AMADO NERVO, do Livro Olhando o Céu

Autor

Nova Acrópole

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Indo a Biarritz até Rocher de la Vierge, antes de passar pela ponte, numa curva, à direita, há uma pedra verde escura com belos pavonados, de forma piramidal, que difere estranhamente das pedras e rochas que a rodeiam, as quais são de um tom amarelado.

Adverte-se em seguida que foi colocada ali, e que não tem parentesco nenhum com os aglomerados calcários, com as massas de sódio que erguem por onde querem os seus dentes.

É um intruso caído do céu, um meteorito, que desde tempos longínquos se ergue imóvel e silencioso como uma esfinge.

Eu conheço-o desde o ano de 1905, em que fui pela primeira vez a Biarritz, e somos bons amigos. Detenho-me pelas tardes, sobretudo quando ameaçam as tempestades, junto a ele; sento-me ao seu lado; acaricio uma das suas superfícies, ligeiramente convexa, estriada pelas chuvas de bandas mais ou menos escuras, e onde os líquenes (1) não se ousaram prender, como se soubessem instintivamente que aquela pedra não é das suas.

Mudos os dois, na majestosa paisagem, sonhamos. Ambos somos estrangeiros. O meteorito vindo dos negros recônditos da noite. Eu também. As pessoas e as rochas ignoram-nos: Não somos deste planeta. Um colapso súbito, desde as excelsitudes estreladas, faz-nos ancorar nos lamaçais da Terra

Há duas teorias sobre os meteoritos: uns dizem que são massas expelidas em épocas geológicas imemoriais, pelos nossos vulcões, projectadas pelo ígneo ciclope interior que trabalha nas entranhas do Globo com uma força imensa, e que agora tornam, depois de indefinidas trajectórias, ao mundo de onde saíram.

Outros dizem que vêm do deslocamento de algum planeta, como inúmeros asteróides que até hoje foram descobertos.

De qualquer forma, viajaram pelo infinito, segregados da nossa terra, durante milhares de anos.

Conhecem as rotas dos astros; brilharam no éter como pequenas Luas, douradas pelo Sol. Talvez tenham vivido na sua superfície seres maravilhosos, extinguidos quando o meteorito se incendiou em resultado do contacto com as camadas atmosféricas.

Este que contemplo tem algumas cristalizações de quartzo, como um sorriso na massa verde escura do seu ferro.

«Agrada-me crer que vem de outro mundo, que sabe segredos de humanidades distantes, que viu o florescer de espécies hoje extintas, no eterno morrer e recomeçar das coisas…»

«Silenciosamente, erguidos os dois, impassíveis perante o devastar do furacão, perante o choque das ondas furiosas que, entre as fauces das rochas, se tornam numa espuma colérica, nós pensamos:

Pensamos nos mundos distantes, nas vidas que se interligam, no enigma das almas, na tristeza dos corpos, no insondável das manhãs.

Lá, longe, na grande praia, a multidão de triviais veraneantes parecem formigas; soam as orquestras dos cafés; desfila a imbecilidade humana, vestida de branco, sem ver o mar…

Aqui tudo é o estrondo das ondas do mar, saudade e silêncio de espírito.

O meteorito e eu continuamos a pensar…Talvez a minha alma, antes da prisão da carne, quando com outras no espaço formava enxames de ouro, tenha visto passar girando vertiginosamente esta pedra, agora tão quieta e tão calada.

Talvez tenha pousado nela um momento como uma borboleta de luz; quem sabe feito com ela uma viagem em que não foi raro atravessar florescentes caudas de cometas…Que tragédia nos prendeu na terra, oh meteorito? Por que caímos de tão alto?

Quando acabará a nossa expiação, e tu, desintegrado, pulverizado, voltarás às alturas, e eu, livre da minha prisão de carne, serei um pensamento intenso e uma vontade indestrutível no regaço do absoluto?

Entretanto, oh pedra verde escura, tu imóvel e eu em peregrinação, teremos sempre o aspecto de dois estrangeiros, não conseguiremos nunca harmonizar-nos com a paisagem nem contentar os homens.

O teu Karma, no entanto, é mais duro que o meu, porque eu sou mais depreciável que tu.

Um dia destes hei-de extinguir-me como um ruído que cessa, e tu séculos e séculos continuarás erguido, contemplando a dura eternidade da noite, que foi tua.

Não mais a minha cara amarela contrastará com o azulado matiz das tuas arestas… e talvez nenhuma outra mão piedosa irá acariciar-te como a minha.

Contentaria-me que tu, como obelisco mortuário, sobre a minha tumba continuasses assinalando o infinito…; mas não, ao melhor estás aí, enigmático, estranho, solitário, desdenhando dos furacões e das tempestades, pensando, sim, pensando em Deus!

 

ARQUIVO NOVA ACRÓPOLE

 

(1) Líquenes, são seres vivos muito simples que constituem uma simbiose entre um fungo e uma alga, desenvolvem-se como placas nas superfícies das pedras ou árvores expostas ao Sol e humidade.

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