As raízes profundas da violência
A paz é algo a que todo o ser humano aspira. No entanto, nos dias de hoje, parece que cada vez mais a paz é uma miragem. Se olharmos para o mundo em nosso redor, vemos como a violência se espalha por muitos cantos do mundo. Mas não é algo que esteja distante de nós. Não é necessário muito esforço para constatarmos a sua presença nas ruas que calcorreamos, nos estabelecimentos de ensino ou nas empresas que frequentamos e mesmo nos nossos lares familiares.
Se a violência está mais presente na sociedade moderna vale a pena perguntar: qual a razão de toda esta violência? Qual a sua causa? É possível acabar com ela? Nas próximas linhas iremos analisar estes pontos.
O que é a violência?
Em primeiro lugar convém sabermos o que é a violência. Etimologicamente a palavra vem do latim violentia, que se encontra relacionada com os termos vis (força, vigor, potência) e violare (profanar, transgredir), e cujo significado está relacionado com força em acção, força física ou potência. Deste modo podemos interpretar violentia como uma força direcionada para a transgressão ou destruição de uma ordem dada ou natural.
Assim, podemos relacionar a violência com três pontos: o rigor das forças da natureza, a ferocidade dos animais e o arrebatamento humano.
Se observarmos a natureza em nosso redor constatamos que ocorrem muitos fenómenos climáticos extremamente poderosos e, do ponto de vista humano, bastante violentos. É o caso dos furacões, terramotos, maremotos, erupções vulcânicas ou até mesmo a aridez dos desertos. Porém, para a natureza estes fenómenos não são nefastos, pois tratam-se de uma série de movimentos que permitem a terra evoluir. Podemos tentar compreender a situação deste modo: imaginemos que passamos a mão pelo nosso cabelo para o arranjar. Para cada um de nós não há nada de especial neste acto, mas se estivéssemos na pele de uma célula do cabelo ou do couro cabeludo será que poderíamos dizer o mesmo? A verdade é que a passagem da mão pelo cabelo, do ponto de vista das células, deve ter o mesmo impacto que para nós tem um furacão quando passa pela terra. E, no entanto, não fizemos nada a não ser ajeitar algo que estava desarranjado.
Assim, talvez se compreenda melhor quando afirmamos que a violência, na natureza, é algo de positivo para a evolução da mesma.
Observemos agora o reino animal. Constatamos que a violência também marca a sua presença no mortal jogo entre predadores e presas. Quando vemos um leão a matar um búfalo, um crocodilo a atacar um gnu ou um tubarão branco a arremeter contra uma foca ficamos impressionados com o modo como o fazem, pois do ponto de vista humano as acções são brutais. Porém, para os animais não é assim. De facto, tanto o leão, como o crocodilo ou o tubarão branco têm que se alimentar para sobreviverem. A natureza fez com que eles somente sobrevivessem com a ingestão de carne e dotou-os com os meios necessários para conseguirem atingir o seu objectivo. Vejamos um exemplo: o tubarão branco quando caça no mar alto costuma estar a vários metros de profundidade, observando a zona perto da superfície. Assim que vê a silhueta de uma foca ele arremete com toda a velocidade, surgindo das profundezas, embatendo contra a foca como um torpedo.
Este súbito impacto faz com que a foca fique completamente atordoada, ficando ao alcance das presas do tubarão. Depois de morta a vítima o tubarão branco começa a desfazer o cadáver abanando-o lateralmente com movimentos bruscos, espalhando sangue pela água em seu redor. Isto gera a imagem de um animal extremamente violento, mas a visão não é totalmente verdadeira. O tubarão branco não tem membros que o ajudem a prender o alimento e depois arrancar pedaços. Ele despedaça a sua presa utilizando somente a sua boca e os seus dentes em forma de serra, pelo que tem que executar esse movimento lateral de forma a permitir que os dentes serrem a carne que ele irá ingerir seguidamente.
