O Que é o Medo
O medo é uma interrupção súbita do processo de racionalização. O que nos sucede em primeiro lugar, quando sentimos medo, é perdermos a capacidade de racionalizar uma qualquer situação. Mas é necessário isto quando não sabemos o que está a suceder? Geralmente, quando algo sucede, geramos um preconceito, pensamos uma espécie de fantasia mental, muitas vezes sem saber exactamente o que está a acontecer. Esta fantasia pode acarretar consequências muito graves. Se estamos numa situação de perigo e sucede algo que desconhecemos, é melhor não pensar.
É fácil observar como numa situação de perigo muitas pessoas fazem justamente o que não deveriam fazer. Porquê? Porque pensam sem saber o que está a acontecer. Se alguém vai no carro, entra numa curva com excesso de velocidade e pensa, a primeira coisa que faz é travar. É justamente aí que causa a sua desgraça, pois é aí onde reside o perigo: travar bruscamente numa curva indo a alta velocidade. O medo tem a capacidade de evitar que façamos algo mentalmente. Cria uma situação de bloqueio para qualquer processo mental.
O medo, como sensação, é uma paragem súbita de todos os processos de motivação e de racionalização. Quando sentimos o impacto do medo é como se algo caísse, ficamos sem fôlego, sem motivação para fazer coisas. Esse é o segundo fenómeno que o medo produz e também, se o observamos, é uma interrupção súbita. Quando sucedem coisas, a tendência é criar ou uma depressão traumática ou uma euforia. Há pessoas que ante situações comuns reagem com euforia, e há outras que se abandonam totalmente; são processos relacionados com a motivação do indivíduo, e em qualquer situação de risco ou de perigo, tanto a euforia como a depressão traumática são negativas.
O que causa problemas em situações de risco é a temeridade ou o abandono. É curioso observar como, quando as pessoas estão presas pelo medo, acabam por fazer exactamente o contrário do que deveriam fazer.
"O medo é uma força natural. Não é o meu medo ou o seu medo, é o medo. Existe de forma independente das pessoas; há algo em nós, e também fora de nós que se chama medo, e que tem uma função na natureza, como o Sol, a Lua, a água, a terra ou qualquer elemento. O medo faz parte da natureza e tem como função proteger, por incrível que pareça"
Estas atitudes distam completamente do chamado “instinto de sobrevivência”. Nestas situações, as pessoas querem fugir e por isso acabam por fazer disparates. Pelo contrário, as pessoas que assumem o medo conscientemente acabam por fazer as coisas acertadas. A maior causa de acidentes e de mortes é o comportamento que temos ante o medo e não o medo em si.
O medo-percepção e o medo-sensação são uma inibição-bloqueio de todas as funções fisiológicas. Quando surge, o medo detém os processos de racionalização, de motivação e puramente fisiológicos. Ficamos sem condições para fazer nada por um instante; nem pensar, nem sentir, nem actuar.
O medo paralisa, inibe. Detemo-nos antes de cair no precipício. No início, essa paragem súbita é boa porque no fundo há um risco, e até que saibamos em que consiste é melhor ficarmos quietos.
Desde este ponto de vista, o medo é uma força que tem como objectivo evitar perigos de qualquer natureza, e funciona como um sinal que interrompe qualquer acção imprudente. Em termos concretos e objectivos, o medo é isso, o que não tem nada a ver com as reacções sucedidas ante ele, que, no nosso caso, por razões culturais, não são naturais. A nossa cultura não só nos preparou para enfrentar o medo, mas além disso, ensinou-nos a ter medo do medo, e por isso reagimos mal. Num processo cultural diferente, nós encararíamos o medo de uma forma diferente e teríamos reacções naturais. Essas reacções naturais trabalham a favor do instinto de sobrevivência, tanto do corpo como da mente. Há reacções instantâneas de reflexos condicionados, e consideramos que são naturais. Mas se é condicionado, não é plenamente natural. O natural ante o medo é ter as nossas reações independentemente dos nossos preconceitos, observar a situação detalhadamente para saber o que está a acontecer e não querer fugir dela.
Nas artes marciais, à medida que vamos treinando através dos anos, acabamos a reagir de uma forma lógica ou natural perante situações de ataque. Se alguém grita quando nos vai atacar, o grito é um sinal de ataque. Porque ante o grito teria eu que levar a cabeça para trás? Quem treinou artes marciais, em vez de ir para trás, primeiro vê de onde veio o grito, que tipo de grito é, o que se pode prever em relação a essa atitude e, uma vez que sabe o que está a suceder, actua. Isso é natural.
Os reflexos naturais próprios do corpo não nos fazem fugir perante situações de perigo, mas levam-nos à adaptação. Estamos mal acostumados. Fomos educados numa cultura que não nos ensina a lidar com o medo, e sim, pelo contrário, a temê-lo. O medo pode utilizar-se como elemento de manipulação para subjugar, escravizar e dominar as pessoas. O facto é que acabamos tendo medo do medo e, então, para não o sentir pagamos qualquer preço. Esse é o ponto mais complexo em relação ao medo. O medo não é mau; má é a reacção que geramos ante ele, porque não fomos educados de forma correcta para encará-lo.
Conclusão
O medo é uma força natural. Não é o meu medo ou o seu medo, é o medo. Existe de forma independente das pessoas; há algo em nós, e também fora de nós que se chama medo, e que tem uma função na natureza, como o Sol, a Lua, a água, a terra ou qualquer elemento. O medo faz parte da natureza e tem como função proteger, por incrível que pareça.
Michel Echenique Isasa