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REFLEXÕES SOBRE A NATUREZA DO MAL                        

De um modo, talvez simples, podemos considerar dois tipos de mal: um que depende do homem e que se poderia evitar e outro que não depende da sua vontade.

Muito do que consideramos mal resulta da nossa compreensão limitada e antropocêntrica, quando não ainda mais limitada, egocêntrica, achando cada um que tudo gira em função de si, o que não nos permite entender nem a causa, nem tão pouco a verdadeira finalidade dos acontecimentos, como por exemplo o caso das catástrofes naturais. Quanto mais utilizarmos a nossa inteligência para compreender a natureza e nos ajustarmos à sua dinâmica de vida, menos sofreremos desses “males”, por outro lado, mantendo-nos cegos à verdadeira compreensão da vida e obstinados em querer adequar tudo aos nossos interesses inevitavelmente sofreremos desses “males” que para a vida no seu todo são um bem, inclusive ao próprio homem levando-o a caminhar num verdadeiro progresso sustentado da civilização.

O outro tipo de mal é o que o homem cria pelos seus vícios, orgulho, egoísmo… todos os seus excessos. Mas o mal que daí advém acabará por ser aquele que o levará também ao bem, pois o mal traz infelicidade, já que sinceramente não creio que alguém seja feliz no mal, desde o medo de perder o que foi ganho ilicitamente, de poder também ele poder ser burlado, sofrer vingança, e tantos outros tormentos que não o deixam ser feliz e se a felicidade é uma condição da natureza humana, então a infelicidade que encontrará no mal o impulsionará na direcção dos valores do bem e na medida em que deles se vai aproximando vai encontrando a felicidade e mais vontade vai tendo de ir ao seu encontro.

Consideramos o bem aquilo que nos proporciona prazer e bem-estar e mal o que nos produz dor e mal-estar. Será que este axioma que tanto fundamenta o nosso olhar perante os acontecimentos da vida é uma verdade? Bastam uns minutos de reflexão para percebermos que não o é. Um exemplo simples é de alguém guloso que come três tabletes de chocolate seguidas, deliciando-se de prazer e que depois sofre diarreias, cólicas, etc. Onde está aqui o bem e o mal? O mal no excesso de chocolate e o bem nas reacções do organismo que têm como finalidade restabelecer o equilíbrio do organismo.

Muitas das coisas que consideramos um mal, muitas daquelas coisas que nos vêm da vida, não o são realmente, pois todo o propósito da vida é transmutar-nos, tornar-nos mais inteligentes, mais luminosos, mais felizes… e nesse caso o que nos causa o sofrimento, o sentimento de mal, é exclusivamente a nossa ignorância, a nossa capacidade de olhar claramente e compreender o propósito e sentido das coisas.

Muita da raiz do mal no ser humano está no facto de possuirmos uma dupla natureza: por um lado animal ou instintiva e por outro verdadeiramente humana, inteligente ou espiritual. Nem uma nem outra são más em si. O instinto impele os seres de forma espontânea e involuntária à sua conservação, é desprovido de reflexão, de premeditação. A inteligência por seu lado revela-se em actos voluntários, reflectidos, premeditados.

Poderíamos dizer de um modo simples que o acto instintivo é mecânico e o acto inteligente o que possui reflexão, associação, deliberação. No puro instinto de um animal não podemos considerar que exista mal mas apenas uma resposta “mecânica” da natureza. Na inteligência pura também não haveria mal, pois mesmo errando este constituiria um meio de maior aproximação à verdade, levaria a um maior grau de conhecimento e discernimento, já que o mal não é o erro mas a permanência neste. Então se no instinto não existe mal e na inteligência também não, então onde ele nasce? Precisamente na combinação de ambos, quando a inteligência vai ficando sujeita às forças instintivas e tornando-se perversa.

O ser humano tem tudo para poder ser feliz, o que lhe faz falta é uma filosofia de vida, uma arte de viver, é ela que faz toda a diferença. É como se entregássemos tintas, pincéis e telas a 2 pessoas, uma que tem a arte de saber utilizar estes materiais e outra que não a tem. O primeiro será feliz a manipulá-los e produzirá uma obra de arte, o segundo vai-se irritar com uma série de injúrias do género “porque me deram estas tralhas?!” quando poderia aproveitar as circunstâncias para aprender a pintar. Este último é o homem que está sempre a reclamar da vida… perdendo as oportunidades que lhe são dadas.

O modo como olhamos muitas das situações faz delas um mal ou um bem. Como a história sobejamente conhecida da garrafa a meio, que pode ser vista como meio vazia ou meio cheia. Se a perspectiva da vida é de “meio cheia” achamo-nos ricos da vida, se “meio vazia” acharemos a nossa vida a mais pobre das pobres. Onde fixamos o nosso pensamento assim ele o amplia e dinamiza.

Poderemos dizer que o mal faz parte da natureza humana? Não, o que existe é um vazio pronto a encher-se de conhecimento, experiência, etc. e quando nos distraímos, quando adormecemos, ele vai-se enchendo de pensamentos e sentimentos distorcidos que se vão instalando. Deveríamos pois ser bons guardiões vigilantes dessa sala de tesouro para que se encha de riquezas e não de detritos e teias de aranha que aos poucos vão cobrindo as riquezas já aí existentes e tomando espaço.

Não vamos negar a existência do mal, dos problemas, das adversidades, elas existem mas também existe uma enorme quantidade de coisas boas, fortes, luminosas em cada um de nós que permitem assimilar, transformar e dissipar as más. Transformar o mal em bem não é uma tarefa fácil, sem dúvida, e se não estamos bem fortalecidos e clarificados é melhor termos cautela com os contactos que estabelecemos.
Talvez que muito do esforço que por vezes empreendemos para destruir o mal, uma tarefa deveras impossível, deveríamos canalizá-lo para nos fortalecermos de modo a que o mal não se possa instalar.

Queremos ser capazes de destruir todos os vírus, tarefa impossível, quando o que temos que fazer é fortalecer-nos e harmonizar-nos de modo que eles não encontrem um terreno fértil em nós. Essa é a razão pela qual muitas vezes as pessoas não se curam, querem exterminar a doença sem exterminar a sua causa, é como querer acabar com os mosquitos sem acabar com o pântano onde vivem.

Sabemos que o que é um mal para uns não o é para outros, e porquê? Porque uns já conseguiram converter essas situações, no entanto outras que não tenham conseguido lhes chamarão um mal. Este processo que todos nós podemos constatar deveria servir-nos como lição para entendermos que o problema não reside no “mal” mas na nossa capacidade de lidar com ele, de o converter. Julgamos o mal de acordo com as nossas fraquezas e imperfeições. Como nos diz um pensamento de Buda, se não tivermos feridas na mão podemos mergulhá-la sem problema no veneno.

Talvez que a pior forma de lidar com o mal seja como um inimigo, deviamos antes vê-lo como uma base sobre a qual podemos crescer e caminhar. Tal como as rochas salientes que permitem escalar as montanhas, pois não conseguiríamos escalar uma montanha lisa.

Quando estamos no meio do problema acabamos por nos identificar com ele,  ingerímo-lo em quantidades exageradas, venenosas, então ele torna-se um mal. Mas após a sua passagem, quando já conseguimos um distanciamento, e o tomamos em pequenas doses ele torna-se um antídoto, e fortalece-nos. Quando não o conseguimos assimilar, compreender a experiência, ele continua a envenenar-nos. Um veneno em pequenas doses pode ser um medicamento, tal como o mal, mas quando permanecemos nele então torna-se um veneno.

Sempre se associou o bem à luz e o mal à sombra, e esta é uma imagem sobre a qual deveríamos reflectir, pois a sombra verdadeiramente não existe, apenas existe a luz presente ou ausente, a sombra é somente a ausência da luz. É muito fácil percebermos isto estando à noite numa sala com uma pequena luz, embora a noite seja bem maior do que essa luz que vai sair pela janela, é ela que vai dissipar, por pouco que seja, a escuridão da rua. O mal não tem existência igual à do bem, o mal é dependente do bem, tal como a obscuridade depende da luz mas a luz não depende da obscuridade. O mal é onde a luz ainda não chegou. Dar uma real existência ao mal, não o permite transformar, mas se não conhecemos o bem, a luz, não podemos enfrentar o mal.

As manifestações do mal são necessárias mas não são eternas nem absolutas, dependem das forças do bem, tal como as sombras num objecto permitem-no distinguir e conhecer mas elas existem porque existe a luz.

Quanto mais conscientes e harmónicos vamos estando, mais capacidade de colocar luz na sombra, mais capazes de transformar. Se há uma luta contra o mal essa deve ser a de nos tornarmos mais fortes e esclarecidos de modo a melhor entender a natureza das coisas e consequentemente a melhor agirmos. Sendo a melhor altura para nos fortalecermos não quando surge a adversidade mas sim antes, pois a melhor medicina é a preventiva.

