A Cruz e o Fogo

Autor

Nova Acrópole

Partilhar

Autor

Nova Acrópole

Partilhar

Talvez o mais difundido e universal entre os símbolos nos antigos sistemas astronómicos, que avançaram pela corrente do tempo até ao nosso século, e deixaram vestígios por todo o lado na religião cristã, como noutras, – são a Cruz e o Fogo – o último, o símbolo do sol. Os Arianos antigos consideravam ambos símbolos de Agni. Sempre que o antigo devoto Hindu desejava adorar Agni – diz E. Burnouf (Science des Religions, c. 10) – ele arranjava dois pedaços de madeira com a forma de uma cruz e por uma rotação particular e fricção obtinha fogo para o seu sacrifício. Como símbolo, é chamado Swastica e como instrumento manufacturado a partir de uma árvore sagrada na posse de todos os Brahmin é conhecido como Arani.

Os escandinavos tinham o mesmo símbolo e chamavam Martelo de Thor, como mantendo uma relação electro-magnética misteriosa com Thor, o deus do trovão, que, como Júpiter armado com os seus trovões segura da mesma forma na sua mão esta insígnia de poder, sobre não apenas os mortais mas também os espíritos malignos dos elementos, sobre os quais preside. Na Maçonaria aparece sob a forma do martelo do grão-mestre; em Allahabad pode ser visto no forte como Cruz Jaina, ou o talismã dos Reis Jaina; e o martelo do juiz moderno não é mais do que esta crux dissimulata – como de Rossi, o arqueólogo, lhe chama; porque este martelo é o símbolo de poder e força, como o martelo representava o poder de Thor, que nas lendas nórdicas quebra uma pedra com ele, e mata Medgar. O Dr. Schliemann encontrou em discos de terracota, no local, segundo ele crê da Tróia antiga, na camada mais baixa das suas escavações; que indicava, segundo o Dr. Lundy, “uma civilização Ariana muito anterior à Grega – digamos datando de 2 a 3 mil anos a.C.” Burnouf chama-lhe a mais antiga forma da cruz conhecida e afirma que se encontra personificada na antiga religião dos gregos sob a figura de Prometeu “o portador do fogo”, crucificado no monte Cáucaso, enquanto o pássaro celestial – o Cyena do hinos védicos, – diariamente devora as suas entranhas. Boldetti (Osservazioni I, 15, pág. 60), apresenta uma cópia da pintura que está no cemitério de St. Sebastian, representando um cristão convertido e escavador de sepulturas, chamado Diógenes, que usa em ambas as pernas e no braço direito os símbolos da Swastica. Os Mexicanos e os Peruanos tinham-no, e encontra-se como o Tau sagrado nos túmulos mais antigos do Egipto.

É, para dizer o mínimo, uma estranha coincidência, salientada inclusive por alguns clérigos cristãos, que Agnus Dei, o cordeiro de Deus, tivesse os símbolos idênticos aos do Deus Hindu Agni. Enquanto Agnus Dei expia e elimina os pecados do mundo, numa religião, o Deus Agni, na outra, expia igualmente os pecados contra os deuses, o homem, os manes, a alma e os pecados repetidos; como revelado nas seis orações acompanhadas por seis ovações. (Colebrooke, Essays, vol. I, pág. 190)

Se, então, encontramos estes dois – a Cruz e o Fogo – tão proximamente associados no simbolismo esotérico de quase todas as nações, é porque no poder combinado dos dois reside o plano completo das leis universais. Na astronomia, na física, na química, em todo o espectro da filosofia natural.

«Talvez o mais difundido e universal entre os símbolos nos antigos sistemas astronómicos, que avançaram pela corrente do tempo até ao nosso século, e deixaram vestígios por todo o lado na religião cristã, como noutras, – são a Cruz e o Fogo – o último, o símbolo do sol.»

Em resumo, eles aparecem sempre uma causa invisível e o resultado visível, e apenas a metafísica e a alquimia – ou devemos dizer a Metaquímica, uma vez que preferimos cunhar uma nova palavra para chocar ouvidos cépticos? – podem total e conclusivamente resolver o sentido misterioso. Um a dois exemplos serão suficientes para aqueles que estiverem dispostos a reflectir sobre pistas.

O Ponto Central ou o grande sol central do Cosmos, como os cabalistas lhe chamam, é a Divindade. É o ponto de intersecção entre os dois grande poderes em conflito – as forças centrípetas e centrífugas, que conduzem os planetas para as suas órbitas elípticas, que os fazem desenhar uma cruz nos seus percursos no zodíaco. Estes dois terríveis poderes, embora hipotéticos e imaginários, preservam a harmonia e mantêm o universo num movimento inabalável e incessante; e os quatro pontos dobrados da Swastica tipificam a rotação da Terra em torno do seu eixo. Platão chama ao Universo um “deus abençoado” que foi feito num círculo e decussado na forma da letra X. É tudo o que precisava de ser dito sobre astronomia. Na Maçonaria o grau de Cavaleiro do Real Arco mantém a cruz, como o triplo Tau egípcio. É o círculo do mundo com a cruz astronómica girando rapidamente sobre ele; o quadrado perfeito da matemática Pitagórica na escala numérica, como o seu sentido oculto é interpretado por Cornelius Agrippa. O fogo é calor, – o ponto central, o raio perpendicular representa o elemento masculino ou espírito; e o horizontal o elemento feminino – ou matéria. O espírito vivifica e frutifica a matéria, e tudo procede do ponto central, o foco da vida, e luz e calor, representados pelo fogo terrestre. É, mais uma vez, tudo o que precisava de ser dito sobre física e química, porque o campo das analogias não tem fronteiras, e as leis universais são imutáveis e idênticas nas suas aplicações internas e externas. Sem pretender ser desrespeitoso com quem quer que seja ou vaguear para longe da verdade, pensamos poder dizer que há fortes razões para acreditar que no seu sentido original a Cruz Cristã – como a causa, e o tormento Eterno pelo Fogo do Inferno – como o efeito directo da negação do anterior – tem mais que ver com estes dois símbolos antigos do que os nossos teólogos ocidentais estão preparados para admitir. Se o Fogo é a Divindade para alguns gentios, então na Bíblia Deus é da mesma forma a Vida e a Luz do Mundo, se o Espírito Santo e o Fogo limpam e purificam os Cristãos, por outro lado, Lúcifer é também Luz e chamado também o “Filho da estrela da manhã”.

Para onde quer que nos voltemos, estamos seguros de encontrar estas relíquias conjuntas do culto antigo em quase todas as nações e povos. Dos Arianos, dos Caldeus, dos Zoroastrianos, dos Peruanos, dos Mexicanos, dos Escandinavos, dos Celtas, dos Gregos antigos e dos Latinos. Desceu na sua completude aos Parsi modernos. Os Cabiri Fenícios e os Dioscurii Gregos são parcialmente revividos em cada templo, catedral e igreja de aldeia, enquanto, como será agora mostrado, os Búlgaros Cristãos preservaram completamente inclusive a adoração ao sol.

Há mais de mil anos que estes povos que, emergindo da obscuridade, repentinamente se tornaram famosos através da última guerra Russo-Turca, foram convertidos ao cristianismo. E ainda assim eles parecem mais pagãos do que eram anteriormente, porque este é o modo como eles se encontram com o Natal e o dia de Ano Novo. Desta vez chamam esta celebração Sourjvaki, uma vez que é coincidente com o festival em honra do antigo Deus Eslavo Sourja. Na mitologia Eslava esta divindade – Sourja ou Sourva – evidentemente idêntica ao Surya Ário… sol… é o deus do calor, da fertilidade e abundância. A celebração deste festival é de uma imensa antiguidade, muito mais recuada do que os dias da cristandade, os Búlgaros adoravam Sourva, e consagravam o dia de Ano Novo a este deus, rezando-lhe para que abençoasse os seus campos com fertilidade e lhes enviasse felicidade e prosperidade. Este costume permaneceu entre eles em todo o seu paganismo primitivo e, ainda que varie em função das localidades, os ritos e cerimónias são essencialmente os mesmos.

«Os escandinavos tinham o mesmo símbolo e chamavam Martelo de Thor, como mantendo uma relação electro-magnética misteriosa com Thor, o deus do trovão, que, como Júpiter armado com os seus trovões segura da mesma forma na sua mão esta insígnia de poder, sobre não apenas os mortais mas também os espíritos malignos dos elementos, sobre os quais preside.»

Na véspera do dia de Ano Novo os Búlgaros não trabalham e fazem jejum. As donzelas noivas estão ocupadas a preparar um grande platiy (bolo) no qual colocam raízes e rebentos jovens de várias formas, dando a cada um deles um nome em função do formato da raiz. Deste modo um representa “a casa”, outro representa “o jardim”, outros ainda, o campo, a vinha, o cavalo, um gato, um peru-fêmea e assim sucessivamente, em função da propriedade alugada e dos bens da família. Até peças de valor como joalharia e sacos de dinheiro são representados neste símbolo do corno da abundância. Além de todos estes, uma moeda de prata grande e antiga é colocada dentro do bolo; chama-se bábka e é atada de duas maneiras com um fio vermelho que forma uma cruz. Esta moeda é considerada o símbolo da sorte.

Após o pôr-do-sol e outras cerimónias, incluindo orações feitas na direcção da luminária que parte, toda a família se reúne à volta de uma grande mesa redonda chamada paralyà, sobre a qual são colocados os acima referenciados bolo, vegetais secos, milho, vela de cera e, finalmente, um incensário grande contendo incenso da melhor qualidade para perfumar o deus. O chefe de família, usualmente o mais velho da família – ou o avô ou o próprio pai – levantando o incensário com a maior veneração, com uma mão, e a vela de cera na outra, começa a andar pela casa, espalhando incenso pelos quatro cantos, começando e acabando no Este; e lê várias invocações que terminam com o Cristão “Pai Nosso que estais no Céu”, dirigido a Sourja. A vela é então posta de lado para ser preservada ao longo de todo o ano, até à celebração seguinte; pensa-se que adquiriu propriedades curativas maravilhosas e é acesa apenas em ocasiões de doença familiar, em cujo caso é esperado que cure o paciente.

Após esta cerimónia, o ancião pega na sua faca e corta o bolo em tantas fatias quantos os membros familiares presentes. Cada pessoa, ao receber a sua parte, apressa-se a abrir e a procurar a moeda. O mais feliz do grupo para o ano seguinte é aquele ou aquela a quem cabe a parte que contém a moeda antiga cruzada com a fita vermelha; ele é considerado o eleito de Sourja e todos invejam o possuidor afortunado.

Então, por ordem de importância vêm os emblemas da casa, a vinha, e assim sucessivamente; e, de acordo com a sua descoberta, o que a descobre lê o seu horóscopo para o ano seguinte. O mais desafortunado é aquele a quem sai o gato; ele fica pálido e treme; aflição para ele e miséria, porque ele está rodeado de inimigos e tem de se preparar para grandes provas.

Ao mesmo tempo, um grande tronco, que representa um altar flamejante, é colocado na chaminé e é aceso. Este tronco queima em honra de Sourja e é concebido como um oráculo para toda a casa. Se ele arde durante toda a noite até de manhã sem que a chama se apague é um bom augúrio; de outra forma, a família prepara-se para receber a morte nesse ano e profundas lamentações terminam a celebração.

«Na Maçonaria aparece sob a forma do martelo do grão-mestre; em Allahabad pode ser visto no forte como Cruz Jaina, ou o talismã dos Reis Jaina; e o martelo do juiz moderno não é mais do que esta crux dissimulata – como de Rossi, o arqueólogo, lhe chama; porque este martelo é o símbolo de poder e força, como o martelo representava o poder de Thor, que nas lendas nórdicas quebra uma pedra com ele, e mata Medgar.»

 Nem o momtzee (jovem solteiro) nem a mommee (a donzela) dormem nessa noite. À meia-noite começa uma série de adivinhações, magia, e vários ritos, nos quais o tronco ardente desempenha o papel de oráculo. Um botão jovem atirado ao fogo e rebentando com um estalo sonoro é sinal de casamento feliz e rápido e vice-versa. Bastante tempo após a meia-noite, os casais jovens deixam as respectivas casas e começam a visitar os seus conhecidos, de casa em casa, oferecendo e recebendo felicitações e agradecendo à divindade. Estes casais deputados chamam-se Souryakari e cada rapaz carrega um ramo grande ornamentado com fitas vermelhas, moedas velhas e a imagem de Sourja e, à medida que caminham, cantam em coro, o seu canto é tão original como peculiar e merece tradução, apesar de, naturalmente, perder ao ser traduzido numa língua estrangeira. As seguintes estâncias são dirigidas por eles àqueles que visitam:

“Sôurvá, Soúrvá, Senhor da Estação,

Feliz Ano Novo deves enviar;

Saúde e fortuna a esta casa,

Sucesso e bênçãos até ao próximo ano.

Com boas colheitas e gordas maçarocas,

Com ouro e seda, e uvas e frutas;

Com barris cheios de vinho e estômagos cheios,

Tu e a tua casa sejam abençoados pelo Deus…

A sua bênção caia sobre todos vós – Ámen! Ámen! Ámen!”

O Souryakari cantante recompensado, pelos seus desejos bondosos, com um presente em cada casa, volta para casa de madrugada… E esta é a forma como a Cruz esotérica e a adoração do Fogo da antiga Aryavart vai de mão em mão na Bulgária Cristã…

 

Helena Petrovna Blavatsky

Theosophist, Novembro de 1879.

Não há plugins para instalar ou ativar. <a href=" %1$s"title="Voltar para o Painel">Voltar para o Painel</a>

Go to Top