Há pouco mais de meio século, O Principezinho, uma personagem meta-histórica e, contudo – talvez por isso mesmo – mais conhecida do que De Gaulle, Curie ou mesmo Kennedy; forjado pela pena e imaginação de um herói de guerra, pronunciou um ensinamento daqueles que agitam o seu século e o mundo: «O essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração».

Poucos anos depois, em 1964, agora da pena e do génio de Quino (nome artístico do pintor argentino Joaquim Salvador Lavado), nasce outra personagem imaginária, de certa forma irmã do Principezinho; não tão séria nem solene, mas mais reivindicativa; não tão sábia e vidente da natureza profunda da vida, mas sim filósofa, com necessidade de saber, de elevar o olhar, de questionar tudo, e portanto inconformista, empatizando compassivamente todas as dores e misérias do mundo. Uma personagem semelhante a Tintin, ao Principezinho, ao Fernão Capelo Gaivota, com vida própria, a vida palpitante de um belo mito, nascida no tempo vinda de um sem-tempo, do mundo das aspirações e sonhos: MAFALDA.

O seu nome é aparentemente um anagrama publicitário, aquele da empresa de eletrodomésticos Mansfield que esta devia ter anunciado, mas que, rebelde, não o fez. Embora seja possível que o seu criador, Quino, quem lhe deu o nome, apenas inconscientemente, se tenha recordado que Mafalda é nome de infanta portuguesa[1], daí a dignidade régia e espírito elevado e rebelde da nossa heroína, porque existe uma magia nos nomes que os fazem karmicamente poderosos.

 

Mas da mesma forma com que o fogo consome a madeira e se apoia nela buscando o céu, também Mafalda arde e agita-se no seu século, procurando aquilo que sempre o transcende e lhe dá sentido: a verdade, a justiça, a paz nascida da cooperação e o trabalho conjunto, a liberdade que emirja da estreiteza do pensamento e da opinião. Ela é sempre a voz da consciência humana(…)

 

Mafalda nasce em Setembro, num dos semanários informativos mais importantes da Argentina, a Primera Plana, onde aparece regularmente durante seis meses. Mas estas vinhetas não serão incluídas nas futuras edições pois o seu autor, Quino, considerou-as «fase de rodagem». Em Março de 1965 prossegue a publicação, agora no El Mundo de Buenos Aires, um dos periódicos de maior tiragem deste país, onde aparecem seis tiras de vinhetas por semana. Um pequeno editor converte-as em livro e a sua edição esgota em doze dias. Aqui começa o fenómeno “Mafalda”, que é traduzida e editada, primeiro em italiano, chegando depois a Espanha e Portugal (em 1970), ao Brasil (no mesmo ano) e a partir de 1971 existe já em inglês, em hebraico, em dinamarquês, em sueco, norueguês e francês, fazem-se posters, cadernos, envelopes para presentes… e em 1973 começa a ser emitida na televisão argentina (260 curtas com a duração de um minuto e meio cada). Chega até ao Japão e estende-se a praticamente todos os lugares do mundo.

Nove anos depois do seu nascimento, em 1973, Quino renuncia a fazer mais vinhetas, a personagem é demasiado poderosa (por si mesma, não por ter chegado ao mundo inteiro) e consome-o; é a velha história da lâmina da espada que vai devorando a bainha em que descansa, como a alma ao seu veículo carnal. Ou, talvez, simplesmente se retire ao estranho mundo de onde veio. Só excepcionalmente, e como dever de «cidadão do mundo», a pedido da UNICEF, produz dez vinhetas e um poster original para a Declaração dos Direitas da Criança.