Tal como mostravam os chineses no seu símbolo do yin e yang (tai-chi tsun), no yin encontra-se a raiz do yang e vice-versa. Também no que muitas vezes denominamos de mal podemos encontrar a raiz do bem e no “bem” a raiz do mal, não será por acaso que se diz que onde está a maior virtude de um homem aí se encontra o seu maior defeito e que grandes vilões se converteram em santos. No alimento, que evidentemente consideramos um bem, encontram-se elementos impuros que o nosso organismo seleciona e expele. A natureza tem todos os processos de conversão dos detritos e o homem tem-no também. O mal é o resíduo do bem.

Só a sabedoria é capaz de utilizar o bem e o mal. Sob a capa do mal está muitas vezes um amigo que tratamos como inimigo porque nos incomoda, perturba-nos, como no mito grego de Psique em que Vénus (curiosamente a deusa do amor) lhe dá duras provas para vencer, tal como as tentações da bruxa má (ou não) da história da Branca de Neve. Consideramos hostis as forças do mal porque tudo que não nos seja conveniente o consideramos hostil. Quem não considera um obstáculo hostil? Mas será que o é mesmo? Na verdade, o que não sabemos dominar, utilizar, o consideramos hostil.

Não adianta suplicarmos para que se extinga o mal, mas sim sermos capazes de ganhar sabedoria e discernimento para o entender, assimilar e converter.

O bem no coração dos homens é o amor, aquele que une, e o mal e o ódio, a separatividade. Por isso o 1 é o símbolo do bem e o 2 símbolo do mal, da separatividade e multiplicidade. De algum modo temo em nós esse impulso para a unidade, da qual partimos e à qual queremos chegar, mas a queremos recuperar somando mais e mais partes, daí a avidez, mas a unidade está por detrás de todas as coisas e não na soma de todas elas, como na parábola oriental em que cegos tentam conhecer um elefante tocando cada uma das partes, o que toca a pata diz que um elefante é como uma coluna, o que toca o ventre diz que é como um barril, o que toca as orelhas que é como uma grande abano, o que toca a tromba que é como uma corda, mesmo que juntássemos todas essas visões parciais continuaríamos a não saber o que é um elefante, só a visão da unidade, do que é o elefante, nos poderá dar esse conhecimento. Este é o grande engano do mal, diriam as religiões que é o jogo do diabo (ou qualquer outro nome) que na verdade nos faz procurar fora e não no coração da vida. A decepção e angústia, encontram-se sempre nas conquistas exteriores, no mundo interior encontra-se a durabilidade e o aperfeiçoamento.

Diz-se que é mais fácil fazer o mal do que o bem, mas isso não é verdade, as condições criadas pela humanidade é que são propícias a ele e não porque seja mais forte. É como se o bem estivesse inerte e colocá-lo em movimento exigisse esforço.

Existe um Bem para além do bem e mal que podemos ver, do Jogo de Dioscuros de que fala Platão. Tal como o sangue, podendo ser venoso ou arterial, cumprindo ora uma ou outra função de acordo com a circunstância necessária, existe por detrás a “realidade” sangue. Quando observamos os factos desde o nível em que eles se produzem enganamo-nos, apenas observamos os fenómenos sem entender o impulso, necessidade e finalidade que se encontra detrás.

A parábola do Filho Pródigo ajuda-nos a compreender muito do que é o mal no caminho da vida, a necessidade de experiência, de desintegração para voltar a integrar-se. É o processo alquímico de dissolução para eliminação dos elementos impuros e poder voltar a restruturar-se de modo mais puro e íntegro. No mundo de aparências dizemos que a obscuridade é a morte mas é a raiz da vida.

É importante olharmos a vida um pouco fora do nosso ego, entender que o mal não sendo subjectivo, pois tem a sua realidade, é no entanto relativo e essa é a nossa quota-parte individual de relação com o mal, aquela com a qual temos de trabalhar, a que o transforma, o torna de algum modo útil, nos fortalece, dá-nos conhecimento, discernimento e luz. Não se trata de uma apologia do mal mas sim entender que deve ser transitório e impulso ao crescimento, sempre que a consciência esteja presente.

José Ramos

Bibliografia:
- “Respostas à questão do mal” de Omraam Mikhaël Aïvanhov
- “A Génese” de Allan Kardec
- “A origem do mal” de H. P. Blavatsky

 

 

 

 

 
 
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