A pergunta central que o ser humano sempre formulou está vinculada ao seu próprio mistério. Quem sou? De onde venho? Para onde vou? O que significa definitivamente, o que é o Ser Humano. Quando os sofistas gregos diziam que “o Homem é a medida de todas as coisas” diziam uma meia verdade, uma verdade “para o ser humano”, que é quem faz a pergunta.

Todos os filósofos, de todas as épocas, quiseram encontrar no ser humano uma qualidade, um traço definitivo que o identifique como tal: o pensamento, a razão, a contrariedade em que vive submergido, a consciência da eternidade, a sua identificação com o Mistério a que chamou Deus, a linguagem, a sua liberdade de escolha, o seu discernimento, os seus risos e lágrimas, a sua vontade de Ser, a sua imaginação, o domínio do fogo, a sua capacidade de fazer História, a sua criatividade artística, etc. Cada um destes filósofos escolheu um desses traços característicos e considerou-o determinante, considerando todos os outros como satélites do mesmo.

A perspectiva das antigas civilizações, de raízes iniciáticas, foi bastante distinta a este respeito. Eles não especulam sobre a Natureza do Homem, expõem o que conhecem sobre ela através de símbolos: símbolos geométricos como a cruz, símbolos naturais como o fogo, enigmas, como a conhecida pergunta da esfinge. Os símbolos oferecem a vantagem de apresentarem o conhecimento de forma sintética, não discursiva. Falam à Intuição, e cada um dos que ante eles está, obtém uma mensagem mais ou menos profunda. Os seus ensinamentos fixam-se na memória (é sabido que a memória não pode trabalhar sem imagens), vivem na Imaginação com vida própria e convertem-se desde o seu próprio mundo em sementes de futuros conhecimentos, de futuros achados. Se o homem é de facto um símbolo, como o vamos explicar senão através de símbolos?

H.P.Blavatsky (1831-1891) fala-nos da diferença entre os Grandes Mistérios e os Pequenos, explicando que nos Pequenos o Discípulo percebe a Realidade através de um “véu”. Vê a Verdade como sombras mais ou menos difusas através desse mesmo véu. E este véu é o homem como símbolo. Nos Pequenos Mistérios o Homem é a medida de todas as coisas. Nos Grandes Mistérios encontramo-nos com os “epoptai”, os videntes, os que contemplam a realidade em si mesma, os que enfrentam a verdade nua, sem véus.

Os egípcios expressaram em símbolos os seus conhecimentos sobre a Realidade. Seguindo as chaves dos Mistérios, património comum dos Iniciados de todas as épocas, um mesmo símbolo pode ser usado para referir-se, por exemplo, a uma verdade metafísica, teogónica, astronómica, matemática, moral, espiritual ou fisiológica. Sete, ou melhor, quarenta e nove são as portas para aceder ao Real, os véus que encobrem e ao mesmo tempo difundem o seu inefável esplendor. Neste estudo vamos referir-nos a distintos símbolos nos quais eles aprisionaram o Mistério do Homem, entendendo que estes símbolos, utilizados noutras chaves, dão-nos outros significados.

Diversos filósofos, tal como o inesquecível Nilakantha Sri Ram (1889-1973), afirmam que o Ser Humano é uma cruz, um intersecção de distintas linhas evolutivas. A sua unidade tornar-se-ia o impacto de distintos seres de naturezas diversas, representadas nas suas linhas. Quer dizer, que é parte, simultaneamente, de distintas naturezas, que está feita de um e de outro, como diria Platão no Timeu, sem que possa prescindir de nada, enquanto for Ser Humano.

Mas também se afirma – o mencionado filósofo, Sri Ram, assim o faz – que o ser humano é um Logos, um ponto que irradia a sua própria realidade, como uma estrela que irradia a sua luz num espaço sem limites, uma individualidade permanente, uma realidade que é princípio, meio e fim, e que, portanto, é independente por completo dos veículos que utiliza para se expressar.

É possível que estas duas afirmações sejam verdadeiras, ao mesmo tempo, por mais paradoxal que isto possa parecer para a nossa razão.