Do mesmo modo que o colonialista Tintin, Mafalda não pode deixar de pertencer ao século em que nasceu, e mais especificamente à década da Guerra Fria, ao medo a um holocausto nuclear, à pobreza endémica e cada vez maior do seu país natal, cujos licenciados fogem para os EEUU, procurando o futuro que a ineficácia política na sua terra-mãe lhes nega, à década dos Beatles, da divulgação entre as massas da “caixa idiota” (não ela, mas quem a ela ficava aprisionado), e das guerras sem sentido (excepto a venda de armas) como a do Vietname e tantas outras, uma década na qual já é evidente (ainda que só agora tenha deixado de ser “tabu”) o perigo devastador da excessiva população mundial, raiz da maioria das misérias de todo o tipo que hoje vivemos face à perspectiva de um cataclismo ecológico. Um tempo (até à queda do Muro de Berlim) em que o mundo era governado ou pelo comunismo soviético ou pelo liberalismo e imperialismo económico ianque.

Mas da mesma forma com que o fogo consome a madeira e se apoia nela buscando o céu, também Mafalda arde e agita-se no seu século, procurando aquilo que sempre o transcende e lhe dá sentido: a verdade, a justiça, a paz nascida da cooperação e o trabalho conjunto, a liberdade que emirja da estreiteza do pensamento e da opinião. Ela é sempre a voz da consciência humana, que se nega a ser como a sua mãe, a “entrar no antro da rotina” que mata a alma, ou como o seu pai, um “vencido da vida”, ela quer mudar o mundo e fazê-lo melhor, mas não só adaptar-se a ele, esquecendo-se de si e do que quer e deve fazer. Ainda que os seus país, exponentes típicos da burguesia “pobre” do momento, a adorem, e ela a eles, não quer ser, nem acabar, como eles, pois pensa que a vida deve ser algo mais do que ser dona de casa ou animal de escritório. Ela é idealista, mas de verdade, não pelas suas crenças, mas sim porque a sua alma transborda, ama profundamente a humanidade e sente as suas dores como próprias. Ela não é mística no sentido que damos hoje à palavra, mas sim naquele que lhe dão os verdadeiros sábios, como no livro A Voz do Silêncio (jóia do budismo mahayana) onde se diz: «Harmonizaste o teu coração e mente com a grande mente e coração da Humanidade inteira? Porque tal como na rugidora voz do Rio sagrado ressoam como ecos os sons de toda a Natureza, também o coração daquele que pretenda entrar na corrente deve vibrar respondendo a cada suspiro e pensamento de tudo quanto vive e alenta. (…) Harmonizaste o teu ser com a grande dor da Humanidade, ó candidato à Luz? Sim? …Então podes entrar.»

Brinca a ser astronauta, chefe de governo, e ainda estátua de herói nacional… e como ensinou Platão, as brincadeiras (disse-o quando não havia televisão que modelasse e amassasse como barro as consciências) definem a vocação das crianças, aí se vê a sua necessidade de conquista do ilimitado, o instinto de poder e amor à justiça, e a necessidade de deixar uma pegada na vida e na história. Aquilo a que não brinca, porque já o é, de alma inteira, é a ser Filósofa, no sentido clássico da palavra. Ou seja, não naquele das prestidigitações semânticas, mas sim naquele do amor à verdade, da procura do significado profundo do que a rodeia, da descoberta de analogias e vínculos misteriosos entre os seres e as coisas. Deixa-se acariciar, feliz, pelo sol, que é o mesmo, diz, que viu e iluminou a Cervantes, ou a Pasteur, a Bach ou a Shakespeare; ou fica a observar os esforços desesperados de uma mosca num vidro, enganada por aquilo que está detrás dele, comparando os seus esforços com os da humanidade; ou reflecte sobre a importância do dedo indicador e o poder que tem como símbolo; e quando chega um vendedor de máquinas de lavar roupa, pergunta-lhe se estas também lavam consciências. Seguramente que se odeia a sopa, é porque esta representa o indefinido, o não-formado, o barro da matéria… e tudo aquilo que nos obrigam a “engolir” e para o qual não temos força de oposição. Porque Mafalda, e tal é o estigma dos filhos de Zeus (como o leão entre os animais), não gosta que a mandem, e pior ainda, de perder a sua liberdade de escolher, de acertar, de ser ela mesma, com os seus mais e os seus menos. Numa ocasião a mãe ordena-lhe que coma a sopa e ela diz-lhe que não o pode fazer, que é Presidente de Estado, ao que a mãe lhe responde: “ah, sim, então eu sou o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, etc.” e dá-se conta de que a liberdade e o mando estão subjugados pelas suas fraquezas e dependências, e somente vencendo-as podem servir a uma missão, a um destino real.

