Em todos os povos da Antiguidade encontramos referências a deidades, especificamente dedicadas à Medicina, à saúde e à doença, e ao restabelecimento do equilíbrio físico, psicológico e mental dos homens.

Segundo as civilizações, estes Deuses foram mais ou menos conhecidos, alcançando uma reputação que lhes permitia transcender além das suas próprias fronteiras, até ao obscuro anonimato de hoje, próprio do nosso esquecimento e da nossa falta de conhecimento, mais que da inexistência dos ditos Deuses.

O Deus Asclépio (Esculápio para os romanos) faz parte das tradições mais reconhecidas, e o seu simbolismo não está relacionado somente com os Deuses gregos, já que é fácil encontrar parentescos com os egípcios em primeiro lugar, e com todos aqueles que assumiram a missão de velar pela vida humana.

Seguir o rasto de Asclépio na Hélade, leva-nos até à antiga e famosa vila de Trikka, hoje chamado Trikkala, onde se diz que aí nasceu o Deus Asclépio e dois dos seus filhos, e onde se podem recolher os dados mais antigos do culto a ele dedicado. Para além das ruínas dos templos em Trikka, assim como em Atenas e outras cidades, sem dúvida em Hieron é o de Epidauro o mais célebre e ao que nos referiremos mais à frente.

É difícil precisar as origens e características da Medicina na Grécia. Como em todos os povos arcaicos de raízes iniciáticas, a Medicina fazia parte das Ciências Sagradas e portanto estava submetida às leis do Segredo e do Silêncio; só os Iniciados nesta disciplina eram os autênticos possuidores e praticantes dos conhecimentos correspondentes. No entanto, quer seja pelas descrições das epopeias, quer seja pelos relatos de viajantes, crónicas e registos históricos posteriores, podemos fazer uma reconstituição superficial do que pode ter sido esta Ciência Sagrada.

Em geral, costumamos retroceder à figura de Hipócrates como o grande médico e precursor de todos os que se dedicaram e dedicam à cura. Mas juntamente com a chamada medicina hipocrática, floresceram antes, durante e depois, outras Escolas e sistemas de cura que não deixam de interessar profundamente, ainda que hoje não sejam compreendidos pela mentalidade prática e materialista daqueles que concebem uma Ciência afastada da Filosofia, da Magia, da Religião e da Arte.

Nos textos homéricos já encontramos estudos sobre a Medicina que reflectem épocas tão antigas como a creto-micénica. Naquela altura não era possível separar decisivamente uma Ciência de outra; assim a Medicina aparece fortemente unida a todo um modo de vida, de costumes, de hábitos e de leis. E é evidente que a epopeia não pode penetrar na profundidade do saber iniciático, se bem que com subtileza, ou melhor com símbolos velados, relata-nos detalhes de um conhecimento popular, com fórmulas simples cuja aplicação era do domínio público. À primeira vista, parece uma Medicina demasiado simples, em fase inicial, mas não devemos cair no erro de considerá-la assim, só por questões cronológicas; mais, em todas as civilizações se observa que os conhecimentos eram mais profundos nas épocas mais arcaicas, e que a especialização da ciência pela via experimental vem demonstrar uma perda de fórmulas mágicas ou de poderes extraordinários. É o que provavelmente sucede com esta Medicina “inicial” na Hélade, cuja simplicidade se deve acima de tudo ao exoterismo do divulgável e ao segredo do estritamente iniciático.

Por detrás dos elementos proporcionados pela tradição homérica, encontramos um estilo muito especial de Medicina que bem poderia chamar-se “sacerdotal” pela intervenção directa dos Deuses nas curas, e dos sacerdotes-médicos como intermediários dos Deuses. Esta é a época em que se erguem os grandes santuários ou templos, e em que os sacerdotes, assistidos pela graça dos Deuses, tinham uma actividade directa na cura dos males, dispondo para isso dos meios mais variados: invocações, exorcismos, conjuros, sem descartar remédios ou recursos físicos, nem a análise de cada doente e de cada doença, para administrarem os agentes simples ou complexos naturais ou artificiais de que dispunham.

Uma etapa posterior, talvez depois de fechadas as Escolas Iniciáticas, será a do racionalismo médico, cuja origem se situa normalmente na ilha de Cos, famosa pela sua Escola de Médicos, entre os quais não descartamos autênticos taumaturgos nada em desacordo com o racionalismo, antes pelo contrário.