Diz-se que existem dois caminhos para aceder a este Mistério do Ser Humano; um está relacionado com o Ser Humano como ponto central, como luz emanada directamente do Espírito. O acesso é vertical, e está representado geometricamente como uma pirâmide com a ascensão vertical e ininterrupta, desde o centro da base até ao vértice da mesma. Nesta ascensão, iniciática, o Ser Humano identifica-se com o Deus que nele habita e prescinde de toda a relação ou identificação com o seu ambiente. Volta-se incessantemente sobre o Fogo Espiritual, que nele se alenta até que a Personalidade seja consumida, e o ser humano se torne o Deus que era. É a conquista verdadeira e derradeira de si mesmo.

O outro caminho é o que está representado pela ascensão através das faces da pirâmide. A procura do Uno através das suas projeções nos arquétipos que regem toda a actividade propriamente humana: Ciência, Arte, Religião e Sociopolítica. Este é um caminho em que entendemos o ser humano como símbolo. Nele, o ser humano está relacionado com os seus semelhantes e com a Natureza. A sua própria actividade é uma linguagem, com a que se relaciona com o que o rodeia. O homem conquista-se a si mesmo, conquistando o ambiente que o aprisiona e limita, encontra-se a si mesmo amando o próximo e conhece-se a si mesmo trabalhando com as suas circunstâncias.

Se pensarmos, por exemplo, numa pessoa que seja simultaneamente pai, filho, irmão, amigo, esposo, etc.; vamos entender que cada uma dessas actividades requer de uma forma distinta de ser, uma atitude, um papel diferente, e na sua vida assumirá cada uma destas relações com distintas máscaras ou papéis, e saltará de uma para outra, sendo sempre o mesmo. Não podemos entender o que ele é em si mesmo, mas podemos sim entender ou intuir melhor o que é, se somarmos o que é como filho, como pai, como esposo, como cidadão e fizermos a síntese de todas estas imagens distintas.

Com o Ser Humano sucede o mesmo: podemos entendê-lo como é em si próprio e também como é em relação com o que o rodeia. Se o entendermos como uma cruz de distintas linhas, é parte simultaneamente de todas estas linhas.

Isto é o que pretende este trabalho, através do estudo de símbolos egípcios, que se referem ao ser humano. Cada um deles apresenta uma faceta do que é o ser humano; todos juntos dariam uma visão completa, magistral e evidente para a intuição, da alma humana, de quem o filósofo Ortega e Gasset dizia que é “uma besta divina carregada de problemas”.

 

“Pois, o Homem, quando se forjou a si mesmo, quando já tem barco e remos para vogar nas águas da matéria, converte-se num dígito de Deus, num agente de Deus, ao serviço dos Deuses e da Humanidade, representados por Hórus”

 

O ser humano como barco celeste

Para o conhecimento egípcio tudo está vivo, tudo se encontra em movimento, tudo navega nas águas celestiais formadas pela luz de Nut. As estrelas são os barcos dos Grandes Deuses, que vogam nas dobras do espaço e do tempo, representados pelas ondulações da serpente Apap.

O ser humano, também, é um deus que voga no Nilo celeste, enquanto a sua sombra o faz nas águas da existência. O ser humano é o barco, é o barqueiro e é o construtor do barco. Na vida somos um pedaço de madeira inerte, abandonado às suas correntes; se despertarmos os poderes latentes e nos moldarmos desde o interior, somos um barco dessa madeira que navega essas mesmas águas até à fonte donde tudo emana (1).

Os egípcios representam, frequentemente, a proa e a popa desses barcos florescendo num lótus. Também costuma aparecer um Olho de Hórus na sua proa, aqui símbolo da visão interior, que permite ao Ser Humano encontrar o seu rumo entre as lamacentas águas e evitar os escolhos da existência, que precipitariam a barca e o seu habitante nos redemoinhos espiralados turbulentos de Apap.

No Livro da Saída(2) Alma até a Luz do Dia (conhecido popularmente como o Livro dos Mortos) encontramos:

“Assim (como uma barca que eficaz e ligeira navega as águas) é moldado o meu ataúde(3) durante a travessia” (LVIII).

