I. A Tradição

A tradição fala-nos do nascimento de Afrodite da branca espuma do mar, embalada numa concha; o vento empurrou-a para Chipre onde as Horas lhe colocam um colar resplandecente e uma coroa conduzindo-a, posteriormente, até ao Olimpo.

Frequentemente o sentido da mitologia é desvalorizado. Observações superficiais podem confundir o investigador, que pode cair no erro de tomar os elementos poéticos de segunda mão pela verdadeira crença dos povos.

Vemo-nos obrigados, então, a recordar que o verdadeiro conhecimento sobre os Deuses somente era comunicado nos ritos teúrgicos da Iniciação. Não foram poucos os estudantes que ficaram assombrados com palavras misteriosas nos livros de Platão, e alusões não menos misteriosas à necessidade de não se falar em público dos temas divinos. A poesia somente nos dá uma imagem superficial e esterilizada ex professo. Só a comparação, a analogia e a síntese nos dão a verdadeira medida… no caso improvável de se conseguir discorrer o véu.

“Ou seja, a parte geradora do Deus do céu cai nas águas, o raio espiritual vitaliza as águas da matéria; e isto porque não podemos cair no erro antropomórfico de acreditar nos Deuses como sendo semelhantes aos homens.”

Hesíodo diz que Afrodite nasce da espuma, mas de uma espuma muito especial, formada pela queda do sexo de Uranos ao ser mutilado pelo seu filho Cronos. Ou seja, a parte geradora do Deus do céu cai nas águas, o raio espiritual vitaliza as águas da matéria; e isto porque não podemos cair no erro antropomórfico de acreditar nos Deuses como sendo semelhantes aos homens.

A tradição conta-nos dos muitos amores de Afrodite com Deuses, Heróis e Homens, que podemos interpretar como a dação do atributo divino do Amor nos diversos níveis, falam-nos, inclusive, do rapto de Fáeton, filho do Sol e da estrela de Alba e do entardecer (Vénus).

II. A Espuma

Vimos a espuma surgir do choque da parte geradora do céu, o raio, sobre as águas. Mas a espuma em si é já um hino a Deus.

As ondas são ondas sinusoidais que, como todas as ondas, não transportam matéria; a água não se traslada, o que é transportado nas ondas é uma mensagem, mensagem que vem de centenas de quilómetros e morre aos nossos pés, na praia. A onda traz uma mensagem e ao entregá-la quebra-se, dá-se. (Fig. 1)

Ao chegar à margem, a sinusoide encerra-se de novo no círculo primordial do qual saiu (recordemos que a sinusoide é um movimento circular desenvolvido). O que poeticamente dissemos de entregar uma mensagem (Fig. 2) converte-se na destruição de algo tão perfeito e formoso como uma onda, que viaja numerosos quilómetros quase sem gasto de energia, convertendo-se em Caos de espuma ao quebrar.

No quebrar da onda, no entregar do seu esforço à terra, dá-se um fenómeno de Amor: o elemento Água entrega-se ao elemento Terra. Mas pela lei das compensações, na sua dação, na sua entrega, na sua auto-imolação encontra o prémio ao ser beneficiada pela sua mistura com o elemento superior, o Ar. Assim, formam-se milhares e milhares de bolhas que, iluminadas pelo sol (elemento Fogo), dão a cor branca. De uma forma estranha forma-se a eterna cadeia mística, em que o superior se sacrifica, por amor, em prol do inferior.

Cada bolha, cada pompa é uma maravilha da natureza; forma-se durante um período de tempo muito curto e pela combinação de duas tensões superficiais, a interna e a externa, mantendo um equilíbrio entre a pressão interna e a externa. Muitos factores influenciam, desde a composição da água e das suas substâncias em solução, até à solução da água no ar (humidade) e os agentes externos perturbadores. A bolha adopta a forma perfeita, como afirma Platão, que, por sua vez, tomou a afirmação de Pitágoras. A esfera é a forma perfeita por natureza e quando não pode assumir essa forma adopta outra o mais perfeita possível (Fig. 3). Terá relação com Afrodite Morfo, a da perfeição no plano formal, que era adorada em Esparta?

Hoje em dia estuda-se, em Engenharia e em Arquitectura, a espuma de sabão em diferentes circunstâncias, já que esta permite o perfeito equilíbrio de forças e dá a forma mais económica em material e superfície sendo, ao mesmo tempo, a mais resistente.

As bolhas são transparentes, mas… quando a luz incide na sua superfície, produzem-se milhões de irisações, reflexos das cores mais formosas, e ao se conjugarem as de milhões de bolhas forma-se, por combinação, o reflexo branco níveo e luminoso, símbolo da pureza.

III. A Concha

Expressão da matriz, conjuga em si um complexo conjunto de mensagens ao olho atento daquele que quiser ler no livro da Natureza.

O homem rudimentar, quase animal, somente entende a recta; acredita no que sobe ou no que desce, acredita – tal como os seguidores do materialismo – na recta de crescimento (ver a teoria do Materialismo Histórico). O homem com mais clareza mental compreende a curva; acredita no nascimento, apogeu, decrescimento e morte; são os fatalistas que vêem em cada criança o futuro ancião enfermiço embora já não incorram no erro de crer que toda a criança continue a crescer até explodir. (Fig. 4)

O homem um pouco superior concebe o ciclo, a sinusoide, a vida e a morte como uma mesma coisa. (Fig. 5)

Na natureza, a sinusoide expressa-se muitas vezes na helicoide quando entra na terceira dimensão espacial. Assim, o ADN e o ARN, fundamentos da vida, são helicoidais. Também o sublime Hesíodo compôs a sua teogonia ao pé do Monte Hélicon (casualidade?). E o mundo Elemental manifesta-se através da helicoide e da espiral. Na Fig. 6 vê-se o fundamento espiral de uma concha e na Fig. 7 diversas conchas com a sua estrutura logarítmica.

