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Será Possível a Possessão Diabólica?

possessao


- “Prof.” vi o Diabo!

É assim que me grita, com o terror marcado no rosto, um “cholo” amigo meu da costa central do Peru.

Não é uma criança, mas sim um homem com os seus 40 anos feitos, compleição excepcionalmente forte e expressão inteligente.

O seu contacto com turistas deu-lhe uma relativa cultura e até entende a fala, embora de uma forma simplista, 3 ou 4 idiomas. Não é cobarde nem supersticioso… simplesmente viu algo.








Conta de pallar

Representação de uma conta de pallar da cultura Mochica

E esse algo o aterrorizou o suficiente para fazer renascer nele crenças ancestrais; enquanto me fala, aperta nervosamente o colar de “pallares” (sementes que têm as cores vermelha e negra e que já se tinham por sagradas na época dos Mochicas há já 1.500 anos) e beijando a cruz, que tem na sua parte superior uma pedra-íman, invoca todos os santos e os seus bons actos. Crê que um caminho da Cordilheira da Costa se cruzou com ele o diabo; descreve-o como uma figura antropomórfica, pairando no meio de fogos multicores ao mesmo tempo que desprende um forte odor a enxofre. Afirma também que escutou um som, mas que não é como os que tinha ouvido até então e não o sabe descrever. Insiste que não tem medo (na realidade tem, mas não o quer reconhecer, pois instintivamente sabe que isso o debilitaria) e que o diabo não pode com ele. O encontro ter-se-ia efectuado a altas horas da noite e o meu amigo assegura que não estava bêbado…

Capa do famoso filme o Exorcista, que comoveu o mundo no anos de 1973



- “E se estivesse, com essa visão passava-me logo”.

Não é esta a única pessoa que conheço que afirma ter visto o diabo.

Outros dizem que foram possuídos pelo demónio que penetrou nos seus corpos.


É evidente que, aparte os exageros, lógicos em todos os estados de “Shock”, este impacto psicológico ocorreu realmente, pelo menos um 80 por cento dos casos que conheci de forma directa.

A primeira pergunta é: Existe o diabo, demónio, ou como se lhe queira chamar?

 

 

 

 

Os estudos de Fenomenologia Teológica, efectuados eclecticamente, quer dizer, não a partir de uma fé religiosa, mas a partir de uma reconhecida ignorância sobre o tema, apresentam uma contradição inicial. Se Aquele a quem chamamos Deus é absoluto, e portador de todos os poderes, é omnipresente e está em todas as coisas e lugares conhecido ou não pelo homem, a lógica impede-nos de conceber um “inimigo” de Deus irrecuperável e tão absoluto como Ele. Em nenhum sistema lógico podem coincidir dois ou mais absolutos.

A segunda objecção seria de carácter ético, pois sendo Deus Amor e Redenção, não pode haver alguém ou alguma coisa que escape das Suas características e poder. Não pode existir um “Absoluto mal” que limitaria forçosamente a Graça Divina e que estaria eternamente condenado. Pois, para sofrer um castigo absoluto e total, teria que haver pecado de maneira absoluta e total.

Simhavaktra Dakini

Certos teólogos cristãos afirmam que sim, que pode existir, pois se pecou contra Deus sendo este absoluto, a sua pena será da mesma natureza. Isto rebate-se com o mais simples dos exemplos: se um arpão fere uma baleia, a ferida não terá o tamanho do cetáceo mas sim do arpão. Assim, não poderia existir o pecado absoluto pois não dependeria do ferido mas sim daquele que fere.

Carta Lua Carta Roda da Fortuna Diabo

Carta de tarot egípcio alusiva à dualidade da luz e sombra, bem e mal, na natureza

Carta de tarot egípcia chamada a roda da fortuna, alusiva a alternância do bem e do mal nos ciclos da vida

Carta de tarot egípcio representando o Typhon, o Diabo ou o poder destrutivo da natureza necessário na economia e renovação da mesma

A Historia das Religiões mostra-nos que o conceito de um Mal oposto a um Bem dá-se unicamente nas crenças que personalizam Deus, atitude puramente anti-filosófica e ametafisica, fruto da imaginação humana. As dualidades registadas no Yang-Yin, Ormuz-Arimán, Brahma-Siva, Osíris-Seth, são só aspectos enquadrados numa manifestação temporal e, por isso, não afectam o Deus Supremo. São, melhor dizendo, mecanismos ou sistemas binários da Natureza, cuja complementação se realiza com ambos aspectos, como o dia e a noite, o macho e a fêmea, a juventude e a velhice. O luto estaria mais além do bem e do mal, por outro lado relativos ao que o homem entende por isso. O que é bom para uns, pode por mau para outros. Dai um copo de água ao sedento e ele vera como uma bênção e, em contrapartida, se verteis o liquido na boca de alguém que se esta afogando, ele o verá como uma maldição, um acto de puro mal.

