Considerações sobre a «Mulher» no Imaginário Indo-Europeu (1)

Autor

Nova Acrópole

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As designações indo-europeias para «mulher» provêm da raiz gwénha, «mulher», «esposa» e «rainha». Derivando no grego gynḗ «mulher», no avéstico gnā- «esposa do deus» e ǰnā «esposa», «mulher», e no sânscrito gnā «deusa» e jani «mulher», «esposa». (2)

Ainda que foneticamente sugerida, a relação com jñāna «conhecimento» não está atestada, contudo, devemos considerá-la como presente e pertinente na interpretação dos símbolos femininos.

A origem de gwénha estará relacionada com aquela de gwou-, «vaca», relação ideológica atestada, aliás, pelo sânscrito, onde vāśa significa tanto «mulher» quanto «vaca». (3)

Esta relação está presente na importância e aplicação ideológica do gado entre os povos indo-europeus, onde este é recorrentemente utilizado como metáfora a várias estatutos, como por exemplo, o de deus ou governador, em ambos os casos chamado de «vaqueiro» (com o mesmo sentido que é aplicado o de «pastor»), bem como no facto de a vaca servir de unidade de valor. (4)

No Ṛgveda, onde mais se encontram estas metáforas, as estrelas são entendidas como uma manada, os raios da aurora e as nuvens são chamadas de «vacas», e o céu e a terra representados como o casal primordial «boi-vaca», entre outros exemplos. (5)

Também a relação entre o discurso (vāc) e a vaca (dhenu), não deverá passar despercebida, como no exemplo: «a palavra deve ser honrada como uma vaca leiteira». (6)

O que dá um carácter de alimentação (através da educação) à palavra, que é criadora (como o lógos) e feminina.

As várias interações ideológicas entre a palavra e a vaca geraram na designação go várias significações, de entre as mais importantes «vaca», «raio de luz», «água», «terra» e «palavra». (7)

Observando os épicos, vemos que a vaca representou na Índia Antiga a prosperidade total do mundo, bem como aquela da ordem brāhmaṇica, simbolizando a integração do rei, da floresta (lugar da via sacerdotal que permite a secular) e do mundo dos aldeãos, união que é representada pela vaca que deve ser protegida por todos os reis, entendidos como «vaqueiros». (8)

No hinduísmo, em particular, a vaca representa a pureza e bondade femininas (por oposição à égua, que não se estabelece, mas sempre necessita de novas terras para se alimentar). (9)

A relação é continuada pela designação utilizada para «rapto» e «levar como saque», que na maioria das línguas indo-europeias (do sânscrito aj-, persa az- e do grego ágein), é utilizada tanto para mulheres como para gado. (10)

Os povos indo-europeus tinham por hábito roubar e recuperar manadas, neste sentido, a palavra gaviṣṭi, que significa «perseguir vacas» ganhou a significação de «luta». (11)

Também para a classe guerreira (os kṣatriyas), a esposa mais valiosa era aquela raptada pela força.

No imaginário indiano a terra toma a forma de uma vaca que alimenta toda humanidade, (12)gerando mais tarde a mitológica Kāmadhenu, a «vaca [dadora] de desejos» ou da «plenitude», semelhante à Cornucópia romana. (13)

No caso grego, as investidas dos Aqueus contra os Troianos são metaforizadas na imagem de um leão que tenta roubar a «vaca mais gorda» («boō̂n … pîar») de um estábulo guardado por cães, até que cansado, desiste. (14)

Também a mãe de Penélope, Peribeia («à volta do gado»), (15) representará a “protecção” ao gado, uma reminiscência da realidade indo-europeia (mais propriamente indiana), com a qual se casará o rei Icário.

Recorde-se igualmente a fácil associação entre os cornos da vaca e o crescente lunar desde as sociedades pré-históricas, bem como a sua relação com a mulher, (16) imprimindo ao feminino um carácter cíclico, que está aliás amplamente manifesto na relação fisiológica entre as fases da lua e a periodicidade feminina, por exemplo no indo-iraniano maas- («lua», «mês» e «medida»), (17) o que nos permite entender a mulher nos tópicos da temporalidade, delimitação e da renovação (como na deusa Hera, que delimita e permite o caminho do herói).

Ao mesmo tempo, a relação mulher-lua gera a leitura de que determinado elemento celeste supervisiona, cria, organiza e influencia algo terreno (leitura que deverá ser aplicada a todos os mitos de Queda!), bem patente na figura de Soma, representação da lua, do néctar dos deuses (18) e da soberania celeste, entendido como algo que está dependente da luz de outro para brilhar.

No Ṛgveda a deusa Sūryā, a parte feminina (ou consorte) do sol, é geralmente representada acompanhada dos gémeos Aśvins (comparáveis aos Dioscuros), onde ela simboliza as “noivas mortais”, e eles os seus “pretendentes”, casando-se por fim com Soma. (19)

Esta relação com a lua não deixa de subentender a sua relação com o “poder” e “soberania”, como nos exemplos do deus da lua mesopotâmico:

«Sin, tu que dás o ceptro a todos os reis» (20)

e indiano:

«o senhor de Śrī (soberania) é a lua (Śaśāṅka); ela é a sua inalterável luz.» (21)

A relação que existe entre as “águas”, o feminino e a lua, (22) está com frequência relacionada com a «criação» e «gestação» no imaginário indo-europeu e humano em geral, dando às águas e ao oceano a significação de caminho percorrido pelo herói (como Ulisses e Rāma) previamente provocado por uma mulher (Helena, Penélope e Sītā).

Na etimologia indo-europeia, também a terra é recorrentemente feminina, por oposição ao céu, (23) colocando o “princípio feminino” numa relação directa com o céu e com o masculino, sendo por este motivo que na literatura indo-europeia o céu e a terra são invocados como um par, tidos como as primeiras divindades, das quais todas as outras divindades surgiram. (24)

Na Grécia a deusa da terra é usualmente Gaia ou Ge, remontando a chthṓn, que é provavelmente a forma mais antiga, contudo teve outros nomes associados a ela, como as deusas Damia (com culto no Peloponeso), Egina e Tera, bem como Plateia, ninfa de Plateias na Beócia (que deriva de boûs «vaca» (25)) e esposa de Zeus, e que traça semelhanças com Pṛthivī), e Sémele. (26)

Com o mesmo significado temos a deusa Telo em Roma, e referências tardias à Terra Mater. (27)

A deusa-terra está com frequência relacionada com a deusa-mãe, sendo na tradição poética indo-europeia a «ampla» e o «assento» de deuses e mortais, a «portadora» de todos os mortais e de todas as coisas, aquela que tudo «alimenta», sendo igualmente descrita como a «negra». (28)

 

Ricardo Louro Martins

Doutorando em História Antiga pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


 Notas:

(1) Este artigo foi reelaborado a partir de excertos da nossa tese de mestrado em História e Cultura das Religiões, orientada pelo Professor Doutor Nuno Simões Rodrigues, com o título A Mulher e a Soberania. Metáforas humanas e divinas da «Legitimação do Poder» na literatura épica grega e em paralelos indo-europeus, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 2012.

(2) J. P. Mallory, D. Q. Adams, “Woman” e “Wife” inEncyclopedia of Indo-European Culture, Londres, Fitzroy Dearborn Publishers, 1997; Pierre Chantraine, “γυνή” inDictionnaire Étymologique de la Langue Grecque: Histoire des Mots, Paris, Éditions Klincksieck, 1977; Julius Pokorny, “gu̯ē̆nā” in Indogermanisches Etymologisches Wörterbuch, Francke, Bern, 1959.

(3) J. P. Mallory, D. Q. Adams, “Woman” in Encyclopedia of Indo-European Culture, Londres, Fitzroy Dearborn Publishers, 1997. O nome para “vaca” é de raíz IE, gwṓus, «vaca». Do grego boûs e do sânscrito gau-. Cf. J. P. Mallory, D. Q. Adams, “Cow” in Encyclopedia of Indo-European Culture, Londres, Fitzroy Dearborn Publishers, 1997. Com raiz Proto-indo-europeia nas línguas suméria (gu4) e egípcia (gw). J. P. Mallory, D. Q. Adams, “Cow” in Encyclopedia of Indo-European Culture, Londres, Fitzroy Dearborn Publishers, 1997.

(4) Martin L. West, “Sky and Earth” in Indo-European Poetry and Myth, Oxford, Oxford University Press, 2007, p. 184.

(5) Martin L. West, “Sky and Earth” in Indo-European Poetry and Myth, Oxford, Oxford University Press, 2007, p. 184.

(6) Śatapathabrāhmaṇa 14.8.9.1: «vācaṃ dhenum upāsīta».

(7) Louis Renou, “Les Éléments Védiques dans le Vocabulaire du Sanskrit Classique”, in Choix d’Études Indiennes, vol. I, Paris, Presses de l’École Française d’Extrême-Orient, 1997, pp. 353-359.

(8) Madeleine Biardeau, “Les mariages d’Arjuna” in Études de Mythologie Hindoue, vol. III, Bulletin de l’Ecole française d’Extrême-Orient 58, 1971, p. 136.

(9) Wendy Doniger, The Hindus: an alternative history, Oxford, Oxford University Press, 2010, p. 4

(10) Calvert Watkins, “Aži Dahāka, Viśvarūpa, and Geryon” in How to Kill a Dragon: Aspects of indo-european poetics, New York, Oxford University Press, 1995, p. 465.

