Antigas tradições sobre a origem do Universo

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Nova Acrópole

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A pergunta que surge sempre ao abordar o tema das civilizações antigas e seus avanços tecnológicos, é a de que meios empregaram e que nível de conhecimentos alcançaram.

Tentando responder a esta pergunta, e sem afastar a possibilidade da utilização de outras técnicas até agora desconhecidas, as descobertas tecnológicas demonstram-nos que, em alguns aspectos, os meios e instrumentos de trabalho dos sábios da antiguidade eram semelhantes aos actuais, quer dizer, trabalhavam por meios convencionais.

No Iraque e Egipto foram encontradas lentes talhadas, que actualmente só poderiam ser elaboradas e polidas com óxido de césio, cuja obtenção requer métodos electroquímicos, métodos esses apenas descobertos no nosso século.

Sir David Brewster também encontrou, em escavações por ele efectuadas, uma lente de forma oval e planoconvexa que actualmente está no Museu Britânico.

Estes e outros achados podem explicar o facto de algumas civilizações antigas terem determinados conhecimentos sobre as estrelas, a posição dos planetas, o sistema solar, os fenómenos astrológicos e astronómicos que, em algumas ocasiões, superaram os actuais. Tal é o caso, por exemplo, de um planeta entre o Sol e Mercúrio descoberto apenas em 1976, e que já era conhecido e representado pelos Egípcios sob o nome de Íbis. Curiosamente, este planeta não é visível e só pode ser localizado por métodos espectroscópicos.

É internacionalmente reconhecido o facto de, na antiguidade, as posições dos astros não serem desconhecidas. Vejamos alguns exemplos:

No Kohistão, região montanhosa da Ásia Menor, existe uma pintura que reproduz as posições exactas dos astros tomadas há 10.000 anos. O planeta Vénus e a Terra aparecem unidos por várias linhas.

Os babilónios conheciam os “cornos de Vénus”. Vénus tem quartos crescentes como a Lua, ao estar mais próximo do Sol do que da Terra, mas estes “cornos de Vénus” são invisíveis a olho nu. Referindo-se a isto, os babilónios chamavam a Vénus “a filha da Lua”, já que ambos se caracterizaram pelas suas fases.

Os babilónios também conheciam o período de lunação com um erro de 0,4 segundos relativamente aos cálculos de hoje. Igualmente conheciam quatro grandes luas de Júpiter, e representavam Saturno rodeado pelos seus anéis.

O estudo realizado pelo astrónomo R. Mitchel sobre o ataúde de uma múmia egípcia, no qual se encontrava a representação do sistema solar, revelou que as ditas posições correspondiam exactamente à situação do sistema solar no equinócio de Outono de 1722. Os Egípcios tinham conhecimento, não só de todo o sistema solar, como também de estrelas de grande magnitude como Sírio A e Sírio B, entre outras.

Diógenes de Apolónia (séc. V a.C.) afirmava que “os meteoros deslocam-se no céu e caem com frequência na Terra”. No entanto, mais tarde, no séc. XVIII, o insígne cientista Lavoisier pensava o contrário: “é impossível que as pedras caiam do céu, porque não há pedras no céu”.

A estela I de O Castelo em Santa Luzia (Guatemala) descreve o percurso de Vénus sobre o disco solar em 25 de Novembro de 416.

Tomando medidas

Jonathan Swift (1727) no seu livro “Viagem a Liliput”, descreve-nos, mediante o seu protagonista Gulliver, as duas luas de Marte e, além disso, dá-nos as medidas das suas órbitas e tamanhos: “Os astrónomos liliputianos passam grande parte das suas vidas a observar os corpos celestes, para o que utilizam lentes muito superiores às nossas. Esta notável vantagem permite-lhes alargar as suas observações a uma distância muito maior do que a dos astrónomos europeus; têm um catálogo de 10.000 estrelas fixas, enquanto que os nossos mais modernos catálogos compreendem só uma terça parte desse número. Descobriram entre outras coisas, dois satélites que giram à volta de Marte e cujas distâncias ao centro do planeta são exactamente três vezes o diâmetro deste ao satélite mais próximo e cinco vezes ao mais afastado. O primeiro termina a sua revolução sideral ao cabo de 10 horas e o outro requer um período de 21.30 horas, pelo que o quadrado do tempo gasto é quase equivalente à terceira potência das respectivas distâncias entre os seus próprios centros e o de Marte. Isso demonstra que estão submetidos às mesmas leis de gravidade que regem os restantes corpos celestes”.

Os ditos satélites de Marte foram descobertos em 1877; no entanto, antes de Jonathan Swift, Kepler suspeitou da existência de dois planetas à volta de Marte e, inclusive na Ilíada, Homero comenta que Marte tem dois companheiros: Fobos e Deimos.

A tudo isto há a acrescentar que as medidas e dados que aparecem no livro “Viagem a Liliput” são verdadeiros.

Erastótenes (276-195 a.C.) calculou com bastante aproximação a circunferência terrestre. Plutarco atribuiu a distância de 804 milhões de estádios da Terra ao Sol, que também se acha na altura da Grande Pirâmide.

 

Finalizando o tema sobre as tradições antigas, os filósofos pré-socráticos e a sua concepção do Universo, origem, evolução e finalidade, é justo reconhecer que muitos dos conhecimentos actuais já eram ensinados na antiguidade; e havia outros que ainda hoje são ignorados em parte

 

Geniais pré-socráticos

Tales (624-547 a.C.): Propõe como princípio de todas as coisas o estado de Humidade de modo que, depois das coisas manifestadas, esta Humidade acuosa sustê-las-ia como se flutuassem nela. É uma concepção genial, se se quiser metafórica, daquilo a que agora os cientistas chamam o éter cósmico ou “gás extremamente disperso”. Tales junta-se aos cosmólogos que crêem na origem do Universo como um caos aquoso primordial: Homero, Hesíodo, Ferécides de Siro, entre outros.

Tales atribuía à Terra (leia-se matéria) a forma de um grande prato oblongo com as bordas um pouco levantadas, que flutuaria sobre o éter aquoso como um navio entre as águas. Efectivamente, essa é a forma de muitas galáxias vistas de perfil.

Anaximandro (611-543 a.C.): É-lhe atribuída a invenção da esfera e a declinação do Zodíaco. Mediu as distâncias entre as estrelas e calculou a sua magnitude; fixou as épocas dos equinócios e dos solstícios, assim como a obliquidade da elíptica. Também demonstrou que a Terra é redonda, girando à volta do seu eixo e que a Lua recebe e reflecte a luz do Sol. No entanto, nenhuma destas supostas descobertas era ignorada por astrólogos mais antigos.

Propõe como princípio de todas as coisas o APEIRÓN, traduzível por aquilo que é ilimitado, indeterminado e indefinido. É uma espécie de matéria primordial, ilimitada, homogénea, indeterminada, inqualificada, eterna, imperecível, imutável, incorruptível, inesgotavelmente fecunda, geradora de todos os seres e à qual todos retornam. Vem a ser uma espécie de nebulosa ou matéria plástica, proteiforme, equivalente ao CAOS de todas as antigas cosmogonias, que não é nem água, nem fogo, nem ar, mas anterior a toda a divisão. Efectivamente, assim é como descrevem os astrofísicos actuais o estado do Universo no tempo zero da idade do Universo. Alem disso, a natureza da matéria nesse tempo zero não é conhecida cientificamente; supõe-se que é algo mais subtil do que o hidrogéneo.

Anaximandro explica a evolução do Universo através da diferenciação dos contrários, da separação das coisas, adquirindo cada uma delas as suas características próprias. Dentro da massa caótica do Apeirón, agitada por um movimento eterno, produzem-se remoinhos, que dão como resultado a sua separação em porções; de cada uma delas formam-se outros tantos mundos ou cosmos esféricos e limitados. O movimento eterno prossegue, agitando em formas de remoinhos os cosmos desagregados da massa comum do Apeirón e, no seu interior, continua o processo de separação, distinguindo-se os elementos, os quais se vão dispondo por ordem de gravidade. Para Anaximandro, existem muitos mundos esféricos fechados sobre si mesmos e independentes uns dos outros, que se originam a partir dos remoinhos formados pelo movimento eterno no seio do Apeirón. A justiça cósmica restabelece-se mediante a sua reabsorção periódica na matéria primordial. A frase de Anaximandro: “Quando o equilíbrio cósmico se restabelece, começa um novo ciclo de formação”, explica-nos a teoria moderna do BIG-BANG ou grande explosão, segundo a qual o gás ou éter expelido após o rebentamento do Ovo cósmico, volta a resumir-se pouco a pouco num outro núcleo de energia ou Ovo cósmico.

