O Santuario de DELFOS
Delfos, antiga cidade da Grécia, na Fócida, estava situada na vertente meridional do monte Parnaso, a uma altura de 570 m sob duas rochas perpendiculares entre si chamadas Fedríade e Nymphea. Foi notável pelo seu oráculo e era considerada sagrada já desde os tempos primitivos. Estava edificada em forma de anfiteatro e tinha 16 estádios de circuito. Dividia-se em três partes: a superior, Pito, que compreendia o Templo de Apolo; a parte média, Nape, que se estendia em redor do Templo; e a inferior, Piloa. Ao pé da rocha Nymphea brotava a fonte Castalia.
O Santuário de Delfos sobre o Monte Parnaso foi um temenos consagrado a Apolo, elevado sobre terraços, relacionados por uma escada ondulante, que compreendiam o Templo principal juntamente com o estádio, o monumento, o teatro, tesouros em forma de pequenos templos dóricos e jónicos, e o grande altar de Atena, a onde se chegava pela «Via-sacra». Esta subia, descrevendo uma curva no meio de múltiplos altares, colunas votivas e estátuas de todo o género, dedicadas por príncipes ou cidades.
As estruturas arquitectónicas e a disposição original dos templos teriam sido ditadas pelos aspectos primitivos do oráculo e pela persistência de certos antigos ritos. É, seguramente, com Gea que se há-de relacionar certas práticas como as consultas nocturnas ou, eventualmente, o rito de oniromancia. Há também indícios de um culto recente, possivelmente à Deusa Terra, assim como de uma primitiva ocupação minóica ou micénica. Com a chegada dos dórios é que se converteu em Santuário de Apolo.
O primeiro Santuário era uma pequena estrutura primitiva. Diz-se que foi construído com ramos de loureiro em forma de barraca, e que servia de ermida. Esta, segundo a tradição dos fócios, foi rodeada por outra barraca de cera de abelhas. Depois construiu-se uma terceira, de cobre maciço, que se dizia ser uma obra de Vulcano.
O templo de pedra lavrada, edificado pelo famoso arquitecto Trofino, ou talvez por Agamedes, ou por ambos, foi, segundo alguns autores, destruído por um terramoto, e segundo outros, por um incêndio que derreteu o cobre, na Olimpíada 58, em 548 a.C. O seu sucessor, um edifício dórico ficou terminado por volta de 510 a.C.
Segundo alguns, os Anfictiones ofereceram-se para o encargo de levantar outro, mas os Alcmeónidas, uma família muito rica de Atenas, obtiveram a honra de edificar o Templo. Segundo outras versões foi reconstruído pelos Anfictiones, dos Alcmeónidas e com dinheiro enviado pelo Rei Amasis do Egipto (Din. XXVI), entre outros.
O mármore de Paros substituiu a pedra calcária num muro de contenção. Na época helenística acrescentaram-se stoas ao recinto. A decoração escultórica era de carácter arcaico, e no frontão havia estátuas de Apolo, Leto, Atena, As Musas, o carro do Sol, Dionísio, as Híades, Homero e Píndaro, luzindo na arquitrave os áureos escudos oferecidos pelos atenienses depois da batalha de Maratona. O Templo foi derrubado por um novo terramoto, por volta de 373 a.C.
Depois desta catástrofe, construiu-se o sexto e último Templo, em 305 a.C., por Espíntaro, Xenodoro e Agaton, terminado na 71ª Olimpíada. Media cerca de 100 pés de comprimento e os seus custos ascenderam a 300 talentos de ouro. Era em parte de calcário estucado e em parte em mármore pentélico. À entrada havia grandes taças de ouro, cheias de água cristalina e rodeados de ramos de loureiro, e, no interior estava a estátua de Apolo.
O Onfalos ou «umbigo da Terra» era um bloco de mármore cónico, considerado o centro do Planeta e guardado no adytum, erigido sobre a Fonte sagrada, onde a Pítia, sentada no seu trípode, transmitia os seus oráculos como profetisa de Apolo. Chegava-se por uma escada à fonte de cripta, e por uma rampa subia-se até à entrada do Templo, em frente do qual estava o altar principal de Apolo, o «Altar dos quíotas», segundo Heródoto. Este altar foi descoberto nas escavações francesas e tem uma inscrição votiva com uma dedicatória dos Quíos, seguramente de 479 a.C., quando libertaram Delfos dos persas.
