Logo_NA_Verde_2013    
     
  a   a   a   a   a   a   a   a   a   a  
                             
 

O Tempo Foge-nos


Todos nós já passámos por nos queixar de falta de tempo numa ou noutra ocasião ou considerar isso a culpa de muitos dos nossos problemas…entre outras coisas. Mas o facto é que sentimos que, com a aceleração dos tempos, o problema complica-se em vez de se resolver, e por mais que nos apoiemos na última tecnologia, quase nunca conseguimos ter tudo a tempo ou com uma margem suficiente para correcções e detalhes finais.

Melhor ainda, somos quase devotos do “prazer do último minuto”, o que significa deixar tudo para o final quando estamos entalados contra o limite, o que não deixa de ter a sua aura épico-romântica, sobretudo ao recordarmos como conseguimos apesar de tudo ultrapassá-lo e, isso só prova uma vez mais aos nossos olhos que o que nos falta é realmente tempo.

Cabe portanto perguntarmos se isto foi sempre assim, se temos melhorado neste sentido com o tempo, se as experiências têm sido devidamente aproveitadas e sobretudo se de alguma maneira se cumpriram as previsões que existiam acerca da actual falta de tempo.

No final dos anos cinquenta, por exemplo, a maioria dos analistas formulava seriamente a hipótese de que, a muito curo prazo, a semana de trabalho seria apenas de quatro dias. A convicção generalizada de então era de que o desenvolvimento económico, conduziria de forma inevitável a uma diminuição do tempo de trabalho.

De acordo com estas previsões, hoje poderíamos ou talvez deveríamos ter uma semana de trabalho de 22 horas, um ano de trabalho de apenas seis meses e ainda, a possibilidade de nos reformarmos aos 38 anos de idade. Não é de estranhar que, com semelhantes expectativas os especialistas de então começassem a preocupar-se com o problema do tédio que atacaria os indivíduos de uma sociedade com tanto tempo livre. Em 1959, por exemplo, a “Harvard Business Review” interrogava-se sobre o que fariam os norte-americanos com tanto tempo livre, e o perigo de que o tédio, que obscurecia a vida dos aristocratas, tornar-se-ia numa maldição para o homem comum.

 

 

"(…)O tempo foge-nos…. e temos que o alcançar, ainda que não haja tempo!(…)"

 

A verdade é que se o nível de produtividade do trabalhador norte-americano, por exemplo, mais do que duplicou desde 1948, o tempo livre não cresceu da mesma forma. Mede-se a produtividade pela quantidade de bens e serviços que resultam de cada hora de trabalho; quando esta aumenta, um trabalhador pode produzir o mesmo em menos tempo ou trabalhar o mesmo número de horas para produzir mais. Assim, cada vez que se verifica um aumento de produtividade, isso permite ter mais tempo livre ou na sua ausência, mais dinheiro. Este seria o dividendo da produtividade.


"(…)A realidade…é… à medida que as pessoas se foram habituando às recompensas materiais da prosperidade, o desejo de tempo livre foi-se trocando por um exagero no consumo como medida de, ao mesmo tempo, satisfazer e dar um sentido às suas vidas.(…)"

 



Hoje, portanto, somos capazes de produzir o mesmo em metade do tempo que se levava em 1948, o que em teoria e seguindo uma projecção linear permitiria, optar por um dia de quatro horas ou um ano de trabalho de seis meses. A realidade no entanto é muito diferente, já que à medida que as pessoas se foram habituando às recompensas materiais da prosperidade, o desejo de tempo livre foi-se trocando por um exagero no consumo como medida de, ao mesmo tempo, satisfazer e dar um sentido às suas vidas. Tanto no trabalho como em casa, o progresso económico traduziu-se em mais bens e serviços em lugar de mais tempo livre. Isto significa que se trabalha para consumir em vez de se descansar.

Ter mais não é sempre o melhor

Apesar de ter passado somente uma geração, desde que os sociólogos previram que os computadores fariam crescer a produtividade de tal forma que seria possível o trabalhador norte-americano ter um fim de semana de três dias, hoje sabemos que o seu tempo de trabalho nos últimos 25 anos cresceu de maneira constante e que a pressão competitiva da globalização económica leva os mesmos indícios a todas as partes do mundo.

Em lugar de uma era de ócio e tempo livre, os computadores portáteis, telemóveis, correio electrónico e o que venha a seguir, permitem e de alguma maneira “convidam” a trabalhar de onde quer que qualquer um se encontre e a todo o momento. Dá-se o caso de executivos de grandes multinacionais a anunciar abertamente que as pessoas que trabalham para eles devem ter telefones até na casa de banho. É dizer que se desenvolve um verdadeiro cordão umbilical entre as empresas e os seu funcionários, aos quais não só se lhes  exige um conhecimento especifico, seja este técnico ou funcional, mas também um empenho total, intelectual e pessoal.

Para garantir uma lealdade completa e fazer-lhes aceitar a exigência de um esforço crescente, é preciso reforçar os laços emocionais, multiplicando as ocasiões de contacto fora do trabalho formal, aproximando a família à empresa. Isto, leva na prática a organizar a vida familiar do empregado de forma que o seu tempo livre esteja quase todo direcionado em função da empresa.


 «(…)Tanto no trabalho como em casa, o progresso económico traduziu-se em mais bens e serviços em lugar de mais tempo livre. Isto significa que se trabalha para consumir em vez de se descansar.(…)»

 

Verificou-se que no decurso das duas últimas décadas, o trabalho tornou-se para uma grande maioria no centro vital da sua existência, ao ponto de que, quando se pergunta às pessoas onde é que têm verdadeiramente a impressão de serem apreciadas, a resposta invariavelmente é, no local do trabalho. As pessoas passam a dispor de uma espécie de família secundária associada ao seu universo profissional que parece frequentemente mais interessante do que a que têm em sua casa. Daí que, muitos pais com filhos pequenos confessam que vêem com alívio a chegada de segunda-feira; de alguma maneira a vida familiar e o emprego trocaram-se entre si. Por consequência, não é surpresa a abundância de casos de má vida familiar a par de uma vida profissional excelente.

Ter menos pode ser mais?

Na última década têm aparecido uma série de livros narrando-nos casos de casais e pessoas que conseguem uma forma de sair do que a socióloga norte-americana Juliet Schor descreve como “ o ciclo infernal de trabalhar e gastar”.

Alguns fizeram-no a ler as experiências de outros, mas também houve  quem o fizesse por sentir que a vida lhe escapava das mãos.   O mal estar pelo excesso do trabalho e do stress acumulado por falta de tempo para eles mesmos, fez com que vissem cada vez mais distante a possibilidade de “ter uma vida”. A exigência implacável de um rendimento profissional sem mácula em que as horas de trabalho, por imperativos de competitividade, incluem frequentemente os fins de semana nos quais os telemóveis nunca param de tocar tornando a geografia em algo irrelevante e a casa o prolongamento do local de trabalho, fazem com que precisamente estes momentos supostamente de descanso sejam de intenso desgaste já que ainda por cima  há que resolver os assuntos domésticos pendentes e reencontrar um espaço para a afectividade. 

Comprar coisas e gastar o dinheiro torna-se pouco a pouco um escape do absurdo quotidiano. Mas esta é uma ilusão que dura pouco tempo, pois o consumo implica sempre mais trabalho… a fim de responder à condição perversa do crédito de plástico e poder ter acesso a mais consumo.

É assim que muitos tentaram simplificar as suas vidas, apesar de uma redução nada desprezável no seu rendimento, que se pode resumir em “ter mais tempo, menos stress e uma vida mais equilibrada”. Os estudos apresentados demonstram que mais de metade dos interrogados (55%), considerou a mudança como definitiva, e em 85% dos casos a satisfação era total. Significa para eles que chegaram a uma experiência privilegiada “em que o tempo e a qualidade de vida se tornam mais importantes que o dinheiro”.
Esta tendência no entanto, está longe de ser maioritária e os dados oficiais indicam que o tempo médio de trabalho de um assalariado era de 47,1 horas semanais em 1998, contra 43,8 em 1992. Uma em cada três pessoas disse ter de levar trabalho para casa pelo menos uma vez por semana, e uma em cada cinco pessoas, passam com regularidade noites fora de casa por razões profissionais.

A ideia comummente aceite de que no passado as pessoas trabalhavam mais do que hoje, também parece não ter muita base, já que alguns autores como Robert Kurz pensam que, quando se faz a análise histórica, encontramos precisamente o contrário, quer dizer, os trabalhadores artesãos e agrícolas trabalhavam menos do que os trabalhadores e empresários, hoje em dia. Seja como for, o facto que interessa é que depois da invenção das tecnologias, que supostamente poupariam tempo e libertariam as pessoas do trabalho, temos que trabalhar mais do que antes da existência delas.

Negócios à velocidade do pensamento

Este é o título do novo livro de Bill Gates que aposta na vulgarização cada vez mais acelerada das actuais tecnologias de comunicação em todo o planeta, graças ao novo salto quântico que implicam a chegada dos processadores com velocidade superior a 1000 Mhz, a imagem tridimensional, as câmaras digitais e os ecrãs planos, o reconhecimento da voz e da imagem e a integração da total interconectividade. Para o fundador da Microsoft, a década de oitenta foi a da qualidade, a de noventa da reorganização, e a primeira década de dois mil será a da velocidade.

Ele questiona-se a respeito da velocidade a que a natureza dos negócios se irá alterar, a velocidade a que os negócios serão efectuados e o modo como o acesso à informação alterará o estilo de vida dos consumidores e as espectativas dos seus negócios. Estima também que os efeitos da reorganização dos anos noventa, são cada vez mais visíveis e em geral, o uso das ferramentas digitais pelo mundo empresarial continua bastante dentro do possível pelo que, em geral, todas essas utilizações se limitam apenas a automatizar procedimentos já antigos. Na sua opinião são muito poucas as empresas que usam a tecnologia digital para criar novos procedimentos que melhorem radicalmente o seu modo de funcionamento, de modo a retirar o máximo benefício das capacidades de todos os seus empregados e para lhes dar a capacidade de resposta que estes necessitam, para competir no emergente e acelerado mundo dos negócios.

A revolução dos microprocessadores está a ponto de criar toda uma nova geração de dispositivos digitais para uso pessoal, como computadores de bolso, PCs a bordo de automóveis, cartões de crédito inteligentes, e outros mais. Ele pensa que no futuro, os dispositivos digitais portáteis nos manterão constantemente em contacto com outros sistemas e outras pessoas. E ainda mais, já que, por exemplo, dispositivos do dia a dia como contadores da água e electricidade, ou sistemas de segurança para automóveis, também ficarão ligados, mantendo-nos constantemente informados sobre a sua utilização e estado de funcionamento. No seu conjunto disse-nos, modificarão radicalmente os estilos de vida e o mundo dos negócios.

Temos ou não temos tempo

Perante a avalancha das coisas que nos chegam é difícil saber se devemos rir ou chorar, se é que chegamos a ter tempo para o fazer. Supõe-se que estas coisas aparecem para tornar a vida mais fácil, mas para já vimos que esse não é sempre o caso e terminamos muitas vezes dedicando-lhes mais tempo do que com elas poupamos.

Supõe-se que na economia moderna o tempo economizado pelas máquinas, ou por aquilo que as substitua, seja digital ou o que quer que seja, deveria ser utilizado em benefício das pessoas que produzem. Mas o objectivo intrínseco do sistema económico é produzir mais e para aí se dirige o tempo ganho. A economia de tempo resulta assim hoje, ou em mais trabalho, ou em desemprego. Agora, e graças à microelectrónica, o modelo parece ter chegado a um limite, já que a economia de tempo gerada por esta é tão grande que parece que não se consiga transformá-la em trabalho, somente em desemprego. Este por sua vez é uma forma desagradável de tempo livre que obviamente muitas pessoas evitam como a peste… enquanto podem.



" (…)A economia de tempo resulta assim hoje, ou em mais trabalho, ou em desemprego.(…)"

 

Outro ponto muito importante e do qual muitos autores raramente se ocupam é que o trabalho é inerente ao homem, independentemente do seu rendimento monetário e que ao vê-lo meramente como produtor ou consumidor poderá render muitos dividendos para alguns, mas a longo prazo desumaniza. Não deixa de ser de alguma forma interessante o caso daquelas pessoas que reduziram a sua capacidade económica a fim de melhorar a sua qualidade de vida, mas é igualmente utópico pensar que essa seria a solução radical do problema de uma forma global. Na nossa opinião, pode funcionar em certos sectores da população com capacidade e conhecimentos para além do financiamento inicial para começar a sua aventura de dar-se à “grande” vida, ou viver se quiser a toda a velocidade, mas daí a ser aplicável a todos, francamente não. Não é o mesmo descer de uma posição de privilégio, por mais cheia de stress que seja, do que subir a uma posição de pobreza com mais esperanças que possibilidades.

É mais importante dar-nos conta que os meios que nos proporciona a tecnologia existem para servir-nos e tornar-nos a vida mais leve, não para nos servir a nós e a eles. Serão bons, dependendo de como e para que sejam usados, já que também podem ser usados para o mal e poupar-nos-ão tempo se soubermos o que de facto queremos fazer com eles e nos farão perdê-lo, ainda que aparentemente se ganhe, se não tivermos realmente uma finalidade clara. De nada vale correr muito se não se sabe o que fazer no final da corrida.


Preocupamo-nos tanto com os meios que esquecemos os fins, em parte porque a sociedade em que vivemos não gosta de objectivos e é muito pouco o que no meio de tanta aceleração nos leva a ir à sua procura. Não há só que pensar em ter mais tempo, mas de forma séria como o vamos aproveitar.

O tempo foge-nos…. e temos que o alcançar, ainda que não haja tempo!

Alfredo Aguilar

Bibliografia:
Getting a Life .- (Viking 1997) Jacqueline Blix y David Heitmiller
Your Money or Your Life - (Pengum 1993) Joe Dominguez y Vicky Robin.
The Overspent American - Upscaling, Downshifting and the New Consumer (Basic Books 1998) Juliet Schor.
The Overworked American - The Unexpected Decline of Leisure (Basic Books 1993) Juliet Schor.
Travail et Hors Travail - Vers Une Societé Fluide .- (Odile Jacob 1998) Charles Goldfinger.
Prisioneiros do Tempo .- (Expresso 1999) Rui Trindade


curso_filosofia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
  Nova Acrópole  
  imagem  
  CURSO FILOSOFIA PRÁTICA
A Sabedoria Viva das Antigas Civilizações
 
   
  Vide Programa do Curso  
 

  ACTIVIDADES n.a. EM PORTUGAL  
 

a

 
  Aveiro  
  Braga  
  Coimbra  
  Lisboa  
  Oeiras-Cascais  
  Porto  
   
  Notícias  
     

  NOVA ACRÓPOLE INTERNACIONAL  

  Anuários  
  Resoluções da Assembleia Geral  
     
  Perguntas Frequentes  
   
     
  Nova Acrópole Internacional  
     

SITES N.A. EM PORTUGAL

Porto
Coimbra
Aveiro
Braga
 

  outros cursos  

   
  Arte de Falar em Público  
  Cursos de Matemática e
Geometria Sagradas
 
  Florais de Bach  
  Outros Cursos  
     

  REVISTA ACRÓPOLE  

   
     

  NOVIDADES EDITORIAIS  

  TÍTULOS PUBLICADOS  
   
 

 
© Nova Acrópole 2009 | Optimizado para monitor 1024X800 | Mapa do site | Webmaster