Séneca, filósofo estóico, aborda nesta sua breve, mas substancial obra, um dos temas centrais, que de uma forma ou outra, sempre preocuparam o ser humano: a felicidade.

Começa logo por afirmar que, na verdade, toda a gente deseja uma vida feliz mas, regra geral, poucos estão dispostos a encetar os esforços necessários para verdadeiramente a alcançar.

À boa maneira clássica, continua afirmando que é necessário, em primeiro lugar, definir bem o objectivo da nossa vida, para podermos conceber o caminho que levará a esse objectivo. Aconselha ainda a que esse trabalho não seja feito sem a ajuda de um mestre que possa orientar, pois tal trilho filosófico já foi palmilhado por outros, cujo fruto nos poderá ser útil e sobretudo não fazer parte dessa massa humana que, por natureza, faz depender a individualidade de cada um, na aparente segurança da personalidade colectiva.
Para isso, é necessário fazer uso da razão, esse sentido da alma, que não é somente lógica, mas sim entendimento das leis e dos processos da natureza, aquela que distingue no seu íntimo, o que é ajustado à nossa essência e o que não é. Apriorismos ou consentimentos da opinião da maioria sem critério são perigosos e estão associados ao “síndrome de ovelhismo”, que felizmente tem cura e que passa por aplicar um saudável crivo, o qual só deixe passar aquilo que uma consciência desperta considera útil e fundamental.
Passa então a tentar definir a verdadeira felicidade:

Procuremos um bem que não se afirme pela sua aparência, mas que seja sólido, constante com uma beleza interna e oculta (…) A vida feliz é pois uma vida conforme à sua própria natureza (…) pronta a fazer uso dos presentes da sorte, mas não a sujeitar-se a eles, assim ficamos livres daquilo que nos agita e nos assusta (…) existe então na alma apaziguamento, acordo e grandeza aliadas à doçura.

A vida feliz não se alcançaria assim, obtendo muitos bens, mas seria antes o equilíbrio entre aquilo que devemos adquirir e aquilo que devemos abandonar, atingindo assim uma satisfação contínua do nosso ser interior.

“Tudo aquilo que é efémero, mas necessário em algum momento, deve manter-se disponível quando é indispensável, mas nunca num lugar preponderante da nossa vida”

A pior escravidão é aquela que advém da tirania dos prazeres e caprichos. E, sob essa tirania, não há felicidade duradoura, real, mas sim o contentamento efémero daquele que pensa que é feliz, quando na verdade só retesa o arco da dor que está apontado sobre si próprio. Continua sendo então a razão, aquela que propicia a felicidade, pois não desejar, não recear por meio daquela, é apanágio daquele que é capaz de aplicar um juízo recto e firme sobre todas as situações da sua vida.

Séneca faz uma crítica à ideia de que a felicidade esteja acoplada ao prazer pois todo o bem está na virtude e, como esta é um atributo, em boa parte da razão, quando se é guiado por esta se atinge uma felicidade duradoura e estável, enquanto uma vida regrada pelo usufruto do sempre circunstancial prazer, encontrará, mais tarde ou mais cedo, a dor como companhia. Eis um trecho delicioso que ilustra esta ideia:

A virtude é coisa elevada, sublime, real, invencível, inesgotável; o prazer é coisa baixa, servil, fraca, frágil, que se estabelece e permanece nos lupanares e nas tabernas. Encontrareis a virtude no templo, no fórum, no Senado, ela resiste diante das muralhas, coberta de poeira, a tez crestada e as mãos calosas; habitualmente o prazer oculta-se e procura as trevas, está no acesso aos banhos, nas estufas e nos locais que receiam a polícia; amolecido, sem força, húmido de vinho e perfumes, pálido ou arrebicado, embalsamado de unguentos como um cadáver. O soberano bem é imortal, não pode perecer, não conhece nem saciedade nem arrependimento; com efeito, uma alma recta nunca muda, não experimenta ódio por si própria, nada tem a modificar na sua vida que é a melhor. Mas o prazer desvanece-se ao alcançar o ponto mais elevado; tem um espaço limitado e por isso o ocupa depressa; depois vem o aborrecimento, e, após um primeiro impulso, o prazer murcha. Não pode haver constância naquilo que, por sua natureza, está em mudança. Nada pode existir de substancial naquilo que vem e passa tão depressa e está destinado a desaparecer através da sua própria realização; com efeito, o prazer conduz a um ponto em que cessa, e desde o início conhece o seu fim.

Tudo aquilo que é efémero, mas necessário em algum momento, deve manter-se disponível quando é indispensável, mas nunca num lugar preponderante da nossa vida. Esta é a fórmula para viver de acordo com a natureza pois tem confiança com saber e sabedoria com firmeza. Essa razão firme resulta da capacidade de conceber que nada é totalmente imprevisto para a alma que possui harmonia e unidade e também do acordo feito consigo mesmo de não claudicar perante nenhuma falha, perante a própria impermanência das coisas, fazendo imperar o soberano bem que é a razão.

Continua afirmando que mesmo que surja o prazer derivado da acção da virtude, este é um efeito e que a virtude não agrada porque encanta, mas se agrada, encanta também (…) a vida que chamo agradável não é possível, se nela não existir também virtude.

Nesta parte, faz uma defesa de Epicuro e das suas ideias filosóficas, afirmando que só um espírito elevado consegue entender a sua doutrina, que, velada por detrás de uma aparente busca do prazer, defende antes que, conhecer o prazer, é o meio através do qual é possível anulá-lo.

Prossegue alertando para a ideia de que ainda que se cultive a virtude, esta deve ser implantada num terreno estável e fértil, onde não tenham acesso as ervas daninhas nem da dor nem do temor para que fortaleça e resista a qualquer adversidade ou vicissitude nascidas das circunstâncias da vida. Procura reforçar que deixar-se arrastar e seguir é muito distinto e que há que receber com magnanimidade e grandeza tudo aquilo que nos acontece, isto é, sem perturbação por aquilo que não está nas nossas mãos impedir, evitando assim, dessa forma, ser apanhado pelo constrangimento. O filósofo que sabe que não é perfeito, ao louvar a virtude, não louva a sua própria, pois admite que não a tem, mas antes aquela que sabe que deve alcançar, não através da procura da perfeição, mas sim diminuindo todos os dias um pouco os seus defeitos e repreendendo os seus erros, sobretudo quando estiver só, agindo sempre como se estivesse sob o olhar de muitos e, no fim, devolvendo sem lamentos, mas com consciência tranquila, a vida que a natureza lhe emprestou. Segundo Séneca, o filósofo não tem porque negar a riqueza, afirmando que, desde que lícita, ela pode entrar na sua casa mas não no seu coração e se esta tiver que ir embora, irá sozinha, pois a felicidade do filósofo não assenta sobre a posse da riqueza, nem a tristeza sobre a sua perda.
Como resultado natural da análise íntima, é necessário exortar a alma para a obtenção da virtude, pois esta pressupõe um caminho árduo, e refrear a alma para que não se abandone a excessos. A obra termina dando conselhos a todos os que criticam a actividade filosófica, pois o fazem do alto da mais perigosa ignorância: a que não sabe, mas se crê sábia.

Daniel Oliveira
21 de Julho de 2012

Este texto não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico