A Roda da Vida de Elisabeth Kübler-Ross
O Testemunho da psiquiatra que confortou milhões de pessoas no final da vida
Há, entre a família humana, almas tão grandes que mesmo que nós queiramos negar a força do Espírito, só exemplos como estes fazem-nos acreditar que anjos descem à Terra para nos mostrarem que somos crianças assustadas frente ao infinito potencial que os mistérios da vida e da morte nos reservam. Quando falamos de Elisabeth, ao contrário daquilo que as pessoas costumavam dizer que ela era, a Senhora da Morte, falaremos antes do seu poder de criar energia de vida, que como orvalho, derramava sobre as feridas daqueles que sofriam os flagelos das suas falsas esperanças de felicidade. Esta mulher foi um anjo da compaixão. Possuía aquela força interior que nos faz acreditar no poder do amor.
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Elisabeth e as suas irmãs - 1934 |
Elisabeth nasceu em Zurique, na Suíça, a 8 de Julho de 1926. Era aparentemente um ser humano frágil, pois nasceu trigémea e pesava apenas um quilo, o médico que a viu nascer dizia que parecia um ratinho. Para Elizabeth, ser uma trigémea era um pesadelo, pois não possuía identidade independente das suas irmãs. Dizia que passara toda a sua infância a tentar descobrir quem era e que só já adulta compreendeu que, afinal, tinha sido abençoada: “Aquelas circunstâncias foram as que eu escolhera para mim própria antes de entrar no mundo, e foram elas que me deram o carácter, a determinação e a estamina para todo o trabalho que tinha pela frente.” (1)
Vamos então recordar a sua vida, uma aventura que culminou com uma obra que revolucionou o mundo: “On Death and Dying". (2) É indescritível o número de provas que ela superou e por as ter superado revelou-se uma “mulher-coragem” ao serviço do amor. Como psiquiatra fez um trabalho pioneiro de pesquisa e acompanhamento de crianças com doenças terminais, com doentes com SIDA e com idosos. Aos 71 anos, quando enfrentava a sua própria morte escreveu “A Roda da Vida”, obra biográfica e última tarefa desta alma-borboleta prestes a romper o seu casulo.
“Quando acabamos de fazer todo o trabalho que nos foi destinado na Terra, é-nos permitido livrarmo-nos do nosso corpo, que aprisiona a nossa alma, tal como um casulo encerra a futura borboleta.
E, quando chega a altura, podemos abandoná-lo e libertar-nos da dor, dos medos e das preocupações – livres como maravilhosas borboletas, regressando a casa, para Deus…”
De uma carta de Elisabeth Kübler-Ross para uma criança com cancro.
A sua vida
Esta Dama-coragem de palmo-e-meio nunca perdeu a determinação de ir ao encontro do serviço aos outros. Na sua juventude passou a prova da guerra e abdicou da sua segurança para ir ao encontro dos mais necessitados, pondo assim a sua própria vida em perigo. A maternidade foi também uma prova de sobrevivência extrema.
O seu amado companheiro não aguentou a pressão da sua infinita disponibilidade para todas as solicitações que a levavam para longe do lar e, se bem que o seu marido pedisse o divórcio, nunca, dizia ela, se tinha divorciado do ser que ela amava. O chamamento da dor fazia-a deslocar-se de forma ininterrupta.
Depois de muitas lutas para conseguir subsidiar o Centro para crianças com SIDA (Shantinilaya, que significa “O Lar Final da Paz”), no qual se empenhou de corpo e alma, deparou-se com a incompreensão dos aldeões vizinhos que viram nesta obra o fantasma do perigo e da contaminação. Incendiaram o Centro e no dia seguinte, após ter visto desaparecer todos os seus poucos bens pessoais (cadernos de notas, entrevistas, fotografias e alguns objectos de recordação afectiva) decidiu recomeçar tudo de novo sem hesitação.
"Foi um anjo num corpo de mulher ou uma mulher que se metamorfoseou em anjo?"
Passou por várias sentenças de morte com tromboses que a deixaram no fim da sua vida praticamente imobilizada, mas nem isso a fez parar. Conheceu num outro plano Aqueles que insuflavam nela estas forças sobre-humanas, e mesmo que nunca tivesse tido contacto com nenhuma religião ou culto tornou-se discípula dos seus mensageiros. Pois “quando o discípulo está pronto o mestre aparece”, e assim cumpriu o caminho de espinhos que percorrem todas as grandes almas na prova da iniciação. Conheceu o outro lado e aprendeu a libertar a sua consciência do corpo, não para ter experiências transcendentais mas porque aconteceu com a naturalidade daqueles que se atrevem a ir para além da dor.
Viu a luz que está por detrás das sombras passageiras e deixou para trás a incerteza e o medo. A mão dos seres de luz seguram a sua e por fim soltou as asas e regressou a casa.
Foi um anjo num corpo de mulher ou uma mulher que se metamorfoseou em anjo?
Recolha de frases e extractos da vida e obra de Elisabeth Kübler-Ross (3)
“O único facto indiscutível acerca do meu trabalho é a importância da vida. Digo sempre que a morte pode ser uma das maiores experiências de todas, se viverem bem cada dia da vossa vida, não terão nada a recear.”
“A adversidade apenas te torna mais forte.”
“A Vida é como ir à escola, dá-vos muitas lições. Quanto mais se aprende mais difíceis as aulas se tornam. Quando aprendes as tuas lições a dor vai-se embora.”
“Se protegessem as montanhas das tempestades, nunca veriam a beleza das suas cicatrizes.”
“Dentro de cada um de nós existe um potencial para o bem que está para além da nossa imaginação, para a dádiva que não espera recompensa, para escutar sem fazer juízo, para amar incondicionalmente.”
“Enquanto passo deste mundo para o próximo, sei que o céu ou o inferno é determinado pela forma como as pessoas vivem as suas vidas no presente. A única finalidade da vida é o crescimento. A lição final é aprender a amar e ser amado incondicionalmente. Há milhões de pessoas sobre a Terra a morrer de fome. Há milhões sem casa. Há milhões com SIDA. Há milhões de pessoas que foram abusadas. Há milhões de pessoas que se debatem com incapacidades. Todos os dias mais alguém grita por compreensão e compaixão. Oiçam o som.
Oiçam o chamamento como se fosse uma linda melodia. Posso garantir-vos que as melhores recompensas em todas as vossas vidas vieram do facto de abrirem o vosso coração àqueles que precisam. As maiores bênçãos vêm sempre da ajuda prestada.
Acredito sinceramente que a minha verdade é universal – acima de todas as religiões, economias, raças e cores – e partilhada pela experiência comum da vida.
Todas as pessoas provêm da mesma fonte e regressam à mesma fonte
(…)
Não podem curar o mundo sem se curarem primeiro.”
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Françoise Terseur
Agosto de 2011
Notas:
(1) Elisabeth K. R. in “A Roda da Vida”
(3)Extraídas do seu livro “A Roda da Vida”