Numa tarde quente, onde um avermelhado sol tingia com os seus dedos de sangue as paredes das casas enquanto as sombras cresciam como se quisessem devorá-los, Hipátia encontrou Theon inclinado sobre uma dezena de papiros, absorto neles, como se o mundo em redor se tivesse desvanecido nos seus pensamentos e neles viajasse como num mar sem fim. Uma lucerna romana com a face de um Hélios-Rei estampada no seu barro fazia dançar a sua chama, viva e alegre, desafiando as sombras que se dilatavam cada vez mais, sem temer a noite, que parecia esperar nos umbrais da casa.

Hipátia, de alma sempre atenta ao misterioso sussurro e significado de tudo o que nos rodeia, teve uma espécie de pressentimento e tentou fixar na sua imaginação esta cena de um Sol que morre, ensanguentado; e uma chama que dança, alegre, sem medo das sombras, e o seu pai absorvido nos seus estudos, indiferente ao mundo que o rodeava. Sem querer aprofundar o seu significado, quis fixar as letras símbolo desta cena para lê-lo na sua alma quando fosse necessário.

“— Pois o que é realmente difícil — exclamou Hipátia —
é fazer alusões a estes Mistérios e,
sem revelar nenhum segredo ao profano”

— Olá Hipátia, não me tinha apercebido da tua presença, como estás? E os teus discípulos? — perguntou Theon.
— Estão muito bem — respondeu Hipátia — crescem interiormente quase sem se aperceberem, como flores e os novos rebentos ante o impulso da Primavera. Mas há que ajudá-los para que a Luz abra caminho nos seus corações, há que desfazer os blocos de gelo da sua ignorância e de certos hábitos mentais que os aprisionam. Bem, já podes imaginar, todos vivemos esse processo doloroso e, tantas vezes, de incerteza. E tu pai, que fazes tão compenetrado nos teus livros?
— Estou a preparar um ensaio sobre a estrela Sírio e a rever alguns papiros egípcios sobre isso – replicou Theon. E outro sobre o rio Nilo e as suas cheias quando, como sabes, entram em conjunção o Sol e a nossa Estrela Mãe.
— Pois o que é realmente difícil — exclamou Hipátia — é fazer alusões a estes Mistérios e, sem revelar nenhum segredo ao profano, sugerir ao filósofo que siga o fio da sua intuição e penetre no bosque sagrado da sabedoria.
— É verdade Hipátia — reconheceu Theon — ainda que tenha o exemplo e a inspiração de muitos sábios egípcios que me precederam e escreveram sobre estes mistérios sublimes de Sírio e do Nilo. Claro, encobrindo sempre os seus ensinamentos com símbolos de um modo tão engenhoso que, como bem disseste, nada significam para o profano e tudo desvelam perante o olhar penetrante do Iniciado. Nas alegorias religiosas e nos textos filosófico-mistéricos como o Livro da Oculta Morada, o Livro das Horas e tantos outros, assim como nas cenas astrológicas representadas nos templos há numerosas alusões. Ainda que esta seja uma linguagem intuitiva, pouco favorável ao carácter grego e menos ainda ao tempo em que vivemos. Nestes dois tratados sobre Sírio e as cheias do Nilo devo fundamentar-me no que outros escreveram e se, mesmo assim, interpretar parcialmente o simbolismo dos mitos gregos, ensinamentos de Platão, poemas de Hesíodo, elementos da religião mitraica, etc… e abrir as pétalas deste Lótus de Sabedoria, derramar um perfume que seja útil aos enamorados da alma de tudo o que vive… quanto tempo me permitirá a vida continuar estes escritos?… não sei — disse Theon como se soubesse o que não queria revelar.
— Vais comentar no livro a relação que há entre Sírio, o Tempo e a Consciência? — perguntou Hipátia com curiosidade.
— Sim — respondeu o filósofo — mas de um modo velado que apenas possa saber realmente de que estou a falar, aquele que já esteja iniciado nesta Filosofia. Como tu sabes, nós os egípcios medimos o tempo pela relação entre o Sol e Sírio. O ano nasce da conjunção de ambas as es­trelas, que se produz quando as águas do Nilo inundam as terras. Mas existe outro Nilo celeste que fertiliza a Terra inteira e as nossas consciências, divinizando-as, embriagando-as de Luz, e é ele que se derrama desde a Estrela Sírio através do Olho aberto do nosso Sol quando ambos coincidem no Céu. Sírio é o Olho direito de Anubis, e Anubis é o Senhor dos Limites e, portanto, do Tempo. Para medir o tempo há que fixar um ponto de referência que geralmente é o Sol. Mas o Sol também se desloca aparentemente no céu, num movimento retrógrado através do Zodíaco que se completa a cada 26.500 anos devido ao movimento de pião do eixo de rotação da nossa Terra. Isto significa que o Sol não é uma referência fixa suficientemente exacta.

