Santo Ivo, o Padroeiro dos Advogados
O padroeiro dos advogados é Santo Ivo, celebramos o seu dia a 19 de Maio. Conhecido como advogado dos pobres, continua a ser nos nossos dias, um modelo de virtudes.
Yves Helouri de Kermartin nasceu a 17 de Outubro de 1253, em Kermartin, na Bretanha, no seio de uma família nobre. Filho do lorde de Kermartin, e de Azo du Kenquis. Aos catorze anos foi estudar Filosofia, Teologia e Direito para Paris. Neste período foi sagrado Cavaleiro. Continuou, depois, os seus estudos em Orleães, tornando-se Mestre em Artes. Foi aluno de S. Tomás de Aquino e S. Boaventura, que decerto moldaram o seu pensamento e vivência.
Os seus contemporâneos descrevem-no como um jovem de porte distinto, elevada estatura, rosto amável, olhos azuis cheios de doçura, com um brilho que refletia a pureza da sua alma, e que conseguia conquistar auditórios a seu favor. Há inúmeros testemunhos da sua humildade, caridade e espírito de sacrifício.
Depois de concluídos os estudos, com 27 anos regressa à Bretanha, é ordenado presbítero. É nomeado juiz eclesiástico da diocese de Rennes e, cumulativamente exerce advocacia. A sua conduta demonstra a sua natureza conciliadora, empenhava-se em conciliar as partes. Eram-lhe reconhecidas como principais virtudes a integridade e a imparcialidade, desfazia as inimizades e conquistava o respeito até dos que perdiam a causa.
Ordenado Frade Franciscano despoja-se de tudo, e vive de acordo com os votos de pobreza realizados. Transformou o seu próprio castelo, herança familiar, em hospital e asilo para os mais pobres e necessitados, em especial para crianças e velhos.
Ivo era conhecido como o advogado dos pobres. Para aceitar o patrocínio de uma defesa tinha uma única exigência, «jura que a tua causa é justa e defender-te-ei gratuitamente». Entre as defesas que a tradição lhe atribui, e aqui a lenda mistura-se com a realidade, conta-se que um homem rico, reclamava o pagamento dos odores que saíam da sua cozinha, pois um pobre rapaz que nada tinha para comer, contentava-se com o cheiro a comida que vinha da janela da cozinha. Nas alegações, Ivo para evidenciar o absurdo da exigência, fez tilintar um punhado de moedas dizendo «este homem aspirou os odores dos alimentos?! Pois pagamos com os sons destas moedas!»
"Ordenado Frade Franciscano despoja-se de tudo, e vive de acordo com os votos de pobreza realizados. Transformou o seu próprio castelo, herança familiar, em hospital e asilo para os mais pobres e necessitados, em especial para crianças e velhos.
Ivo era conhecido como o advogado dos pobres."
Em 1296 foi protagonista de um episódio que comprova o seu amor à justiça e a sua integridade perante a injustiça. O rei de França, Filipe o Belo, pretendeu apoderar-se do tesouro da Catedral de Tréguier. Quando os soldados e o tesoureiro do rei procederam à realização do pretensão do rei, ninguém fez nada, nem mesmo o Bispo. Perante a geral e cobarde apatia, Ivo enfrenta o tesoureiro no altar, e diz que não permitirá que tal sacrilégio aconteça e deita-se à sua frente. Com esse gesto, o povo, até então apático e amedrontado, reagiu e solidarizou-se com Ivo e os soldados e o tesoureiro recuaram.
No final da sua vida, renuncia a todos os seus cargos oficiais, dedicando-se à paróquia de Louannez e à defesa dos pobres, vivendo uma vida de total pobreza material, mas de uma enorme riqueza espiritual. Faleceu em 19 de Maio de 1303, com 50 anos. Foi canonizado por Clemente VI, a 19 de Maio de 1347.
A Idade Média, que muitos descrevem como uma longa noite de dez séculos, foi também um período em que homens, como Ivo de Kermartin, preconizavam virtudes como honra, dignidade, protecção dos mais fracos e amor à justiça. Essas almas grandes devem alentar-nos neste período escuro que enfrentamos enquanto sociedade a não deixarmos de viver as virtudes humanas mais elevadas. Com a vida de Santo Ivo aprendemos que não nos podemos calar perante uma injustiça, e da necessidade da defesa da justiça, da dignidade humana e da protecção dos mais fragilizados, da necessidade de desenvolver o bom senso, o chamado senso comum, que nos nossos dias, cada vez é menos comum.
E para os advogados, em especial, devemos fomentar o Amor à justiça. Sermos servidores da justiça, ao invés de sermos servidos por ela. E a necessidade imperiosa da profissão de advogado ser exercida com sentido de missão.
"(...) Com a vida de Santo Ivo aprendemos que não nos podemos calar perante uma injustiça, e da necessidade da defesa da justiça, da dignidade humana e da protecção dos mais fragilizados, da necessidade de desenvolver o bom senso, o chamado senso comum, que nos nossos dias, cada vez é menos comum."
DECÁLOGO DE SANTO IVO, OS 10 MANDAMENTOS DOS ADVOGADOS:
I. O advogado deve pedir a ajuda de Deus nas suas demandas, pois Deus é o primeiro protetor da Justiça;
II. Nenhum advogado aceitará a defesa de casos injustos, porque são perniciosos à consciência e ao decoro;
III. O advogado não deve onerar o cliente com encargos excessivos;
IV. Nenhum advogado deve utilizar, no patrocínio dos casos que lhe são confiados, meios ilícitos ou injustos;
V. Deve tratar o caso de cada cliente como se fosse seu próprio;
VI. Não deve poupar trabalho nem tempo para obter a vitória do caso de que se tenha encarregado;
VII. Nenhum advogado deve aceitar mais causas do que o tempo disponível lhe permite;
VIII. O advogado deve amar a Justiça e a honradez tanto como as meninas dos seus olhos;
IX. A demora e a negligência de um advogado causam prejuízo ao cliente e quando isso acontece deve indemnizá-lo;
X. Para fazer uma boa defesa, o advogado deve ser verdadeiro, sincero e lógico.
Ana Margarida
Jurista