Os nomes das distintas partes da barca dão-nos veladas mensagens sobre o que é o Ser Humano e como deve trabalhar o seu corpo e a sua psique:

“Alma que se concentra” é o nome da minha Barca.

“Espanto” é o nome dos meus Remos.

“A que estimula” é o nome da minha Cala.

“Navega-direito-perante-ti” é o nome do meu Timão” (LVIII)

Os remos são os que impulsionam o Homem na contra-corrente. Devem ser “Terror” para as águas da vida. Deve haver conflito entre os remos e as águas. Se as águas não sentissem espanto perante os braços da alma (que é o que significam os remos), se estes se deixassem levar ante o amoroso abraço da água, como poderia voltar a Alma dessas águas até chegar ao seu Pai Celeste. O hieróglifo que representa o remo significa também “voz”, quer dizer, a força com que o homem(4) se objetiva a si mesmo, o poder de criação e transformação.

O Cais é o lugar onde descansa a barca. Dizer “a que estimula” significa que, quando o nosso corpo descansa ou está imóvel, é quando devemos afirmar uma e outra vez as Verdades que alentam a Alma e lhe devolvem o vigor.

No hino XCIX podemos ler:

“Adivinha o meu nome, diz a vela.

A Deusa Nut, este é o teu nome.”

Quer dizer, as velas da nossa Alma, impulsionadas pelos Ventos de Amón, estão tecidas com a luz de Nut, com a luz das Estrelas. A Alma tem origem celeste.

“Adivinha os nossos Nomes, dizem os remos.

Os-Dedos-de-Hórus-primogénito-dos-Deuses,

Este é vosso nome.”

Pois, o Homem, quando se forjou a si mesmo, quando já tem barco e remos para vogar nas águas da matéria, converte-se num dígito de Deus, num agente de Deus, ao serviço dos Deuses e da Humanidade, representados por Hórus.

O timão é, neste simbólico barco, a faculdade que tem o ser humano de endireitar o rumo.

“Adivinha o meu Nome,

Diz o marinheiro que se ocupa das velas.

-Proscrito, este é o teu Nome.”

“Proscrito” porque esta existência não é o verdadeiro reino para a Alma. “Proscrito” porque o Eu superior está desterrado do seu Reino e há-de voltar a ele. A Nossa Alma é sempre estrangeira e proscrita neste mundo que não é o seu.

“Adivinha os nossos Nomes,

Dizem as deslizantes margens.

Destruidoras-da-divindade-

de-braços poderosos-na-Casa-das-Purificações,

este é o vosso Nome.”

É uma referência ao Karma, em cujas margens pétreas são destruídas ou purificadas as barcas, que se afastaram do seu Destino, da Lei que as regia.

No Hino CXXII podemos ler:

“O Nome mágico da minha barca é: a coesão das

Almas múltiplas.

O Nome dos meus remos: Terror que faz eriçar os

cabelos.

Aquele-que-vela é o Nome de minha proa.

Está-mal é o nome de meu timão.

Navega-tudo-direito é o Nome de minha popa.”

O Nome da Barca refere-se à necessidade de harmonizar e tornar coeso as distintas “almas” que vivem em nós, os distintos veículos da Personalidade. O Nome do timão refere-se a um endireitar constante e incessante do rumo: “Está mal”, “está mal”, “está mal”, são os golpes do timão da nossa alma na sua ascensão, pois há sempre algo para corrigir, para melhorar, para aperfeiçoar, para endireitar, para ajustar às Divinas Medidas.

O importante neste símbolo do Homem como Barco é não esquecer que o corpo, a psique e a mente são veículos da Alma, e que devem ser conformados como barco eficaz que vogue no mar da existência:

“Esta Barca, na verdade, foi construída para a Viajem ao Mais Além” (CXXII).