(11)Mahābhārata 1.102.11-12

(12) Ṛgveda 10.148.5; 10.94.14; 8.9.10; 1.112.13; etc.; Mahābhārata 12.59.99-128.

(13) Wendy Doniger, The Hindus: an alternative history, Oxford, Oxford University Press, 2010, pp. 112-113.

(14) Ilíada 11.548-557. A vaca mais gorda é Helena. Os confrontos no decurso da guerra serão comparados por Nestor à guerra dos Eleios e Aqueus devido ao roubo de gado. Ilíada 11.670 e ss.

(15) Robert Graves, The Greek Myths, New York, Penguin Books, 1992, p. 774.

(16) D. Bruce Dickson, “Interpretations of Art and Religion” in The Dawn of Belief: Religion in Upper Paleolithic of Southwestern Europe, Tucson, The University of Arizona Press, 19963. Esta relação é atestada na linguística indo-europeia. J. P. Mallory, D. Q. Adams, “Horn” in Encyclopedia of Indo-European Culture, Londres, Fitzroy Dearborn Publishers, 1997. O Neolítico terá sido marcado por uma maior importância atribuída à mulher, a par de uma nova simbologia, isto porque o sexo feminino foi sendo identificado com o solo e o sulco, enquanto que a semente e o arado foram associados ao masculino. Da mesma forma a lua (bem como a água e a vegetação) foi relacionada com a maternidade, com o ctónico e o telúrico numa “hierofania terrena”. Cf. Javier Alvarado Planas, El Pensamiento Juridico Primitivo, Madrid, Editorial Nueva Acropolis, 1986, p. 94.

(17) J. P. Mallory, D. Q. Adams, “Moon” in Encyclopedia of Indo-European Culture, Londres, Fitzroy Dearborn Publishers, 1997, onde se atesta a relação etimológica da lua com os «meses», o «ano», a «ciclicidade», bem como com o «pensamento».

(18) Os deuses são amṛtāḥ (aqueles que «não-morrem») e a sua comida/bebida é o amṛta, que foi identificado com o soma (bebida oferecida aos deuses, lua e deus da lua). O amṛta corresponde ao grego ám roton (“não-mortal”) e ám roton eîdar «comida não-mortal», mas tem o mesmo sentido que am rosíē «ambrósia» e néktar «néctar». Martin L. West, “Gods and Goddesses” in Indo-European Poetry and Myth, Oxford, Oxford University Press, 2007, pp. 157-158.

(19)Ṛgveda 10.85; Atharvaveda 14.1; “Sun and Daughter” in Indo-European Poetry and Myth, p. 227.

(20) Martin L West., The East Face of Helicon: West Asiatic elements in Greek Poetry and Myth, Oxford University Press, New York, 2003, p. 134.

(21) Viṣṇupurāṇa 1.8.25a: «śaśāṅkaḥ śrīdharaḥ kāntiḥ śrīstathaivānapāyinī».

(22) Veja-se a relação indo-europeia entre gu̯elbh- («útero», «ventre») e gu̯ē̆nā («mulher», «esposa» e «rainha»). Julius Pokorny, “gu̯elbh-” e “gu̯ē̆nā” in Indogermanisches Etymologisches Wörterbuch, Francke, Bern, 1959. De entre as várias designações indo-europeias para «água», encontramos a relação com «leite», «urina», «rio», «mar», «humidade», etc. J. P. Mallory, D. Q. Adams, “Water” in Encyclopedia of Indo-European Culture, Londres, Fitzroy Dearborn Publishers, 1997. O acto do agricultor que abre um sulco é comparado a abrir um rio no Ṛgveda (4.22.8). O próprio nome de Indra (tal como o rio Indo) derivará de indu- «gota de água». J. P. Mallory, D. Q. Adams, “Swell” in Encyclopedia of Indo-European Culture, Londres, Fitzroy Dearborn Publishers, 1997.

(23) Que é neutro em Hitita. Martin L. West, “Sky and Earth” in Indo-European Poetry and Myth, Oxford, Oxford University Press, 2007, p. 174.

(24) Martin L. West, “Sky and Earth” in Indo-European Poetry and Myth, Oxford, Oxford University Press, 2007, p. 181; Hesíodo, Teogonia 36 e ss.

(25) Pierre Chantraine, “βοή” e “βοῦς” in Dictionnaire Étymologique de la Langue Grecque: Histoire des Mots, Paris, Éditions Klincksieck, 1977

(26) Martin L. West, “Sky and Earth” inIndo-European Poetry and Myth, Oxford, Oxford University Press, 2007, pp. 174-175

(27) Martin L. West, “Sky and Earth” in Indo-European Poetry and Myth, Oxford, Oxford University Press, 2007, p. 175.

(28) Martin L. West, “Sky and Earth” in Indo-European Poetry and Myth, Oxford, Oxford University Press, 2007, pp. 176, 178-179.

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