome este pobre macaco. Dizia: «Onde haverá uma banana para poder comer? Onde haverá?» E ia de liana em liana, de liana em liana, saltando, «onde haverá bananas, onde haverá?» E, de repente, encontra-se no meio de uma grande bananeira, vê enormes bananas por todos os lados. Colhe uma para comer, mas detrás há outra ainda maior; solta-a; vai colher a que está por trás e vê que ao lado há outra melhor; pega-a... Dizem que esse macaco por pouco morre de fome; porque pegando numa e largando a outra, soltando uma e tomando outra, nunca comia nada. Nisto ocorre exactamente o mesmo.

O que é que necessitamos primeiro para conhecer o poder da mente sobre a matéria, sobre a nossa própria matéria? Fazer algo continuado, fazer algo que tenha um fim; fazer algo. Não começar mil coisas e não terminar nenhuma; tratar de entender que todo o Universo vai até alguma parte. Já se interrogaram porque é que nas noites correm as estrelas? Já se interrogaram, nos campos, porque é que caminham esses grandes batalhões de formigas? Sei que há mil explicações. Dir-me-ão vocês que as estrelas se movem pela força centrífuga, centrípeta, etc., etc. Perfeito. E que as formigas estão a juntar elementos que lhes vão servir logo para a sua própria alimentação. Perfeito. Mas, porquê? Porquê esta ânsia de sobreviver em todas as coisas? Porquê esta ânsia de viver das estrelas, dos vermes; esta ânsia de viver das formigas, dos homens?

Porque todo o Universo anda para alguma parte. Porque toda a ideia, é como um ser vivo que trata não somente de viver, trata de não morrer e de se reproduzir. Daí que, para poder ter uma ideologia, necessitamos de ter basicamente ideias puras, sãs e fortes. O racismo físico é absurdo. Já se comprovou.

Mas um certo racismo mental é necessário, se por racismo, nesse sentido, entendermos uma selecção.

Porque é absurdo ver como todo o mundo aceita que a ganadaria de determinado senhor é melhor para os touros do que outra e ver como todo o mundo aceita que há cavalos de corrida que são melhores que outros porque vêm de tal pai e de tal mãe; mas não se aceita isso no plano das ideias.

No plano das ideias é exactamente igual; as boas ideias virão de um bom papá ideia e de uma boa mamã ideia, que terão sido educadas e de bom berço. Se nos carregamos com leituras que nos debilitam, com leituras que nos enchem de ódio; se nos carregamos com ideias que constantemente nos estejam a falar de lutas, que nos estejam a falar de destruição, que nos estejam a falar de violência, que nos estejam a falar de todo o mal e o amargo do mundo, obviamente ficamos amargurados e debilitados. Mas se nos aferramos em nos alimentar bem mentalmente, se podemos ter os nossos exercícios mentais de concentração da mente, de fixação da mente – ainda que sejam os simples exercícios de se fixar num triângulo, num ponto –, se tratamos de realizar exercícios diários da mente, de fazer essa selecção que vos disse para não nos entregarmos à luxúria mental, para não nos entregarmos à gula mental e ter um discernimento são, então a nossa mente poderá dominar a matéria.

O grande inimigo que temos, como homens pensantes, como Homo Sapiens, é precisamente o materialismo; o materialismo que nos faz ver as coisas como mera matéria, todas as coisas como pesadas, que tira o sentido transcendental, histórico e profundo aos símbolos, aos heróis, aos santos, àqueles que, de alguma forma, traçaram estelas na História e ajudaram o género humano. Com estes processos de desmitificação a única coisa que conseguimos é envilecer o nosso mundo mental. Devemos manter o nosso mundo mental descontaminado, mais ainda do que o nosso mundo físico. Ler bons poetas – por bons poetas não me refiro a boa técnica –, poetas que cantem à Natureza, ao Amor, ao Sol, à Lua; não poetas que cantem eternamente à luta, ao sacrifício de um e de outro, à morte, ao sangue que corre e que salpica e que esguicha, mas aos que tratam de se elevar por cima disso.