Anaxímenes: Uma das ideias mais interessantes deste filósofo pré-socrático é a concepção do Universo como um animal vivo (Macrobios), tal como pensavam os egípcios, persas, hindús, etc. Este Ser Vivo está dotado de respiração dentro do PNEUMA infinito que envolve tudo. Ideia semelhante têm os orientais ao conceberem o Universo como uma expiração do grande deus Brahma e a sua contracção ou reabsorção quando Brahma volta a inspirar. Anaxímenes também atribui à matéria, ou aos mundos, uma forma de disco plano rodeado de água ou éter cósmico.

Heraclito (535-475 a.C.): Propõe como origem das coisas o Fogo. “Tudo é governado pelo raio”; foi este o motivo para que se comparasse a cosmologia de Heraclito com a de Parménides, Tales, Anaximandro, etc., de modo a só se ver entre eles desacordos e diferenças. No entanto, todos os filósofos pré-socráticos beberam nas mesmas fontes de conhecimento, ou seja, todos eles foram discípulos nos Colégios Sacerdotais ou Escolas Iniciáticas da Grécia e do Egipto. Assim, quando Tales pensa num universo aquoso, refere-se à sua composição e características físicas; e quando Heraclito nos diz que a origem do Universo é o Fogo, está-nos a revelar outra antiga ideia, segundo a qual a natureza do manifestado é ígnea, ou seja, mental. Na antiguidade, tal como hoje, o Fogo era símbolo da Mente, de modo que a Universo seria um pensamento de Deus, adquirindo forma física por meio da vontade. Tales e Heraclito não se contradizem: ambos sabiam que “a raíz do Universo é Mental” (como afirmou mais tarde Séneca) e que o seu aspecto mais físico é aquoso, nebuloso. O equívoco provém do facto de se ter interpretado o pensamento dos pré-socráticos pelos escassos fragmentos deles conservados. Em suma, o que nós conservamos dos filósofos pré-socráticos são aspectos parciais de uma mesma ideia.

Heraclito também nos transmite a ideia de um Universo em manifestação ou evolução que, depois, volta a ser absorvido. Fala-nos de uma via descendente ou de manifestação em que as coisas surgem, concretizam-se e plasmam-se: estrelas, astros, planetas, sóis, etc.; e de uma via ascendente, em que as coisas voltam à sua condição primitiva. Tudo isso é uma constante acção: “Tudo flui, nada permanece estático”; “não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio, pois a água não é a mesma”. Esta acção constante é a que produz a evolução de todas as coisas que, pela via ascendente, alcançarão o primeiro princípio. As coisas surgem e morrem; desenvolvem-se e logo começam a morrer paulatinamente. As galáxias e os sóis estão numa luta tremenda para chegar à Unidade primitiva; e o meio é a Guerra, que, segundo Heraclito, é “Mãe e Rainha de todas as coisas”.

Parménides: Este filósofo pré-socrático não desmerece em conhecimentos os anteriores. “A Lua ilumina a noite com luz emprestada”, dizia Parménides, dando a entender que a Lua não tem luz própria e que só reflecte a do Sol. Segundo ele, na origem do Universo existia uma bola unida devido à necessidade, na qual primavam duas forças: uma luminosa e suave e outra obscura, densa e pesada. Quiçá faça referência às duas forças que, segundo a astrofísica actual, existiam no primitivo Ovo cósmico.

Empédocles (494-434 a.C.): Tal como Parménides, pensava que a Lua girava à volta da Terra e “iluminava com luz emprestada”.

É na doutrina deste filósofo que aparece com mais claridade a ideia da união e da desagregação das coisas: os dois princípios que movem o Universo e que podem ser traduzidos por Amor (união) e Ódio (desagregação ou discórdia). A vida do Universo é uma luta contínua entre estes dois princípios.

Conclusão

Finalizando o tema sobre as tradições antigas, os filósofos pré-socráticos e a sua concepção do Universo, origem, evolução e finalidade, é justo reconhecer que muitos dos conhecimentos actuais já eram ensinados na antiguidade; e havia outros que ainda hoje são ignorados em parte. Se pensarmos que a nossa civilização chegou ao seu mais alto nível em quase 2.000 anos e se tivermos em conta que o homem é inteligente há muitos milhares ou, segundo alguns autores, milhões de anos, é lógico que tenham existido outras civilizações anteriores à nossa e outros períodos de 2.000 anos como o que bastou para que a nossa civilização nascesse. Há muita razão em dizer que, de certo modo, a “História se repete” e que, em cada ciclo, se assimilam mais experiências que nos conduzem, pela via do saber, ao longo da rota espiralada da evolução.

 

Departamento Investigação da Nova Acrópole

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