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The Fountain - O último capítulo, de Darren Aronofsky

Uma reflexão Filosófica

 

 

The Fountain

 

The Fountain, em português, o último capítulo, é um filme de 2006 de Darren Aronofsky. O filme começa com uma passagem do Génesis «Então Deus expulsou Adão e Eva do Jardim do Éden e colocou uma espada flamejante a proteger a Árvore da Vida». Este vai ser o mote do filme. O símbolo da árvore vai impregnar todo o filme, vai ser o seu eixo central. Bem como o Mito de Adão e Eva. A expulsão do Paraíso, depois de comer o fruto da Árvore do conhecimento, não é mais que a queda da alma na matéria. E a árvore numa chave representa o Todo, a nossa origem comum.

No meu entender a mensagem do filme, é o de saber qual o sentido da vida. O filme transmite, recorrendo à Filosofia Antiga, o que é o despertar da consciência. Compreender que estamos encarnados, mas somos Seres Divinos, essa é a nossa verdadeira natureza. Já dizia Platão, que éramos deuses, mas esquecemo-nos. E, uma vez despertada essa consciência, temos o compromisso, e é o nosso destino, regressar à Unidade. É um caminho que todos teremos de percorrer, mais tarde ou mais cedo, só depende de nós o quando. De nós, do nosso Karma e do nosso Dharma. E como fazer esse caminho de volta? Só há um, que pode ser materializado de diversas formas, alinhando a personalidade com a alma.

The Fountain conta três histórias. Estas histórias não são contadas de uma forma linear e podem ser interligadas e vistas de múltiplas e válidas formas, tal qual um caleidoscópio. A forma como vemos este filme depende das nossas vivências, crenças pessoais e da nossa jornada interior.

As histórias apresentadas no filme não são contadas de forma sequencial, mas para facilitar esta reflexão, dividiremos e analisaremos as histórias individualmente. Essa não linearidade apresentada no filme reflete que na realidade não existe um passado, presente ou futuro.  

The Fountain

 

A primeira história apresentada é a de Tomás Verde e da Rainha Isabela. Esta história não tem fundamento histórico, é uma pura ficção. Decorre no Século XVI, Tomás é um fiel servidor da Rainha Isabela de Espanha.

A rainha tem o seu poder ameaçado pela inquisição e pede a Tomás, disposto a morrer por Espanha e por ela, que a salve encontrando a Árvore da Vida, que acredita que se encontra na América, na Nova Espanha.

Isabela promete-lhe que se conseguir cumprir a sua missão ela será a sua Eva, e como compromisso entrega-lhe um Anel, que deverá usar quando encontrar a Árvore da Vida. A expedição é um fracasso, Tomás perde quase todos os seus homens, e os que sobram rebelam-se contra ele, enfrenta-os e mata-os.

O monge franciscano, o seu guia, é morto durante a rebelião, mas entrega-lhe o punhal, que é mapa para o templo, onde está a Árvore da Vida. Tomás, e os dois camaradas restantes, entram no templo, mas no momento do combate final, os dois camaradas fogem e são mortos. Tomás recusa fugir e enfrenta a multidão, não morre, e é levado ao sacerdote maia, que o vai sacrificar dizendo-lhe que, a morte é o caminho para o renascimento. Tomás é ferido no abdómen, mas leva consigo o punhal e o sacerdote reconhece-o como representante do Primeiro Pai maia. E entrega-se para ser sacrificado. Tomás tem assim acesso à Árvore da Vida. Espeta-lhe o seu punhal e quando sai dela a Seiva, bebe-a, tenta colocar o anel, mas deixa-o cair e é absorvido pela Árvore, passa a fazer parte da criação.

No meu entender Tomás voltou à Natureza, mas não adquiriu consciência da sua natureza divina, por isso não conseguiu colocar o anel. O anel, neste caso, representa o alinhamento da personalidade com a alma, e o compromisso de regressar através desse alinhamento à Unidade. Mas esta história dá a entender que a personalidade, que será Tomás, está muito longe da alma, Rainha Isabela. Podemos observar em várias cenas. Nomeadamente, na maneira como Aronofsky utiliza a luz. Tomás encontra-se nas sombras e Isabela na luz. Tem um painel que os separa que não deixa que contactem directamente, excepto no momento do compromisso, em que ele se ajoelha e ela lhe toca na cabeça, como se o abençoasse e entrega-lhe o anel.

Este período está associado ao triângulo, aparece no punhal, na bolsa onde guarda o anel, no templo em forma de pirâmide. O triângulo numa chave apela ao início, é a forma geométrica primordial, e no fundo é o que representam Tomás e Isabela neste filme. O triângulo significa também para nós hoje, que julgamos que somos muito mais evoluídos que os pagãos, a verdadeira ligação que estes tinham com o Céu. Não só com as estrelas, mas também com a divindade. Mas, o triângulo, pode significar noutra chave, nomeadamente no punhal a forma e a função de chave que abre caminhos e portas: mapa que mostrando o caminho abre-o, que abre o ventre de Tomás, que rasga o pescoço do sacerdote, que perfura a árvore da vida. Arma que representa a acção, símbolo da Acção criadora, que deve estar ao serviço da Alma e do Divino. Note-se que quando Tomás tenta usar a sua arma (a besta também ela triangular) para destruir o Inquisidor (símbolo do Karma, da matéria em conflito) Isabela impede-o, ordenando-o que não o faça, porque essa morte conduziria ao seu suicídio.

The Fountain

A segunda história passa-se no Século XXI, em 2005. As personagens principais são Tom Creo e a sua mulher Izzi. Ele é um neurocirurgião que busca obcecadamente a cura para o cancro. Izzi está a morrer de cancro. Tom dá preferência à investigação em prol de passar tempo com a sua mulher. Na Busca da cura Tom faz experimentações com um macaco, Donovan, e tenta a cura recorrendo a uma amostra de um composto de uma velha árvore da América Central. E obtém resultados a nível da cura do envelhecimento.

Entretanto Iizzi está a escrever um livro, com o título de Fountain, sobre um conquistador espanhol e a sua rainha Isabela. E assim enquadra-se a primeira história deste filme nesta segunda. Izzi investiga a cultura maia, o mito do Pai Criador e da Xibalba. Xibalba é o local, onde segundo os maias, as almas vão para renascer. E, olhando o céu, encontra uma nebulosa, envolvendo uma estrela moribunda e que é Xibalba. Ela sabe que não consegue terminar o livro e pede a Tom que escreva o último capítulo, mas ele diz que não consegue, que não sabe como termina. Izzi acaba por morrer, num estado de graça e aceitação, Tom, pelo contrário, não aceita e promete curar a morte.

Esta história mostra como duas pessoas lidam de maneira diferente com um mesmo desafio. Ele, com um materialismo científico acredita que consegue salvá-la e ela pela busca espiritual alcança a paz e a aceitação.

O filme mostra diversas cenas que demonstram esta ideia. Tom perde a sua aliança, representando não só o compromisso com Izzi enquanto sua mulher, mas também enquanto símbolo da sua alma. O realizador continua a jogar com as sombras e a luz, para mostrar as duas atitudes antagónicas. O macaco simboliza a ligação com o nosso Eu Animal em oposição ao Eu Divino. Faz também alusão ao mito do progresso interminável. Esta história é banhada pelo quadrado e pela cruz. O quadrado, mostra uma mente limitada e demasiado estruturada, que não vê para além das arestas. A cruz simbolizando, não só o espirito encarnado na matéria, mas também as posições opostas de Tom e Izzi, ela ligando-se verticalmente ao céu e ele com uma postura terrena, agarrado à ciência, o único ponto de interceção, é o amor que sentem um pelo outro.

Estas formas geométricas aparecem no laboratório e no hospital, domina os cenários, nomeadamente quando Tom olha para cima, e recebe uma intuição de como salvar o macaco Donovan, a cruz aparece quando Izzi deixa o laboratório e a porta faz uma cruz. Aparecem também cruzes a revestir os vidros do quarto do hospital. Quanto ao número do quarto – 620 – é destacado várias vezes. Numa chave possível, 6+2 = 8 = 4+4, duas cruzes que se entrelaçam e que dão o 8, o infinito. Noutra chave o 2 (Tom) representa a luta dos opostos, corpo-alma, enquanto que o 6 (Isabela, a estrela de 6 pontas) representa a harmonia dos opostos. Aparece mais uma vez a arma, que mencionámos supra, que representa a acção e que surge novamente na personalidade de Tom Creo (com o seu bisturi) Símbolo da Acção criadora, que deveria estar ao serviço da Alma e do Divino, mas que nas mãos de Tom está quase sempre ao serviço do material e que por isso só provoca dor e destruição.

The Fountain

A terceira, e última história, é a de Tom. Em 2500, Tom viaja sozinho numa nave espacial esférica com uma árvore moribunda no seu interior. Viaja pela nebulosa Xibalba e alimenta-se da árvore. Durante a viagem faz Tai’chi e tatua no seu braço círculos negros com vários desenhos, que se assemelham aos círculos no interior do tronco de uma árvore. É a árvore que o mantém vivo, vai comendo pequenos pedaços da casca, como se fosse a Sagrada Comunhão. Mas Tom repete os rituais religiosos (comunhão) e energéticos (Tai’chi) ainda de forma mecânica e materialista, ou seja sem tomar ainda consciência da verdadeira essência, que Izzi lhe segreda. O nome Izzi (acrónimo de easy, fácil), apela para a máxima “as grandes verdades são simples”, é a nossa mente racional que as complica. Izzi, pode também ser uma alusão à Deusa Isis, enquanto Grande Mãe ou Eterno Feminino. E Tom continua em conflito, não consegue terminar o livro e Izzi continua a aparecer-lhe e a pedir que termine, quase como uma assombração. Num momento de tomada de consciência e aceitação da sua verdadeira natureza, segue a sua alma, Izzi, e a partir daí todas as vidas estão ligadas e volta à Unidade conscientemente, apanhando o anel. Dá ideia que Tomás, Tom Creo e Tom são o mesmo. Faz alusão à teoria da Reencarnação, e à eternidade da alma. Chama a nossa atenção para a questão da Alma Gémea, não num sentido material de posse, mas de companheiros de uma jornada de alma. Esta parte do filme está impregnada pela forma esférica aludindo à unidade e totalidade.

 

The Fountain

 

Em conclusão, the Fountain, o último capítulo, é um filme complexo, mas ao mesmo tempo simples, pois aborda Verdades Atemporais e Universais. Nomeadamente, de que estamos presos na matéria, mas a nossa essência é divina. Somos eternos, morremos para renascer. Aborda a temática das almas gémeas e da reencarnação, de que todos somos um, estamos todos ligados à mesma árvore. A Batalha é conquistar-se a si próprio, reconhecer a nossa essência divina e voltar à Unidade. Esta conquista implica acção, ao serviço da Alma e nunca governada pela matéria, o anel não nos cai do céu temos de buscá-lo e lutar por ele. Nas palavras do fundador da Nova Acrópole o professor Livraga, «A alma é como uma águia presa numa gaiola, observando o mundo distorcido e fragmentado. Mas em sonhos concebe “as alturas”, que são os ideais da alma e o seu potencial ascendente.»

 


Agosto de 2014
Margarida Mourão

 

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