No passado dia 8 de março de 2023 celebrámos o Dia Internacional da Mulher, no Salão Nobre do Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras. A primeira parte da celebração dedicada ao Feminino foi composta por um inspirador recital de poesia pelo Grupo Artes Orpheu. Uma parte do grupo começou por declamar alguns pensamentos de Sri Ram, filósofo indiano do séc XX, brindando-nos de seguida com belíssimas poesias relacionadas com o Amor e Beleza, conceitos intimamente ligados ao feminino, escritos por um vasto leque de poetas e escritores, tanto clássicos como modernos, tais como Alda Lara, Algernon Swinburne, Guerra Junqueiro, Isadora Duncan, Florbela Espanca, Jaime Cortesão, Sophia de Mello Breyner Andresen, Khalil Gibran, entre outros. O recital terminou com um poema e um hino dedicados tanto à deusa hinduísta Lakshmi, como à deusa helénica Afrodite, lançando a ponte com a segunda parte da celebração: “As Deusas do Amor: de Lakshmi a Afrodite”, conferência por Patrícia Grave, formadora da Nova Acrópole Oeiras-Cascais. A oradora começou a sua apresentação partilhando com a audiência uma reflexão sobre a investigação e o poder que esta pode ter em curar as emoções, pois o estudo pode ser um apoio, tal como um amigo. O estudo filosófico clássico de sentido prático reside exatamente neste facto de pensar sobre os temas, ir às fontes, mas também esperar que elas conversem connosco. Podemos resumir este enfoque da Filosofia Prática em três pontos: estar aberto às ideias, investigá-las e, ao sintetizar as reflexões, sentir. Após esta consideração inicial, adentrámos pelo tema da conferência, onde a conferencista começou por pedir à audiência que reflectisse sobre o sentido de alguns preconceitos da atualidade relacionados com o tema e, no seguimento, esclareceu que as deusas femininas falam para toda a Humanidade e não só para a mulher. Elas são um veículo que liga toda a Humanidade ao Princípio Feminino. Este Princípio Feminino tem três funções: criar, preservar e destruir. Tudo está em potência, mas é necessária uma certa organização, ressalvando aqui a importância do Princípio Masculino, como corpo ativo e executor. Como referido no título da conferência, a primeira Deusa do Amor falada foi a Deusa Sri, uma deusa do panteão hindu, cujo nome significa “sulco”, remetendo para a ideia de abrir caminho na terra, para que esta possa ser fecundada pelo Masculino. A Deusa Sri e a Deusa Lakshmi, embora sejam divindades distintas, foram-se fusionando. Ao longo da conferência foi possível ir analisando várias pinturas com representações das Deusas. No quadro de Raja Ravi Varma, este representa a Deusa Lakshmi de vermelho (cor da vida), protegida por dois elefantes e a sair de um lótus. Usando a linguagem simbólica, a saída de Lakshmi do lótus poderá simbolizar a saída de nós mesmos das águas psíquicas, já que Lakshmi é a mãe de Maya (ilusão). Algo curioso sobre as deusas do Amor é que apresentam histórias semelhantes. Passando para o panteão romano, a conferencista fez uma breve e elucidativa análise ao famoso quadro de Botticelli “O Nascimento de Vénus”. Nesta obra, o pintor representa Vénus a sair também das águas, mas no lugar do lótus, está uma concha e Vénus encontra-se a olhar diretamente para o observador, como se fosse um convite a um olhar mais atento. Neste quadro está ainda representado Zéfiro, Deus do Vento do Oeste e Flora, Deusa da Primavera. Se considerarmos que Vénus pode ser uma representação da alma, Zéfiro é o elemento que traz o sopro da vida à alma e que se manifesta na matéria sobre a forma das estações. Em «A Primavera», também do génio florentino, estão representadas as três graças, correspondentes às três formas com que Vénus (Afrodite no panteão grego) pode surgir na Terra: Beleza, Voluptuosidade e Castidade. Curiosamente, esta última graça está representada de costas, pois a Castidade não fica cega pela beleza dos corpos, ao contrário das outras. Neste quadro, a Primavera-Flora está, a princípio, nua, mas, após ser tocada por Vénus, torna-se florida. Junto a Vénus, encontra-se Eros, o mensageiro que liga o mundo terreno ao mundo Superior e que está à espera que a Primavera esteja pronta para o acompanhar na viagem em direcção ao Mundo Superior; para isso terá de escolher uma das três Graças. O último quadro analisado foi «O Julgamento de Páris» de Peter Paul Rubens. Durante a reflexão sobre esta obra foi feita uma breve exposição do início da guerra de Tróia, onde Zeus, não convida a Deusa da Discórdia para o casamento de Peleu e Tétis e esta, irritada aparece de surpresa e envia uma maçã de ouro, com a inscrição «Para a mais bela». As deusas Hera, Atena e Afrodite surgiram para disputar este título e Zeus, incapaz de escolher uma vencedora, atribuiu a missão a Páris. Cada uma das deusas tentou um suborno: Hera dar-lhe-ia o trono da Ásia e da Europa, Atena dar-lhe-ia vitória na guerra e Afrodite dar-lhe-ia o amor da mulher mais bela. Páris deu a maçã a Afrodite; o que deu origem ao rapto de Helena e à Guerra de Tróia, salientando o poder da Deusa do Amor. Para finalizar a conferência, foi feito o convite à assistência para tentar encontrar uma oportunidade de conhecer a Afrodite de Ouro, isto é, a vivência da juventude interior. Se cada um de nós se tentar aproximar desta Afrodite, talvez o mundo possa ficar um pouco melhor. «Ame amanhã quem já amou. Quem não amou, ame amanhã.» – Tiberiano, «Vigília de Vénus»