Astrologia: A Casa XII

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Nova Acrópole

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«Astrologia: É a Ciência que expõe a acção dos corpos celestes sobre as coisas do mundo e pretende diagnosticar os acontecimentos futuros segundo a posição dos astros.»

in Doutrina Secreta, H.P.B.

 

Actualmente, a Astrologia encontra-se no interior de grandes debates e contestações levantados por aqueles que se recusam a aceitar a veracidade inerente a esta arte milenar. Não podemos associar a sabedoria inerente à Astrologia como algo relativamente actual. A sua origem brota de inúmeras civilizações como a Hindu, a Egípcia, a Mesopotâmia, a Maia, a Grega, entre outras. Ao analisar a sua história, conseguimos perceber que esta área do saber nunca foi percepcionada como algo irrelevante ou desconcertante, como hoje é entendida.

Durante muitos séculos a Astrologia ocupou um lugar de referência nas conversas e escritos dos sábios do Oriente e do Ocidente, estando sempre associada aos grandes mistérios da Natureza. Até ao século XVII, a conceituada Universidade Sorbonne em França, para além de outras Universidades como a de Salamanca, leccionavam nas suas instituições o curso de Astrologia, demonstrando não se tratar de um conhecimento de terceira ordem. Actualmente, e após alguns séculos de cativo, a Astrologia inicia uma nova aparição que começa a despoletar entre os anos 80 / 90 para entrar neste novo século com toda a sua força reformadora.

A Astrologia surge numa altura onde o Homem começa a perceber que a Ciência, juntamente com o seu racionalismo, não conseguiu trazer a tão esperada felicidade proveniente da desconexão entre o Homem e os Deuses. Durante a sua existência, os paradigmas inerentes à Ciência não conseguiram responder às Grandes dúvidas da Humanidade, às incertezas e anseios de milhares de homens e mulheres, pelo simples facto de não ter atendido à sua natureza Divina.

Hoje, desiludido e cansado, o Homem tenta novamente conectar-se com o seu Eu Superior, com o seu Eu Transcendente, ou seja, com o Divino. Como nos ensinaram os antigos sábios filósofos, a Ciência tem necessariamente de renovar-se e com isso aliar-se a algo que lhe dê Sentido, que lhe dê Alma. Para isso nos serve o ensinamento das antigas civilizações onde, por exemplo, a Astrologia (Alma) se encontrava associada à Astronomia (Ciência) não existindo qualquer diferença entre elas pois uma não fazia sentido sem a outra. Hoje, ao vivermos de forma tão explicita o resgate do Homem pela sua antiga condição de aliado de Deus, presenciamos muitas atrocidades e falsas promessas que conquistam muitos homens e mulheres que, em actos de pleno desespero ante a perda de Sentido da vida, acabam por ceder. Não podemos negar que entre a mescla de sentimentos que vivenciamos diariamente existe sempre a procura de Algo, uma inquietação inerente ao Homem, à sua Alma, à sua Mente Superior, ao seu o Eu Transcendente.

A Astrologia volta a despontar no renascimento deste impulso que se faz sentir entre os Homens. Ela não é o Caminho mas uma forma de atingir o Caminho pela profunda sabedoria que encerra nas suas linhas e disposições aparentemente confusas mas possuidoras de uma sublime compreensão do Homem, da Humanidade, do Todo. Neste artigo vamos fazer uma pequena viagem ao mundo da Astrologia e perceber de que forma o «Homem Velho» pode resgatar de dentro de si o «Homem Novo», através do encontro entre o seu Eu Inferior e o seu Eu Superior. Trata-se de encetar um pequeno estudo sobre o contributo da Astrologia e mais concretamente da Casa XII nesta crescente necessidade do Homem materializado se Espiritualizar. A Viagem Astrológica «…a mais fantástica aventura que um homem pode iniciar: uma viagem através de si próprio» (in O Alquimista, Jorge Angel Livraga) Como refere Howard Sasportas, «existem três ingredientes básicos que se combinam para formar uma carta astrológica: os planetas, os signos e as casas.» Os planetas dirigem uma energia, os signos uma qualidade e as casas uma área de vida. Quando o Astrólogo se depara com uma carta astral, ele inicia uma espécie de viagem juntamente com o nativo percorrendo as XII áreas da sua vida, ou seja, as XII Casas. Neste percurso ele vai analisando a colocação dos planetas, signos e seus aspectos.

