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Os Últimos dias de Emmanuel Kant

“SE VALE A PENA VIVER, E SE A MORTE FAZ PARTE DA VIDA ENTÃO MORRER TAMBÉM VALE A PENA” Emmanuel Kant

Este artigo baseia-se no curioso texto de Thomas De Quincey, “Os últimos dias de Emmanuel Kant”, que relata com todos os pormenores o final da vida deste grande filósofo prussiano.

Quando uma vela brilha com toda a intensidade, iluminando a obscura caverna deste mundo, e pouco a pouco, a sua chama vacila e lentamente se apaga com as últimas palavras ditas em forma de despedida: «Sufficit» (é suficiente), dificilmente podemos crer que esta chama desapareceu. Já sem forças, exausto por não poder manter a postura digna e cortês que sempre o caracterizou, Kant, com 80 anos de idade, despediu-se do mundo no domingo, 12 de fevereiro de 1804, neste dia do sol e de descanso, o mestre deixava de forma definitiva a sua querida cidade de Koenigsberg para se juntar ao cortejo das almas estelares.

Kant era a encarnação do “Homem Arquétipo” de Platão, um modelo universal daquilo que qualquer ser humano pode alcançar fazendo uso da sua inteligência. Nunca precisou de nenhuma crença para chegar ao céu dos justos, praticou o bem e amou a humanidade dedicando-lhe toda a sua vida. Negou-se a viver na incerteza e na dúvida que corrói a mente. Escolheu o sacrifício de uma vida íntima e cómoda em benefício do melhoramento moral da família humana e de forma pontual expressou o seu serviço ao Deus impessoal do Bem comum. Encontrou com o seu próprio esforço e uma disciplina monástica o caminho justo, seguiu o imperativo categórico de salvar o homem dos seus mais baixos instintos e durante os seus 80 anos de existência foi considerado “o mais regular dos verbos regulares”, uma linha recta e uma vida perfeita, tão perfeita que custa a acreditar que fosse verdade. Kant dizia que não deveríamos procurar a felicidade mas antes esforçar-nos para ser dignos de a merecer. Assim foi, nunca procurou a fama, o prestígio, a fortuna e não lhe faltou oportunidades de valorizar-se profissionalmente. Dos louros académicos deu prioridade ao ensino e à escrita das suas obras-mestras: a “Metafísica dos Costumes” e a “Crítica da Razão Pura”.

 

"Kant era a encarnação do “Homem Arquétipo” de Platão, um modelo universal daquilo que qualquer ser humano pode alcançar fazendo uso da sua inteligência."

 

Esta “razão pura” é na sua essência verdadeira e universal, sem desvios egoístas, estrela guia da boa vontade que manifesta a livre expressão do dever como mandamento superior, Kant dizia “age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal”. Esta razão pura, divina formula matemática que calcula cada passo, cada ação, é o ideal de uma vida sábia que Kant chamava a razão prática que não deixa espaço para o devaneio e o acaso. Para alcançá-la são necessárias três posturas mentais: Primeira etapa, pensar por si mesmo; segunda etapa, penetrar no pensamento dos outros; terceira etapa, pensar sempre em conformidade com a consciência.

Vamos analisar a primeira etapa: pensar por si mesmo. Devemos tomar consciência de que muito daquilo que nós pensamos não nos pertence, são meras opiniões, ideias feitas ou preconceitos que alojamos na nossa mente e que julgamos ser nossos. Não devemos viver com o falso saber e procurar pensar e compreender por nós próprios, em vez de sermos pensados pelo exterior.

Segunda etapa: Penetrar nos pensamentos dos outros. Uma vez liberto das ideias pré-concebidas que nos obstruem a visão da realidade podemos aprender, graças à escuta activa do mundo circundante, enriquecendo-nos com os outros, já que ninguém é dono da verdade absoluta, o diálogo permite alargar e completar as nossas ideias e dar essa abertura de espírito. Sobre esta prática de convivência de ideias, Kant tinha por hábito reservar sempre o momento do jantar para convidar pessoas de todas as vertentes sociais ou intelectuais e assim recrear diariamente o espírito dos banquetes gregos, partilhando os mais diversos assuntos e curiosidades tais como a geografia, a biologia, a meteorologia, o jornalismo e a política e muitos outros assuntos com o cuidado de não obstruir ou limitar as conversas num sentido único. Ele próprio dizia que os convidados deviam ser não menos que as Três Graças e não mais que as Nove Musas, e sempre devia ser constituído por uma assistência de adultos e jovens.

 

"Kant afirmava que o pensamento deveria estar sempre em conformidade com a consciência, com o mandamento da vontade ou o dever que a nossa razão reconhece como justa. Devíamos poder expressar-nos sem entraves, com total disponibilidade e liberdade interior, isto significa sem conflito entre o eu pensante e o eu actuante, porque a consciência é a presença do espírito em tudo aquilo que fazemos."

 

Kant iniciava o dia com o seu despertar às 5 horas da manhã em ponto, fumava o seu cachimbo acompanhado de uma bebida quente e iniciava o seu dia de trabalho dando aulas, estudando ou lendo, após uma curta interrupção ao meio da manhã, seguia-se o seu passeio às 15 horas da tarde, tão pontual que as pessoas acertavam os seus relógios quando o viam sair. Continuava as suas ocupações até ao jantar, que constituía a única refeição do dia. Às 10 horas da noite retirava-se para o seu quarto e dormia enrolado numa manta que o fazia parecer uma múmia, evitando assim qualquer resfriado.

Kant afirmava que o pensamento deveria estar sempre em conformidade com a consciência, com o mandamento da vontade ou o dever que a nossa razão reconhece como justa. Devíamos poder expressar-nos sem entraves, com total disponibilidade e liberdade interior, isto significa sem conflito entre o eu pensante e o eu actuante, porque a consciência é a presença do espírito em tudo aquilo que fazemos. Para podermos responder pelas nossas ações necessitamos conhecer com claridade o nosso propósito e poder deste modo realizá-lo sem prejuízo dos demais. Querer, saber e poder são três verbos que conjugam com o pensamento de Kant. Querer é a Boa Vontade, o Ser que chama a vida. Saber é a luz-guia que conhece o caminho porque é o caminho justo. Poder é a liberdade de acção para cumprir o plano divino em nós. Kant dizia “Duas coisas enchem-me a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento se ocupa delas, que são o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.”

No fim da sua vida Kant adoeceu perdendo pouco a pouco a lucidez que o acompanhou durante toda a sua existência, a doença tinha sido considerada para ele mais dolorosa que a própria morte, pois esta era irreversível, enquanto que a doença representava um estado inconstante e imprevisível. Quando lhe preguntaram se ele preferia acreditar na perspectiva de uma vida eterna para a alma ou numa extinção definitiva de todas as faculdades de percepção, ele respondeu que preferia a morte como fim de tudo, em vez de uma crença de duração eterna baseada na incerteza. Apesar destas palavras poderem supor que Kant teria uma visão materialista, na realidade nunca o foi, meramente viveu em cada um dos seus dias a vida de cada um de nós expressado no seu pensamento humanista e universal.

 

Françoise Terseur



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