Apolo, o Velho Rei dos Lobos

Autor

Nova Acrópole

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Apolo, sem polos, o único, é o deus da luz, da medicina, da harmonia e também o misterioso arqueiro que “fere de longe”. Mas não falaremos neste artigo do dom da harmonia que lhe faz estabelecer as rectas proporções no céu e na terra; tampouco da harmonia que outorga saúde. Mas referir-nos-emos à obscuridade inicial de onde surge a luz, a Apolo como senhor dos Hiperbóreos e ao severo Apolo a quem os dórios renderam culto.

Como em toda a divindade o símbolo, são numerosas as chaves que permitem aceder aos significados que evoca. Existem chaves matemáticas, por exemplo, que relacionam Apolo com Artemisa como a relação matemática que existe entre a luz solar e a luz lunar. O nome-número de Apolo em relação com o nome-número de Artemisa dá-nos a proporção matemática fi, o número de ouro. Platão, no Crátilo, insiste em que o mais destacado de Apolo é que se trata do deus da adivinhação, da medicina, da música e da arte de lançar flechas, e que as palavras com as que se designa este deus estão em relação com: 1.- lavar, purificar; 2.- libertar dos males da alma e do corpo; 3.- o simples e o verdadeiro; 4.- lançar sempre aeí ballón; 5.- movimento que tem lugar com igualdade, onde a letra “a” designa o equivalente ao “igual a” e que por isso designa a harmonia do canto e o movimento dos céus, dado que “os versados na música e na astronomia afirmam que ambas se movem com a mesma harmonia”; 6.- a harmonia como aquilo que imprime um duplo movimento entre os deuses e os homens; 7.- a indagação e a filosofia por ser senhor das Musas.

«Apolo, sem polos, o único, é o deus da luz, da medicina, da harmonia e também o misterioso arqueiro que “fere de longe”.»

Os nomes com que se rendia culto a este deus dizem por sua vez os distintos atributos da luz, Carneus é o radiante (como o Karna-sol irmão de Arjuna no Mahabharata), Febo significa luminoso, brilhante, Délio claro, Plutão abundante, Aidoneo invisível, Faneo lúcido, Teorio observador, Pitio indagador por ser um deus-serpente, Ismênio conhecedor, Lesquenorio conversador. Ameibo o que as muda as formas, porque a luz do logos-sol assume toda a forma da natureza. Precisamente em relação a este nome chama-se-lhe “construtor de muralhas”, o que reforça o significado anterior, ou seja o “construtor de formas”. Incenso, que significa o que inflama. Epibateiros, o que favorece o regresso, pois como símbolo da unidade faz que todos os caminhos convirjam nele, por isso o Hino Órfico a Apolo diz: “…teu é o princípio e o fim que tenha que acontecer…”. Alexíkako, o que afasta os males. Kerdóo o possuidor. O Nomios o legislador, porque a luz outorga a medida. Esmínteo, como senhor dos ratos pela relação que os dardos da morte-flechas de Apolo da peste com os ratos e também por relações esotéricas dos labirintos na terra com o ressurgir de um novo sol. Assim por exemplo, no Egipto o musaranho representa-se em papiros mágicos sempre em relação com signos solares e gestando ao sol. Argenetes, o brilhante. Prestes, o “relampagueante zigzagueante”. Teoxenios.

Para além desta miscelânea de ideias, o que sim é evidente é que os dons de Apolo são a luz que ilumina a inteligência, a luz que cura as almas e afasta os males “morais” (a diferença de Asclépio que restabelece a saúde como harmonia vital), a luz que purifica e também a luz que renova tudo o que existe, tudo o que vive. Este é o significado de Apolo Hiperbóreo, a luz da primavera que dá um novo vigor a tudo o que vive e canta na natureza. É o raio verde que dá luz às nossas almas e força aos nossos actos.

Qual é então, esta faceta de Apolo que queremos destacar? Porque recebe outros nomes não tão comuns como o Obscuro, Skotios, ou Aidoneo, o Invisível ou Apolion, o destruidor e sobretudo Loxias que significa o “de olhar terrível, o oblíquo, o de olhar indirecto, o ambíguo pela dificuldade de interpretar os seus oráculos, o indirecto (ainda que alguns etimologistas façam derivar esta palavra de logos, o senhor da palavra). E Lycios como senhor dos lobos. É muito enigmática esta relação que se estabelece entre a deidade da luz e a juventude permanente e o animal-emblema da noite e da morte. Mas já em Argos encontramos medalhas nas quais se mostra a face de Apolo no anverso e um lobo coroado por raios no reverso. Dizia-se em Delfos que na época do dilúvio de Deucalião alguns homens se tinham livrado da invasão das ondas ao serem guiados pelos uivos dos lobos até à subida do Parnaso, onde fundaram a cidade de Lykoreia em homenagem a ditos animais. É evidente que neste mito se narram acontecimentos muito remotos nos quais a humanidade é salva por “Apolo” o velho rei dos lobos. Salva da “inundação moral” que dissolve todos os valores e que impede o crescimento do Lotos de uma nova civilização. Aqui o uivo do lobo é símbolo do Grito na Obscuridade, uma forma de último recurso ou “última reserva” de espiritualidade.