Rapidamente vamos resumir esta viagem encerrando-a em duas fases. Esta descrição será feita de uma forma bastante simples, pois neste artigo não nos interessa aprofundar esta questão mas apenas criar uma maior compreensão da viagem que o astrólogo percorre para alcançar a Casa XII, aqui em análise. Quando nascemos iniciamos a Casa I, a casa do corpo, do invólucro que trazemos para esta vida. Gradualmente começamos a sentir uma inquietação interior que tentamos satisfazer ao longo das Casas seguintes e por isso principiamos a nossa caminhada com a Casa II onde adquirimos as condições mínimas de subsistência para vivermos, como habitação, alimento e roupa. De seguida, estabelecemos contacto com a Casa III, onde iniciamos a nossa comunicação com aqueles que nos são mais próximos, para depois formarmos uma família na Casa IV, termos os nossos filhos na Casa V e um emprego na Casa VI. Encerrada a primeira fase, percebemos que a nossa vida está estruturada e organizada, no entanto olhamos para dentro e continuamos a sentir a mesma inquietação inicial, a sensação de que algo falta, mas ao mesmo tempo a ideia de que temos tudo para estarmos felizes. Nesta mudança de fase, algumas pessoas contentam-se com aquilo que construíram para si, mas outras preferem seguir essa insatisfação arriscando a entrada na Casa VII. Aqui despem o seu lado pessoal, egoísta, individualista e iniciam o caminho altruísta, onde a palavra «os outros» passa a existir e onde vagamente se começa vislumbrar uma pequena luz formada pelo final da Casa XII. Assim, encerrado um ciclo, iniciamos na Casa VII uma nova fase da nossa vida que nos prepara para a Casa seguinte, a Casa VIII.

Esta Casa vai colocar-nos à prova e seleccionar aqueles que se encontram preparados para abdicar do seu Eu Inferior, egoísta. Aqui o Homem, juntamente com o seu corpo e o seu Ego, é destruído por Hades, o Plutão, o Deus dos Infernos, do mundo subterrâneo que leva à morte. Estamos na Casa da picada do Escorpião que com o seu veneno destrói, exercendo sobre o Homem uma completa transmutação e purificação. Só assim poderemos continuar e enfrentar o mergulho da Sabedoria vivido na Casa IX, o encontro com o Destino na Casa X e o sentimento de fraternidade da Casa XI. A viagem termina no momento em que entramos na sublime Casa XII, na Grande Porta, aquela que liberta o Homem e lhe dá passagem para o Transcendente, para o Nirvana, para o fim do Samsara, a continua roda de mortes e nascimentos, ou seja, o ciclo da Reencarnação. Finalizando esta viagem, rapidamente percebemos que o verdadeiro alcance da Casa XII é algo impossível para nós, pois ainda permanecemos no primeiro ciclo Zodiacal. Ainda continuamos agarrados ao nosso Eu, ao nosso Ego egoísta, ao quaternário da nossa personalidade. Neste sentido, todo o resto nos surge como algo distante pois raramente demonstramos atitudes que favoreçam plenamente o outro em detrimento dos nossos interesses pessoais. Vivemos encerrados nas quatro paredes do nosso Eu Inferior que diariamente se recusa a abrir uma pequena janela para o Sol entrar, despertando o Eu Superior, o Homem Novo. Só é possível alcançar a Casa XII quando abandonarmos a necessidade de responder diariamente aos nossos desejos e com isto perceber as necessidades daqueles que nos rodeiam.

