O Suicídio Juvenil
Uma Sociedade em Crise?
Numa noite fria e escura de inverno, Thomas de18 anos deixou um saco de plástico com os seus pertences nas escadas de um jornal. Depois, vai a uma cabine telefónica e liga para o jornal solicitando que levem esse saco para o escritório da jornalista responsável pela linha telefónica de comunicação com os leitores, que o jornal abriu nos anos 80, e perguntou a que horas a jornalista chegava ao escritório no dia seguinte.
Naquele preciso dia a jornalista chegou umas horas mais tarde, porque tinha uma reunião. Quando chegou encontrou sobre a sua mesa um saco de plástico cheio de cartas prontas para serem enviadas, um cartão de identificação, uma carta de condução nova, outros documentos e uma folha de papel que testemunhava a sua vontade de suicídio.
Thomas foi salvo. Ele tinha-se abrigado para morrer no seu antigo quarto, na casa de seus pais, mesmo ao lado da sala de estar, porque " se eles gostavam dele de verdade, encontrá-lo-iam " ;mas os pais não sabiam que Thomas estava lá, nem que o seu filho estava tão mal. O que não surpreende porque, como o pai escreveu uma vez, " temos muitos problemas; a única coisa que queremos saber do nosso filho é que está bem e que está tudo em ordem, não queremos saber dos seus problemas ".
Se a jornalista tivesse chegado uma ou duas horas mais tarde, Thomas teria morrido, o que não era na realidade a sua intenção, porque ele acreditava que se os pais não o encontrassem, fá-lo-ia o jornal e, assim o havia planeado.
"(...)Quando um ser humano se mata, não é porque deseje a morte pela morte em si mesma. A razão é que, por uma ou outra causa não quer – não pode suportar viver mais. O que se deseja é uma interrupção da consciência.(...)"
O que é evidente é que há uma grande necessidade de ser ouvido. Por isso se utiliza a linha do jornal mencionado ( Livs Linien , a linha da vida ), que funciona especialmente para aqueles que guardam a ideia de suicídio nos seus pensamentos, ou aqueles que estão relacionados com aqueles que já o tentaram ou o tenham levado a cabo. Na Dinamarca, de onde eu escrevo, há também outras linhas telefónicas de contacto: Dognkontakt (Contacto diário), projecto Lyspuntkt (Ponto de luz), Ung pa Linie (Linha da Juventude) ou Borntelefonen projeto (Telefone das crianças). O importante é ser ouvido, de ter contacto com uma voz que "ouve ",ainda que no caso da Linha do jornal mencionado seja uma gravação. Ouvir é ainda mais importante do que dar um bom conselho. Para quem liga, é importante saber que não se é anormal, apesar de não saber o que fazer na vida, ou não ter o controlo a 100 % da mesma.
Onde estamos? Quem Somos Nós?
O trabalho é fazer compreender às crianças e aos jovens que usam essas linhas ou as secções de consulta dos jornais, que a vida vale a pena ser vivida e que há uma razão para estarmos aqui. Eles não são os únicos nessa situação. Que há períodos sombrios e que isso está implícito na própria vida e, que é talvez isso o que no fim lhe dá sentido. Atrever-se a ver os aspectos sombrios e trabalhar para sair deles. Porque, o que é o que os jovens encontram no mundo que descobrem?
"(...)...é importante que as crianças e os jovens possam compreender que se pode fazer algo e não apenas sentarem-se preguiçosamente a contemplar um mundo incompreensível; que se pode participar activamente; que há associações, clubes, grupos nacionais e internacionais que combinam esforços activos para mudar e construir um mundo melhor para se viver.(...)"
Uma em cada 10 crianças entre 9 e 11 anos sofre de depressão. (1) A taxa de desemprego juvenil é mais elevada do que em outras idades. Das 25% das crianças do pré-escolar e da primeira classe sofrem de transtornos psicossomáticos, como dores de cabeça, de estômago ou problemas de crescimento ou de comportamento. Metade dos alunos do nono ano tem problemas desconhecidos, fadiga ou alergia. A ambição gera stress nas escolas. No nosso país, por dia, cinco jovens tentam o suicídio. Uma em cada quatro causas de morte é o suicídio. Morrem duas vezes em média, mais jovens por suicídio do que por acidente de viação. E todos os acidentes e desastres que ocorrem no grande mundo, são apresentados de forma gratuita no ecrã da televisão: acidentes, mortes, miséria, crianças famintas morrendo de fome, guerras, assassinatos, florestas a necessitar serem salvas, bombas que explodem, poluição, sofrimentos e desastres numa espiral quase sem fim.
Por isso, é importante que as crianças e os jovens possam compreender que se pode fazer algo e não apenas sentarem-se preguiçosamente a contemplar um mundo incompreensível; que se pode participar activamente; que há associações, clubes, grupos nacionais e internacionais que combinam esforços activos para mudar e construir um mundo melhor para se viver. E se isso não for suficiente, há as linhas de contacto, há sempre um ser humano a quem podemos estender a nossa mão ou enviar os nossos sinais.
E por isso, também é importante para todos não esquecermos toda a alegria de viver. Dar lugar ao entusiasmo vital na nossa comunicação, não como fuga dos problemas, mas tomando o lugar que ele tem nas nossas vidas. Um jornalista dinamarquês, Bjarne Reuter, uma vez disse: "Hoje uma classe do jardim-de-infância não pode visitar um lago bonito, sem que as crianças tenham presente a habitual informação sobre algas, poluição e peixes mortos. Não têm a oportunidade de experimentar a alegria das pequenas coisas. No entanto, a condição para poder realizar o esforço para mudar uma situação negativa é justamente a alegria de experimentar plenamente a vida.
"(...)Nietzsche escreveu uma vez: " quem sabe por que vive pode quase suportar qualquer situação". Ter algo pelo que viver, algo que o transcenda a si mesmo, que lhe dê uma função na sociedade e na vida é o que dá sentido a esta última.(...)"
A alegria de viver pode-se considerar uma experiência básica na busca do sentido da vida. A angústia existencial é a sua contrapartida.
O que é que dá valor à nossa vida?
As respostas são logicamente muito variadas, mas poderiam resumir-se a:
- Ser amado pelo menos por uma pessoa e amar pelo menos uma pessoa.
- Ter responsabilidades para com outras pessoas.
- Partilhar interesses e valores com outras pessoas em associações comuns.
- Ter experiências profundas na Natureza.
- Vivenciar o nascimento e o crescimento dos seus próprios filhos ou de outros.
- Executar tarefas difíceis e importantes.
- Manter o sustento espiritual da experiência religiosa que escolha, tendo a coragem de enfrentar as questões ou aspectos desconhecidos da vida.
Aquilo que significa alguma coisa na vida para a maioria dos seres humanos resume-se em solidariedade e auto-transcendência. A solidariedade com todos aqueles com quem nos relacionamos e auto-transcendência como capacidade de nos superar a nós mesmos na busca do sentido na nossa vida e pormos em prática numa actividade criativa que não nos tenha somente a nós como objectivo, mas também inclua um sentido mais amplo.
A sua contrapartida é a angústia existencial, o vazio ou sem sentido, que inclui o medo da morte, e o sentimento de culpa ou de perda. A maioria dos estudantes do bacharelato, suecos e dinamarqueses está marcada pela frustração existencial e pelo tédio. Os psicólogos dizem que nas suas consultas eles queixam-se fundamentalmente da falta de sentido da vida. Uma sensação de vazio interior total.
Nietzsche escreveu uma vez: " quem sabe por que vive pode quase suportar qualquer situação". Ter algo pelo que viver, algo que o transcenda a si mesmo, que lhe dê uma função na sociedade e na vida é o que dá sentido a esta última.
Quando a maioria das pessoas na nossa sociedade ocidental crescia e se tornava participante num maior ou menor conjunto de valores e interesses comuns, aparentemente, esta falta de sentido da vida era menor. As crianças tinham uma posição que os tornava necessários para a sobrevivência da família. A contrapartida era possivelmente, uma existência dura ou difícil, mas havia uma sensação de objectivo e importância. Hoje, uma criança também tem que sacrificar as suas horas de lazer entregando jornais, fazendo recados ou biscates para ter dinheiro extra para os seus "hobbies". Também é duro e difícil, mas a diferença é que a criança já não tem uma função essencial ou imprescindível. Já não é o que é, mas que tem que justificar o sentido da sua existência.
O suicídio é um absurdo que se contagia?
Quando um ser humano se mata, não é porque deseje a morte pela morte em si mesma. A razão é que, por uma ou outra causa não quer – não pode suportar- viver mais. O que se deseja é uma interrupção da consciência.
Desenvolveu-se nos nossos dias uma tendência muito forte para o individualismo, mas não compreendendo o conceito indivíduo no sentido platónico da palavra, como um ser com plena consciência de si mesmo e da sua envolvência e por isso indivisível, mas como o eu pessoal ou pequeno eu. Esse processo, inclinou a balança do nós, conjunto, para o individual eu. Hoje vivemos numa sociedade do eu, do si próprio. E isso influencia o processo de criação de identidade nos jovens. Já que a identidade é algo que é criado na interacção e relação com outros seres humanos; na nossa sociedade as ditas tentativas de construir uma identidade própria são dadas em relação com as coisas (bens de consumo) ou com imagens de falsos ídolos (do pop ou do rock).
«(...)Numa palestra sobre a juventude o filósofo e escritor Jorge A. Livraga afirma que " deixa-se de ser jovem quando começamos a ter medo da vida, quando perdemos a esperança em nós mesmos". A alegria de viver está na relação com a prática dessas qualidades que sem prazo se aninham nos nossos corações.
Para o professor Livraga, "há que ensinar novamente aos homens que o que existe não é apenas " sujidade”. Que existem lugares onde há luz, onde crescem as searas que fazem o pão, onde crescem as vides que fazem o vinho”.(...)»
Segundo esta sociedade do eu, entende-se o ser humano ideal como um indivíduo autónomo (independente), que tem uma total liberdade na hora de decidir a sua própria vida. Para os jovens que não tiveram limites fixos de valores na sua existência e, portanto se sentem inseguros e angustiados, e ainda não foram capazes de desenvolver uma identidade sólida – já que não têm nenhum ponto de referência ao que vincular o seu direito de autodeterminação - pode ser uma pressão insuportável viver de acordo com este ideal. Assim, o suicídio pode aparecer como uma versão alternativa de libertação, já que, como uma extensão desta autodeterminação, se inclui o direito privilegiado de morrer quando se deseja.
As análises demostram que o comportamento suicida é "contagioso ". Demonstra-se que muitos indivíduos que, com mais ou menos "sorte", tentam o suicídio, experienciaram um comportamento semelhante na família ou no círculo dos seus relacionamentos. Falamos de uma " transmissão suicida " como uma forma de aprendizagem de comportamento: as crianças e os jovens "aprendem" a utilizar o comportamento suicida como um falso meio de resolver problemas, como uma linguagem especial em situações onde se está frente a problemas ou conflitos com o meio envolvente.
Gert Jessen , do Centro de Investigações do Suicídio, afirma: " É um curto-circuito mental dizer que é uma escolha livre se alguém quer viver ou não. Um ser humano que se sente tão mal não tem nenhuma possibilidade de tomar uma atitude livre. Nenhuma atitude racional, pelo menos. São seres humanos que muitas vezes se sentem tão miseráveis que imaginam que o mundo seria muito melhor se eles não estivessem nele. Se se considera o suicídio como um direito fundamental, o que se faz é empurrar o próximo e ignorar qualquer responsabilidade não me afecta, não me compliques com os teus problemas. Estás no direito de avaliares se queres viver ou morrer ". Que absurdo! Isso é cínico e sem sentimento, e faz-nos pensar que vivemos numa sociedade sem sentido ". Aqueles que já tentaram o suicídio muitas vezes referem terem sido tratados com frieza, e não terem encontrado a solidariedade que necessitavam.
Edwin Shneidman junta dez aspectos pontuais para o comportamento suicida:
1. A intenção mais comum é encontrar uma solução
2. O objectivo mais comum é uma pausa e uma mudança
3. O estímulo mais comum é um sofrimento psíquico
4. O stressante mais comum é ter muitas necessidades não satisfeitas
5. Os sentimentos mais comuns são a ausência de esperança, desamparo, perda e rejeição
6. O elemento cognitivo mais comum é a ambivalência
7 . O elemento perceptivo mais comum é a escassez
8 . A acção mais comum é a fuga
9. A acção comunicativa mais comum é a intenção
10. O quadro de compreensão mais comum é o poder
Dez pontos de reflexão para se encontrar uma resposta. Por quê?
Fontes e reservas da alegria de viver
O Budismo acredita que morrer é um privilégio reservado àqueles que alcançam a qualidade de Buda. Suicidar-se não é desaparecer definitivamente, mas mudar de estado. A roda da vida não se interrompe. Assim, o suicídio era considerado uma "acção inapropriada" se fosse feita com a finalidade de escapar aos problemas da vida.
Numa palestra sobre a juventude o filósofo e escritor Jorge A. Livraga afirma que " deixa-se de ser jovem quando começamos a ter medo da vida, quando perdemos a esperança em nós mesmos". A alegria de viver está na relação com a prática dessas qualidades que sem prazo se aninham nos nossos corações.
Para o professor Livraga, "há que ensinar novamente aos homens que o que existe não é apenas " sujidade”. Que existem lugares onde há luz, onde crescem as sementes que fazem o pão, onde crescem as vides que fazem o vinho”.
Se a ansiedade existencial é a causa da curva ascendente do suicídio, o verdadeiro entusiasmo e a alegria de viver podem e devem desenhar uma curva descendente e, finalmente inexistente, já que o homem teria encontrado no seu próprio coração o seu lugar, o seu significado, a sua razão de ser e de existir, e felizmente, isso também se contagia.
Estela Tejeda
Notas:
(1) Dados extraídos do país de onde a autora escreve, Dinamarca. Na maioria dos casos aplicam-se a quase qualquer lugar da Europa, feitas as reservas e realces de maior rigor. (N. R.)
Bibliografia:
Synspunkter pa selvmord – en debatbog. Redigeret alf Henrik Schiodt. Center for Selvmordforskning, 1998 (Pontos de vista sobre o suicídio - um livro debate).
Samtalen kan redde unges liv. Ida Koch. Ungdomradgivning, Frederiksberg. (A conversa pode salvar a vida dos jovens).
Sevmordstanker og selvmordsforsog, blandt 15-24 arige i det danske uddannelsessystem. Gert Jessen, Karin Anersen y Unni bille-Brahe. (Pensamento em suicídio e tentativa de suicídio entre os jovens de 15-24 anos).
Nar livet bliver en byrde –Selvmordsforstaelser og problemer ved forebygging. Yngve Hammerlin og Georg Schjelderup. Ad Notam Gyldendal (Quando a vida se torna uma obrigação - compreensão do suicídio e os problemas para a sua prevenção).
Artigos e estatísticas fornecidas pelo Center for Selvmordsforskning (Centro de Investigação sobre o suicídio) y Livslinien (A Linha da Vida).