Mas voltemos a Asclépio e a essa época da Grécia antiga em que os homens se encomendavam ao Deus da Medicina para que os livrasse e protegesse das enfermidades e da dor.

Asclépio terá sido um Deus desde o primeiro momento da sua aparição nas tradições? Homero, em A Ilíada, qualifica Asclépio como excelente médico, discípulo do Centauro Quíron. Naquela altura parece que Asclépio não tinha categoria divina, mas era um grande herói dedicado à Medicina, conhecido e admirado apenas no noroeste da Tessália (zona de grandes magos, por certo) perto do monte Pindo. Era Asclépio, naquele momento, mais do que um herói, um Iniciado nas ciências da cura que logo se divinizaria pelas suas façanhas e naturalmente pela sua própria evolução, que o fez digno de compartilhar o Olimpo com os demais Grandes?

O certo é que enquanto Asclépio começava a sua profissão, o médico dos Deuses era outro Deus, chamado Péon, encarregue de borrifar com doces bálsamos as feridas divinas, feridas que não produzem sangue como nos mortais, já que os Deuses só se alimentam de néctar e ambrósia. Mas o mito, ou os vários mitos, que rodeiam o nascimento de Asclépio, indicam que o seu futuro era superior ao de um vulgar ser humano. O seu nascimento teve lugar, como já dissemos, em Trikka, bem perto do lago Bebeis ou, segundo outras fontes, perto de Letes. É por acaso um velho Deus que deverá esquecer a sua estirpe sagrada, atravessando o Letes, para realizar a sua função salvadora entre os homens?

O mito mais popular é o tessaliano. Este narra que Asclépio era filho de Apolo e de Corónis, sendo Corónis a filha do Rei Phlegyas, de Orcómenos. Esta genealogia já mostra e caracteriza a natureza do Deus, pois Apolo é a divindade da Luz Solar, que acolhe fontes de saúde e de vida amplamente apreciadas pelos homens.

O nome de Corónis, sua mãe, é o da gralha, pássaro de longa vida que simboliza a saúde. O nome de Phlegyas, o seu avô, evoca a ideia da chama, e por este motivo, adicionado à sua paternidade solar, inclui-se o Deus da Medicina no chamado Ciclo das Divindades do Fogo Celeste. Atrever-nos-emos, inclusive, a relacioná-lo com o valente e atrevido Prometeu, que rouba o Fogo Celeste em benefício espiritual da Humanidade?

O nome de Asclépio, segundo Preller, equivale a Alexepios, e este, por sua vez, seria a transformação de Alexicacos, que é um dos epítetos de Apolo e que quer dizer “afastador do mal”. Muitos outros nomes caracterizam Asclépio, conforme se refiram a uma ou outra das características que acompanharam o seu nascimento e a sua vida: Aglaopes, Apalexicacus, Archagetas, Aulonius, Causius, Coronides, Coileus, Demenetus, Epidaurius, Gortynius, Hagnitas, Pergamenus, Tricaeus. O mito tessaliano é altamente poético no seu desenvolvimento; Corónis levava ainda no seu ventre o filho de Apolo quando se apaixonou pelo arcadiano Ysquis, e o Deus, informado da sua infidelidade por um corvo profético (observe-se a relação entre o corvo que informa Apolo com os que traziam a informação diária a Wotan no simbolismo germânico), enviou a sua irmã Artemisa para que matasse Corónis. Mas, segundo Ovídio, na sua obra Metamorfose, foi o próprio Apolo quem matou Corónis e Ysquis, e no momento em que o corpo da amante se consumia na pira funerária, o Deus arrancou o menino do ventre da sua mãe. Assim, Asclépio nasceu de uma mãe ferida pela cólera celeste e no meio das chamas, caso que com escassas diferenças, nos faz recordar o nascimento de Dionísio recuperado de Sémele. O epíteto de Agalopes que os dórios aplicavam a Asclépio confirma a sua relação com o fogo brilhante do céu.