É pela entrada na Casa VII, no segundo ciclo Zodiacal, que os «outros» começam a integrar a nossa realidade permitindo o início da caminhada que nos levará à Casa XII. Com a sua elevada sabedoria, a Astrologia prevê as grandes limitações do Homem e a sua incapacidade de sair da sua condição Kama Ma-násica, ou seja, a necessidade instintiva de adquirir no momento que quer aquilo que deseja para seu benefício. Nesta perspectiva, na leitura do mapa natal a Casa XII não é som um Fim mas também um Meio. Aos olhos do Astrólogo a Casa XII adquire uma importância fulcral para aqueles que na ver-dade querem estabelecer esse encontro com o Eu Superior, o Eu Transcendente isento de interesses pessoais. A análise da Casa XII contém um fim, inserido na viagem acima citada, mas também uma forma, um Meio para este encontro.

A Casa XII é a Casa da Espiritualidade, a área de vida referente ao Divino, e aqueles que estão dispostos a alcançar esta Transcendência devem estar preparados para grandes desafios, obstáculos e mesmo a morte do seu antigo self vivida na Casa VIII. Ao estar representada por um círculo, a carta natal transmite a ideia de continuidade – reencarnação – mas também de início, marcado pela Casa I, e de fim marcado pela Casa XII. São as duas faces da mesma moeda, a dualidade inerente à natureza: Eu O Inferior marcado pela Casa I e o Eu Superior marcado pela Casa XII, o grande causador da insatisfação presente no nosso interior mas ao mesmo tempo o indicador do Caminho (Meio) para alcançarmos o fim que também representa. Sintetizando, podemos definir nesta Viagem Astrológica pelo menos três grandes Casas associadas a diferentes tomadas de consciência: Casa I: Consciência de nós, do nosso corpo, dos nossos sentimentos e necessidades pessoais. Eu Inferior. Casa VII: Consciência do outro e das suas necessidades em detrimento do nosso EU. Eu Superior Casa XII: Encontro com o Eu Total, o Transcendente, a Espiritualidade. Neste sentido, podemos fechar esta viagem Astrológica conscientes de que ao nascermos temos de nos libertar do nosso Eu Inferior – Casa I – para tomarmos consciência das necessidades dos outros – Casa VIII – e assim atingir o nosso Eu Superior, Eu Transcendente – Casa XII. No entanto, ainda fica por esclarecer o contributo prático da Astrologia no alcance desta Espiritualidade e Transcendência A Casa XII «Estranho ser é o homem! Mal lhe acorrentam os pulsos ou o retêm um par de dias, logo clama desesperado por liberdade, mas sente prazer em auto-acorrentar-se e em auto-encarcerar-se nas suas paixões, vícios e ignorância.

O homem transformou o seu corpo num cárcere e, apesar dos sofrimentos, não deseja abandona-lo…» (in O Alquimista, Jorge Angel Livraga) A Casa XII está associada ao signo de Peixes e ao planeta Neptuno. Estes três elementos emanam de si a mesma energia: Transcendência e Espiritualidade. O signo de Peixes, assim como a Casa XII, fecha o Zodíaco iniciado em Carneiro. Ele representa a intuição e o mergulho nas águas regidas por Neptuno, o Deus dos Mares. Por isso, a relação que existe entre estes «três ingredientes» é notória quando percebemos que para aceder à Casa XII temos de personificar o signo de Peixes para mergulhar no Oceano guardado por Neptuno. Se analisarmos mais a fundo este signo, percebemos que na sua simbologia os peixes encontram-se a nadar em sentidos opostos, marcando a dualidade humana: Eu Inferior e o Eu Superior. Por um lado o desejo de alcançar o Transcendente e por outro a dificuldade em abdicar da forma instintiva e pessoal. A Casa XII surge sempre como algo confuso e difícil de explicar. Na verdade, tentar compreender e interpretar o que não é visível pode tornar-se um pouco complicado. Muito mais fácil seria analisar a Casa I onde tudo é materializado, ao contrário da Casa XII, onde tudo é mais vago e distante. A Casa XII é uma área de vida para se Sentir, para olhar o lado mais subtil do Eu, com sentimentos nobres, elevados e que nos permitam ir um pouco mais além do Tocar.

Para seguir este caminho, vamos analisar algumas das muitas matrizes inerentes à Casa XII e que orientam o Astrólogo na busca desta Espiritualidade. «Os hábitos e costumes são torrentes morais diante dos quais há que construir diques de inteligência, para que essa força se canalize pelos canais da recta acção e do discernimento» (in O Alquimista, Jorge Angel Livraga) O «Sótão» Muitas vezes se apelida a Casa XII de «sótão». O lugar onde despejamos tudo aquilo que não queremos confrontar e que acabamos por esquecer. No entanto, deparados com uma situação difícil ou inesperada, a porta deste «sótão» pode abrir uma pequena fenda deixando sair aquilo que pensávamos estar escondido. Falamos de medos, fobias, evasões, receios, pânicos que são desencadeados por acon-tecimentos exteriores ou interiores a nós afectando várias etapas da nossa vida. Tudo isto habita nas águas aparentemente tranquilas da Casa XII. Nos momentos em que Neptuno, o Deus dos Mares desperta para um acontecimento, estes sentimentos ocultos surgem na superfície das suas grandes ondas.

Enquanto Peixes devemos saber nadar contra estas turbulentas águas que nos deixam confusos, sem rumo e sem ar. Só assim podemos sobreviver, sem nos afogarmos nos nossos próprios medos e evasões. Confrontar o Eu Inferior com o Eu Superior é abrir o nosso sótão e travar um verdadeiro encontro com o nosso Eu Total. «Abrir o sótão» é um dos passos a considerar neste caminho para a Casa XII. A obtenção de um maior conhecimento do Eu pelo acesso às águas turbulentas da nossa própria personalidade. A Casa do Karma A Casa XII, assim como todas as Casas de Água (IV e VII) conferem ao mapa natal uma tonalidade Karmica, deixando vislumbrar as pisadas do nativo nas suas vidas passadas e as pedras que deve colocar nesta vida presente para edificar as suas vidas futuras. Pelo seu profundo conhecimento, a Astrologia projecta o nosso passado, o nosso presente e o nosso futuro. Uma pessoa que nesta vida se depara com um difícil caminho espiritual traz da vida anterior uma bagagem karmica menos harmónica, ao contrário de alguém com grande capacidade de estabelecer este contacto.

Não significa que Karmicamente o primeiro caso se encontre numa fase mais avançada pois existem pessoas com processos difíceis de alcance espiritual e que acabam por lutar com mais afinco que aquelas cujo processo se encontra facilitado. Se analisarmos a fundo o conceito inerente a Karma, constatamos que ele visa um fim, uma meta a cumprir. Atingir o Nirvana e o último degrau da grande escada da vida. Para a Astrologia este último degrau está representado pela Transcendente Casa XII podendo dizer que o objectivo último do Karma é a Casa XII. Neste sentido, temos de incluir esta Casa na análise Karmica de um mapa natal, pois ela representa o fim do ciclo Zodiacal, o fim do Karma, enquanto «Lei de Retribuição, a Lei de causa e efeito ou de Causa ética». Assim, as restantes Casas representam as áreas de vida onde o Karma actua exigindo sua superação. É neste sentido que percebemos a existência de pessoas que nesta vida devem trabalhar mais uma área de vida em detrimento de outras. Tudo está relacionado com a bagagem Karmica e com a Casa a trabalhar nesta vida. Quando as 11 Casas estiverem Karmicamente concretizadas, é aceite a entrada da pessoa na Casa XII e a conexão com o Eu Total.

Por agora o importante é manter a nossa atenção em níveis menos elevados e travar a nossa luta diária com a nossa área de vida karmicamente débil. Pelo encontro com o nosso Sótão e as nossas águas turbulentas, podemos reconhecer em nós esta área de vida permitindo a sua superação Karmica e consequentemente o acesso mais estruturado e consistente neste encontro com o Sublime. Conhece-te a Ti Mesmo «Se te é imprescindível satisfazer os teus desejos cada vez que eles o solicitem, não sendo teus escravos mas teus reis; se amas os filhos da carne mais que os do espírito; se queres morrer docemente recostado num leito, foge da trilha estreita, pois ela glorifica os fortes, mas torna loucos e precipitados os débeis.» (in O Alquimista, Jorge Angel Livraga) Em Astrologia a Casa XII pede uma transmutação, uma verdadeira alquimia interior que nos faça entrar em contacto com o Eu Superior o Eu transcendente. Já referimos que essa alquimia só é possível a partir do momento em que estamos dispostos a enfrentar as nossas águas turbulentas e misteriosas. No entanto, actualmente, as pessoas tentam ir ao encontro deste Sentido mais elevado com formas destrutivas fornecidas pela via mais fácil e não pela via mais lenta e sólida. Diariamente somos aliciados por falsas promessas que na verdade nos conseguem colocar de forma fácil e acessível em contacto com o transcendente.