“Para o Oriente se dirige a minha barca” (C)

 

“O ser humano, também, é um deus que voga no Nilo celeste, enquanto a sua sombra o faz nas águas da existência. O ser humano é o barco, é o barqueiro e é o construtor do barco”

 

O Homem como estrela

Para os egípcios, o Homem é, antes de tudo, filho de uma estrela. É uma estrela que está nos céus, mas cuja luz foi projectada sobre o barro do mundo. A consciência está dentro de infinitos caminhos, mas a consciência superior não se move dali. É a estrela como centro de todos os caminhos, relacionada com as demais estrelas por uma rede de luz. É o Homem, como Individualidade perfeita, como Originalidade perfeita, centro de irradiação das forças.

Platão, formado nos templos de Heliópolis, explica no Crátilo que a etimologia de “estrelas” (em grego) significa “aquilo que atrai os nossos olhares”. É algo evidente para todos, mas se pensarmos que o olhar é o símbolo da luz da alma (segundo H.P.Blavatsky, a luz que o olhos projectam está relacionada com a actividade espiritual) entenderemos que “atrair os olhares” significa atrair as nossas almas, e visto que somos filhos de uma estrela, levá-los à sua origem divina. A estrela seria a raiz última do ser humano, o Homem derradeiro, a imagem mais pura, mais simples e mais perfeita com que podemos entendê-lo. O homem como estrela é também a imagem do Ser Humano que voga na eternidade imaculada do espaço sem limites.

As estrelas estão hermeticamente vinculadas com o conceito egípcio de imortalidade, já que não eram somente habitantes do céu, mas também de Duat, o reino subterrâneo da morte, através do qual o Sol passava a cada noite.

Representadas como pontos, como pequenos círculos ou como estrelas de cinco pontas, as estrelas encontravam-se inseridas no “céu de lápis-lazúli”. A armadura dos guarda-sóis cerimoniais tem também a forma de estrela de cinco pontas, com o que se reafirma o sentido de que o Homem é uma estrela no Mundo inferior, mas que recebe seu “alento espiritual” do Sol, do Logos que rege nosso Sistema.

Existe um hieróglifo para representar a estrela no Mundo inferior, e é a estrela de cinco pontas inscrita num círculo. Na sua chave humana, simboliza o homem como uma emanação de uma estrela envolto no seu escudo áurico, o ovo donde a sua consciência desenvolve a transmutação.

No Livro da Saída da Alma para a Luz do Dia encontramos as seguintes afirmações:

“Que emane luz, oh Deuses, como um de vós” (I)

Quer dizer, que recupere, ainda que dentro da ilusão do mundo, a condição de estrela nos céus.

“A Minha marcha segue a direcção da Ordenação dos Mundos (XVII).

Quer dizer, a direcção das estrelas nas suas perfeitas evoluções.

Talvez não exista um texto, entre os distintos hinos egípcios, que melhor expresse a condição do homem como estrela, imóvel e radiante no céu da sua consciência, que este, também do Livro da Saída da Alma para a Luz do Dia:

“Só existo!… Só!… Só!… Só recorro às

solidões cósmicas. Uma irradiação de luz flui de todo

o meu Ser. Eu sou um Ser circundado de muralhas, no meio

de um universo também circundado de muralhas.

Eu sou um solitário imerso na minha Solidão.

Eu sou um ser pleno de seiva do Oceano celeste.

Minha mãe é a Deusa do céu Nut, ela é quem

moldou a minha forma. Eu estou imóvel. Alguns raios de

meu ser chegam aos nossos peitos;

mas as formas oculto-as em mim.”

Se existe uma identificação do Homem com uma estrela determinada, é Sírio, chamada Sothis ou Sept (embora estes mesmos nomes em distintas chaves possam designar outras estrelas).

Sothis é representada como uma estrela de cinco pontas e Sept por um triângulo isósceles. O seu hieróglifo significa “estar provido”, quer dizer, que rege as posições da alma, as armas mágicas, as virtudes celestes no ser humano. Alguns autores, não sem razão, penso, identificam-no com o dente do dragão, pois a órbita aparente de Sírio relativamente à Terra é de dentes de serra, estes são os “dentes do Dragão”.

Os egípcios consideravam Sírio como a estrela que rege o nosso Sol e, portanto, deram uma enorme importância à conjugação do Sol, Sírio e a Terra.