 

"O grande inimigo que temos, como homens pensantes, como Homo Sapiens, é precisamente o materialismo; o materialismo que nos faz ver as coisas como mera matéria, todas as coisas como pesadas, que tira o sentido transcendental, histórico e profundo aos símbolos, aos heróis, aos santos, àqueles que, de alguma forma, traçaram estelas na História e ajudaram o género humano."

 

Se vamos ver um filme de cinema; tratemos – dentro de toda a bazófia que nos atiram, porque parece que somos porcos nesse sentido – de ver algo, mesmo que seja só um filme de Walt Disney, de vez em quando, para limparmos um pouco; porque senão, que filmes vemos? Vemos um filme de um monstro que estrangula outro e o sangue que escorre e salpica por todas as partes. Nos jornais, mal os abrimos, o que lemos? Lemos: «Grande desastre em tal parte e em tal outra». «Grande onda de terrorismo». «Fulano matou sicrano, sicrano assassinou beltrano». «Inundação, gente afogada».

Ah, perfeito, temos que estar informados. Mas, o que posso eu fazer por aqueles que se afogam em Bombaim? O que ganho durante todo o dia em imaginar como se afogam, como estão com a linguazinha de fora quando caem à água? Isso não tem nenhum sentido. Isso corrompe-nos. Fazemos mais pela gente de Bombaim tratando de ler algo um pouco melhor, ter um pouco mais de altura, ler livros positivos, livros que nos ajudem.

Resumindo e para terminar, para ter esse domínio da mente sobre a matéria necessitamos conhecermos a nós próprios, coisa que através da Nova Acrópole vos propomos, conhecermos a nós próprios, o que temos de mal, o que temos de bem. Ou seja, que circunstâncias obram dentro de nós. Por isso, na Nova Acrópole ensina-se Psicologia, por isso ensinam-se, inclusivamente, exercícios práticos para que os jovens possam encontrar essa faceta dentro de si; saber o que lhes acontece, o que é que gostam, o que é que rejeitam, para com isso poderem fazer essas pequenas listas; ensinam-se exercícios de centralização da nossa mente para poder centralizá-la e fixá-la sobre objectivos limpos e que não estejam contaminados; promovem-se leituras superiores, assistência a conferências, reuniões com grupos de amigos que tenham conversas afins; inclusive, tratar de veranear, também, de vez em quando mentalmente e dizer: «Durante quinze dias não vou ler o jornal, durante quinze dias não vou ver televisão, durante quinze dias unicamente vou ler poesia ou vou ler o que me agrade ou vou dedicar-me ao meu hobby».

Isso é o que faz robustecer a nossa mente e o que faz, também, com que no dia em que todos tenhamos uma mente ainda que seja relativamente pura, relativamente forte, possamos plasmar em todas as estruturas, em todas as formas – quer sejam políticas, sociais, económicas, éticas, etc. – esta nova forma de ver as coisas, esta forma a que chamamos Acrópole porque a consideramos uma forma alta; Acro-polis, uma Cidade Alta, alta não fisicamente, mas alta mentalmente e espiritualmente.

Que cada um de nós encontre também a sua montanha interior e não só a sua montanha interior, mas essa passagem que se vá elevando até ao cume. Que cada um de nós conheça também a solidão, que conheça um pouco do frio interior; essa solidão e esse frio espiritual que nos faz tanta falta, febris como estamos nesta caminhada pelo mundo. Todos temos problemas, todos temos angústias, todos temos certos sentimentos que nos esmagam.

Necessitamos um pouco de paz; necessitamos um pouco de descanso; necessitamos não um pouco, mas muito de Fé. Fé em Deus! Fé em nós mesmos! Fé em que há algo mais que este mundo de carne! Fé em que, quando morrermos, iremos continuar vivos! Fé em que não é, talvez, a primeira vez que estamos na Terra!

 

Jorge A. Livraga Rizzi
Fundador da Nova Acrópole

 

Nota: Conferência proferida no dia 4 de Outubro de 1975 na sede da Nova Acrópole, Conde de Romanones 5, Madrid, Espanha.

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