Existe um outro aspecto a ter em conta e que é o facto de os animais capturados pelos predadores serem os mais débeis, idosos ou doentes das espécies caçadas. Aqui podemos dar o exemplo dos lobos. Quando uma matilha destes animais empreende a caça às renas eles perseguem a manada durante quilómetros até que uma delas, a mais fraca ou debilitada, se canse e fique afastada do grupo, onde estaria protegida. Nesse momento o animal isolado é atacado e capturado. Aqueles que conseguiram sobreviver são os mais aptos e irão transmitir os seus genes para as gerações futuras. Sendo assim, constatamos que a violência no mundo animal funciona como um mecanismo de selecção dos mais aptos, tanto em termos de presas como em termos de predadores, pois se um evolui para fugir o outro tem que evoluir para conseguir apanhar.
Vejamos, agora, o fenómeno na esfera humana. Aqui a violência manifesta-se sob várias formas:
fanatismos, ódios, racismo, tirania, etc. Ao contrário dos animais que se regem por instintos, o Homem possui faculdades superiores, que lhe permitem ter outras potencialidades. A evolução do ser humano é feita através da selecção de experiências pelas quais ele passa em diversos momentos da sua vida. De facto, não é por ter vivido 70 anos que uma pessoa é mais sábia do que outra bastante mais nova. Se esse indivíduo passou grande parte da sua vida sem tomar nenhum tipo de decisão; se fugiu aos desafios quotidianos; se não utilizou as suas faculdades, como o discernimento, para escolher o melhor caminho; se não soube controlar as suas emoções e amar alguém; se, enfim, não viveu a vida, não se pode dizer que ele tenha amadurecido. Por outro lado, um jovem de 20 anos que tenha enfrentado dificuldades, que tenha sabido superá-las utilizando as suas várias capacidades como a perseverança, a fortaleza ou a inteligência, que tenha empregue o discernimento para determinar um rumo na sua vida e registou todas essas experiências na sua consciência, então podemos afirmar que, em termos de evolução humana, este jovem é muito mais maduro do que a pessoa idosa.
Sendo assim a violência, quando se manifesta no ser humano, já não pode ser encarada como um factor de evolução, muito pelo contrário, é algo que o transporta para um estádio inferior, mais bestial ou pré-humano.
Quando o Homem se deixa dominar pela violência perde as capacidades de discernimento, de imaginação, de criação que são próprios da natureza humana. Estas são as “ferramentas” com as quais ele interage com o mundo em seu redor, com a sociedade em que vive e com os outros, enfim, são os elementos que lhe permitem procurar Felicidade, mas não aquela que procura a satisfação nos bens materiais, mas sim aquela que se encontra na dedicação aos outros e em tornar o mundo um lugar melhor para se viver.
Causas da violência
Tendo analisado o que é a violência, podemos partir agora em busca das suas causas. Uma delas domina grande parte do panorama actual das sociedades: o medo. A sua presença é constante nas diversas etapas de desenvolvimento do ser humano.
O medo em si não é algo mau. Parafraseando o professor Jorge Angel Livraga: «O medo é um estado psicológico da alma e também um mecanismo instintivo natural que promove a elevação das defesas.»(1) O medo possibilitou aos homens uma série de progressos, pois foi devido ao medo dos mares que os barcos foram construídos, o medo aos animais fez com que ele fabricasse armas para se defender e o temor às intempéries fê-lo construir abrigos.
Como mecanismo de defesa o medo faz com que todos os nossos sentidos fiquem alerta. Quando sentimos perigo há um impasse que se gera, uma paralisia. O corpo bombeia o sangue para as zonas que poderão ser necessárias para a sobrevivência, como os braços para lutar ou as pernas para correr. O processo racional também é interrompido, pois ele não é necessário se não sabemos o que está a acontecer. Num momento de perigo eminente o necessário é observar. Somente depois de determinada a causa do perigo e de saber de onde vem é que se deve agir.
