Camino de Damasco, Caravaggio

Caravaggio é sem dúvida um dos pintores que mais mensagens ocultas deixou nos seus quadros. Este, Paulo caído face à Luz, no seu caminho para Damasco, é um deles. Michelangelo Merisi organiza a cena num rectângulo em que destaca dois blocos. O fundo é escuro, negro, como tanto aprecia. Não havendo, assim, um ponto de fuga, porque não é necessário ir até interior algum, toda a ideia de desenvolve-se no primeiro plano.

O bloco inferior é ocupado por Paulo, caído, com a cabeça na nossa direcção, porque é isso o que interessa nele, a sua cabeça, a sua mente, perdida num caos de ideias, a causa da sua queda. E os seus braços estendem-se, formando um ângulo que fecha a cena, até ao verdadeiro protagonista.

Porque o verdadeiro protagonista do quadro não é Paulo: é o cavalo.

O cavalo que ocupa completamente o bloco superior, em parte fundido com o fundo, outra parte coberto com a mancha branca da sua pelagem, que infalivelmente atrai o nosso olhar

Porquê o cavalo? Porque é a matéria, a matéria à qual se aferrava no seu caminho de vida a espiritualidade do homem, em que foi ancorado, e precisou de cair dela, libertar-se dela, para elevar-se até ao mais alto partindo do mais baixo, onde se encontra. O cavalo levanta a pata e mostra-nos o seu casco: é o material inanimado que se ancora na terra e começa a despegar-se dela com esforço.

Observai o rosto de Paulo: não é o de um homem que acaba de receber um duro golpe, mas o de alguém que, como em sonhos, como atendendo a uma visão interior, inicia um Caminho. Uma nova Senda.

Chama-se também a atenção para outro personagem, o criado, que sujeita o cavalo com tranquilidade, sem olhar sequer para o amo caído, que parece solicitar ajuda. O seu rosto é impassível.

Porquê? Não é uma atitude estranha? Não: porque ele, também é matéria, não foi tocado pela Luz, e por isso ocupa-se, só, do outro ser material. O Espiritual, ainda não o tocou, não o reconhece. Não é um mau criado: apenas ainda não é capaz de fazer outra coisa.

Um tratado de esoterismo num tema tão simples? Sim, é. Porque o autor se chama Caravaggio. Aventureiro, briguento, morto por uma facada durante uma briga. Mas uma alma que buscou, também ele, sempre a Luz.

 

M.ª Ángeles Fernández