Nos santuários do deus em Delfos via-se junto ao altar um lobo de bronze vigiando o tesouro do templo.

Como o Anubis protector da arca sagrada. Também na Argólida Apolo envia um lobo para combater contra um touro. Em todas estas formas de Apolo Lycio, o lobo é símbolo de luz. De facto a palavra grega que designa o lobo (lýkos) está foneticamente relacionada com a palavra lux (luz em latim) e lyknos (luz em grego). Mas trata-se da luz “invisível”, aquela que ilumina mas não se vê, a luz que protege. A luz que combate as trevas. Apolo Lycio é também uma forma de Apolo como Pastor-Lobo, o que vigia e protege o gado. O gado ou rebanho representa aqui as monadas humanas, por isso o velho nome do Pastor, Poimén, na antiguidade é sempre o de governante. O próprio Cristo, recolhendo uma tradição egípcia, é o bom pastor. H.P. Blavatsky diz que o rebanho celeste representa também a sabedoria oculta, e aqui o lobo é símbolo do Mercúrio dourado a quem os hierofantes proibiam nomear. O zelador da sabedoria secreta. O emparentar o rebanho com as almas humanas ou com a luz das estrelas é um costume indo-ária muito antigo. Por exemplo na Índia, Sarama e Sarameya são os vigilantes “que guardam o gado dourado de estrelas e raios solares”. Indra, rei dos deuses e, por tanto, rei do mundo, deve resgatar as almas que a ele estão encomendadas, as vacas Go ou os raios de luz que foram dispersados pelos dedos frios do nevoeiro. Mais uma vez o Rei é o protector, guia e que dirige as almas para o seu refúgio seguro.

Há quem tenha querido dar uma interpretação astronómica a este feito e a tem … também. Por exemplo, Mercúrio rouba o rebanho e as armas a Apolo para conduzi-los a uma caverna. Quis-se interpretar isto como que o sol de inverno carece de “armas” e o oblíquo dos seus raios submergem a terra na obscuridade. Mas a polivalência dos mitos na antiguidade é sabida e a chave que agora nos interessa é a Espiritual. No Hino Órfico a Apolo aparece também a menção de Apolo “da Noite” e dele se diz-se que ele é “a sombra cujos olhos são estrelas, o que possui as raízes, o senhor dos limites e o que contempla todo este universo infinito”. Aqui está-se a referir a um “algo” inapreensível, não ao Apolo do qual H.P. Blavatsky diria que é senhor da Vida e das formas materiais numa certa chave. Este é o Apolo da obscuridade, o Apolo emparentado com o lobo, o senhor do tempo e dos limites. Há um mito que narra a relação de Apolo com o firmamento estrelado. Nele um adivinho averigua o número de figos e a medida-capacidade dos mesmos numa gigantesca figueira consagrada a Apolo. Os figos eram dez mil, uma miríade, justamente o número que os gregos atribuíam às estrelas visíveis na noite. A capacidade de um alqueire e o adivinho explicitou que um figo sairia fora desta medida. Aqui a figueira representa a árvore do mundo e Apolo é, então, senhor das estrelas que são os frutos desta grandiosa árvore. A incapacidade de submetê-lo a uma medida cúbica diz desse movimento que impede apressar definitivamente as coisas. A luz como sinónimo de vida perdurável e de inapreensível essência.

«Nos santuários do deus em Delfos via-se junto ao altar um lobo de bronze vigiando o tesouro do templo.»

Voltando a Apolo Lycio é possível que a relação de Apolo com o lobo assente em:

1.- Tal como explica H.P. Blavatsky em Antropogénese, o lobo como símbolo de Mercúrio, o anjo e prenúncio do sol; o que determina e dá forma aos seus desígnios.

2.- Apolo como símbolo do sol, o sol visível e invisível. Aqui é o sol invisível que rege a morte e os lobos.

Existem representações míticas que se referem a Apolo como senhor da morte. É representado em antigos monumentos recebendo nos infernos as almas dos iniciados. Mas a morte de Apolo é uma morte doce, repentina e tratando-se dele como o deus “das assembleias”, é também a morte por epidemias. Aparece como guia das Parcas, intérpretes do destino humano, e como deus da destruição. A ele também se ofereciam sacrifícios humanos expiando as culpas morais de toda a cidade. Em Leucade cada ano chegada a festa de Apolo sacrificava-se-lhe um homem atirando-o ao mar desde um elevado promontório. A vítima escolhida, geralmente um delinquente, era envolta entre plumas e atavam-se-lhe aves ao seu corpo. Quis-se dar a entender com isto que os antigos pensariam que é mais fácil salvar-se estando atado às aves e com os atributos próprios das aves, mas creio que o significado é na realidade aquele que se “lança” ao abismo nem os deuses, nem as ideias superiores, nem nada pode salvá-lo. Os deuses ajudam a descer e a percorrer o abismo, mas nada podem fazer a quem se abandona a si mesmo.

3.- O lobo que está consagrado a Apolo pode representar também o que Anubis representa no mito de Osíris. Não esqueçamos que Osíris representa o “senhor das almas múltiplas” e foi símbolo da unidade no homem, o deus mais elevado que nele vive e que não pode actuar directamente a não ser através de seu filho, Hórus.

Neste mito Anubis é quem recompõe magicamente, com a ajuda de Ísis e Hórus, o cadáver de Osíris. É quem o embalsama. Nos textos mágicos egípcios, parece como se Anubis devesse proteger Osíris. Mas noutros Anúbis, como o “grande solitário da montanha ocidental”, é o Senhor ante quem os reis devem apresentar os seus ceptros e parece adquirir aqui uma importância maior ainda que a de Osíris. No livro da Oculta Morada afirma-se que o sol, Ra, curva o seu rumo ante a presença de Sírio, a estrela que é o olho direito de Anubis. Aqui deve-se estar a referir a que o próprio sol “depende” de uma estrela maior que ele, que é o seu “rei”. Mas como nas antigas tradições de vassalagem, o rei envia o seu servidor a quem o guie e proteja. Assim com Apolo e com o lobo. Este último protege os raios de Apolo, mas Apolo, o sol, por sua vez serve aquilo que o lobo representa. Quiçá, assim possamos entender a misteriosa E de Delfos a que se refere Plutarco. No templo de Delfos as máximas que os sábios inspirados pelo deus consagraram no seu pórtico recordam-nos sempre a medida e a prudência: Conhece-te a ti mesmo, Nada em excesso, Sê prudente, dizem de Apolo como do deus da razão, da prudência, da saúde das almas. Mas existe algo mais? Se Apolo é quem faz do homem um Homem, podemos encontrar uma raiz mística mais poderosa, mais viril, mais severa, mais relacionada com as trevas que Apolo também representa? Plutarco diz que para além das máximas já referidas, no seu templo existia uma oferenda em forma de E no início de madeira, que logo os atenienses trocaram por uma de bronze e que Lívia, a esposa de Augusto, trocou por uma de ouro. Também nas moedas délficas da época de Plutarco se observa uma letra E como emblema de Apolo. São várias as interpretações que Plutarco refere na sua obra: 1) a partícula desiderativa, 2) a conjunção que liga a causa ao efeito, 3) a afirmação “tu és”, dirigida como uma saudação ao deus e 4) o número símbolo do universo, o cinco, “matrimónio” entre o primeiro par e o primeiro ímpar, portanto representante perfeito do andrógino divino.

Precisamente neste número cinco está a chave da questão. O cinco é a letra-número-símbolo da estrela, do éter ou espaço no qual navegam as barcas-estrelas. O cinco é o número que entre os fenícios e os hebreus simboliza a janela ou a matriz, aquela que dá nascimento ou aquela que permite a passagem ao céu. Neste sentido, o cinco é o número-símbolo da consciência humana e está relacionada com o verdadeiro reitor da consciência de toda a humanidade que é o deus lobo, Anubis ou Sírio. Na verdade o esquema numérico dos Kumaras ou regentes de Sírio é o nove, mas a sua projecção sobre a mente humana aparece sempre como a estrela de cinco pontas. Recordemos o mito egípcio em que os entalhes que o machado de Anúbis deixa no labirinto, são estrelas de cinco pontas. Precisamente Leto, para dar nascimento a Apolo, deve suportar nove dias e nove noites de sofrimento. Os filósofos neoplatónicos explicaram que Leto é a substância informe do espaço, sem forma e suave. Informe, mas suave e doce. Platão chamava-a de aquela que escuta com doçura as súplicas. É o espaço como mãe da primeira luz, do primeiro nascido representado por Apolo.

Então aqui Apolo Licio, ou Apolo regente dos lobos representa tudo aquilo que pode salvaguardar a consciência humana. É, por exemplo, o Apolo soranus ao qual rendiam culto no cume do monte Soraste.

«Precisamente neste número cinco está a chave da questão.»

Conta a lenda que certo dia, arranjado o sacrifício para ele, uma manada de lobos arrebatou as vítimas do altar. Os pastores que saíram em sua perseguição, pereceram repentinamente ao chegar a uma caverna de onde se desprendiam vapores venenosos e desde aquele dia a região foi devastada pela peste. O oráculo prometeu saúde àqueles moradores se consentissem viver como os lobos de rapina e fora de todas as normas sociais. Isto refere-nos a difícil sobrevivência da alma quando as relações sociais e o quotidiano submergem a alma numa indefinição moral. Aqui todos os que estão fora do “legal” são os protegidos por Apolo como deus lobo. Tudo aquilo que se encontra nos umbrais da obscuridade, obscuridade como morte e mistérios, deve encontrar-se com esse lobo que a lenda narra. Há um componente de força e mistério nestes símbolos porque estamo-nos a referir a um Apolo que rege os limites, os umbrais e a morte. Em Esparta asseguravam-se que os adolescentes se convertessem em jovens atravessando essa pequena morte que permite o renascimento. Durante três dias deviam viver “como os lobos”, fora da lei e desafiando a morte.

Isto permitia-lhes a inserção no seio da sociedade dos adultos. Isso é um eco de tradições mistéricas e iniciáticas dos três dias que o sol deve passar no reino da morte, ou dos três dias em que o sol-iniciado descia aos infernos e experimentava terríveis provas com as quais adquiria a sua condição plena de iniciado.

Os raios do sol do amanhecer do terceiro dia “ungiam” a alma do iniciado e a famosa afirmação bíblica de “oh Deus, porque me abandonaste?” H.P. Blavatsky explica que se trata de uma deformação intencional da afirmação mistérica do iniciado ao ser despertado pelo sol da ressurreição: OH SOL, COMO ME GLORIFICASTE.

No entanto, em Pausânias também aparecem referências ao Apolo matador de lobos, o Apolo Nomios ou Apolo como Sol de Justiça.

“Este Apolo deve ser aquele mais interno, profundo que Ovídio nos explica nas Metamorfoses: “Eu revelo o que foi, é e será”.

O Apolo invisível converte-se no fundamento do Apolo que outorga a alegria e a bondade de coração, aquele que ajusta os versos à música, o condutor do coro das Musas que foi representado pelo louro. Como o louro nunca envelhece, arde e crepita ao primeiro contacto com o fogo, Apolo converteu-se no símbolo da juventude perene, a quem os adolescentes outorgavam os seus cabelos ao chegar à juventude.

«Este Apolo deve ser aquele mais interno, profundo que Ovídio nos explica nas Metamorfoses: “Eu revelo o que foi, é e será”.»

E é com este Apolo como senhor da alegria, que queremos terminar este artigo com os versos de Píndaro:

[..]Oh tu, divino Apolo, os teus remédios tão cheios de saúde libertam os homens e as mulheres; tu deste-nos a lira, e tu dispensas aos teus favoritos os dons da Musa e introduzes nos corações a paz e a concórdia.[…][…] Febo, o dos dardos oblíquos, que tudo sabe e a quem jamais a mentira contaminou o seu oráculo; pois nada se lhe escapa nem actos nem pensamentos, sejam dos deuses, sejam dos homens. […][…] Tu conheces muito bem os acontecimentos futuros e os corações dos quais derivam. Tu sabes o número de folhas que brotam na primavera do seio profundo da terra e os grãos de areia que as ondas e os ventos arrastam no fundo dos mares e dos rios. Vês com claridade qual é a ordem dos destinos.[…][…] Oh Apolo, sob os auspícios dos deuses o homem começa e acaba todos os projectos feliz… e nada me surpreende quando quem o faz é um deus: nada me parece incredível.[…]

José Carlos Fernández

Director Nacional da Nova Acrópole de Portugal

Todos os epítetos de Apolo utilizados até ao momento foram extraídos do livro “La E de Delfos” de Plutarco.

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