Sem muito esforço sentimos a nossa alma elevada e um estado sublime de paz e tranquilidade, conseguimos nadar nas nossas águas sem correr o risco de nos afogarmos. Porém, quando o Deus dos Mares lança a sua onda gigante, rapidamente perdemos o ar e caímos na nebulosidade e na confusão das nossas próprias águas. Cair no erro de pensar que existem formas fáceis e rápidas de encontrar dentro de nós a harmonia, não passa de uma ilusão. Para podermos aceder ao nosso Eu superior e ao verdadeiro contacto com o Transcendente é necessário enfrentar o Caminho difícil, de pedras, de provas e obstáculos. Confrontar o nosso Eu Inferior com os medos, os anseios, os problemas e bloqueios escondidos no nosso sótão não é, como podemos imaginar, uma tarefa fácil e acessível em todas as «esquinas». Nos dias que correm, gerou-se uma espécie de «moda» em torno do alcance do Transcendente que apenas pretende comercializar esta inquietação inerente ao Homem. As falsas promessas de transcendência são, muitas vezes, causadoras de perda da consciência de muitos homens e mulheres que vêm o seu lado psíquico completamente afectado para toda uma vida. O nosso plano superior, espiritual e transcendente ainda continua a ser um templo impenetrável para todos nós e por isso, o seu acesso deve ser realizado com muito cuidado. Não o podemos colocar nas mãos de qualquer pessoa que se qualifique como entendida porque tirou uns cursos ou frequentou umas escolas no Oriente, como todos os dias ouvimos falar.

A ruptura que estas pessoas podem causar no nosso Eu é algo irreparável na nossa alma e no nosso inconsciente. É neste sentido que não podemos fugir ao único Caminho possível para um verdadeiro contacto com o nosso outro Eu. No entanto, todos o evitam pois exige tempo, trabalho e dedicação. Conhece-te a Ti Mesmo é a única via para alcançar o Sagrado, o Superior que existe dentro de nós. Se todos os dias realizarmos um trabalho consciente de confronto com os nossos anseios, problemas, defeitos, blo-queios, com o nosso «sótão» obteremos um verda-deiro domínio da nossa personalidade, do nosso Eu. Assim, enquanto peixes, poderemos nadar nas águas turbulentas de Neptuno e seguir com segurança o caminho da Casa XII. Não podemos pensar que a via de acesso ao Superior é igual para todos. A escada que cada um deve seguir varia Karmicamente de pessoa para pessoa. Realizar, como vemos, sessões de elevação espiritual em massa quando a reacção de uns não é a mesma para outros é um engano que pode criar quebras nas nossas águas. Este trabalho é pessoal, personalizado. Se quisermos algo subtil, que não faça perder tempo e não coloque na nossa mente a palavra «os outros», então podemos procurar essa aparente tranquilidade de rápido acesso, considerando a incapacidade de enfrentar a turbulência do nosso mar.

Por outro lado, se existir um interesse sincero em travar um encontro com o nosso Eu Total, então devemos de realizar esta tarefa de forma séria e consciente. Ao encerrar na sua matriz o «Conhecimento de Si Mesmo», a Astrologia apresenta nas suas linhas a via que cada homem e cada mulher deve tomar no sentido de alcançar este encontro. Como referimos, a Casa XII não é só um fim, mas também um meio de acesso a ela mesma. A Casa XII levanta questões mas também fornece as respostas juntamente com o resto do horóscopo. Neste sentido, a análise desta área de vida indica à pessoa o Caminho a seguir na obtenção da sua espiritualidade consoante as suas características e potencialidades pessoais de origem Karmica. Exemplificando, podemos dizer que uma pessoa pode viver este encontro, e consequentemente a sua espiritualidade, pela transmissão da palavra, pela acção, pela arte, na luta de um Ideal, pela medicina, pela família, pelo voluntariado, pelo isolamento, pela religião, pelo trabalho ou serviço. Cada pessoa, de forma individual tem na sua Carta Natal a via definida de ascensão espiritual e no contacto com o seu Eu superior. Se para uma pessoa esta elevação se processa pela dedicação à família, para outra esta ascensão pode estar contida numa religião ou na luta por um Ideal. Este processo varia de pessoa para pessoa, mas existe sempre uma matriz que se mantêm: a acção em favor daqueles que nos rodeiam. A Casa XII lembra a existência de um meio para findar com as questões, anseios, confusões, inquietações que ela própria fomenta nas suas águas aparentemente tranquilas. É um erro frequentar algumas aulas de elevação mental e espiritual, ou conhecer um pouco de tudo e constantemente mudarmos de «meios» para estabelecer este encontro com o Transcendente.

No mínimo, pode ajudar, mas no final a energia que emanamos não está dirigida para o benefício de ninguém senão de nós mesmos. Será que isso faz algum sentido? Para encontrar a felicidade e o encontro com nós mesmos, temos de mergulhar nas nossas águas e confrontar os receios que construímos nesta vida e que estão escondidos no nosso sótão e na nossa bagagem karmica. Neste processo é necessário direccionar parte dessa energia, como vamos ver à frente, em benefício dos outros. Este mergulho não é fácil. Permitir que nos enganem com falsas promessas, na tentativa de executar uma tarefa que só nós podemos realizar, é uma perda de tempo. Elevarmos a nossa mente e a nossa Alma passa por um verdadeiro conhecimento de nós mesmos realizado em pedras firmes e construídas pela Grande Sabedoria. Cultivar o discernimento e o Saber é construir uma escada sólida e firme onde lentamente podemos subir degrau a degrau, sem correr o risco de se desmoronar sobre nós mesmos. Os Outros A espiritualidade e a conexão com o transcendente nunca poderá ser estabelecida se não existir uma relação de boa vontade entre Eu e os Outros. Se tomarmos uma atitude egoísta e individualista nunca iremos obter este encontro e viver uma perfeita alquimia interior. Para muitos, a proposta colocada pela Casa XII é en-tendida como um sacrifício para o qual ninguém está disposto a ceder. Sacrifício é sinónimo de infelicidade. Hoje o que se pretende é o oposto, a felicidade.

Dedicar algum tempo da vida aos outros, abdicar do conforto, dos desejos e necessidades é para muita gente um Sacrifício que não realiza ninguém. No entanto é importante perceber que o Caminho traçado pela Casa XII está longe de ser um Sacrifício, mas um Sacro-Oficio. Atender às necessidades dos que nos rodeiam é cada vez mais um Sacro-Oficio capaz de aproximar o Homem dos Deuses e consequentemente da sua felicidade. Hoje, homens e mulheres vivem com uma inquietação interior que não conseguem decifrar acabando por cair no erro de constantemente materializar a felicidade pensado ser esse o caminho a seguir. Por isso vemos tantos exemplos de pessoas que possuem bens materiais e um conforto apetecível por muitos, mas que no fundo não se sentem felizes. Em actos de desespero acabam por destruir a sua vida física. Estar encerrado em Si Mesmo não é o Caminho para a felicidade, para o contacto com o Eu Superior, para o mergulho nas águas revoltas. Este discurso não é uma contestação à aquisição de um carro, de uma casa, de conforto material, mas sim à entrega de nós mesmos aos que nos rodeiam sem ficarmos encerrados nesse mundo materializado. Trata-se de partilhar, ajudar, apoiar os que necessitam. A entrega aos outros é a melhor forma de nos conhecermos e de alcançarmos a nossa espiritualidade. Por isso, a Casa XII ocupa a última casa do Zodíaco. Após ter alcançado todas as realizações pessoais, profissionais, materiais, afectivas, a pessoa acaba por perceber que nada disso lhe trouxe a verdadeira felicidade e que o caminho escolhido não passou de um engano por não lhe ter garantido a tranquilidade, paz e harmonia pretendida. Somos todos diferentes e por isso todos nós temos algo a dar a quem está ao nosso lado, trata-se de compartir.

