Fresca é a água do regato que corre, acalma a sede do sedento, e o seu canto serena o ânimo e devolve a natural alegria de viver. Alegria necessária para assumir bem o compromisso de estarmos vivos.

Esta é em resumo, a sensação que deixa por trás de si a leitura deste livro de poemas e contos de Eladia Montesino-Espartero Aberly. Histórias param crianças e não para amargurados, sim talvez para adultos que queiram de novo entrar na pureza e inocência da infância. Poemas transparentes, musicais, dançando com o seu pé rítmico e medidas, aquelas cuja musicalidade tanto precisamos. Pois a música das velhas poesias devolve-nos o eterno alento, aquele que nos faz irmão da música da vida e da dança dos astros. A poesia não é ” prosa cortada “, é expressão musical, bela portanto, de um pensamento ungido pelo céu. De uma visão, que o olho do poeta torna vivaz e penetrante, misteriosa a hora de descobrir os vínculos entre géneros, seres e acontecimentos; terna a hora de abraçar a Alma do Mundo e as suas musicais iridescências.

O grande compositor e pianista Friedrich Chopin dizia que a vida é uma sucessão de estridências, que ao passarem pela alma devem ser convertidas em música. O místico e filósofo tibetano, o grande Atisa dizia o mesmo; que devemos inspirar a dor do mundo e transformá-la ao expirar em compaixão, irradiar protecção e conforto. Os verdadeiros alquimistas transmutam o chumbo em ouro, e o pesado e disforme das suas almas em pura consciência e luz. O professor Jorge Angel Livraga, mestre de quem escreve estas linhas, no seu estilo tão directo e inesquecível, afirmava que “temos de engolir amargo e cuspir doce. ”

A autora destes versos e histórias, com quem, por ser o sangue do seu sangue, tive a oportunidade de conversar muitas vezes e sentir o seu exemplo permanente e a paz de uma vida realizada, do tempo vencido, converte as dores da sua vida – e em que vida não há dor, em doses homeopáticas ou em amarga e rude medicina – em poemas. Pois quando o poema é verdadeiro, e os desta autora brotam como flores e canções do manancial do seu terno coração, é um cristal alquímico que guarda o segredo na verdade. E se a verdade foi como uma tempestade que devastava plantações e alagava fazendas, agora, trabalhada pela alma, dada à luz pelo génio, converte-se em jóia que nos permite ver as dimensões até então insuspeitas da vida.

A geometria e a luz que esta joia irradia são, nesta comparação, como a medida e a sonoridade do poema. As paisagens, soberbas à luz do seu cristal, são as vivências à luz da sua poesia. A vida deixa de ser em tons de cinza, quantas cores nunca imaginadas! O tempo deixa de ser frio e cinza, quantas labaredas! A poesia devolve-nos a vida, que o sonho e a embriaguez da matéria nos arrebataram quando nascemos. Como Hércules, enamorados e sedentos de vida, bebemos do mesmo “leite” que dá vida à alma dos astros e também à alma das flores, queremos sair da prisão que teceu a ignorância à nossa volta e viver de verdade. Agora, as acções serão filhas da alma, heróicas, portanto não produto vão e opaco das circunstâncias que nos rodeiam. Não é já só o corpo que respira, já não nos basta sobreviver física e emocionalmente, queremos deixar uma marca profunda no tempo e nos outros, porque estamos vivos! O perfume mágico da poesia amamentou-nos com o “leite e mel “, o reino da beleza.

«(…)Esta é a poesia, a bela e natural que lê nas dobras do Livro da vida, que é o Livro da Natureza e da Alma ao mesmo tempo, em apertado e misterioso abraço. As suas histórias e os seus poemas, dos quais a autora diz humildemente: ” a única coisa boa é que eles são simples, sinceros e forjados no coração “, enraízam a nossa alma na terra firme do autêntico, seguros e em paz, a salvo dos redemoinhos das meias-verdades e mentiras disfarçadas, sibilinas e sedutoras que cantam como sereias que nos adormecem e que como vampiros nos querem beber o sangue da alma.(…)»