Ficamos inclusivamente surpreendidos com um certo poder taumatúrgico nela. O seu pai, apaixonado pelas plantas, queixa-se que uma não floresce, apesar de ter sido regada, estar à luz e ter o alimento de terra necessário, Mafalda grita-lhe: “Chegou a Primavera!” e de imediato a planta começa a florescer, Mafalda responde inocentemente ao seu pai, atónito: “Faltava-lhe informação”.

Mafalda é a alma indómita, rebelde, amável ao mesmo tempo, compassiva mas não emotiva, que todos levamos dentro, aquela que quer saber, quer ser, quer fazer ser, e acima de tudo não ser engolida pela “sopa do mundo”. Em 1973 perguntaram a Julio Cortázar sobre Mafalda e o que respondeu é surpreendente:

«O que eu penso de Mafalda não tem importância nenhuma. O que realmente importa é o que a Mafalda pensa de mim.»

Porque ela é a criança interior que jamais devemos deixar morrer e que se converte, definitivamente, na voz que nos anima e alenta ou no mais severo juiz se não a deixamos viver.

Umberto Eco escreveu, de forma anónima, o prólogo de uma edição em italiano de um livro de Mafalda, em 1969, o seu primeiro na Europa, e diz que Mafalda é uma heroína rebelde que rejeita o mundo tal como é, pois sabe que não é assim que deveria ser e nega-se a aceitá-lo, por mais que a queiram fazer tragá-lo (como à sopa). Como podemos melhorá-lo se não nos rebelamos contra a injustiça, a ignorância, o culto ao corpo, os ideais de mentirinhas, ou pior, de pesadelos pois só pesadelos concebem o mundo (como o liberalismo intransigente de Friedmann ou o positivismo de Comte, ou o comunismo de Marx, ou todos os ismos e mitos diabólicos que embandeiram a juventude e o mundo para cair depois como chapas de ferro sobre a cabeça dos seus contemporâneos, fazendo-os encurvar-se e beber o barro onde vivem e morrem), como podemos, seguindo o nobre espírito de Mafalda, embandeirar-nos sem perguntar à vida, cara a cara, e encontrar respostas concordantes à natureza humana.

Numa das vinhetas o seu irmão, um bebé, lança para fora do berço o seu chocalho, Mafalda devolve-lhe-o e diz-lhe que não volte a lançá-lo de novo; quando repete o acto, Mafalda recrimina-o: “Não comeces já a desperdiçar o espírito da rebelião… pensa que vais precisar dele para fins menos banais.”

Obrigado Quino por nos entregares a Mafalda, e obrigado Mafalda por nos recordares, com tanta graça e lógica inquebrantável, aquilo que não devemos esquecer… se não nos queremos perder a nós mesmos.

Feliz Quinquagésimo Aniversário!

 

José Carlos Fernández

Almada, 25 de Setembro de 2014

 

 

 

[1]    A infanta de Portugal e rainha de Castela, Mafalda, nasceu em 1197 e morreu em 1256; e foi beatificada pela Igreja Católica. Foi filha do rei português Sancho, o povoador, e esposa de Henrique I de Castela. O matrimónio, por serem os dois muito jovens, não foi consumado mas sim anulado no ano seguinte. Ela, portanto, regressou a Portugal e o seu pai, o rei, deu-lhe o mosteiro cisterciense de Arouca onde passou o resto da sua vida. O nome de Mafalda vem de Mafalda, rainha de Saboia.