Como ultrapassar as emoções destrutivas?
Diálogo entre o budismo e as ciências

 

Quando o Dalai Lama se reúne com os cientistas, abre-se um novo panorama de enriquecimento mútuo entre a neurociência e as técnicas meditativas enriquecidas com uma experiência ininterrupta de 2.500 anos.

Movido pela compaixão, o Dalai Lama propõe o fruto da reflexão e a prática do budismo, para além de qualquer conotação religiosa ou moral e de toda a crença, para a recuperação da saúde e do equilíbrio emocional e para o desenvolvimento e realização enquanto ser humano.

Essa conquista, que se designa por felicidade foi denominada eudaimonia na antiga filosofia grega e sukkha no budismo. É um estado de realização, uma felicidade independente das circunstâncias externas que só pode ser alcançada quando nos conseguimos conectar à fonte do nosso ser interior, centro imóvel de si próprio, raiz de Buda ou do soberano Bem de acordo com as tradições.

As emoções (do verbo sensibilizar, movere em Latim, pôr em movimento) são consideradas na psicologia ocidental como uma reação mecânica e imediata do corpo, que precede a resposta racional de adaptação ao ambiente. Podemos nomear quatro emoções base que são o medo, a raiva, a tristeza e a alegria, das quais derivam muitas outras. Elas não são nem boas nem más por si só, mas podem tornar-se assim, quando nos invadem a ponto de distorcerem a realidade e sobreporem-se à inteligência cujo papel é fornecer a resposta mais certa para a situação vivida.

Os textos budistas na sua análise mais subtil denominam 84 mil emoções negativas, cuja raiz é reduzida a cinco “venenos” de base: o ódio, o desejo, a confusão mental, o orgulho e a inveja. Estes nascem no ego prisioneiro de duas forças opostas: o desejo tornado apego excessivo e a aversão que rejeita o que incomoda e esconde o aspecto positivo da realidade. Estes factores deterioram o julgamento, impedem de ver a realidade e perturbam a paz de espírito.

A transformação das emoções negativas pode ser feita através do cultivo de quatro qualidades: o amor, a equanimidade (tranquilidade ou serenidade), a compaixão e a alegria. Estas equilibram-se entre si sempre que uma delas se perverte por ser excessiva. Assim, por exemplo, o amor/ bondade pode transformar-se em apego, daí a necessidade da equanimidade. Esta por sua vez pode tornar-se indiferença, daí a necessidade de compaixão para com aqueles que sofrem. Por sua vez, esta pode levar à depressão. Temos de aprender a alegrar-nos com a felicidade dos outros. Para progredir é sempre necessário associar sabedoria e prática, entendimento justo e correctos meios de acção.

Reconciliar-se consigo mesmo

Enquanto os ocidentais se contentam em alcançar o que chamamos normalidade, os Budistas acreditam que há um trabalho constante a ser feito para aperfeiçoar a sua natureza e que tende para a libertação do egoísmo cego. O ponto final de um é o ponto de partida do outro. As práticas espirituais do Oriente e do Ocidente (1) são um método sistemático de transformação interior, que pretendem tornar o homem melhor, menos egoísta, mais compassivo, mais altruísta, mais calmo e sereno para que o mental aja com discernimento.

As últimas descobertas científicas confirmam que não estamos condenados a permanecer presos em certos comportamentos estereotipados. Descobriu-se a “plasticidade cerebral”. O homem pode transformar-se e o cérebro adaptar-se. É o espírito ou a consciência, cuja existência ainda não foi “provada” pela ciência, que pode provocar de forma gradual as mudanças no nosso comportamento e também no nosso cérebro.

De entre as práticas fundamentais, a primeira é a da manutenção da atenção voluntária ., que se centraliza num único objeto. Depois, há a compaixão voluntária que transforma a atitude interior face a situações que provocam raiva ou irritabilidade. E, finalmente, a presença aberta, a tomada de consciência de pensamentos, emoções ou sensações sem reagir de qualquer maneira, levando a um estado de pura consciência onde a mente já não é afetada pelas circunstâncias.

Quanto às emoções negativas que emergem numa atitude de auto-defesa excessiva, é necessário observá-las com cuidado, vê-las chegar e não se identificar com elas. A reflexão deve tomar o comando, julgar a situação com serenidade e fornecer uma resposta que reflita as nossas próprias necessidades, mas também os dos outros, lembrando que somos parte de um todo maior que nós próprios, e que estamos em interrelação com os outros e com o universo.

As Escolas de Filosofia do Oriente, das quais o budismo é um exemplo vivo, têm conseguido perpetuar estas práticas. Elas podem revitalizar a capacidade de introspecção que nos permite redescobrir a nossa realidade interior profunda? Para além da superfície das nossas emoções e impulsos? Dos outros e da natureza, num espírito de reconciliação e não de confronto.

Que estes diálogos entre budistas e cientistas (2) abram a porta a verdadeiras relações confraternas e à capacidade de melhorar cada ser humano e a nossa sociedade.

As reuniões realizadas entre o Dalai Lama e os cientistas nos Estados Unidos e em Dharamsala (Dialogues du Mind and Life Institute) deram origem a programas piloto que incluem projetos educativos para crianças e adultos, ao estudo de personalidades excepcionais para verificar as mudanças no cérebro depois das suas práticas e de muitas outras investigações que o livro de Daniel Goleman relata.

Estas são sementes de esperança de um verdadeiro desejo de unificar conhecimentos diversificados, uns partindo de uma experiência espiritual da consciência e outros de um certo número de medidas concretas, do cérebro, mas qualquer um deles ambiciona apoiar o avanço na busca da verdade e na realização do ser humano.

  1. Como mostra Pierre Hadot no seu livro, “Exercícios espirituais e filosofia antiga”, Albin Michel, 2002, na antiguidade greco-romana, muitas escolas de filosofia praticavam exercícios espirituais para viver os ensinamentos recebidos. Assim, a filosofia era fundamentalmente um estilo de vida e não um intelectualismo separado da experiência.
  2. O oitavo encontro entre o Dalai Lama e os cientistas aborda as emoções e é tema dum livro editado por Daniel Goleman, o principal especialista em inteligência emocional, “Superação das emoções destrutivas, diálogos com o Dalai Lama”, Edições Robert Laffont, 2003.

Laura Winckler
Psicóloga