Vislumbres do Eterno e do Moderno
Eis que quando uma onda reflecte, recua e parece duvidar, outra se lança para a costa, sempre nova e sempre crente. É uma vontade que nunca abandona a sua aplicabilidade ou compromisso, e na sua acção, total e eterna, alheia ao seu periódico projecto individual, sabe beijar a costa e dar lugar a outra, não nega as ondas futuras, mas abre-lhes caminho na alegria de regressar ao seio da unidade inabalável do oceano.
Da mesma forma, o ano que termina sabe dar lugar àquele que começa, mergulhando no passado que é sempre futuro, e por isso, sempre presente, sempre eterno. Também o Homem que nasce e renasce a cada dia, tal como o ano, infiel ao seu passado, foge, transforma-se, renova-se, abre caminho para os demais, crente nas novas pegadas que deixará no mundo. Mas quando o tempo e a necessidade reclamam o seu regresso, o seu fim, não ocupa o lugar daquele que o deve substituir, não o critica, pois deixar de compreender aquilo que é novo é envelhecer. Algo em nós quer morrer e levar consigo a eternidade, e é esse algo que devemos renovar, em nome da vida e do futuro. Quem envelhece cedo envelhece porque quer, é como um céu que recusa um novo sol, uma onda que morrendo na praia não recua, um homem que só compreende a sua geração, só aceita o dia anterior, e incapaz de se esforçar e de pôr-se ao serviço do Todo, alheia-se de amar o novo. A juventude ficou lá atrás, como uma lança encostada a uma alta coluna, mas novas juventudes aparecem, novas ideias e novos sonhos obrigam-nos a avançar.
O novo ano ensina-nos sempre, a bem ou a mal, a necessidade de sermos eternamente jovens, de enfrentar desafios e de nos aproximarmos mais e mais dos nossos sonhos. Recordemo-nos de que o céu nocturno se enche de sangue sempre que um novo dia começa, sempre que um novo sol substitui o anterior, mas ilumina-se à medida que ele passa. Uma rocha é ferida pelas vagas marítimas, mas brilha mais e mais na medida em que as suporte. As novas dificuldades são, por isto, o nosso maior prazer, pois libertam-nos da temporalidade, da petrificação e do medo, fazem-nos jovens, como ondas sedentas de conquistar a costa e como a costa ansiosa por receber o mar.
Desejamos aos Filósofos naturalmente Homens e aos Homens naturalmente Filósofos, que este novo ano se desenrole como uma nova juventude, um novo impulso e uma nova visão do tempo e da sua pluralidade.
Uma nova onda surge a cada novo ano, quem e perceber que mergulhe nela, porque a quem faltar coragem ou humildade, paralisado frente à sua grandeza, apenas restam o embate, a falta de ar e a falta de chão. O pretérito é uma coisa terrível para quem não tem amor pelo futuro. Mas há esperança. Se Janeiro nos grita algo, esse algo é «Futuro!», sim, ele ainda existe, tal como o Passado e tal como o Presente. Há que aprender a amar o tempo, há que aprender a renovar-se e a escolher a eternidade de todos os momentos, e não apenas daqueles que conhecemos. Porque em boa verdade, o que sobra quando, uma após outra, as ondas recuam para o mar? O que sobra quando, um após outro, os anos chegam ao fim? O que sobra quando, um após outro, desencarnam os homens? Sobra o Oceano, sobra a Eternidade e sobra Deus.
Ricardo Louro Martins
In newsletter nº 3 - PÉGASO Janeiro 2014