Estes versos da poetisa foram escritos, a maior parte há meio século, duas gerações, e no entanto parece que passaram milhares de anos, tanta coisa mudou no mundo, não só no aspecto material e tecnológico, mas também na estrutura psico-sociológica. Dissolveram-se os papéis naturais e assumidos das famílias, os casais, a necessidade de ser guias e exemplos morais dos professores e governantes e o respeito por todas as pessoas. A procura natural pela dignidade foi menosprezada se não mesmo viciada afastando-se das suas fontes naturais. Não parece apenas que tenhamos entrado num novo milénio, mas que tenhamos sido catapultados para um vazio e abismo que nos aterroriza, porque nada sustem esse tecido de vontades concordantes que é a sociedade. Não amanhece ainda o Novo Mundo e o Velho cai estrondosamente em ruínas, ainda não começou a amanhecer e as sementes do futuro jazem aparentemente adormecidas na noite que se avizinha. Nelas está a esperança do amanhã, mas hoje cercam-nos a escuridão moral e existencial. E isso reflecte-se também, é claro, nos gritos cacofônicos da nossa poesia, catarse não da alma à procura de purificação mas dos nossos próprios demónios e sombras, que querem amancebar-se com as sombras do mundo. É necessário voltarmos a ser autênticos, a não fingir, a que o poeta cante naturalmente a vida, as suas dores e alegrias, como faz com simplicidade e elegância, diáfana e serena a nossa poetisa Eladia Montesino – Espartero Aberly.

De família nobre, descendente do general Espartero , nasceu em Madrid em 13 de Outubro de 1897, filha mais velha de Luis Montesino Espartero e de Ana Averly Lasalle, Marquêses de Morella, Duques de Victoria, Condes de Luchana e Grandes de Espanha.

Educada no colégio das irlandesas em Biscaia e no francês Notre Dame de Madrid, dominava perfeitamente a língua francesa e inglesa. Durante a Primeira Guerra Mundial, colabora como enfermeira da Cruz Vermelha em Bordéus. O seu espírito de aventura e dado o seu pai ter sido um pioneiro da aviação espanhola, fazem dela a primeira mulher espanhola a voar como passageira. Casou-se com o escritor e jornalista Pedro Romero Mendoza, a quem ajudaria no tempo que lhe sobrava de forma incansável nas correcções e revisões dos seus livros, depois de dar aulas de francês num instituto e ser dona de casa em Cáceres com 8 crianças que naturalmente requeriam toda a sua atenção.
Colabora com a revista ” Cristal ” e ” Alcântara “, dirigida pelo seu marido durante vinte anos.

Ainda que manifestasse repetidas vezes o seu desejo de ultrapassar três séculos e dois milénios, e pouco faltou, morre em Madrid, serenamente, em 19 de maio de 1999.

Como as liras eólicas na Grécia Antiga, os ventos da vida, doces ou amargos, pulsam espontaneamente a sua alma, e a dor tristeza serena, em verso de oferenda; e a alegria em festa de comunhão. Pois há que guardar no próprio atanor, dentro, as dores para transmutá-las em sábias experiências, e nas nossas alegrias dar de coração e as mãos cheias, no rito dionisíaco em que corre e canta o vinho da vida. Já o disseram os místicos e poetas do Tibete há milhares de anos:

Do Atanor da vida humana, elevam-se chamas aladas, chamas que vão tecendo a tripla veste do caminho espiritual.

Um filho doente morre-lhe nos braços, e depois de acalmar a sua angústia pintando toda a casa, escreve um poema em que a sua dor converte-se em ritmo e beleza.

Os seus oito filhos voam como pombos, batendo as asas para o novo vento de suas vidas, e a terrível solidão do ninho abandonado e vazio torna-se transparente e sereno no canto dos seus versos.

Dois dos seus filhos seguem a vida de marinheiros, e o medo de ver as suas fortunas unidas aos mares, sempre ameaçados por tempestades; arranca versos que são orações, belas súplicas que nos enternecem.

O seu marido agoniza e morre, vítima de um acidente de trânsito, e a dor da sua ausência no passeio vespertino, nos jardins de Cáceres, brota como flores de morte no seu coração, flores que fazem da terra e o sangue amargo converterem-se num cálice como o de um Cristo Redentor, donde todos podem beber para acalmar as suas próprias angústias. Pois, quantas vezes o sofrimento nos acomete! E, embora a fraternidade sempre procurada seja do vinho e mel da alegria, a sua irmã sombria humaniza-nos e torna-nos mais compreensivos.

Esta é a poesia, a bela e natural que lê nas dobras do Livro da vida, que é o Livro da Natureza e da Alma ao mesmo tempo, em apertado e misterioso abraço. As suas histórias e os seus poemas, dos quais a autora diz humildemente: ” a única coisa boa é que eles são simples, sinceros e forjados no coração “, enraízam a nossa alma na terra firme do autêntico, seguros e em paz, a salvo dos redemoinhos das meias-verdades e mentiras disfarçadas, sibilinas e sedutoras que cantam como sereias que nos adormecem e que como vampiros nos querem beber o sangue da alma.

José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole