Recordações e Reminiscência
O tema que vamos tratar é duplo, mas não contraditório, já que ao falar tanto de recordação como de reminiscência, falaremos de uma das condições próprias da consciência humana: a memória. Assim, enfocaremos dois tipos de memória: recordação e reminiscência. Não podemos conformar-nos dizendo simplesmente memória; devemos especificar uma forma talvez mais concreta, mais corrente e quotidiana, que é a recordação; e outra mais subtil, mais diluída e difícil de precisar que é a reminiscência. Uma e outra são memória. Afinal, o que para uns é uma faculdade maravilhosa e uma autêntica bênção, para outros é algo diferente, e para os filósofos é, talvez, o mais desafiante com o que conta um homem. A memória abarca um âmbito muito complexo já que a encontramos no nosso mundo emocional, no nosso mundo mental e, inclusive, nas alturas do nosso mundo espiritual.
«Uma forma talvez mais concreta, mais corrente e quotidiana, que é a recordação; e outra mais subtil, mais diluída e difícil de precisar que é a reminiscência.»
Geralmente, referimo-nos à memória como um aspecto da consciência humana que tem quatro funções: receber, reter e, num dado momento, reconhecer e recordar. Destas quatro funções a que mais nos importa é a última: a recordação, que é trazer do passado uma ideia, um facto, uma experiência, um sentimento ou, em geral, algo que já vivemos; plantamo-lo novamente no presente e reconhecêmo-lo como nosso, ou seja, como algo que nos aconteceu.
Entretanto, apesar do interesse que desperta em nós este processo de recordar, não devemos esquecer a enorme importância que têm as três funções prévias à recordação e, sobretudo, as de receber e reter; essas funções que se realizam quase inconscientemente, mas que revelam a capacidade de discernimento que o homem deveria desenvolver paulatinamente. Deveríamos perguntar-nos sobre o que recebemos e retemos: se é tudo o que surge ou aquilo que anteriormente decidimos que vamos assimilar porque assim nos convém ou porque nos é benéfico.
Recordação é a capacidade que temos de atrair à consciência presente algo que estava no passado, algo que, de repente, se revela claro e nítido e volta a viver-se de novo. É como se a recordação nos apresentasse a possibilidade de viver muitas vezes um mesmo acontecimento, mas sem necessidade de repetir a circunstância, porque é essa a função psicológica que nos permite refazer o cenário.
Perguntemos agora quem recolheu essas experiências e as trouxe ao presente. Ou dito de outra maneira, que parte de nós teve a possibilidade de captar experiências antes, mantê-las, e no momento necessário, voltar a convertê-las num acontecimento atual. É interessante que possamos encontrar respostas para essas questões. Vejamos algumas.
«É como se a recordação nos apresentasse a possibilidade de viver muitas vezes um mesmo acontecimento, mas sem necessidade de repetir a circunstância.»
Para a filosofia tradicional - que não descarta a psicologia - o homem, ainda que seja uma unidade funcional, não é um único elemento, não é unicamente um corpo. Em linhas gerais, o homem é composto por uma personalidade material, uma máscara, uma cobertura, uma casca que nos permite aparecer ante o mundo: é o corpo e as emoções e a mente racional; e de outra parte espiritual, onde a matéria já não interfere, onde os seus elementos constitutivos são altamente subtis, e onde poderíamos situar uma mentalidade completamente desprovida de egoísmos, uma mente pura para a qual a razão, como diria Kant, é uma intuição capaz de captar as coisas com a rapidez do raio, e uma imensa vontade que nos permite ser e não simplesmente estar vivos.
Assim, para esta filosofia tradicional, há dois aspectos humanos que são: a persona, o material; e outro elemento superior que é o indivíduo, o que não divide, o único, o espiritual, o que permanece.
O nosso corpo físico tem memória, e muita; em psicologia denominamos hábito este tipo de memória. Temos que admirar a facilidade como aprendemos, como fixamos e como nos desenvolvemos. De modo que a nossa parte mais densa já trabalha com uma certa forma de memória.
Costuma-se falar de memória psicológica propriamente dita quando nos referimos a outro aspecto: a capacidade de recordar emoções, sentimentos, racionamentos, ideias e, em geral, tudo aquilo que está relacionado com nosso mundo psicológico superior. Aqui passamos do mundo da memória de hábitos, a uma memória um pouco subtil. E, paradoxalmente, descobrimos que a memória, quanto mais baixa e pesada, mais forte e segura é. Por vezes podemos recuperar as nossas emoções, mas frequentemente, elas diluem-se; às vezes, podemos trazer ideias ao momento actual, mas, outras vezes, é-nos muito difícil fazê-lo. Não temos a segurança e a força do hábito.
E a memória torna-se, todavia mais débil e dilui-se mais ainda quando entramos no terreno espiritual, dentro do indivíduo, desse ser indivisível. Ali, as recordações são cada vez mais confusas; temos experiências, mas não podemos precisá-las. A este tipo de memória, Platão e muitos outros filósofos, anteriores e posteriores, chamaram-lhe "reminiscência". Não é uma recordação, não tem a força nem o peso do hábito, não tem a clareza de um sentimento, uma emoção ou uma ideia que podemos atualizar, existe, mas é como uma nuvem que, ao querermos surpreendê-la, nos escapa.
Memória do corpo, memória do espírito.
«Por vezes podemos recuperar as nossas emoções, mas frequentemente, elas diluem-se; às vezes, podemos trazer ideias ao momento actual, mas, outras vezes, é-nos muito difícil fazê-lo.»
Dessa maneira, denominaremos memória à actualização consciente de todas as experiências que pertencem à nossa persona ou máscara e chamaremos reminiscência a essa atualização de todas as experiências que pertencem ao nosso eu superior. O foco, a atenção e a claridade de recordações estão no corporal, no psicológico e no mental. O que se dilui está no espiritual. Claras são as recordações e tênue é a reminiscência.
Mas não são estas as únicas diferenças que há entre recordação e reminiscência.
Um fator importantíssimo é o tempo, porque matéria e espírito não são iguais no tempo, não vivem desde o mesmo momento nem até o mesmo momento. Portanto, surge a pergunta sobre quando recolhemos estas experiências. Mas não podemos responder a essa pergunta se não tivermos em conta, ainda que brevemente, a doutrina da reencarnação. Se para este tema não importa a doutrina da reencarnação em si, com seu porquê, os seus prós e os seus contras, importa considerar que há algo que permanece e algo que reencarna: um espírito que está sempre presente e uns corpos que se desgastam e que se vão assumindo como se fossem vestidos, segundo as diferentes necessidades do espírito. O espírito é contínuo, não existindo para o tempo, mas somente para a eternidade. E esse espírito está, às vezes, sobre a Terra, com o corpo, e outras vezes não está na Terra e não precisa de um corpo; gasta um corpo e toma outro. O importante não é a indumentária, mas aquilo que veste. Algo semelhante nos ocorre do ponto de vista físico: o importante não é a roupa que usamos, mas o que está dentro da roupa. O importante é o interno, o essencial.
Se o corpo é a última roupagem que o espírito assumiu, este corpo, com a psique e a mente racional que o acompanham, tem uma memória muito fresca porque pertence à última encarnação, a esta vida; todas as experiências que recolheu são de agora, destes últimos anos que viveu. Ainda que se fale de experiências novas e frescas, não se pode esquecer que a memória do corpo traz consigo toda a força do instinto da espécie, o estado evolutivo geral da humanidade, que também o ajuda; e traz, além do mais, a própria evolução de cada ser humano, porque cada qual recolhe experiências segundo seu estado, assimila-as, guarda-as e recorda-as.
«E a memória torna-se, todavia mais débil e dilui-se mais ainda quando entramos no terreno espiritual, dentro do indivíduo, desse ser indivisível.»
Em linhas gerais, a personalidade é jovem, ainda que tenha sessenta ou oitenta anos, relacionada com a eternidade, é um tempo curto.
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