“Alma sã em corpo são”.

“Cava no teu próprio interior, pois dentro de ti está a fonte do bem, fonte que poderá sempre brotar se nunca cessares de cavar”.

Epicteto

 

O nosso século parece ter esgotado a sabedoria, de tanto ter falado nela. Existe como que um cansaço de poder ir mais além no desenrolar das Ideias que estiveram sempre associadas aos clássicos princípios do Belo e do Bem. Será que o nosso século, de tanto ter aprendido, de tanto ter analisado, esgotou as águas cristalinas deste precioso axioma filosófico “alma sã em corpo são?

Palavras distorcidas, negações confusas, aberrantes contradições fizeram nascer o anti-belo, o anti-discernimento, deixando nas nossas mentes uma nuvem de poeira que chega a perturbar o corpo.

Confundiram-se os fundamentos da Estética permanente com o seu pálido reflexo das modas temporais. A primeira está inserida na metafísica enquanto que as outras permanecem ligadas à física corporal.

A Estética é una, a Justiça é una e o Amor é uno: todos são a expressão da Unidade. Os diversos estados de consciência desta Unidade irão gerar uma multiplicidade de modos, sendo todos eles esboços para se alcançar a totalidade do SER.

“Confundiram-se os fundamentos da Estética permanente com o seu pálido reflexo das modas temporais.”

Parece-nos impossível conceber que cada um de nós pudesse arbitrar a sua própria justiça, sabendo que isso iria gerar um desastre social. Da mesma maneira deveria parecer-nos um absurdo poder pensar que existem vários princípios do Belo, pois também ele é a expressão da divina harmonia. Assim, sendo o Belo uno, o que pode variar são as formas em que ele se exprime; as formas representam o meio, e o Belo o resultado: a harmonia entre as ideias que modelas e a forma modelada.

Sem princípios esclarecedores acerca do melhor meio para alcançar este resultado não passaremos de uma sugestão intelectual ou então de uma brincadeira sem pés nem cabeça.

Querer inovar nos princípios da Harmonia Universal seria o mesmo que querer inverter a ordem da Natureza.

A cabeça do homem esteve sempre no seu lugar e os pés onde lhe competem estar. Sem a cabeça os pés andam em vão, podem-nos fazer cair de várias maneiras já que lhes falta uma direccionalidade. A cabeça sem os pés pode levar-nos a viver num mundo de abstracções puramente utópicas, tal e qual como quando nós sonhamos. Desde sempre que as raízes estão na terra e as flores orientadas para a luz, que os pássaros voam no céu e os peixes vivem nas águas. Então, porquê inverter a ordem da Natureza? Esta não brinca com as suas criaturas, mas antes condu-las sem hesitações até uma meta evolutiva. Então, porquê negar a Lei da Vida invertendo a ordem legítima das coisas?

O homem pensa com a mente, digere com o estômago e reproduz com o sexo. Querer transpôr o sexo para a mente, pervertendo-a, é anti-natural. É como querer satisfazer a nossa fome olhando para um banquete ou digerindo palavras. Isto parece-nos tão aberrante que facilmente nos poderemos rir desses exemplos. No entanto, e paradoxalmente, continuamos confusos acerca das palavras “ordem” e “justa medida” como se fossem estranhas à divina harmonia da Natureza.

A Estética leva-nos à contemplação do Belo, não havendo nisso nem especulação nem fantasia. A contemplação é um êxtase que faz do corpo e da alma uma só coisa, uma só harmonia.

O Belo não deve ser encarado numa perspectiva de moda, pois será sempre tal enquanto houver harmonia entre as leis universais e o próprio pensamento do Homem. É por isso que os homens tentam reproduzir a natureza. Emancipar-se dessas leis significa cair em formas abortadas, retalhos da vida legítima. Captar aspectos infinitamente subtis do Belo, escondidos por detrás do véu grosseiro da matéria, é ir então ao encontro da Realidade.

” A Estética leva-nos à contemplação do Belo, não havendo nisso nem especulação nem fantasia.”

Belo é sempre o eterno sorriso que provém do desabrochar da alma, tão presente e tão igual nos lábios de uma criança como nos de um velho, de um homem de pele negra ou branca, de um chinês de há 2.000 anos ou de um europeu do século XX.

Buscar o princípio que eleva a alma até exprimir esse sorriso, tal é o caminho da metafísica.

Confundir o riso estridente de uma alma emocionada com este sorriso interiorizado, é não ter compreendido a diferença entre momento e eternidade. O primeiro leva-nos por múltiplos estados de ânimo, altos e baixos, tristes e alegres enquanto que outro é o reflexo de um salutar equilíbrio de ânimo e de entusiasmo.

Hoje vivemos sob um manto de disfarces, aparentando ser muitas coisas sem chegarmos a Ser, sempre por falta de vivência. A ausência de interioridade traduz-se inevitavelmente em sentimentos frustrados que escondem múltiplas carências. As modas correm mais rapidamente do que as estações e nós corremos atrás delas para vivermos sempre adiantados…

Disfarçamo-nos de pobres sem nunca termos conhecido a pobreza; disfarçamo-nos de emancipados sem nunca termos renunciado a nada excepto ao natural véu da virtude, único que nunca deveria deixar de nos cobrir o corpo e a alma.

Disfarçamo-nos, disfarçamo-nos!

Para viver no belo temos primeiro que enfrentar o feio, o impuro; temos que afastar a mentira da nossa alma, para podermos deixar de mentir com o nosso corpo.

“Belo é sempre o eterno sorriso que provém do desabrochar da alma.”

Uma alma sã necessita de um corpo são e as águas da vida irão pouco a pouco preparar esta purificação. Então, chegará o dia em que nós poderemos contemplar face a face o Belo, sem obstáculos, sem distorções, pois a alma e o corpo estarão unidos na mesma e única Harmonia.

A Filosofia põe em ordem a nossa mente; a Psicologia põe ordem na nossa alma; a moral põe ordem na nossa conduta. A união entre estas três disciplinas produz a Divina Estética.

Para Aristóteles (Ética a Nicómaco, VIII), o homem a mulher devem ter em comum a medida e o amor do trabalho sem servilismo. Platão (Ménon, 73-74), afirma que “a virtude nos dois sexos tem uma única e mesma essência… O homem e a mulher para serem virtuoso necessitam ambos destas duas coisas: a Justiça e a Sabedoria”. E concluiremos este breve trabalho com um parágrafo dos Versos Áureos de Pitágoras:

 

“Vigia a tua saúde: dispensa com medida,

Ao corpo os alimentos, ao espírito o repouso.

Demasiados ou demasiado poucos cuidados são a evitar;

Pois o desejo, a um e a outro excesso, se prende igualmente.

O luxo e a avareza têm consequências semelhantes.

É preciso escolher em tudo um meio justo e bom”.

 

Françoise Terseur