O Verdadeiro Sentido da Educação
A educação deve fazer parte do processo da expansão da vida, que sempre começa de dentro. A criança é maleável e ainda não possui o nível de auto percepção dos adultos; por isso, é extremamente importante que qualquer ensinamento seja oferecido de maneira agradável, sem forçar o seu crescimento natural.
Esse esforço começa no nascimento da pessoa, se não antes. Devemos ter em mente que o fenómeno da expansão começa com uma natureza que não é condicionada nem auto-consciente, e portanto é extremamente maleável. Ela pode facilmente ser afectada não apenas por acções que tenham o propósito de influenciá-la, mas também por influências subtis.
Embora o ambiente tenha grande importância, o mais importante para a criança são as pessoas mais próximas a ela. Mesmo que no ambiente haja muito sofrimento, se a influência dessas pessoas for do tipo certo, até mesmo o sofrimento em torno pode ser um meio de evocar na criança sentimentos de compaixão e simpatia.
A compreensão de que certas coisas não são agradáveis, que elas deviam ser diferentes ou não deviam existir, produz uma mudança na consciência e faz brotar a vontade e a capacidade de modificá-las. Portanto, o instrutor deve ser uma pessoa que possua conhecimento amplo e cuja natureza, incluindo os seus pensamentos e emoções, sejam úteis à criança a cada momento. Podemos tentar entender como um instrutor deve ser, e procurar pessoas que se aproximem desse perfil.
O ambiente para o crescimento da criança deve ser o melhor possível para esse propósito. O objectivo deve ser extrair de cada uma delas as suas melhores qualidades e capacidades. Esse é o significado da palavra educação.
Se tudo o que houver de bom numa criança for fortalecido tanto quanto possível nos seus primeiros anos de vida, ela poderá mais tarde partir para o mundo, onde as influências estão muito misturadas, e enfrentar o que quer que seja com a sua força já desenvolvida.
Na educação, parece haver uma teoria segundo a qual a criança deveria ser deixada completamente livre para fazer o que quiser e aprender com as experiências. Mas não deveríamos dizer às crianças que não mergulhem em águas profundas sem saber nadar, ou que fujam de uma cobra venenosa? Deve-se dar às crianças o benefício das experiências de outras pessoas. Se em nome da liberdade a criança fosse deixada vagueando pelas ruas e aprendendo por si mesma, não desenvolveria a capacidade de se proteger e de manter a sua liberdade.
"A educação no sentido verdadeiro deve ser a educação do corpo, da mente e das emoções, de tal maneira que juntos formem um instrumento para a expressão da alma e a realização do seu propósito"
Qual deve ser a principal característica da educação nos primeiros anos de vida? Obviamente, a influência que cerca um novo ser – novo para todos os propósitos práticos – deve ser estimulante e salutar. A creche, a sala de aula e o lar devem ser coloridos, não “anémicos” ou indefinidos. Deve-se rodear a criança com coisas que propiciem o desenvolvimento da sua inteligência, a sua capacidade de afecto e tudo o que há de melhor na sua natureza.
Não pode haver nada mais proveitoso para qualquer ser humano do que as influências da natureza, as árvores, as flores, a água corrente, etc. A criança tem um interesse natural por qualquer coisa viva, como as plantas e os animais.
Não sei se todos nós compreendemos o quanto o medo, na educação, é um factor inibidor e prejudicial. Mesmo que haja algo a ser corrigido na criança, o melhor método é explicar e convencê-la de que tal coisa é indesejável. O processo de crescimento é um processo de trazer para fora o que está dentro: as suas qualidades inatas, o seu génio, o seu talento. Isso só é possível numa atmosfera de liberdade. O instrutor deve adaptar-se ao crescimento da criança, encarando os processos desse crescimento como pontos onde o auxílio, a instrução ou a orientação são necessários.
A criança tem uma natureza tripla: a natureza do corpo, das emoções e da mente. Ela relaciona-se com tudo à sua volta nesses três níveis. Cada um desses aspectos precisa ser ajudado para se expandir de um modo natural, sem distorção.
Nos primeiros anos de vida, talvez o crescimento e o controlo do corpo requeiram mais atenção. Não é preciso dizer que a criança deve ser alimentada apropriadamente e que o corpo não deve ser negligenciado. O domínio do corpo físico, o seu perfeito ajustamento e a sua utilização de maneira graciosa e naturalmente expressiva torná-lo-ão um instrumento apropriado para ser usado espiritualmente. Deve-se ajudar a criança a atingir uma certa medida de autocontrolo, a coordenar os seus movimentos, a usar adequadamente as suas pernas e braços e a aprender boas maneiras.
A criança precisa aprender, desde os primeiros anos de vida, a manter-se limpa. Depois deve haver um treino dos sentidos, incluindo as cores e os sons. Uma das maneiras de entrar em contacto com a vida na natureza é ouvir os seus sons.
Os sentidos são as janelas da alma. Quando o seu alcance aumenta, toda a superfície de contacto com a vida também é aumentada. O pensamento e a formação de imagens, que é parte do nosso pensar, baseiam-se nas impressões dos sentidos. A imaginação não acontece no vácuo; ela é estimulada pelas nossas reacções.
A apreciação das artes e a prática de uma arte específica para a qual a criança tenha aptidão deve ser parte do programa educacional. Esta é, com certeza, uma maneira de refinar e educar as emoções.
As emoções e sentimentos têm um papel mais vital que o corpo físico ou o intelecto. Até mesmo a saúde depende, em grande parte, da condição emocional da pessoa. Mas a nossa educação não dá qualquer atenção a isso, e baseia-se quase exclusivamente no cultivo da mente. Se pudermos estimular a capacidade de afeição e simpatia da criança para com os outros, estaremos dando um impulso à sua evolução.
Uma criança deve, desde os primeiros anos, aprender a ter consideração para com os outros em todos os contextos. Além disso, a educação deve preparar o indivíduo para continuar aprendendo pelo resto da vida.
Qual a finalidade da vida? Talvez seja mais vida, com a crescente compreensão das suas potencialidades e do poder de criar, de modo que possa fluir cada vez mais livremente e criar segundo a própria vontade. Deve-se ajudar as pessoas a atingir o mais alto grau de inteligência possível e a serem livres para fazer uso dessa inteligência; então, na sua liberdade, elas poderão fazer o que desejarem. Educar deveria significar “abrir caminhos” nos cérebros e corações dos jovens, caminhos que se alargarão e os levarão em frente num processo de aprendizado incessante, através de uma corrente de reacção construtiva do ambiente para a alma e da alma para o ambiente.
A alma do homem é imortal e o seu futuro é o futuro de algo cujo crescimento e esplendor não tem limites. Por isso, a educação no sentido verdadeiro deve ser a educação do corpo, da mente e das emoções, de tal maneira que juntos formem um instrumento para a expressão da alma e a realização do seu propósito.
Verdades fundamentais
A mente deve ser cuidadosamente treinada para desenvolver suas capacidades, e não deve encher-se com coisas desnecessárias. O importante é desenvolver uma mente que não imite apenas, que seja capaz de agir por si própria e que tente aprender e descobrir as coisas por si mesma, enquanto faz uso do conhecimento dos outros. A mente, como um sensível aparelho de rádio, deve ser capaz de captar as coisas e mantê-las em foco com clareza, percebendo as suas implicações e indo além das irrelevâncias em direcção à realidade dos factos.
"Muitas crianças têm em si grandes possibilidades que algumas vezes não desabrocham; elas possuem talentos ocultos para os quais não há propósito nas suas vidas"
Uma educação realmente completa, deve fornecer à criança os fundamentos de todos os ramos importantes do conhecimento, mas isso deve ser feito sem sobrecarregar a sua mente com detalhes. Nós enchemos o nosso cérebro com muitas coisas desnecessárias. Se eliminássemos tudo isso e descobríssemos o que é realmente útil para o indivíduo, o que é essencial saber e o que representa um bom conhecimento do mundo, estaríamos oferecendo uma educação de real valor para a criança.
A tudo isso eu juntaria o ensino de certas verdades fundamentais, como a noção de vida una; o facto de que o homem não é apenas um corpo, mas que usa o corpo; a ideia de que nós criamos o nosso próprio destino; e até mesmo a reencarnação e o Karma. Tudo isso deve ser apresentado não como um dogma, mas como uma visão de vida, de maneira plausível e razoável.
Uma ideia importante a ser enfatizada desde o início é a de realizar todo o trabalho, por menor que possa parecer, tão bem quanto possível.
Muitas crianças têm em si grandes possibilidades que algumas vezes não desabrocham; elas possuem talentos ocultos para os quais não há propósito nas suas vidas. Por isso, quando alguém recebe a tarefa de educar uma criança, não deve pensar que é uma tarefa insignificante. Essa visão é completamente equivocada, porque se ajudarmos a criança a desenvolver-se da melhor forma possível, ela crescerá e fará muitas coisas boas. Com o auxílio que damos aos outros podemos estar ajudando o mundo de maneira ampla, muito mais do que podemos entender.
Apenas os melhores homens e mulheres deveriam ser escolhidos como educadores. Não necessariamente os melhores do ponto de vista académico. Muito frequentemente aqueles que obtêm uma graduação ou fazem através da super-concentração num determinado assunto, o que, em muitos casos, resulta numa perspectiva estreita e algo desequilibrada. Nem sempre os eruditos são os melhores para desempenhar certas tarefas, como lidar com pessoas.
Nilakantha Sri Ram (1889-1973)
Filósofo Indiano