O Prazer do Momento
Séculos depois da sua morte, Maria Antonieta Josefa Joana de Habsburgo-Lorena, arqui-duquesa da Áustria, mais conhecida como Maria Antonieta, rainha de França, volta a estar na moda; em parte graças à biografia escrita pela sua descendente Catarina de Habsburgo, e em parte graças ao magnífico filme de Sofia Coppola intitulado «Maria Antonieta». De uma ou outra forma, esta personagem, querida ou odiada, mas de nenhum modo ignorada, assoma-se de novo às páginas da História, deixando a descoberto a sua volúvel personalidade.
Viver o momento foi, durante os primeiros anos em França, ainda como delfina e depois como Rainha, a chave da sua vida. Uma vida de luxos e despreocupações, onde o dever e a responsabilidade não tinham espaço. Maria Antonieta preenchia as horas dos seus dias com jogos e diversões, movendo-se num círculo de gente superficial e aduladora, que não teve nenhum inconveniente em abandoná-la à sua sorte quando os ares já não eram favoráveis para a soberana. Criticada e difamada até ao indizível, Maria Antonieta foi vítima da sua própria irresponsabilidade, pois se bem que muitas foram as mentiras que se verteram sobre ela - «calúnia, calúnia, que algo fica» - o certo é que, com o seu proceder despreocupado, ela própria foi lavrando a terrível fama de esbanjadora e de femme fatale com a qual seria conhecida em toda a França e que seria, como tristemente se comprovaria mais tarde, a arma que utilizariam contra si aqueles que procuravam a sua destruição.
Tudo isto mudou com a chegada da maternidade. Os filhos trouxeram sossego e paz à sua vida agitada. A adolescente, a jovem, abriu caminho para a mulher. Mas, como muitas vezes aconteceu na vida de Maria Antonieta, já era demasiado tarde; esta calma foi só o prelúdio de uma grande tempestade chamada revolução. É paradoxal que, quando o espírito agitado da dama encontrava a calma, uma grande agitação sacudia toda a França.
Obrigados a deixar Versalhes, os reis de França e os seus filhos foram instalados no palácio do Templo, em Paris, onde os seus movimentos podiam ser vigiados e controlados vinte e quatro horas por dia. E é aqui onde Maria Antonieta desperta, por fim, para a verdadeira vida, permitindo-nos descobrir uma mulher valente, cheia de força e vontade que, diante das indecisões contínuas do rei, seu marido, tomará as rédeas do governo. A rainha despachava, redigia cartas, ditava resoluções… sem desfalecer, apesar do cansaço e da difícil situação em que viviam, com a sua vida e a da família ameaçada de morte. Foi graças ao seu engenho e encanto inatos que os desgraçados prisioneiros obtiveram alguns favores que permitiram melhorar a sua triste clausura. Maria Antonieta demorou demasiado tempo para descobrir o verdadeiro significado daquilo que supostamente devia ser a rainha de França e quando o fez, o destino já estava marcado e seguia o seu curso cruel e inexoravelmente.
"(...) a História deixou-nos um triste exemplo das consequências fatais que traz consigo o prazer absoluto e cego (...)"
Possuída por esta nova força, que já não a abandonaria até à sua morte, Maria Antonieta, juntamente com o conde Alex de Fersen, o único homem que realmente amou na sua vida, projectaram a fuga. Tristemente, somaram-se demasiados erros para fazerem fracassar o projecto e a família, localizada perto da fronteira, foi devolvida de novo a Paris, onde a vigilância foi aumentada. Realizar uma nova tentativa era praticamente impossível.
Por medo a possíveis fugas, a família real foi trasladada para as Tulherias, onde seriam separados. O rei por um lado, a rainha e os seus filhos por outro. A separação definitiva não tardaria em chegar e, à tristeza de se saber viúva, Maria Antonieta teve que somar uma tristeza ainda maior, cruel e amarga: a separação para sempre do seu filho, o pequeno delfim.
Maria Antonieta aguardou, com infinita paciência e resignação, o momento da sua morte, que não tardou em chegar. Sem decair nem oferecer o tosco espectáculo que as massas, ávidas, esperavam encontrar, envelhecida e cansada, mas digna, enfrentou os julgamentos saindo airosa de quantas acusações, infames umas, absurdas outras, esgrimiram contra si. Sem provas, porque nada se podia provar, a rainha foi condenada à morte, como ela já bem sabia e esperava. A sentença cumpriu-se no dia 16 de Outubro de 1793.
Através da vida deste formosa mulher, a História deixou-nos um triste exemplo das consequências fatais que traz consigo o prazer absoluto e cego, o viver somente o momento, negando qualquer outra realidade que não seja a do presente. Combinar, equilibradamente, a responsabilidade com a diversão, o dever com o prazer, costuma ser uma boa forma de assegurar o êxito; pois desse equilíbrio nascerá outro mais interno que nos ajudará a iluminar todos os passos da nossa vida.
Carmen Morales