O menino, recolhido pelo seu pai divino, foi levado ao monte Pélion e entregue aos cuidados do Centauro Quíron, filho de Cronos, aquele que o instruiu na arte da caça e lhe transmitiu a Ciência da Medicina. O nome e a fama de Asclépio estenderam-se pela região; curava com tal perfeição que não só devolvia a saúde perdida aos doentes, como também a vida aos mortos. Ante tamanha grandeza, Hades, o Deus dos Reinos Infernais, foi queixar-se a Zeus, alegando que ele lhe tirava homens ao seu domínio. Segundo outra versão, foi o próprio Zeus que, vendo que os humanos deixavam de ser mortais, tal como Ele os havia concebido, matou Asclépio com um raio. Apolo, ao ver o seu filho morto, matou por sua vez os Ciclopes, os forjadores do raio, e esta acção valeu-lhe que os Deuses do Olimpo o condenaram a afastar-se por um largo tempo dessa mansão celestial.

Em Epidauro, que em tempos históricos foi o principal centro do culto a Asclépio, a lenda do seu nascimento diferia em alguns aspectos, segundo Pausânias. Assim, conta-se que durante uma expedição de conquista do rei Phlegyas ao Peloponeso, a sua filha, a ninfa Corónis, deu à luz a Asclépio na mesma região de Epidauro. A sua mãe quis extrair o recém-nascido da cólera de Phlegyas e escondeu-o no monte Titheo, lugar selvagem e oculto a todos os olhares, onde o alimentava uma cabra e dele cuidava um cão. Um dia, o pastor Aresthana, errante pela montanha em busca de uma ovelha extraviada, aproximou-se do menino ao ouvir os seus gemidos; quis recolhê-lo, mas no mesmo instante, a cabeça do pequeno Deus iluminou-se com uma chama intensa que fez retroceder o pastor.

Existe outra lenda em Messénia que aponta que a mãe de Asclépio não se chamava Corónis mas sim Arsinoe, filha de Leucipo, e irmã de Hileira e de Phebe, cujos nomes também representavam divindades da luz, com o qual novamente aparecem as relações simbólicas entre Asclépio e os raios luminosos do Sol.

“A imagem de Asclépio na maioria dos santuários é a de um homem forte e robusto, na plenitude da sua vida. O seu rosto apresenta uma barba abundante e frisada, e a sua cabeleira é longa e encaracolada. A sua cara é de finas e perfeitas feições, muito similar à de Zeus, da qual se distingue em todo caso por uma marcada expressão de benevolência e simpatia.”

Este primitivo e esotérico significado do Asclépio solar foi deixado pouco a pouco de lado, e em troca subsistiu o do médico divino, o Deus Salvador (Soter, também um dos nomes do próprio Zeus), que afastava os perigos não só no caso das enfermidades, mas em todas as circunstâncias adversas da vida. Assim, segundo consta em algumas inscrições, invocavam-no os navegantes, e os náufragos dedicavam-lhe louvores quando conservavam a vida.

De todas as formas, seja no seu aspecto mais esotérico ou na sua função de salvador de vidas, os seus atributos são altamente significativos, pois recolhem todos os simbolismos. Detenhamo-nos neles: a serpente, o ceptro, a coroa de louros e a taça; também lhe estavam consagrados o galo (símbolo da vigilância), o mocho e a coruja.

A serpente representa a Sabedoria, é também a Prudência, e encerra a capacidade de adivinhação. Do mesmo modo, a renovação periódica da sua pele era um símbolo de rejuvenescimento, ou melhor, da eterna Juventude dos Deuses, da “Afrodite de Ouro”.

O ceptro é um símbolo de autoridade e de poder. A taça é o recipiente onde se consagra o medicamento ou a bebida mágica. O galo, naquele famoso sacrifício que recordou Sócrates na hora da sua morte, antes de beber a cicuta, é o próprio Asclépio, mas também é o Sol no mais sagrado dos seus aspectos: é o Abraxas cujo nome contém letras e cifras iniciáticas referentes ao despertar da alma, e não só ao despontar da alvorada.

A imagem de Asclépio na maioria dos santuários é a de um homem forte e robusto, na plenitude da sua vida. O seu rosto apresenta uma barba abundante e frisada, e a sua cabeleira é longa e encaracolada. A sua cara é de finas e perfeitas feições, muito similar à de Zeus, da qual se distingue em todo caso por uma marcada expressão de benevolência e simpatia.