No hino CLXXIV diz-se:

“As hierarquias Celestes me geraram!

Fui concebido pela Deusa Sekhmet e trazido por ela ao

mundo ao lado de Sírio, o grande espírito estelar que

mostra cada dia a Rá o caminho.”

Quer dizer, que o Ser Humano, como ser consciente, seria filho de Sírio (das Hierarquias Celestes) e de Sekhmet (a Necessidade). Ou noutra chave, filho da sua consciência (Sírio) e das suas obras (Sekhmet).

E no hino XXXII podemos ler:

“Tu que persistes entre desperdícios e excrementos!

Levo em meu coração o que mais odeias.

Sou Septu, a divindade que rege o Sol,

Observa-me!”

Se há alguém que tem o direito de identificar-se com Sírio, são os Reis dos Reis, o Faraó e aqueles, os Iniciados, que realizam a plena conquista de si mesmos.

Diz o hino CLXXXI:

“Entro pela força no formoso Amenti.

Ao espírito estelar de Sírio apresento meu cetro.”

E é o nosso espírito mais elevado, que mora no lugar das causas perpétuas, quem diz:

“E minha voz assemelha-se à voz de Sothis.

Eu sou uma estrela entre

todos os que ali brilham.”

No entanto, apesar de ser a Alma do Homem uma Estrela, em casos excepcionais pode ser aniquilada e dissolvida na matéria primordial, tal como explicam os versos:

“Eu navego na minha Barca, à medida

que vou para a zona maldita

onde as Estrelas caíram,

precipitando-se para o Abismo.”(5)

(Embora também poderia referir-se aos Deuses que, segundo a tradição encarnam entre os homens, ou as almas celestes que se recobrem de carne e sangue entrando num ciclo de necessidade)

 

“As estrelas estão hermeticamente vinculadas com o conceito egípcio de imortalidade, já que não eram somente habitantes do céu, mas também de Duat, o reino subterrâneo da morte, através do qual o Sol passava a cada noite.”

O Homem como Hórus (como guerreiro interior)

Hórus é o Deus que representa de um modo mais perfeito o homem interior e a Humanidade. Combatente em nome de Osíris, extermina os seus inimigos e luta contra Seth, o seu Mestre-Inimigo. Embora Hórus nos primeiros tempos tenha sido associado com a Ideação universal na Mente divina (Hórus o Maior), e a mesma Deusa Mãe por excelência era chamada como “a Casa onde mora Hórus”, na chave psicológica, Hórus é o símbolo por excelência do Homem como guerreiro interior. Os textos hieroglíficos e nas cenas pintadas nos templos referem-se incessantemente à luta que mantém contra Seth. Seth é o Deus das tempestades, e é também a secura do deserto, da luz devoradora da vida e da existência. Numa chave psicológica Hórus é a Consciência e Seth a Circunstância árida e dolorosa que rodeia a Consciência: tudo aquilo que Hórus deve honrosamente vencer apoderando-se, vitorioso, de si mesmo. Assim, Seth é símbolo da Personalidade e suas forças animais (esta seria uma forma de Seth Tifão), mas é também é o espelho em que Hórus terminará de se conhecer. Seth, filho de Nut, o mestre “duro” de Hórus, como o seu pai Osíris é o seu Mestre nos Céus.

O fim do combate interior dará lugar a uma reconciliação harmónica entre o que nos rodeia e a nossa própria personalidade. Traz a Victória, a “paz em alerta perpétua”, a Grande Síntese. Thot, a Inteligência, actua como juiz entre estes dois divinos combatentes, apoiando ora um ora outro, segundo as vicissitudes do combate, para que este permaneça até que chegue a Grande Hora. Referindo-se a Hórus como guerreiro interior encontramos os seguintes textos no Livro da Saída da Alma à Luz do Dia:

“Venho a lutar junto a ti, Oh, Osíris! porque

sou uma de essas antigas divindades que

fazem triunfar Osíris frente aos seus inimigos”.

Osíris representa a unidade no homem, a unidade fraccionada por Seth, que representa a secura da vida, as experiências no mundo material. Hórus está encarregado de restituir esta unidade.