O Santuário de Apolo Febo é mencionado na Ilíada, e a importância do seu oráculo data dos séculos VIII e VII a.C. O século VI a.C. foi o seu momento de maior esplendor. Era o principal agente unificador na estrutura social e religiosa da Grécia e chegou a ser venerado como «a pátria comum». Intervinha em todos os acontecimentos importantes, e à consulta do oráculo eram submetidas as desordens da vida pública e privada, as decisões dos legisladores e das instituições religiosas.
Dizia-se que uma incursão dos persas sobre o Santuário, em 480 a.C., havia sido frustrada por Apolo, que, com uma tempestade ou terramoto, lançara rochas sobre os invasores.
Delfos viu-se envolta numa série de guerras religiosas. A primeira realizou-se em princípios do século VI a.C., contra os cidadãos de Cirra, que exigiam o pagamento de portagem aos peregrinos que se dirigiam ao oráculo, terminando este conflito com a destruição de Cirra. A segunda deu-se entre os focenses e Delfos em 448 a.C.
A paz de Niceia (421 a.C.) restaurou e afirmou o poderio de Delfos. No século IV a.C. o ressurgimento das guerras sagradas, provocadas por uma nova intrusão dos focenses (357 a.C.), deu azo à intervenção de Filipe da Macedónia, em 346 e 339-338 a.C., em que a guerra terminou, tendo como resultado o predomínio da Macedónia em relação a toda a Grécia.
Nesta guerra muitos dos seus tesouros foram fundidos. A pilhagem de que foi objecto o Templo, pelos generais fócios Filomeno, Onomarco e Falero acelerou a decadência de Delfos.
O oráculo apoiou Filipe da Macedónia e o seu sucessor, Alexandre Magno. Depois da morte de Alexandre, em 323 a.C., passou a ser uma espécie de tribunal local de apelação. Depois da destruição do Templo pelo terramoto de 311 a.C., não se voltou a tentar a sua restauração. A cidade viu-se ameaçada pelos gauleses no ano 279 a.C. e saqueada por Sila em 86 a.C.
Diz-se que Nero levou consigo 500 estátuas do seu tesouro. No entanto, com Adriano e Trajano, Delfos teve um segundo e último florescimento. Com o desaparecimento do «Paganismo helénico» termina também a história de Delfos, atacado pelos Padres da Igreja, defendido estoicamente pelos neoplatónicos e, por fim, despojado das suas riquezas. Foi consultado pela última vez pelo Imperador Juliano, antes de empreender a sua expedição à Pérsia. Pouco depois foi declarado extinto e fechado por Teodósio no ano 390 e demolido pelo seu sucessor, Arcádio.
No lugar da antiga Delfos ergueu-se mais tarde a aldeia de Castri, que o Governo francês fez demolir em 1892 por estorvar os trabalhos de escavação que os arqueólogos levavam a cabo a fim de redescobrir a velha Delfos. Surgiu de novo o Recinto sagrado, situado dentro da muralha protectora, com o Templo de Apolo, a tesouraria, numerosas oferendas e esculturas, que datam desde a época anterior às guerras persas até à romana, e fora da muralha, o teatro, os pórticos dos cnídeos e muitos outros.
A fama deste Santuário ultrapassou as fronteiras do mundo grego e, já na Antiguidade, Reis de extirpe estrangeira, como Creso e Amasis, interrogaram o seu oráculo e obsequiaram-no largamente. Cada cidade grega tinha ali o seu tesouro, artísticos edifícios onde depositavam os objectos votivos e o erário público ou particular enviado a Delfos, fosse para oferendá-lo a Apolo, fosse para o colocar sob a sua protecção. Os tesouros estavam expostos sem uma ordem determinada. Os mais antigos são os de Corinto e Sicione, de princípios do século VI a.C., depois construíram-se os de Atenas, Tebas Cnido, Cifno e Cirene. Destes, eram importantíssimos o tesouro dos atenienses e o de Cnido, construído no reinado de Creso.