A Religião grega concebeu, ao lado de Asclépio, outras divindades secundárias que formavam parte da família do Deus. A sua esposa era a doce Xanta Lampetia (filha do sol), ou Hepíone, mãe dos asclepíades Macáon e Podalira, heróis guerreiros que acudiram ao sítio de Tróia com Agamémnon. Mas para além de guerreiros, diz-se do primeiro que era um excelente cirurgião, e do segundo que era um bom médico com capacidade de “conhecer o oculto e curar o incurável”. Asclépio teve outros filhos e filhas; entre as divindades femininas citam-se a Higeia (a higiene), a Deusa sorridente dos olhos brilhantes, Enemarion, Égle, Iaso (a curandeira), Panaceia (panaceia, a que cura tudo), e como varões Aceso, Janiscus e Telésforo. Esta última pequena divindade está representada pela figura de um menino muito similar ao Harpócrates egípcio; indica a convalescença, o doente que começa a recompor-se.

Também poderíamos unir Asclépio à estranha corte das Ilitias, Deusas protectoras dos matrimónios fecundos, mas ao mesmo tempo responsáveis pelas terríveis dores do parto. Encontramos o arcaico culto das Ilitias em Creta, de onde foi levado para Delos e associado com o de Artemisa, tia de Asclépio.

Para nos referirmos ao culto dedicado a Asclépio, tomaremos como exemplo as ruínas de templos existentes, que se compunham geralmente por uma fonte sagrada para a purificação do doente, um templo com o altar do Deus, e um pórtico onde os pacientes passavam a noite esperando a aparição de Asclépio e a cura do seu mal.

Em particular, em Epidauro, o recinto do santuário encerrava um grande templo dedicado ao Deus, um altar de Asclépio, um edifício de forma circular ou tholos, o pórtico das incubações e um banho para as purificações. Além disso, como complemento deste lugar santo, luxuoso e higiénico, havia um ginásio, e uma grande hospedaria para alojamento dos doentes e visitantes, um estádio e um esplêndido teatro, aparte de outros edifícios, talvez santuários ou templos de outros Deuses associados.

O templo era dórico e a estátua do interior representava Asclépio sentado, com uma mão apoiada na cabeça de um dragão (equivalente à serpente), a outra segurando o ceptro e um cão a seus pés.

O tholos estava destinado ao pritaneu ou lugar onde os sacerdotes celebravam as suas refeições sagradas; outros opinam que ali havia uma fonte para as cerimónias.

A norte do tholos estavam os pórticos, edifícios designados com o nome de encoimeterion (pórticos de incubação) ou abaton (pórticos secretos), onde os doentes, às vezes sentados ou deitados sobre peles, esperavam durante a noite a aparição de Asclépio e a cura das suas doenças.

No pequeno museu que hoje se conserva em Epidauro há numerosas inscrições que descrevem curas maravilhosas, tais como a paralisia, cegueiras, cálculos, lombrigas, hemorragias, etc. Não só o de Epidauro, mas todos os outros santuários conhecidos estavam colocados em lugares que, pelas suas condiciones mágico-magnéticas, ofereciam vantagens para a cura das doenças. Alguns santuários ficaram a dever o seu grande renome a alguma fonte mineral ou termal, e ao lado dos templos construíram-se ginásios e estádios onde os doentes crónicos eram tratados por meio de exercícios físicos, banhos, massagens e aplicação de unguentos.

Relativamente ao governo interior destes santuários, os sacerdotes cuidaram muito a instauração de práticas iniludíveis de ordem higiénica, com a finalidade de manter o mais rigoroso regime interno tentando evitar os possíveis contágios, tendo em conta a aglomeração de peregrinos que podiam constituir perigo para os demais. Por isso não se recebiam no Hieron doentes contagiosos ou sujos, nem mulheres grávidas nem moribundos; não se podia ir morrer no santuário. Por outro lado, fora do recinto, podiam-se construir edifícios destinados a hospedarias, como os actuais hotéis dos estacões termais.

Os doentes que vinham buscar a cura nestes santuários deviam purificar-se antes de entrar, coisa que faziam no mar, rio ou fonte, pois nunca faltavam nas proximidades do Hieron sítios com água abundante. Assim purificados com abluções, banhos, fricções ou fumigações, estavam prontos a penetrar no recinto onde, antes da encoimesis ou sono, eram submetidos a rigorosas prescrições higiénicas e influências sugestivas. Então os doentes entoavam preces, cantos ou faziam sacrifícios, enquanto os sacerdotes lhes falavam com uma linguagem mágica de curas milagrosas, de ressurgimentos insólitos realizados pela influência do Deus, elevando assim as suas esperanças mesmo nos casos mais graves e desesperados.

