Sakura: vida e morte para o Samurai
No Japão a vida sempre pareceu ser um elemento ténue, que a qualquer momento poderia ser cessada. As constantes tempestades que fustigavam as costas deste país pareciam querer alertar os seus habitantes da fragilidade da vida, que num breve momento se poderia desvanecer.
Para a classe guerreira japonesa, os samurai, a vida só tinha sentido se eles tivessem consciência da morte como algo de natural e inevitável. Este ponto tinha tal importância que o próprio Código de Honra do Samurai, de Taïra Shigésuké, inicia desta forma:
A primeira preocupação de quem pretende tornar-se guerreiro é ter a morte sempre presente no seu espírito, dia e noite, desde a manhã do primeiro dia do ano até à noite do Ano Novo.
Quanto mais continuadamente a morte estiver presente no teu espírito tanto mais hás-de viver de acordo com as normas de honestidade e da dedicação filial. Evitarás assim uma miríade de moléstias e calamidades. |
Se, para qualquer ser humano, a vida era efémera e frágil, para um guerreiro ainda o era mais, pois a qualquer momento a morte lhe poderia aparecer à frente quando, por exemplo, fosse convocado para a guerra ou, em tempos de paz, no confronto com outro guerreiro.
Devido a isto o samurai deveria ter a noção de que o seu tempo era valioso e que não o devia desperdiçar coisas fúteis e superficiais. Consequentemente, ele não deveria frequentar sítios de má reputação, mesmo tendo sido convidado, pois correria o risco de se envolver em situações lastimáveis; abusar da comida e do álcool, que poderiam originar problemas de saúde e alteração do espírito, tornando-o inútil para o serviço, ou causando mesmo a morte; ou não ser prudente com as palavras e os actos, podendo ofender alguém e, como consequência, provocar desacatos resultando em conflitos ou mortes desnecessárias. Tudo isto exigia do guerreiro a máxima atenção para não se descuidar pois, como refere Taïra Shigésuké, “Faças o que fizeres, sempre que te esqueces da morte e ficas distraído, perdes toda a prudência perante os acontecimentos”.
Porém, ao ter bem presente na sua mente que a vida que desfruta poderia deixar de existir no dia seguinte, o samurai não só iria dar atenção ao desempenho das suas funções, sociais e familiares, outorgando-lhes a máxima atenção e o rigor necessário, como também iria desenvolver uma sensibilidade para poder apreciar a beleza que a vida apresenta.
Assim, em relação ao primeiro caso, sempre que o seu senhor lhe transmitisse uma instrução ela seria cumprida o mais brevemente possível, e se os pais necessitassem de atenção, o guerreiro não se furtaria apresentando como escusa outros afazeres importantes, mas procuraria atendê-los imediatamente. Agindo desta forma, o samurai vivia de acordo com as normas de lealdade (serviço ao seu senhor) e de amor filial (dedicação aos pais), duas das virtudes mais importantes para ele.
Relativamente ao segundo caso, a aceitação da morte como fazendo parte da vida e algo do qual não se podia escapar, fazia com que o samurai desenvolvesse, fruto da educação rigorosa que tinha, uma capacidade para apreciar plenamente os momentos de paz e o seu presente. Podemos constatar a expressão disso nesta frase do príncipe Shirakawa:
Ainda que eles vos surpreendam furtivamente em vosso leito, enquanto velais no silêncio da noite, não os afugenteis, mas acariciai-os: o perfume das flores, o retinir dos sinos ao longe, o zumbido de um insecto na noite fria. |
Esta sensibilidade para desfrutar a vida fez com que os samurai desenvolvessem um âmbito cultural extremamente refinado e elegante promovendo elementos como o ikebana, a arte dos arranjos florais; os haiku e os tanka, poemas de três e cinco versos respectivamente; a caligrafia, a cerimónia do chá, entre outras coisas mais.
Porém, existiam perigos que poderiam surgir naqueles que fossem mais descurados e dessem demasiada importância aos prazeres do mundo, esquecendo-se da sua impermanência. Vejamos, mais uma vez, as palavras retiradas do Código de Honra do Samurai:
Se estiveres convicto que a tua permanência neste mundo vai durar muito, apresentar-se-ão ao teu espírito apetites de toda a ordem, e tornar-te-ás presa desses mesmos apetites. Invejarás o que é dos outros, serás cioso daquilo que possuis e exibirás um carácter egoísta. |
Um guerreiro assim, dominado por vários apetites seria um incómodo para o seu senhor e os seus companheiros, tendo tudo surgido como consequência do esquecimento da morte e pensamento de que a vida seria longa.
A meditação na morte deveria ser constante, mas não de forma a impedir o desempenho das suas funções quotidianas, pois caso falhassem no cumprimento das suas tarefas públicas e privadas iriam negligenciar o dever, coisa que seria inadmissível.
