“Onde está a alma do poeta? Sabemos que penetra num mistério onde todos os ecos da natureza lhe emprestam a sua voz e a sua alegria, e também o seu sofrimento.

É a Alma, é a Mãe do Mundo quem beija e bendiz a sua testa, abrindo-a aos sonhos impossíveis, quem beija e bendiz os seus olhos que tantas lágrimas de beleza chorarão, quem beija e bendiz a sua boca, que não mais lhe pertence pois a sua voz é agora a voz do céu e da terra, num íntimo e jamais compreendido abraço.”

É difícil falar do caminho de toda uma vida de poeta. Mas é fácil e natural, expressar gratidão pelo dom da sua alma, pelas flores da sua vida interna, que são os seus cantos. É difícil e no entanto natural, sempre natural, manter erguida a chama da autenticidade no meio das trevas vazias, no meio do labirinto e do cansaço, não do tempo vivido, mas dos sonhos frustrados que esse tempo vivido tornou numa maldição. Os ventos da vida vão querer arrebatar o fogo que tu transportas. Quererão apagar a sua chama suma, num silêncio desesperado e angustiante. Nesse vazio, onde as rosas não brindam com o seu perfume, nem a palavra «obrigado» é repetida, não se ouve o sussurro de um «quero-te», num silêncio que não é de ouro e no qual as estrelas parecem tão distantes que o seu sorriso de luz nos é alheio. Não sabemos, é o grande segredo, onde se encontra a alma do poeta, pois parece irmã dos astros e da lua, do murmúrio das fontes e das brisas que estremecem o arvoredo, mas também do Sol, e do sangue que corre, do sorriso da criança e do grito de angústia de todos os que sofrem.

Onde está a alma do poeta? Sabemos que penetra num mistério onde todos os ecos da natureza lhe emprestam a sua voz e a sua alegria, e também o seu sofrimento.

É a Alma, é a Mãe do Mundo quem beija e bendiz a sua testa, abrindo-a aos sonhos impossíveis, quem beija e bendiz os seus olhos que tantas lágrimas de beleza chorarão, quem beija e bendiz a sua boca, que não mais lhe pertence pois a sua voz é agora a voz do céu e da terra, num íntimo e jamais compreendido abraço.

É poeta, e é nosso poeta, a quem rendemos homenagem, quem sabe que «sonhando se nasce e se fenece / sonhando se constrói, como uma prece» e que «a vida arrulha-se encantando-se a si mesma»; quem bebe de todos os cálices encantados que a vida lhe brinda, pois a sua alma diz: «Eu era a alegria, o sol, o vinho / era a seiva dos bosques e a fonte / Estava desnudo, dançando no caminho / nascido da manhã, rumo ao horizonte (…) Tudo era música no meu coração».

É poeta, e é nosso poeta, quem diz «enamoram-me as águas que murmuram», e, quem sabe que existe «uma rosa que os olhos não alcançam», quem diz ao Único, ao Senhor de toda a Vida, «que a tua lança me trespasse o peito». Aquele que, como Ibn Arabi, segue a senda do Amor e a ela se entrega, na ara do destino: «Está escrito! / Uma estrela súbita / há-de rasgar as entranhas do espaço / e cravará no nosso peito o amor / que não conhece sujeito nem cansaço».

Pois o poeta é «filho das forças e das vozes / que habitam no deserto misterioso» e é quem sente, como sentimos quando o Sol raia no horizonte e golpeia, despertando a nossa alma que «a campainha do amor / toca nas entranhas da manhã».

E não quero, neste artigo, mencionar mais versos que o leitor deve ler na sua intimidade procurando a alma secreta do poeta e quem sabe, também assim, a sua própria alma. Pois é uno o fio que trespassa e tece a vida e a existência e que o tear do tempo converte no seu tecido de infinitas cruzes, em encontros e despedidas, em esperanças e ilusões; e sempre tu e eu, ele e tu não somos senão o Nome misterioso e eternamente pronunciado. Sabemos assim que a verdadeira solidão, a de ouro e aura feliz, não é senão a verdadeira e fértil natureza, o espelho mágico em que todos vivem, como vive o amado nos olhos da amada: «Dizer que os teus olhos são o mar…».