No tesouro dos atenienses estavam representadas as façanhas de Hércules e Teseu, e continha um Arquivo, um Museu e uma espécie de Sacristia. Desta partiam os delegados de Atenas que iam assistir aos jogos Píticos, e nas suas rimas foi encontrado grande parte do Hino a Apolo, gravado em três pedras de mármore, das quais só apareceram as duas primeiras. Os fragmentos achados são três: um canto de exaltação ao Deus, uma invocação às Musas e uma apóstrofe a Ática.
Entre os achados estava a estátua do tesaliano Sísifo I, a de Sísifo II, a de Agelaos e uma pátera oriental decorada com relevos que representam o assédio de uma fortaleza.
A 30 de Maio de 1893 foi descoberto o Apolo de Polímedes de Argos, de mármore de Paros ou de Naxos, e no ano seguinte, os fragmentos de outra estátua semelhante à anterior e da mesma matéria.
Destaca-se também a Esfinge encontrada a oeste do pórtico dos atenienses, que esteve colocada sobre uma coluna, da que se encontram o fuste, o soco e o capitel. Desta coluna fez-se uma reconstrução que está guardada no Museu de Delfos, e outra, no Louvre. Do tesouro de Cnido encontraram-se várias cariátides e fragmentos do friso e do frontão, nos quais aparece representada a luta de Hércules e Apolo.
Do tesouro de Sicione sobreviveram interessantes métopas, nas quais aparecem os Dióscuros, Orfeu, o rapto de Europa, o javali de Calcedónia, etc. O achado que mais se destaca é o Auriga de Delfos, pertencente ao século V a.C. e que formou parte da quadriga votiva.
Delfos aparece na Teogonia de Hesíodo, onde se narra como Zeus colocou a pedra, que tinha sido tragada e depois vomitada pelo seu pai, na vasta terra, na divina Pythos, nas cavidades do Parnaso, de modo a que ali se constituísse um monumento perdurável, assombro dos mortais.
Não se sabe com certeza a época da fundação deste oráculo. Ésquilo, na sua tragédia As Euménides, diz que Gea foi a primeira a transmitir oráculos em Delfos, depois foi Temis e posteriormente Febe, outra filha de Gea, e segundo se diz, mãe de Leto e avó de Apolo. Pausanias afirma que Gea e Neptuno tinham pronunciado oráculos neste lugar antes de Témis, e outros dizem que também Cronos foi consultado ali. Por fim foi o oráculo de Apolo que se consolidou e que se tornou permanente. Foi chamado Pítio pelos poetas, nome que veio da serpente Piton, que Apolo matou naquelas paragens. Pausanias, porém, explica que este nome foi dado a Delfos Pitis, filho de Delfo e neto de Lícoro.
Como Santuário primitivo, as manifestações oraculares de Delfos estão vinculadas a três elementos naturais: a falha no terreno, a fonte sagrada, e a árvore (o loureiro). Os ritos primitivos não desapareceram, embora as fumigações de loureiro, próprias dos tempos antigos, se reduzissem mais tarde a uma operação que antecedia a consulta e que consistia na mastigação das folhas, de modo a provocar o êxtase da pitonisa. Com o tempo, o poder oracular foi gradualmente passado à própria Divindade, depois de ter estado associado ao lugar e aos elementos naturais.
Diodoro narra-nos uma das tradições que circulavam acerca da descoberta do oráculo. Segundo esta, a descoberta foi feita por umas cabras que pastavam no monte Parnaso, próximo de uma profunda caverna. Tinha notado o cabreiro Coretas, que cada vez que uma cabra se aproximava da fenda e assomava, punha-se a dar uns coices assombrosos e a balir de maneira diferente da usual. O pastor aproximou-se para ver o que se passava e aconteceu-lhe o mesmo, e ainda prognosticou o futuro.
Depois disto, as pessoas iam a tropel ao local. Era tão forte o entusiasmo de alguns, que se atiravam de cabeça na caverna. Foi necessário publicar um édito proibindo a todos de se aproximarem da caverna. Pensaram então em instalar uma mulher como profetisa única para todos, e fazer com que fosse ela a pronunciar os oráculos. Por conseguinte, os sacerdotes puseram sobre a boca da caverna, por onde saía o vapor, um trípode, ou banquinho de ferro, e deram a uma mulher o encargo de se sentar nele, de onde podia, sem risco, receber o vapor, porque os três pés do trípode estavam firmemente seguros na rocha. Esta sacerdotisa foi chamada Pitonisa.