Mas o método divino por excelência era o do sono no templo, a encoimesis ou incubatio. Deixados ao pé das estátuas do Deus ou das suas divindades associadas, sonhavam na escuridão da noite que o próprio Deus se lhes apresentava; ou melhor, era uma grande serpente (seguramente sem dentes nem veneno) a que, deslizando por aqueles admiráveis pórticos, despertava nos pacientes a ideia de que o Deus adivinharia o género do seu mal e aplicaria o remédio seguro e milagroso.

Das inscrições do templo de Epidauro parece deduzir-se que, nos primeiros tempos, era o próprio Deus que realizava as curas (talvez fosse assim enquanto o herói ou o Iniciado que respondia a esse nome viveu?). Depois foram os sacerdotes os que se apresentavam ao doente com a máscara de Asclépio, às vezes acompanhados de sacerdotisas que faziam as vezes das filhas do Deus, e aplicavam os remédios e davam sãos conselhos.

O incubante nem sempre era o próprio doente, pois a influência milagrosa podia transmitir-se ao paciente, quiçá impossibilitado para fazer tão longa e penosa viajem, por intermédio de outra pessoa ou peregrino enviado a recolher a graça divina.

Os conselhos e prescrições de Asclépio, transmitidos durante a incubação, respondiam a um plano médico razoável, e costumavam consistir numa dieta, exercício, variados recursos psíquicos, e mais raramente sangramentos e purgantes. Os doentes curados deviam demonstrar de maneira prática o seu agradecimento ao Deus, através de presentes, e às vezes com moedas de ouro e prata que se deixavam cair em alguma fonte sagrada, ou colavam-se com cera às pernas da estátua de Asclépio. Segundo um antigo costume, ao Deus dedicavam-se-lhe também representações figuradas (ex-votos) da parte do corpo curado, realizadas em variados materiais, tal como ainda se continua a fazer nos templos actuais.

Em alguns santuários de Asclépio inscreveram-se as histórias clínicas dos doentes e os remédios empregues para a sua cura, quer fosse nas colunas do templo ou em painéis de metal com votos; mármore ou pedra que se penduravam nas paredes do recinto. Destes painéis votivos parece ter saído o estudo sistemático de doentes e doenças realizado imediatamente pela Escola hipocrática de Cos.

O método curativo variava em cada um dos santuários, segundo se aplicasse o teúrgico, o divino, o místico ou o humano ou racional. Estes métodos dependiam do grau que os Asclepíades ou sacerdotes médicos tinham conseguido alcançar em cada comunidade. O método teúrgico fundamentava-se na Magia prática ao mais alto nível, e estava a cargo dos sacerdotes Iniciados; o método divino, sem deixar de lado o sacerdócio, fundamentava-se na presença directa do Deus; o método místico baseava-se na sugestão e na hipnose; e o método humano ou racional foi a aplicação científica compilada dos anteriores conhecimentos que caracterizou especialmente a Escola de Cos. Durante muito tempo perdurou a tradição de Epidauro e da serpente sobre os outros santuários. Deus, serpente ou sacerdote, o que estava sempre presente era a Magia, todavia na Escola de Cos em que a Magia foi a Magna Ciência, vestígio da que hoje nos orgulhamos como se fosse o compêndio de toda a sapiência.

Longe ficam aqueles tempos em que os Deuses, ainda que revestissem a forma de heróis ou semideuses, em todo caso, Iniciados, estavam em contacto directo com a Humanidade. Longe ficam os tempos da Medicina Mágica, que era sagrada porque podia estabelecer um contacto entre o mundo divino e o mundo humano, entre a Harmonia Celeste e a sua capacidade de restabelecer o equilíbrio perdido pela doença.

Hoje restam-nos mitos carregados de símbolos, ricos em matizes para aqueles que anseiam recuperar os velhos Mistérios; apenas contos e fábulas para os que preferem a cegueira da ignorância. Asclépio continua vivo? Sobrevivem ainda a sua força, os seus poderes e a sua capacidade de se apresentar perante os homens sob uma ou outra forma? Que relação o vincula a Seraphis, esse outro médico mago que floresceu em terras do Egipto? Torna-se curiosa a comparação entre um Deus e outro, pois ambos são filhos do Sol: Asclépio de Apolo y Seraphis de Osíris. É por acaso o mesmo Sol que brilha para os homens, pondo luz nos seus corpos doentes e nas suas almas obscurecidas pela ausência de Sabedoria?

Dr. António Alzina

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