“Sírio é o coração espiritual do nosso Cosmos, o Sol do nosso Sol, o Olho de Eternidade que rege a nossa evolução, aquilo que aviva o fogo da consciência e da mente na alma humana – disse veementemente Theon.”

— Se escolhermos uma estrela — continuou Theon nas suas explicações — como todas elas têm, além dos próprios movimentos, este aparente de retrocesso dos equinócios, assim também não são um ponto que possamos chamar de imóvel no céu. No entanto, o movimento real de Sírio sobre o fundo de outras estrelas compensa o movimento aparente de retrocesso equinocial, o que faz com que seja uma referência quase exacta para medir o tempo. Nos arquivos dos nossos templos sabemos que 1460 anos de Sírio equivalem a 1461 do nosso Sol (estamos a falar da passagem de ambos pelo mesmo ponto do Zodíaco) pelo que neste ciclo temporal o calendário solar e o de Sírio coincidem, podendo-se medir o tempo, se compararmos ambos os calendários, com uma precisão quase perfeita. Isto é válido astronomicamente, mas do ponto de vista mistérico é ainda mais importante. Arquimedes não dizia «dai-me um ponto imóvel e deslocarei, usando a lei da alavanca, o universo»? Pois bem, este ponto imóvel é, de certo modo, a Estrela Sírio. Sírio é o coração espiritual do nosso Cosmos, o Sol do nosso Sol, o Olho de Eternidade que rege a nossa evolução, aquilo que aviva o fogo da consciência e da mente na alma humana – disse veementemente Theon. E como Senhor do Tempo e dos Limites está, portanto, em relação com o número 9, número que determina os ciclos e as medidas do tempo. Se somarmos os produtos de 9 o resultado é sempre 9:
9 x 1 = 9
9 x 2 = 18 (e se somamos o 1 e 8 o resultado é nove)
9 x 3 = 27 (e, de novo, 2 + 7 = 9)

E sempre assim; por isso o 9 é o símbolo do tempo e da consciência, que se geram a si mesmos. Esta simples tabuada matemática expressa mistérios tão profundos que, quase não nos podemos referir a eles com palavras, por mais que pareça um jogo infantil. Sírio é o Senhor do Tempo pois contém dentro de si o princípio e o fim de toda a evolução do nosso sistema solar, de que é o regente. Nós, os egípcios, representámos esta verdade de um modo simbólico nos nossos textos ao dizer que a barca solar, no seu perpétuo movimento, dirige sempre a proa na direcção desta estrela. Hesíodo, na sua obra O Escudo de Héracles, representa Sírio emanando uma série de círculos concêntricos que nunca acabam, abarcando todo o Escudo, ou seja, todo o Universo. E, na nossa religião, Sírio é também Ísis, a Virgem que amamenta o Mundo.
— O deus Mitra é outra representação de Sírio — continuou — e de todos os valores místicos que esta estrela irradia na alma humana. Não o vemos nas estelas a rodear com o seu braço o Sol, indicando assim que é superior na Hierarquia Celestial; e ambos, Mitra e o Sol, juntos, abençoando os seres humanos com a ajuda do Deus Mercúrio? — Concluiu Theon visivelmente emocionado pela profundidade dos símbolos.

Theon, como um dos mais insignes filósofos da Biblioteca e do Templo de Serápis, tinha escrito um grande número de livros dos quais, infelizmente, muito poucos sobreviveram: um comentário aos Elementos de Euclides, os Dados, um Tratado de Óptica, várias obras de comentários aos textos matemáticos e astronómicos de Ptolomeu como, por exemplo, aos 13 livros do Almagesto (Sintaxis matemática), dois comentários às Tábuas: o grande comentário, escrito em cinco livros e o pequeno comentário, apenas em um.