“Cruzo os abismos das aguas celestes que

Estão entre os dois combatentes.”

Neste texto o Aspirante identifica-se com a consciência que percorre as Águas que separam o espírito da matéria. O Homem percorre à existência através do espelho que separa Hórus de Seth, sua sombra, que o combate no outro lado do espelho. Ambos os contendedores lutam no seu interior.

O Homem que, desperto por fim, ressurge e se ergue sobre si mesmo, é Hórus. Já está consciente e leva em si a semente poderosa das Divindades. Não é já uma múmia, não é horizontal, ergueu-se formando uma cruz que fala do homem como encruzilhada. Diz o Aspirante: “Estou de pé, como Hórus” (XI).

Os mesmos Deuses chamam-no à actividade, outorgando a sua luz e o seu poder:

“Levanta-te então, Hórus ressuscitado!

Os próprios Deuses te consagram Deus! (VII)

O Homem despertou perante si a “Guerra nos Céus”, e nele já se apresentam, no incessante combate, a guerra entre os Arquétipos e as suas Sombras:

“O cruel combate que travam os

Deuses uns contra outros é de

acordo com as minhas vontades” (XVII)

Blavatsky explica-nos em Isis sem Véu que se há uma característica da mística egípcia é a guerra interior. A Espiritualidade é o espírito de conquista, exterior e interior. O “belo Amenti” é uma conquista da consciência:

“Sou Hórus, eu tomo pela força

a Barca Celeste e devolvo a Osíris meu

Pai seu Trono. Com respeito a Seth,

filho de Nut, aqui o tens sem poder

mover-se, atado com as cordas que

havia preparado para mim” (LXXXVI).

Para o homem, concebido como Hórus, a actividade é contínua, o esforço incessante, pois há que recuperar todo o terreno perdido:

“Eu recebo em minhas mãos a arma sagrada e

atravesso o Céu, glorificam-me os Seres de luz,

porque é imensa a minha actividade e não conheço o

descanso. Porque eu fiz o que pude para

aplacar as consequências dos desastres de

outros tempos” (CXXX).

É também Hórus, homem celeste, Arquétipo da Humanidade, quem percorre o labirinto de lápis-lazúli feito com a Luz de Nut, armado com o machado duplo que lhe outorgou Anúbis.

Hórus é o Redentor:

“Hórus é ao mesmo tempo Néctar dos

Deuses e sacrifício divino. Ele pega e reúne os

membros do seu Pai.

Porque Hórus é seu Redentor, seu Redentor…

Ele fixa o curso das coisas para

Incontáveis anos” (LXXVIII).

Hórus é a essência do valor, mora nos corações dos homens:

“Eu sou Hórus que vive

nos corações no meio

dos corpos” (XXIX).

Hórus é chave da Vitória no homem. É vencendo-se a si mesmo que o homem recupera a sua verdadeira dignidade, a sua verdadeira natureza. E as vitórias autênticas são sementes de novas vitórias, de novos achados:

“Todo o poder de Hórus, filho de Isis e Osíris, surgiu da Victoria…” (XIX)

Toda a Natureza, todos os Deuses assistem, expectantes, ao combate de Hórus, à ressurreição do Homem:

“Ao triunfo de Hórus, filho de Isis e Osíris,

assistem todas as Regiões, todos os Deuses e

todas as Deusas, os do Céu e os da Terra” (XIX).

No final, o Homem, Hórus, vitorioso, poderá pronunciar a frase ritual:

“Cheguei aqui pela vontade de meu coração” (XXII)

 

“O fim do combate interior dará lugar a uma reconciliação harmónica entre o que nos rodeia e a nossa própria personalidade. Traz a Victória, a “paz em alerta perpétua”, a Grande Síntese”

 

O Homem como Mago

É o Homem-Síntese, o homem como ser com capacidade de criar, de fazer. É aquele que domina as Forças da Natureza, aquele em quem os Poderes ocultos encontraram a sua perfeita expressão, em que os Poderes se abriram como o lótus azul dos Mistérios Egípcios. Todo o ser humano pode converter-se em Mago. O Mago pode então ser considerado como uma das facetas do Arquétipo Homem.

O hieróglifo egípcio para referir-se à Magia é “heka”, a força espiritual que tudo impregna. É um termo muito parecido ao mag dos persas (de onde vem nossa palavra “magia”). Mag é o grande Poder, a grande Força. Christian Jacq dá ao termo “heka” o significado de “domínio dos poderes”. É curioso, pois se a esta palavra, “heka” acrescentarmos o T do artigo definido feminino, encontramo-nos com o nome da Deusa grega dos encantamentos nocturnos, femininos, Hékate(6), a magia nocturna e a cara oculta da Lua, a Deusa da triple face infernal, vinculada aos juramentos.

Nos Ensinamentos de Merikare encontramos: “O Criador concedeu a magia ao homem a fim de afugentar o efeito fulgurante do que sobrevém”. Quer dizer, o mago não seria não só o Fazedor mas também aquele cujo poder e conhecimento pode opor-se e reconduzir as nefastas correntes kármicas engendradas pela ignorância dos homens. O Mago também seria o Preservador dos Ritos, aquele que actúa nos ritmos sagrados no Templo e possibilita que se mantenha a Ordem Universal no humano, aquele que permite manter o sagrado vínculo entre os Deuses e os homens. Uma força ao serviço da Natureza e do homem. É o homem como mago o que pode afirmar, como nos textos sagrados egípcios: “Se eu prospero, Rá prospera; se Rá prospera, eu prospero”. Ele é, de facto, um remo de Rá, impulsiona Rá e o coração da Humanidade faz o seu excelso destino fulgurante de revelações divinas, de colaboração com o Grande Plano, que é a evolução.

No Livro da Oculta Morada, e relacionado com esta concepcção do Homem como Mago, encontramos:

“Eu sou Tum no meio do oceano celeste, e na

verdade, todos os Deuses me favorecem

eternamente. Meu Nome é um Mistério. Minha

morada é sagrada para sempre… Sou omnipotente! Sou omnipotente!” (VII)

“Eu sou aquele que faz nascer os Deuses do

Abismo e quando é cumprido o seu ciclo os vê

Descer até ao Nada” (XXIV).

A operação mágica por excelência é a palavra, mas devemos entendê-la em conjunção com o gesto ritual, a vontade perfeita e o conhecimento das formas:

“A Magia, aquela que flui de minha boca, cria uma rede impenetrável” (XXXI)

O Mago é o nome cuja própria vida é uma Linguagem.

“Certamente as minhas possibilidades são infinitas e meu Nome é O-Grande-Negro. Eu expresso o que em mim se oculta entre as variações de minhas formas flutuantes” (LXIII).

“Eu levo, na verdade, dentro de mim os gérmenes e possibilidades de todos os Deuses… E sou coroado Deus porque sou Khonsú, o Irresistível” (LXXXIII)

O homem como Mago recupera a sua activa e esquecida condição de Deus. É a coroa da sua condição humana na Terra. Está livre das imperfeições e erros que induzem a ignorância e a circunstância que nos pressiona:

“Qual é a tua condição?

Que classe de homem és?

Eu estou purificado de todos os pecados. Não

obedeço as imperfeições dos homens

que seguem as imperfeições do momento”

(Confissão Negativa, Papiro de Nu)

O Mago recuperou a sua condição divina e a sua consciência de imortalidade:

“Eu sei que minha alma eterna é um Deus. Sei

também que meu corpo é a própria Eternidade” (LXXXV)

As paixões por fim se calaram, mas estão prestes a ser despertadas à vontade ao serviço de seu Senhor:

“Ante o meu rosto estão as tempestades imobilizadas” (CXXXV).

O Homem como Mago é a coroa da sua evolução, o seu fim e máximo desenvolvimento, a sua perfeição. Ele cumpriu as Leis divinas, realizou tudo o que dele se exigia como ser humano:

“Todo o que Rá tenha ordenado para ti no

começo dos Tempos desde este instante

está terminado. Por ele serás coroado,

Oh filho de Nut! Tal como o Senhor do

Universo foi coroado” (CLXXXIII).

 

São inumeráveis as formas, que aparecem nos textos egípcios, de nos aproximarmos do Arquétipo Homem, mas a brevidade deste pequeno trabalho impede que se desenvolva em profundidade e nem sequer esboça-las devidamente. Traçaremos algumas linhas de alguns dos símbolos ou formas com que podemos entender o Ser Humano segundo a cosmovisão egípcia.

Tal como aparece nos hieróglifos, o homem como pedra cúbica da estrutura ou pirâmide do Cosmos.

O homem como Rá, como Sol, como impulso criador de Vontade em incessante marcha, vivificador dos mundos.

O homem como unidade, fraccionada ao cair na matéria.

O homem como Ju, como Espírito puro, como raio de luz imaculada que atravessa a Eternidade.

O homem como Cidade celeste onde habitam os Deuses, como Montanha de Fogo, como Ilha Seca onde pousa a Ave da Ressurreição, o Bennu.

O homem como peregrino ofertante nos caminhos da existência, colhendo experiências espirituais, sementes mágicas que deixou semeadas no caminho da vida.

O homem como o que não é, e portanto do que deve precaver-se (Confissão Negativa).

O homem como o que é, ou seja, o que deve alcançar na verdadeira Acção (Confissão Positiva).

O homem como Esfinge, os distintos animais ainda vivos que reuniu e clarificou mediante a sua consciência espiritual.

O homem como Lótus, como expansão das próprias potencialidades, como oferenda de poder ante o Deus Rá que rege o nosso Universo.

O homem como Senhor das Transformações, Kepher, o Escaravelho.

O homem como Lira impulsada por Ventos Divinos.

O homem como Vento Divino, como Shu, eternamente jovem.

O homem como Coração, sede da Consciência, Pai-Mãe das transformações.

O homem como Nefer, isto é, como música de excelência, bondade e beleza.

O homem como Peixe que deve evitar o Karma, a rede de Thot.

O homem como escriba, ou seja, como o pincel nas mãos do Senhor do Universo. Como aquele que escreve o seu próprio destino e deve responder perante ele.

O homem como Desenhador do Templo de Fogo, ou seja, aquele que forja a sua própria Mente, o seu próprio Amenti no fogo de Ptah.

O homem como Ovo, isto é, o homem na sua própria pele de transformação.

O homem como Múmia. O homem como Serpente. O homem como Rã. Como Ankh, chave e luz de Vida.

Como Cruz e Encruzilhada. Como Templo. Como Trigo ou como divino Semeador. Como Juramento Vivo, isto é, como Nome. Como Coluna da Estabilidade. Como perfeito assentamento na terra, etc…

Todas estas formas assinalam a excelência dos egípcios na hora de dizer o que é o Homem e qual o Arquétipo que o rege, Arquétipo que irradia em miríadas de arquétipos, conformando uma verdadeira Pirâmide de Ideias, símbolo perfeito do Homem, símbolo perfeito do Egipto.

 

José Carlos Fernández
Madrid 1997


(1) Ver o maravilhoso artigo “ A arte de navegar contra a corrente” do Professor J. A. Livraga, Fundador da Nova Acrópole. Vide https://www.nova-acropole.pt/a_navegando.html

(2) Utilizamos sempre, neste trabalho de investigação, a versão de Ed. Edicomunicación. Tradução A. Laurent.

(3) O ataúde é onde habita encerrada, sem luz e devorada a sua carne, a Alma. Mas podemos moldar este ataúde até que se converta em barca para o Homem Interno.

(4) Sempre que digamos “homem”, salvo que se especifique o contrário ou seja evidente pelo contexto, fazemo-lo como sinónimo de ser humano.

(5) Um Fisico modrno, e desde outra perspectiva, ao ler este texto diria que descreve como uma estrela é atraída por um buraco negro.

(6) “Entre os egípcios foi

[a Lua] Hekat (Hécate) no Inferno a Deusa da Morte, que mandava sobre a magia e os encantamentos”. H.P.Blavatsky, Doctrina Secreta II, pag. 93, editorial Kier.