Porém, hoje em dia cai-se no exagero e o medo invade o coração do Homem em demasiadas situações.
Quando assim é ele torna-se violento e facilita a sua própria destruição. Aquele que tem medo procura esconder o facto mostrando uma atitude agressiva para com os outros, aparentando uma força que realmente não tem. Uma pessoa assim não cria laços de amor e de amizade, pois tem medo de ser magoada pelos outros; uma pessoa assim não estende a mão ao próximo com medo de ser explorada; uma pessoa assim não emite os seus pontos de vista com medo de que os outros os rejeitem ou os achem ridículos.
O medo é incutido no ser humano, nos dias de hoje, desde as idades mais precoces. Quando as crianças se comportam mal são ameaçadas com o Papão que aparecerá e as levará para longe dos pais. Na adolescência aparece o medo de falhar perante as expectativas dos progenitores ou, então, o temor em confrontar os mesmos com os seus anseios e necessidades pessoais. Na juventude existe a incerteza em relação ao futuro, a insegurança perante sucesso ou não no âmbito da carreira profissional. Na idade adulta confronta-se com a pressão manipuladora da sociedade de consumo que cria medos nas pessoas, como o facto de se ser um «zé-ninguém» se não se tiver um telemóvel de última geração ou um grande carro. Por último, quando se entra na fase da velhice surge o medo à morte. Esta presença constante do medo gera uma grande tensão interior que faz com que as almas das pessoas se tornem vis e descarreguem as suas frustrações nos mais fracos, agredindo-os quer fisicamente, quer psicologicamente. Contamos um exemplo: imaginem um campeão mundial de boxe. Ele tem sido o melhor do mundo durante bastante tempo e adora a fama e a riqueza. Um dia, no ginásio onde treina, o seu treinador traz um jovem que começa a demonstrar ter um talento fora do vulgar. Muitos começam a vaticinar que este novato poderá ser o futuro campeão do mundo. Sentindo a ameaça o mais experiente lutador procura desmotivar o rival acicatando-o, insultando-o e enxovalhando-o, dizendo que ele não presta. O jovem, por respeito com o campeão nada faz, procurando antes de tudo trabalhar seriamente. Porém, o campeão não desiste e continua a procurar oportunidades para impedir o jovem de se treinar convenientemente e de desenvolver totalmente o seu potencial, submetendo-o a tal pressão que este acaba por sair do ginásio. Imaginemos agora que o treinador fica a par do ocorrido e decide pô-los a lutar um contra o outro para se saber quem é o melhor.
"(...)Na actualidade o ser humano não tem conhecimento da sua verdadeira natureza. Conhece-se e dá-se importância à parte física, conhece-se alguma coisa da parte psicológica e quase não se dá importância à parte espiritual. (...)"
O medo tinha feito o campeão procurar afastar o jovem atleta do seu caminho numa altura em que o próprio não conhecia totalmente o seu talento, ou seja, numa altura em que ele ainda se julgava inferior. Porém, imaginemos que o treinador tinha falado com ele previamente ao combate e lhe tinha convencido de que ele realmente era alguém extremamente talentoso. Agora a pessoa que se apresentava perante o campeão já não era um jovem ingénuo e inconsciente, mas alguém plenamente consciente das suas potencialidades. O medo que já existia no primeiro iria alastrar-se no seu interior fazendo com que ele se sentisse encurralado, e nesta situação ele reagirá como um animal quando sente que não tem possibilidade de fuga: ataca desesperadamente e com grande ferocidade. Porém, a violência que ele carrega dentro de si será a sua perdição, pois ela faz com que ele não lute concentrado, pois encontrar-se-á emocionalmente desequilibrado. Ele atacará como um touro quando vê o pano vermelho do toureiro, cheio de fúria e a todo o momento, mas desgastando rapidamente a sua energia permitindo, deste modo, que o outro o derrote quase sem fazer grandes esforços. A violência gerada pelo medo consumirá a própria pessoa que a gerou.
Outro dos factores geradores de comportamentos violentos é a ignorância.
Podemos dividir a ignorância em duas vertentes: a ignorância em relação aos componentes do próprio Homem e a ignorância em relação ao sentido da vida.
Na actualidade o ser humano não tem conhecimento da sua verdadeira natureza. Conhece-se e dá-se importância à parte física, conhece-se alguma coisa da parte psicológica e quase não se dá importância à parte espiritual.
Desde que o ser humano é criança há uma grande preocupação em cuidar do físico em andar bem penteado, vestido, cheiroso, etc. Mas com a parte psicológica os cuidados já não são os mesmos. Neste nível, onde englobamos as vertentes emocional e mental, não há o mesmo afinco em «pentear» ou «vestir» bem as emoções ou os pensamentos. O ser humano ignora grande parte do seu mundo interior e não sabe que muita da violência que ele gera provém de áreas internas que não foram bem trabalhadas. Os nossos pensamentos são o que geram as nossas acções, mas se esses pensamentos estiverem carregados de violência, é óbvio que as nossas acções irão reflectir isso. Mas isso é totalmente ignorado e não há a preocupação de cultivar bons pensamentos. O homem, desde criança, é obrigado a conviver com a violência que vê na televisão, nos vizinhos e até na sua própria família. Estes elementos ficam impregnados na sua mente e os pensamentos que o percorrem são violentos: imagina-se um herói dos filmes de acção que dispara grandes metralhadoras, ou um lutador que consegue derrotar vinte homens, revê na sua mente as imagens das guerras em países próximos e de discussões familiares. Tudo isto fica gravado no seu mundo interior e é cultivado, porque ele não conhece outra realidade. A ignorância em relação a outro caminho, a outros exemplos, faz com que quando a criança se torne adulta expresse nas acções as maneiras violentas com as quais cresceu.
A ignorância em relação ao sentido da vida também contribui para a violência. Tendo a sua mente totalmente virada para a parte material e ignorando a componente espiritual, para o ser humano a vida é um feliz acaso e tudo o que nela ocorre acontece por pura casualidade. Assim sendo ele não chega a perceber porque é que umas pessoas são ricas e outras não, porque é que uns indivíduos são saudáveis e outros não, porque é que uns morrem cedo e outros não. Para o Homem moderno a dor e o sofrimento são aleatórios e ele procura fugir deles desesperadamente. Não conhecendo a sua natureza espiritual e transcendente ele não percebe a grande força que existe no seu interior e que lhe permite superar qualquer dor e sofrimento que a vida lhe possa infligir. Sem possuir esse conhecimento ele angustia-se quando não tem dinheiro, sofre quando os seres queridos partem deste mundo ou quando tem desilusões amorosas, amargura-se quando não consegue alcançar o estatuto e o conforto material que tinha projectado atingir num determinado momento da sua vida.
"(...) Afirmam as doutrinas antigas indianas que existe uma lei que rege o equilíbrio do Universo: a lei do Karma. (...)
É precisamente no conforto material, na busca de prazeres, na riqueza e no poder que o Homem moderno procura o sentido da vida, quando ela está precisamente no lado oposto, no mundo espiritual. A ânsia de querer satisfazer todos os desejos criados faz com que ele procure os meios necessários para os atingir, tornando-se egoísta. Ele vai, por todos os meios, tentar preservar os bens e o estatuto conquistados e se pressente que esse mundo que ele criou é ameaçado reage com violência. Por vezes, devido a circunstâncias do destino, a vida idílica que este indivíduo tinha conseguido pode desaparecer por debaixo dos seus pés. Sem entender o sentido do acontecido ele mergulha no álcool e na droga, como modo de afastar a amargura e violenta-se a si mesmo e aos outros. Ele procurará culpar a vida pela situação, não compreendendo que ele próprio poderá ter tido implicações naquilo que aconteceu.
Afirmam as doutrinas antigas indianas que existe uma lei que rege o equilíbrio do Universo: a lei do Karma.
Quando alguém produz acções que causam sofrimento aos demais, ele próprio acabará por receber esse mesmo sofrimento, pois cada acção gerará sempre uma reacção.
Logo, tudo o que acontece ao Homem é fruto daquilo que ele fez no passado: acções más gerarão consequências más; acções boas gerarão consequências boas. Quem tem conhecimento desta lei entende que tudo de mau que acontece com ele tem a ver com o pagamento da dívida kármica e que isso é bom, pois a pessoa fica livre desse peso. Quem, no entanto, é ignorante em relação a esta lei da natureza, liberta a frustração de não saber o que está a acontecer com pensamentos, palavras e actos violentos.
O fanatismo é outro foco gerador de violência no mundo de hoje. Ele marca a sua presença a nível político e religioso, contaminando um grande grupo de pessoas. Como é que podemos caracterizar a pessoa fanática? Acima de tudo, é dominada por paixões. O fanático tem uma ideia que lhe é apresentada e que ele aceita sem reflectir no seu conteúdo, defendendo-a com unhas e dentes, não aceitando qualquer discussão sobre o assunto. Ele é intolerante, rejeita liminarmente qualquer outro modo de ser e de pensar, apregoa a sua ideia de forma espalhafatosa, não sabendo escutar os outros nem dando espaço para o diálogo.
O fanatismo é o que promove muitas das guerras e conflitos que existem no mundo moderno. Por exemplo, pelo facto de alguém ser muçulmano obriga a que ele não possa conviver com os judeus, se alguém for chinês não poderá aceitar a convivência com os tibetanos, se for rico não se poderá dar com os pobres, etc.
Esta intolerância cria barreiras que não permitem o convívio salutar entre as pessoas, fazendo com que estas não percebam que, no fim de contas, todos são humanos e partilham o mesmo caminho evolutivo e as mesmas ambições de paz e felicidade.
Soluções para lidar com a violência
Segundo um ensinamento budista, todos nós temos sementes de paz e sementes de violência no nosso interior. Muitas vezes optámos por regar as sementes da violência, porque são as mais fáceis de cultivar e é necessário menos esforço. Pelo contrário, semear a paz requer esforço e empenho, pois é necessário abdicar do egoísmo, do comodismo e da preguiça de modo a empreender uma acção continuada no sentido de desenvolver virtudes como a coragem e a compreensão.
A coragem é necessária para se poder enfrentar os medos. O homem corajoso não é aquele que não tem medo, mas sim aquele que convive com o medo mas sabe dialogar com ele. Ao contrário do cobarde que tem até temor de sentir o medo, o homem corajoso procura entender o medo, conhecer os seus mecanismos psicológicos e físicos para que, deste modo, o possa controlar. A coragem não deve confundida com temeridade, pois esta é mais um excesso, um impulso que torna as pessoas descuidas em relação aos avisos que o medo envia. Uma pessoa temerária lança-se para os perigos sem pensar nem analisar devidamente o cenário. É uma forma de inconsciência.
A coragem, porém, é um acto consciente e foi com ela nos seus corações que os homens empreenderam a construção das pirâmides, que sulcaram os mares misteriosos em busca de novas terras e atravessaram o espaço para atingir a lua.
O homem corajoso sabe interpretar os avisos e com isso sabe que posição tomar perante as situações que lhe vão surgindo na vida. Ele aprende a ser cauteloso, mas a ir em frente, trilhando o caminho com um passo firme e seguro, sem vacilar.
A compreensão permite ao Homem tentar entender-se e entender os outros. Praticar a compreensão é importante para quebrar as barreiras que existem entre os indivíduos. Aquele que procura compreender empreende uma busca e essa busca permite-lhe conhecer outros horizontes, outras perspectivas que poderão ser um factor de harmonização interna que se reflectirá numa recta conduta externa.
A compreensão exige uma postura activa quer no entendimento do que se passa dentro de cada um dos indivíduos, quer no entendimento da realidade que é posta em frente de cada pessoa.
Quando sofre por determinados motivos ou quando falha em atingir alguns objectivos, o ser humano, em muitas ocasiões, sucumbe à amargura e à depressão. A compreensão faz com que ele possa entender onde falhou e aceite o seu fracasso como algo de natural na sua vida. Imaginemos um bebé que quer começar a andar. Ele não consegue fazê-lo à primeira tentativa, nem à segunda, nem à terceira. Para que se consiga equilibrar e dar um passo é necessário um esforço constante e mesmo quando já consegue se equilibrar sozinho e caminhar ainda dá algumas quedas.
Com o Homem, na vida, acontece o mesmo, muitas vezes ele «cai», mas é porque ainda não sabe «andar» perfeitamente. Há que aceitar isso e seguir em frente. Tendo este entendimento as amarguras e angústias passam mais rapidamente.
Tudo o que foi referido atrás pode ser ensinado, e a educação desempenha aqui um papel fundamental. A palavra educação provém de educire, termo latino que refere a ideia de puxar ou extrair. Tomando isso como ponto de referência, educar não seria introduzir uma série de conhecimentos nas pessoas, mas antes, extrair o conhecimento que as mesmas já possuem no seu interior.
O filósofo grego Sócrates afirmava que ninguém tinha o poder de educar as outras pessoas porque todo o ser humano dentro de si sabe, necessitando de certas condições para trazer essa sabedoria à superfície. De facto, esse misterioso filósofo considerava-se o «parteiro de ideias» pois do mesmo modo como a parteira extrai o bebé de dentro da mãe, também ele extraía o conhecimento do interior das pessoas com quem dialogava. O método utilizado era a realização de uma série de perguntas específicas que conduziam o indivíduo interrogado até ao âmago de si mesmo, atingindo, assim, a sua sabedoria.
Segundo Michel Echenique: «Educação é um modo inteligente de fazer com que as pessoas se conheçam. Implica formação de carácter, uma pessoa entra no processo de educação temperamentalmente e sai desse processo com um carácter formado para lidar com esse temperamento, ou seja, consegue estruturar uma série de elementos e ferramentas próprias que lhe permitem dominar as suas paixões, os seus instintos, os seus apegos (…)»(2)
Se a educação consegue prover o Homem de ferramentas para lidar com as paixões, instintos e vários outros factores psicológicos ele tem que saber utilizá-las e «educar» as suas partes mais negativas.
Quando a violência se manifesta isso quer dizer que há algo no interior do ser humano que não foi educado, sendo necessário voltar a um processo de interiorização para poder detectar a falha. A educação faz com que o indivíduo ganhe uma autonomia e que consiga chegar ao poder interno que todo o ser humano tem em si. É a conquista do centro, muito bem retratada no mito de Teseu e do Minotauro, onde o herói grego entra no famoso labirinto do rei Minos para enfrentar o monstro, meio homem meio touro, que devorava os jovens atenienses. É no centro do labirinto que os dois se enfrentam e é aí que o Minotauro perece.
Este confronto com o monstro é o símbolo da nossa luta contra os defeitos que carregamos em nós. A educação promove as virtudes e vai eliminando os defeitos, fazendo com que eles percam a sua influência. Com a luz das virtudes presente na consciência humana, a violência deixará de ter terreno para plantar as suas sementes e o Homem tornar-se-á livre da sua influência.
Cleto Saldanha
Bibliografia
(1) Livraga, Jorge Angel; Pequenos Segredos para Engrandecer a Vida, Edições Nova Acrópole, Porto, 1994.
(2) Isasa, Michel Echenique; As Raízes Profundas da Violência, Edições Nova Acrópole do Brasil, Belo Horizonte, 2000.