A espiral preenche tudo no espaço e a nossa galáxia, como as restantes, forma uma espiral. O nosso sistema solar está totalmente rodeado pela órbita dos cometas, que formam entre elas uma tremenda espiral (Fig. 8). Ao mesmo tempo, a concha é a matriz protectora, rugosa e dura por fora, e com o nácar puríssimo que embala a pérola por dentro.

Nas representações de Afrodite vemos outro exemplo da natureza germinal, geradora, dadora de vida: a Vénus de Milo vê-se girando sobre si mesma em forma de espiral, a sua parte superior despida e a inferior coberta, como se surgisse para cima abandonando as roupas. De alguma forma é o símbolo da alma que abandona as roupagens da matéria e também das duas Vénus mencionadas por Platão e posteriormente explicadas por Plotino.

“A espiral preenche tudo no espaço e a nossa galáxia, como as restantes, forma uma espiral”

IV. As diferentes Vénus

Diz Plotino que a nossa Alma tem – na sua natureza de crucificada entre o Uno e o Múltiplo – dois movimentos. O movimento ascendente rumo ao Uno, ao Real, ou seja, a contemplação; e outro rumo ao Múltiplo, ao ilusório, para pô-lo na ordem do superior já captado e entendido: é o movimento de amor e entrega para o inferior que se manifesta pela Organização.

O movimento para o alto e o movimento para o inferior são inerentes à natureza da alma e ambos são necessários.

Também nos fala do Amor, a tendência para o Uno, para Deus: esta é a Vénus Urania, ou celeste e divina, ou seja, libertadora.

“Diz Plotino que a nossa Alma tem – na sua natureza de crucificada entre o Uno e o Múltiplo – dois movimentos”

Por outro lado, como ainda somos incapazes, no nosso estado evolutivo, de percepcionar o Uno a não ser superficialmente, procuramo-lo na multiplicidade. Como quem admira Beethoven pela beleza das suas obras, mesmo quando lhe é impossível conhecê-lo pessoalmente. Assim é aquele que busca Deus nas suas obras, amando humanamente; este amor profano seria Vénus Pandemos.

O perigo do amor profano vê-se claramente no culto que em Argos se professava a Vénus Tumborichos, a que cava a tumba.

O sentido esotérico e oculto vê-se na Vénus Maleinis, a sombria.

V. Vénus

O planeta Vénus, estrela ou luzeiro da alvorada, é desde sempre o símbolo de Lúcifer, o anjo caído, o Prometeu mitológico, aquele que por amor aos homens lhes entrega a chispa e o fogo dos Deuses, por outras palavras: o que entrega o discernimento ou chispa mental ao proto-humano que, por essa razão, entra no reino humano.

É o mesmo tentador do paraíso na mitologia judaico-cristã, o que faz provar o fruto do bem e do mal, ou seja, o elemento que discerne, a mente dual que diferencia e separa, analisa e compara. Por isso deve cair, deve viver pendente da humanidade-criança, até que supere o trânsito humano, simples ponte instável entre o animal e o super-homem.

É a imagem do Prometeu agrilhoado, que sofre o martírio diário de viver em contacto com os humanos, até que surja de entre os homens o Herói salvador que os liberte.

“Um só homem tocado pela Deusa do Amor consegue mais do que mil intelectuais vazios”

Com este cenário, talvez se consiga intuir o sentido do rapto de Fáeton, o filho do Sol, que aproximou o carro solar à terra. Afrodite-Vénus é o Amor, a força total, a entrega desinteressada, a força que pode converter um pecador, enlameado no vício, num santo luminoso; é a força dos mártires, dos profetas, dos líderes. Foram dadas milhares de interpretações intelectuais ao sentido messiânico, profético e carismático dos líderes da história. Mas com essas lições eruditas, com essas análises profundas, nunca se conseguiu fabricar um só líder. Somente se lograram essas tragi-cómicas pantominas de cartão-pedra, que são os actuais presidentes e monarcas do mundo, cruéis caricaturas sem alma.

Um só homem tocado pela Deusa do Amor consegue mais do que mil intelectuais vazios.

Vivemos épocas sombrias, vãs, artificiais como o plástico e cruéis como o aço inoxidável. Quantos são os que, ao verem uma onda, agradecem a Deus pela maravilha do Universo?

VI. Dizem…

Dizem os velhos livros quase esquecidos da Índia e do Tibete que o planeta Vénus é o berço de uma forma de vida, diferente da nossa, mas vida. Dizem que é superior evolutivamente e que seria para o nosso planeta o mesmo que nós somos para os animais.

Falam estas tradições de antigos contactos e de animais que ainda convivem connosco e que têm a sua origem em Vénus. Fala-se da influência deste planeta na actividade destes animais e da influência deste planeta no comportamento humano.

VII. Dizemos:

Que em tempos de Ciência sem Fé e Fé sem Ciência, urge implantar um novo tipo de conhecimento, impõe-se resgatar a antiga sabedoria e preservá-la de qualquer perigo em tempos de mudança.

Necessitamos de constituir um núcleo humano que tente salvar o que for resgatável da Cultura, da Ciência, da Arte e das Religiões, unindo-os num todo sincrético; que consiga uma síntese do saber humano de todos os tempos que dê sentido à existência. É imprescindível forjar um Módulo de Sobrevivência para o Belo, o Bom e o Justo.

E para o fazer, a força deve ser retirada do Amor à Humanidade, à Natureza e a Deus.

Víctor Cuenca