Estrabão recolhe uma tradição mais elaborada, pois o hálito inspirador está nela associado à própria fenda. Segundo o velho cronista:
«Dizem que o oráculo se senta numa cova, profunda e de abertura não muito larga, e que dela sai um alento inspirador. Sobre a abertura está colocado um alto trípode ao qual sobe a pitonisa, esta recebe o hálito e dá ordens em verso e prosa. Estes são também transcritos em verso por uns poetas ao serviço do Santuário».
Ao princípio estas consultas celebravam-se uma vez por ano, no mês Bosion, no princípio da primavera (no aniversário do Deus). Era quando Apolo inspirava a sacerdotisa, a quem era proibido, sob pena de morte, ir ao Santuário consultar Apolo fora desse dia. Depois as consultas passaram a ser uma vez por mês, e finalmente em muitas ocasiões, excepto durante os meses de Inverno, durante os quais Apolo estava ausente (dizia-se que o Deus voltava durante essa estação à sua Terra original, o Norte, as regiões Hiperbóreas, e não regressava antes da Primavera). A operação implicava o sacrifício prévio de uma cabra. Geralmente, consultantes faziam as suas perguntas em forma de alternativas, e a Pítia dava a resposta tirando à sorte bolas brancas ou pretas.
Nos casos mais graves, a Pítia inspirada por Apolo, profetizava na cripta do Templo. Esta função só poderia ser desenvolvida por uma mulher que era escolhida de entre as de Delfos e devia ter mais de 50 anos, ser de origem honesta e de vida irrepreensível. O seu traje era o das donzelas. No entanto, paradoxalmente, só aos homens era permitido interrogar o oráculo, e tinham de se preparar para isso por meio da oração e oferecendo previamente sacrifícios. A Pítia preparava-se mediante três dias de jejum, e antes de se sentar no trípode, banhava-se na fonte Castália, bebia das suas águas e mastigava as folhas de loureiro. Uma vez sentada no seu trípode, as suas palavras eram interpretadas pelo Sumo-Sacerdote e frequentemente escritas em hexâmetros. Depois a Sacerdotisa era tirada do trípode e levavam-na para os seus aposentos, onde ficava vários dias para se restabelecer.
Em Delfos, além da Grande Senhora, a quem incumbia os estremecedores deveres da Pítia, e dos sacerdotes com o seu séquito de ministros subordinados, alojados directamente no Templo, havia também guardiães ao serviço do Templo, assim como oficiantes semi-sagrados vinculados a este.
O Grande Oráculo de Apolo congregou durante mil anos de História, gregos e romanos ilustres que o vinham consultar. Durante a época homérica, Delfos foi essencialmente um centro apolíneo. A partir do século V a.C., esteve cada vez mais associado a Dionísio e, até ao século III, no interior do Santuário era mostrada a tumba do Senhor das Festas, junto à qual os sacerdotes celebravam secretamente as suas festividades. Todo o esforço do clero délfico foi assimilado e associado ao novo Senhor do Santuário. No tempo de Plutarco, acreditava-se que Dionísio tomava o lugar de Apolo durante os três meses de Inverno, quando o Senhor da Luz se retirava para o Norte.
Toda a Grécia recorria a ele para se informar sobre liturgia, política, direito e conduta pessoal nos assuntos de cada dia. Ele manteve a adesão de toda a grande nação grega: governantes, homens de Estado, sábios, cidadãos e atletas, reuniam-se periodicamente nos recintos sagrados, no seu Templo, estádio e teatro, para participar nos Ritos e Jogos celebrados em honra de Apolo Pítio.
No Templo apareceram frases escritas como: «Nada em demasia» e «Não se aproxime daqui quem não seja puro». Antigas sentenças que se relacionam mais com leis morais do que com prescrições sociais. As paredes e colunas do Templo estavam cheias delas, e relacionavam-se com a amizade, o respeito aos mais velhos, educação dos filhos, o autodomínio, a gratidão, a rejeição da soberba, a busca da justiça, etc. Provenientes dos sete míticos sábios, Delfos acolheu-as e venerou-as.
Píndaro, Sócrates e Platão foram grandes admiradores do Apolo délfico. Legisladores como Licurgo e Sólon estiveram vinculados ao seu oráculo. A inscrição apolínea por excelência expressa-se na famosa fórmula de Delfos:
“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”.