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A Verdade e a Mentira
Certo dia, o último da Idade de Ouro, a Mentira surpreendeu a Verdade enquanto dormia; arrebatou suas alvas vestimentas, revestiu-se com elas e, assim constituída, tornou-se a única soberana da Terra.
O mundo, seduzido pelo falso brilho da Mentira disfarçada de Verdade, perdeu a sua primitiva inocência, renunciando a toda a Sabedoria, a toda a probidade e a toda a justiça. Expulsa e menosprezada, a Verdade rendeu-se desde então à Mentira, que lhe usurpara o nome e o culto. Tudo o que a Verdade dizia era considerado falso e tudo o que fazia era julgado como a mais intolerável das extravagâncias. A despeito, pois, dos seus legítimos privilégios, a Verdade chegou a suplicar que a ouvissem, mas foi rechaçada com maus modos, em todos os lugares que visitou. Houve até um insolente que se atreveu a qualificar de libertinagem a sua casta e ingénua nudez! «Vai-te para longe daqui, mulher abominável. Como te atreves a aparecer nua diante dos nossos olhos púdicos! Jamais conseguirás seduzir-nos com os teus absurdos!»
A Verdade, convencida de que a Humanidade a execrava, foi para o deserto. Nem bem havia chegado, encontrou perto de umas sarças as espalhafatosas roupas que a Mentira havia abandonado quando roubou as suas e, como não tinha outras, vestiu-as ficando assim a Verdade disfarçada com a roupa característica da Mentira…
Assim transformada, pôde retornar para junto dos homens que a acolheram com espanto e alegria. Os mesmos que antes se tinham escandalizado com a sua nudez, foram os que melhor a receberam sob esta nova aparência e com o belo nome de fábula, ou «parábola», que ela adoptou.
Mario Roso de Luna
Filósofo e Escritor Espanhol
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