Adalberto Alves deve ser dos poucos que, chegados ao Outono da sua vida, sabem que dentro de si arde uma chama de perpétua juventude, a conquista de se ter caminhado a si próprio.

Chama que no seu olhar se expressa com serena melancolia e compreensão, a de quem se reconciliou, depois de uma vida de combates, com o severo olhar do Tempo, pai de todos os Deuses.

Jurista de profissão, apaixonado pela música, (estudou violino e guitarra clássica), incansável viajante, árabe de coração e quem sabe nas suas lembranças; reivindicou, estudando em profundidade, a vida do Rei Iniciado Ibn Qasî e do também Rei e poeta Al-Mutamid.

Enamorado, como todo o místico, dos resplendores da sua própria alma, que se descobrem depois na alma de tudo quanto vive, estudou desde os tesouros da “espiritualidade sufi” até aos “ensinamentos do Bhagavad Gitâ hindu”. Tem, sem dúvida, alma de renascentista, porque nada humano lhe é alheio e aprofunda tanto os mistérios de jardinagem como o simbolismo do comportamento animal, verdadeiro amante de zoologia, na sabedoria dos eremitas do deserto – ou dos morábitos do Portugal Islâmico – ou nas entrelinhas do discurso de Krishnamurti, no qual desaparecem amante e amado, mestre e discípulo, ficando o homem desnudo, envolto pelo silêncio.

Vários livros da sua poesia são testemunhos da sua passagem rumo ao Desconhecido, dos seus íntimos diálogos com a Vida: Uma Obscura Visão; Oriente de Mim; O Gume e o Tempo; No Vértice da Noite; Irão, Viajem ao País das Rosas e Noite do Destino.

Enamorado da cultura árabe, estudou a sua língua na Universidade Nova de Lisboa sendo hoje um dos arabistas mais eminentes e conhecidos de Portugal. Fruto desse amor e dessa procura são os livros: O Meu Coração é Árabe; Al Mutamid, Poeta do Destino; Ibn ‘Ammâr Al-Andalusî, o drama de um Poeta, Portugal e o Islão Iniciático, Em Busca da Lisboa Árabe, As Sandálias do Mestre (sobre a vida de Ibn Qasi), Arabesco (acerca da música árabe e música portuguesa).

Tão pouco lhe é alheio o género literário dos contos e por isso a sua obra: A Pega Azul e Seis Historietas Mais; e os estudos historiográficos da sua profissão: História Breve da Advocacia em Portugal.É conferencista habitual em várias Instituições portuguesas, europeias e dos países árabes. Entre elas, podemos destacar, sem querer cansar o leitor: Westminster University (Londres); Universidade Ain Chock (Casablanca); Universidade de Sebha (Líbia); Universidade Católica (Lisboa); Universidade Nova de Lisboa; Universidade Clássica de Lisboa; Universidade Rey Saud (Riyadh); Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa).

Estas são, enfim, algumas das pegadas de um caminhante, que por ser místico e poeta, é realmente desconhecido; pegadas esforçadas e fecundas, testemunhos luminosos da passagem de uma alma enamorada em direcção a Deus, como uma flecha lançada ao coração de tudo o que vive. Um exemplo para todos nós que, tantas vezes, como quem se perde no deserto, caminhamos em círculos para chegar a parte alguma. Existe um íman oculto, uma atracção permanente pelo sagrado, fonte de toda a beleza, verdade, bondade e justiça, e a vida, os versos e os livros de Adalberto, não fazem mais do que dirigir o olhar… e os seus passos para esse íman.

MAHAN

Palácio do Príncipe Baq-e-Sháhzdeh

jardim:

gabo de dia o teu palácio

mas é à noite que eu te amo:

ciprestes banhados de luar

hortas viçosas beijadas pelo orvalho.

namoro as águas murmurantes

e sou pela tua brisa visitado.

à noite o encontro é mais secreto:

canta o rouxinol as almas dos poetas

diz-me jardim:

que distinção alcanças entre teu ser

e a substância da minha própria alma?

quando vagueiro nas tuas alamedas

o jardim sou eu e o poeta és tu!

 

In Irão – Viagem ao País das Rosas (pag.71)

 

José C. Fernández

Director Nacional da Nova Acrópole

In Revista Acrópole nº 3