No entanto, nos momentos em que as tarefas estivessem todas cumpridas e o seu espírito estivesse desocupado, o samurai deveria pensar na morte e mantê-la como sua amiga íntima. Isto porque um guerreiro tinha que saber como morrer. Podemos dizer que toda a ética contida no código do samurai é uma preparação para a morte. Atentemos às palavras de Taïra Shigésuké:
A primeira preocupação de um guerreiro, seja qual for a sua classe, é a maneira como vai enfrentar a morte. Por mais eloquente e inteligente que possas parecer, se perderes todo o sangue frio no momento da morte, passando desta para melhor de uma forma indecorosa, terá sido vã a tua conduta passada, e serás desprezado pela pessoas de bem. É uma coisa muito ignóbil. |
Fugir da morte, mendigar pela vida, lamuriar-se e chorar no momento em que estivesse para ser morto eram comportamentos indignos de um samurai, seria a demonstração de que conduta ética não chegou verdadeiramente a ser vivida nem assimilada. Calmo, sereno, dominador das diversas dimensões do seu ser (física, psíquica e espiritual), sem medo da morte após ter pensado várias vezes no seu sentido e na sua natureza, o samurai tornava-se senhor da morte, pois era a ele que cabia escolher quando e como morrer: em combate ou através do ritual de suicídio (seppuku) para salvar a sua honra ou a do seu senhor.
No Código de Honra do Samurai aparece descrita a forma como um guerreiro deveria encarar a morte no caso de perder um combate:
(…) se tiver o azar de perder um combate, quando o seu adversário está em vias de lhe cortar a cabeça e lhe pergunta o nome, identifica-se com clareza e estende a cabeça a sorrir, sem hesitar. |
Era neste momento que o samurai sintetizava tudo o que tinha aprendido e vivido, era neste momento que ele atingia a sua plenitude enquanto guerreiro.
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Samurai a realizar seppuku. |
Quanto ao seppuku ele também tinha como propósito protestar contra alguma injustiça e neste ritual o samurai demonstrava a sua coragem, o seu auto-domínio, sabendo suportar a dor bem como demonstrar serenidade perante a morte. Este ritual não consistia somente e suicidar-se, sendo antes uma cerimónia que tinha vários procedimentos. O samurai começava por banhar-se para purificar o seu corpo e a sua alma. De seguida vestia uma vestimenta específica para o seppuku que era totalmente branca, seguindo-se dois goles de sake (1) terminando por escrever um poema de despedida. Após ter terminado ajoelhava-se, pegava no seu punhal e cravava-o na barriga, do seu lado esquerdo movimentando-o até ao lado direito. Como consequência as víscera ficavam expostas, tendo como objectivo mostrar a sua pureza de carácter. Finalmente devia puxar a lâmina para cima de modo a formar um corte em cruz. Este ritual era extremamente doloroso e era na sua execução que o samurai demonstrava todo o auto-controlo e auto-disciplina que tinha cultivado.
A essência da vida do samurai encontra-se no simbolismo da flor de cerejeira (sakura). A sua floração ainda hoje é um dos momentos mais importantes para os japoneses e constitui um espectáculo de grande beleza.
Nessa altura são celebradas importantes cerimónias religiosas, algumas delas remontando ao séc. VIII. A flor de cerejeira tem a particularidade de cair subitamente pouco depois do momento de floração, sem passar pela etapa de degradação que normalmente ocorre com os seres na vida. Ela está associada à pureza e simboliza a efemeridade da vida e daí a sua vinculação com o samurai, cujo ideal era de se manter puro de corpo e alma, e de partir para a morte, após ter sido educado e treinado, na sua plenitude, sem ambição de querer chegar a uma idade avançada.
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Yukio Mishima, novelista e dramaturgo japonês conhecido por seguir o Bushido e por ter cometido seppuku após uma falhada tentativa de golpe de estado em 25 de Novembro de 1970. |
Vida e morte, para um samurai eram dois estados pelos quais o ser humano teria que passar. Viver era, para ele, conseguir transcender o superficial e conseguir penetrar na essência das coisas através de uma rigorosa ética que pautava as suas acções no quotidiano. Era esta mesma ética que o preparava para a morte, que era a sua realização máxima enquanto guerreiro.
A vida de um bushi é gloriosa e bela, mas mais gloriosa e bela ainda é a sua morte em combate. Ela tem a graça e a brevidade de uma libélula expirando no ar fresco de uma manhã de Outono.
(Samurai desconhecido)
Entre todas as flores, a flor de cerejeira; entre todos os homens, o guerreiro. (Aforismo japonês)
Cleto Saldanha
Trabalho escolástico de Dezembro de 2011
Bibliografia:
O Código de Honra do Samurai, Taïra Shigésuké, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2006.
b.a – ba Samurai, Bernard Marillier, Hugin, Lisboa, 2001.
Notas:
(1) Bebida alcoólica japonesa à base de arroz fermentado.