Lucifer
Representação de lucifer como anjo caído na Catedral de Lieja, Bégica


É desta forma inegável que nas religiões pessoais, ou seja, naquelas que personalizam Deus, a imagem de um “inimigo” é necessária para a sua própria justificação teológica, pois se não existisse um diabo… um “tentador”… de que nos redimiria um Redentor?... E que sentido teria a sua própria existência como tal? É certo que em todas as religiões que conhecemos, antigas e modernas, dá-se sempre uma personalização do que poderíamos chamar “Presença Divina” e que esta é ajuda e sentimento profundo de Amor e Força que arranca as Almas do barro caótico da matéria, com base na sua Potencia Espiritual; no entanto, naquelas que guardaram um sentido mais esotérico e filosófico o Salvador não é Deus, mas apenas um intermediário que encarna a sua virtude. O mal seria apenas o menos bem, o passageiro e enganoso, mas não por vontade própria, e sim por natureza, da mesma maneira que uma superfície de agua reflecte a luz ou uma pedra solta que rola pela encosta abaixo de uma montanha. E essa natureza não estaria nem seria estranha aos chamados “Desígnios de Deus”.

O Esoterismo Tradicional nega a existência do diabo, afirmando a de Deus como um Absoluto e a dos deuses, heróis e santos como Seres mais “evoluídos” que o homem, que o ajudariam na sua marcha até à perfeição colectiva e individual.







Tratar de simplificar estas coisas dizendo que elas são um Mistério que um dia será revelado, faz-nos recordar esse simpático letreiro que algumas casas de comércio têm, que diz: “Hoje não se fia, amanha sim”. Como gracejo, passa, mas se tomarmos o assunto a sério e sem nos escusarmos aos infinitos enigmas e ao muito que ignoramos, pela mesma razão, não podemos dar credibilidade a um Deus e a um Anti-Deus. Estas afirmações peregrinas dos que crêem que para perceber a Divindade se tem de por de lado toda a razoabilidade, são as que produziram os milhões de ateus que hoje envergonham o Mundo… com as suas consequências negativas de materialismo, violência e desespero. Se Deus existe, tem de estar inclusive na Razão, pois nada o pode limitar.

Bodhistva

Bodhisattvas, heróis ou santos como intermediários entre a luz divina ou Deus e os homens

Tradições milenárias hindus relacionadas com o Yoga, dizem que há “caminhos” para perceber Deus. Um é a acção, outro a devoção, outro a mente e outro ainda a vontade. Estes “caminhos” seriam convergentes e quem percorre um deles, de alguma forma tem que ir percorrendo também os outros, ao chegar a certa altura espiritual.

Vampiro
Dakini ou vampiro, bebendo sangue, símbolo dos siddhi ou poderes psíquicos da alma human e também das cascas astrais



Sem nos alongarmos para não cansar o leitor, podemos deduzir que o chamado “diabo” pelo nosso amigo que citamos no principio do artigo, não era outra coisa senão um “elemental” ou “espírito da natureza” ou como se lhe queira chamar a essas criaturas que normalmente não se vêem mas que se sentem como presenças intangíveis ao nosso redor, sobretudo quando é noite e nos encontramos em lugares longínquos. É de presumir que a própria condição psicológica do bom “cholo” estava alterada nessa noite pela solidão, o aspecto do caminho escolhido, algum conto ouvido sobre aparições e, talvez, uns copitos a mais tomados em casa de amigos. Tudo isso facilitou a percepção de um elemental ou do que a iniciada H.P. Blavatsky chamava “cascarões astrais” dos defuntos recentes (o “duplo” dos antigos egípcios). A surpresa e o terror puseram o resto e moveram os seus pés de tal forma que o registo do fenómeno foi muito breve e incompleto.






William blake
Quadro de William Blake com a representação do diabo




As suas crenças religiosas um pouco infantis e a própria vaidade fizeram-no logo identificar a experiência parapsicologica com o diabo em pessoa, querendo atacá-lo a ele e sem o conseguir em virtude da protecção de Deus, da sua própria natureza forte e da sua segurança “de que não tinha feito mal a ninguém”… Embora eu não saiba, exactamente, que entenderá esse senhor por “fazer mal”, pois tudo é segundo as crenças das pessoas e os costumes dos povos.

O diabo não existe… embora o homem, com as suas maldades, às vezes o pareça.

 

Jorge Angel Livraga
Fundador da Org. Internacional Nova Acrópole

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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