Sair do nosso Self e olhar aqueles que nos rodeiam de forma verdadeira, atendendo às suas necessidades que muitas vezes não acolhemos por falta de tempo, disposição e mesmo vontade. O Homem tem a obrigação de atender àquele que está a seu lado e desligar-se do seu próprio Ego, nem que seja por pequenos instantes. Muitas vezes, quando estamos a executar uma tarefa apercebemo-nos que naquela acção existe algo que nos dignifica, que nos torna mais generosos, mais próximos dos outros, do Divino. Por vezes, estes acontecimentos vêm ao nosso encontro de uma forma inesperada e nesse momento algo em nós desperta para um novo Sentido da Vida e até dizemos «nunca pensei sentir isto!». Trata-se de Sentir e aproveitar os pequenos momentos, as pequenas chamadas de atenção que podem transformar a nossa vida colocando-lhe um Sentido que nasce do mergulho das nossas águas, do nosso sótão, do Verdadeiro Conhecimento de Nós Mesmos e da partilha de algo em beneficio dos outros. Deixar entrar os pequenos raios de Sol que com a sua Luz aquecem a escuridão da nossa vida marcada pelas quatro paredes da nossa Personalidade. Assim, podemos defender o nosso Eu Total, do que vamos falar já a seguir. Inimigos Secretos Quando nos referimos às Casa XII também falamos dos Inimigos Secretos. Daquelas pessoas que surgem de forma oculta para danificar a nossa vida, os nossos sentimentos, a nossa paz e equilíbrio interno. Eu diria que os inimigos presentes na Casa XII estão mais perto do que poderíamos imaginar. Muitas vezes esses inimigos somos nós mesmos. Termino as matrizes deste artigo com esta questão tão simples e ao mesmo tempo tão complexa que nos leva a reflectir sobre as muitas vezes que nos prejudicamos por não termos um verdadeiro Conhecimento de nós mesmos.

Quando temos um adversário, um inimigo, temos de o conhecer para nos podermos defender. Não será o mesmo quando se trata de enfrentar o nosso pior inimigo, Eu Inferior? Para dominarmos o território do Eu Total temos de encetar uma verdadeira batalha com o nosso Eu Inferior e atender ao facto que após a morte surge a vida. Temos de morrer enquanto pessoas para enfrentar o nosso grande inimigo. Temos necessariamente de reflectir sobre nós mesmos, enfrentar o nosso maior adversário, o EU Inferior. Travar uma verdadeira batalha de forma a encontrar o nosso Eu Superior na luta por algo que beneficie quem no rodeie e permita o verdadeiro mergulho nas nossas águas no nosso Eu Superior, Eu transcendente. Só assim poderemos elevar a nossa Mente, a nossa Alma e estabelecer esse encontro sublime com o Eu Superior, Eu Transcendente, Eu Total. «Na Astrologia como na Psicologia, é preciso ir além do mundo visível da matéria e entrar nos domínios do Espírito Sublime.» (in Doutrina Secreta, H.P.B.) Para a Astrologia a Casa XII personifica o desejo místico de união com a nossa fonte primordial. Dirigir a nossa vida ante a busca do Transcendente, do Superior, do Divino percorrendo um velho caminho. Um Caminho que a nossa condição Humana deixou cair no esquecimento, pelo corte que traçou com o vinculo que nos liga a Deus, ao Sagrado. Independentemente do nosso Karma, da nossa vida, do rumo que tomamos, o importante é não esquecer. Não esquecer que pertencemos a uma condição Sublime que nos ajuda a compreender a grande questão: «de onde vimos, para onde vamos». A Casa XII permite este reencontro com o Divino. Uma profunda meditação, acente nos princípios atrás referidos, pode indicar a cada homem e a cada mulher o Caminho a tomar na busca da sua felicidade. O Caminho a tomar para o encontro com o seu Eu Total, com a Auto-Transcendencia. A Casa XII permite matar a fonte de toda a nossa inquietação, a Saudade Divina.

 

Isabel Areias

Investigadora

 

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