Sabemos que também ensinou e escreveu comentários sobre o Corpus Hermeticum e os Hinos Órficos, ambos sublimes compêndios da Doutrina Secreta. O primeiro um compêndio egípcio e o segundo grego. Theon também escreveu estudos sobre augúrios e práticas de magia ritual como, por exemplo, um intitulado Sobre os sinais e o exame de pássaros e grasnidos de corvos.

“São os sonhos da alma que assassinamos ao entregarmo-nos à inércia e à voracidade do mundo, ao deixar de viver segundo os imperativos da nossa consciência e fazê-lo amodorrados e seduzidos pelos desejos e ilusões do mundo.”

— E já leste os últimos dois poemas que escrevi, Hipátia? — perguntou Theon retomando a conversa.
— Sim, e impressionaram-me vivamente — respondeu Hipátia. — No teu poema funerário (aquele em que uma mãe chora o seu filho, um jovem marinheiro afogado no mar) poucos se aperceberão que é também um poema alegórico. A mãe representa a alma que chora a sua obra não concluída; o espírito que chora a personalidade que se afundou nas frias águas do oceano de matéria, transformado num cadáver sem vida. De todos os poemas que li é o melhor que expressa a dor que sinto, como Mestre, quando alguns dos meus discípulos, a quem quero como filhos, não são capazes de superar as provas do mundo e precipitam-se para as suas fauces abertas esquecendo tudo o que sabem, perdendo a sua divina razão, até morrer a inquietação da sua alma no oceano frio e abissal de uma vida sem ideais; apagada para sempre a sua chama interior, aquilo que os fazia semelhantes aos deuses em dignidade e beleza.
— No teu poema — continuou a falar Hipátia enquanto relembrava na sua imaginação os versos do seu pai — as aves marinhas voam em círculos sobre o lugar onde o marinheiro se afundou: são os Ideais, os sonhos e anseios, tudo aquilo que devia ter plasmado e dado vida… ficam a revolutear sem um lugar onde pousarem. São os sonhos da alma que assassinamos ao entregarmo-nos à inércia e à voracidade do mundo, ao deixar de viver segundo os imperativos da nossa consciência e fazê-lo amodorrados e seduzidos pelos desejos e ilusões do mundo. O poema que escrevestes, sobre um escudo que se converte num abnegado e fiel servidor, é também muito belo e evoca significados filosóficos muito profundos. Combate ao lado do seu senhor e salva-lhe a vida numa batalha naval e, depois, quando o barco naufraga, ampara-o no mar até chegar a local seguro.
— Adivinho o mistério que está por detrás destes versos — continuou Hipátia. — A todo aquele que jurou servir um Ideal divino e por Ele combater na batalha da vida os Deuses entregam um escudo no qual vai gravada a sua efígie, o seu selo, a sua garantida protecção. É um Duplo Luminoso, um Génio salvador, cuja missão é servir quem serve o Plano Divino, esse Plano que é para os filósofos a evolução de toda a Humanidade. Os textos sagrados egípcios referem este Duplo Luminoso que acompanha, como uma Arma ou Escudo Mágico, os verdadeiros servidores da Obra dos Deuses. Recordo agora de memória um, o do Livro dos Cantos Potentes que diz: «Sol nascente, tu susténs-te a ti mesmo, sobre o teu escudo, em nome do deus que está colocado sobre o teu escudo. O teu nome é mais poderoso que os deuses, o teu nome do deus sentado no centro da tua nave» — recitou a jovem. — Como dizem os sacerdotes iniciados egípcios, o escudo representa a pureza e sobre essa pureza de vida o discípulo ou «guerreiro de luz» escreve o Nome do seu Eu secreto, que é o nome do seu Mestre-Deus.

Hipátia reflectiu uns segundos antes de continuar:

— Também nos mitos babilónicos fala-se deste amigo divino ou duplo luminoso — disse — é o gigante Enkidu que acompanha Gilgamesh. Os discípulos de Mani, cuja religião é pura arte e que se estendem desde o país de Shin até à cidade de Roma, prestam-lhe culto com o nome de «Duplo» (Sizygia). O que o poema tem de pedagógico, tal como o escreveste, é que quem o ler aprofundará mais e mais segundo os seus conhecimentos e vivências. Quanto mais profunda é a alma, mais profundos os significados que encontrará neste texto…

Excerto de “Viagem Iniciática de Hipátia”, de José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole