Silêncio
Silêncio.
Escuridão.
Espaço sem limites.
Estou a flutuar no caldo universal da criação do universo.
Sou eu uma consciência já, vogando na corrente de mim mesma. Vou mexer-me...... e todo este caldo primordial mexe comigo, numa onda de repercussão. Eu decido agir e todo o universo age comigo, e modifica-se, e transmuta-se, e deixa de ser o que era. O que define o limite entre mim e tudo o que mexe comigo? Aqui, tudo sou eu. Porque tudo é silêncio, tudo é escuridão, tudo é apenas uma dança das partículas umas com as outras. Não há limítrofes, não há barreiras. Tudo é indefinível e indivisível.
"Tenho medo. Não compreendo tudo isto. Mas é inevitável. O que me vai acontecer? O que vai acontecer a tudo o que eu conheço e faz parte de mim? Vou deixar de existir? Tenho medo e não consigo fugir. "
Para além deste universo meu, que sou eu, uma outra realidade, incompreensível, parece existir. Realidade sobre a qual não tenho controlo e na qual não consigo agir. Do silencio rompe um som quebrando a minha pacificidade e eu sou coagido a adaptar-me a formas rígidas do meu próprio universo. Cada vez mais frequentemente sou obrigado a sair de mim e compreender uma realidade maior e mais complexa. Sou apenas um joguete nas suas entranhas.
“ahhhhhhhh puxaaaa” e assim se fez luz. Uma luz branca sem contornos, ofuscante.
Tenho medo. Não compreendo tudo isto. Mas é inevitável. O que me vai acontecer? O que vai acontecer a tudo o que eu conheço e faz parte de mim? Vou deixar de existir? Tenho medo e não consigo fugir.
“ahhhhhhhh é agora é agora foooooorça” e num milésimo de tempo tudo o que era deixou de ser. O caldo que me envolvia deixou de existir, a escuridão deu lugar a uma luz ofuscante e eu, com todas as minhas forças, dei cabo do silêncio, num berro que eu não sabia ter, numa energia que estava guardada em mim prestes a dispersar-se por esta nova realidade.
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Não morri. Ainda estou aqui num corpo que sente frio e dor, que vê a luz e sente a escuridão, que ouve mesmo que não queira, que cheira, que saboreia, que um dia saberá que nada disto interessa e que tudo isto é fundamental. Não lembro a cara da rapariga que esperava que eu saísse do meu caldo universal porque ainda não a compreendia. Não conhecia esta sua realidade. Não vi os olhos esbugalhados de quem está incrédula com o meu espetáculo. Mas um dia virá em que eu compreenderei tudo e tudo serei novamente. Nesse dia saberei o que é amar. Nesse dia deixarei de ter medo. Esse medo que ganhei por me dividir de mim. Eu e os olhos esbugalhados daquela cachopa seremos parte do mesmo caldo infinito e indivisível.
E nessa altura, eu, inteira novamente, mas com um nível de compreensão maior, serei empurrada inevitavelmente para uma nova realidade, um novo medo de deixar tudo o que tenho aqui, medo de não levar comigo tudo, medo de me dividirem outra vez. Medo de morrer.
Não o sei ainda. Há quem o saiba já: não é morte, é nascimento.
Hospital de S. Marcos, Braga, 24 de Março de 2010
Joana Moreira