Flantland

Autor

Nova Acrópole

Partilhar

Autor

Nova Acrópole

Partilhar

Um romance de muitas dimensões
de Edwin A. Abbott

Suponha que uma pessoa da quarta dimensão, decidida a visitá-lo, dissesse: ‘Todas as vezes que você abre os olhos, você vê um plano (que tem duas dimensões) e infere um sólido (que tem três), mas na realidade você também vê (embora não perceba) uma quarta dimensão, que não é cor, brilho nem qualquer coisa do tipo, e, sim, uma dimensão de verdade, embora eu não lhe possa mostrar sua direcção, nem você possa mensurá-la’. O que você diria a tal visitante? Você mandaria prendê-lo? Bem, essa é a minha sina: e é tão natural para nós, planolandeses, prender um quadrado por preconizar a terceira dimensão quanto é natural para vocês, espaçolandeses, prender um cubo por preconizar a quarta dimensão. Ai de nós, a cegueira e o preconceito são traços comuns à humanidade em todas as dimensões! Pontos, linhas, quadrados, cubos, cubos extras – somos todos passíveis dos mesmos erros, todos igualmente escravos dos nossos respectivos preconceitos dimensionais.
Edwin A. Abbott

Vivemos numa época onde a ciência teoriza sobre a hipotética existência de 11 dimensões, supercordas, supersimetria e outras teorias complexas, tudo matematicamente interessante (para os suficientemente dotados para o entender) mas muito longe de unanimidade e ainda mais longe de conhecimento generalizado. Toda aquela obra capaz de transmitir ideias mais ou menos complexas de forma simples, para que muitos possam entender, é louvável e merece destaque. É o caso deste Flatland (Planolândia na versão brasileira), obra escrita no final do séc. XIX e que aproxima de forma quase profética os leitores do que viria a ser a revolução científica do início do séc. XIX com a relatividade geral de Einstein, ao mesmo tempo que faz uma acérrima crítica social aos preconceitos da época (que não são muito diferentes dos nossos).

“O romance retrata um mundo de duas dimensões, habitado por seres também de duas dimensões (formas geométricas), no qual não se pode conceber o mundo tridimensional.”

Quantos mais lados (e consequentemente mais ângulos) tiver o ser geométrico, mas perfeito é, e mais alto o seu estatuto social, que chega ao topo, na figura dos círculos, sacerdotes desse mundo imaginário. O cumprimento normal entre os seres da Planolândia, dando azo à importância formal, ou melhor, da forma é “Cuide da sua configuração”.

As mulheres são (representando um preconceito machista) rectângulos, mas de lados tão finos que mais parecem linhas e estão obrigadas por lei a ter que emitir constantemente avisos para não correr o risco de magoar outros seres que inadvertidamente choquem contra elas. Um tratamento semelhante é dado a figuras irregulares, que são praticamente banidos as das actividades normais da sociedade. Tudo é controlado, casamentos, construção, expressões artísticas, enfim, praticamente todas as actividades humanas, sendo este facto do romance uma óbvia crítica aos estados totalitários. E o maior de todos os pecados era a “heresia da 3ª dimensão”, ou seja a proclamação da hipótese de um mundo diferente, pois esta punha em causa o poder instituído. Não se excluiu da trama um período de revoluções, dadas através da utilização da cor, o que uniformizava (e ao mesmo tempo diferenciava) os mais espertos, toda a sociedade, dando a possibilidade de igualdade aos seres de menos lados. Também é interessante a ideia expressa na obra que a inteligência de um ser está relacionada com os ângulos, dando eco de alguns ensinamentos que afirmam que os ângulos são pré-existentes às formas.

A vida na Planolândia é estranha para nós, pois na verdade os seres que lá habitam não vêm as formas uns dos outros mas sim linhas do tamanho das suas formas e as sombras dos vértices. Imaginemos o que um marinheiro vê quando divisa uma ilha a alguns quilómetros de distância, e teremos uma ideia próxima da interacção na Planolândia ou então coloque-se uma moeda em cima de uma mesa e olhe-se a partir do plano da mesa e também se terá uma ideia próxima.

Um dos episódios que marcam o romance é quando a personagem principal – A Square – tem um sonho onde entra em contacto com um mundo unidimensional (onde habitam seres que são linhas) e também com um ponto (um mundo onde só o ponto tem realidade como ser e como universo) sendo incapaz de fazer entender o que é um mundo bidimensional acabando por desistir. De seguida é a sua vez de ser incapaz de entender um mundo tridimensional através de argumentação, aquando da visita de um ser dessa dimensão, cuja tarefa é encontrar um prometeu da Planolândia para levar o conhecimento de outras dimensões aos seres que lá vivem. Fica claro que há realidades que só se podem entender através da experiência e foi precisamente isso que aconteceu com A Square, que é compulsivamente levado (elevado do seu plano neste caso) a penetrar no mundo de três dimensões. Primeiro não conseguia explicar o que estava vivenciando, mas após um período de habituação, acabou por abranger o que lhe estava acontecendo e quão maravilhoso era a compreensão de um mundo que até há pouco tempo lhe estava vedado e que é representado pela profundidade e perspectiva (que por sinal é uma ilusão do mundo tridimensional, pela incapacidade de ver todas as partes ao mesmo tempo de um objecto, tal qual como um ser bidimensional não pode ver as figuras geométricas, mas somente linhas). Depois acaba por conjecturar, através da analogia, da existência de uma 4ª dimensão e até de uma 5ª, 6ª e por ai fora… a sabedoria abre os olhos para hipóteses insuspeitadas!

É fascinante a mera noção de dimensões que não podemos perceber pelas nossas limitações perceptuais e nas quais podemos encontrar justificações para as noções de metafísica, dos deuses das religiões, do akasha hindu (suposto registo onde ficam armazenadas as informações de todas as coisas do mundo) e outros fenómenos estranhos e ao mesmo tempo superiores ao mundo que conhecemos, simplesmente como pertencendo a uma quarta dimensão que interpenetra a terceira da mesma forma que a terceira interpenetra o mundo bidimensional, causando “prodígios inexplicáveis”. Ter percepção dessa quarta dimensão, seria como ter acesso de uma forma plena e completa às verdadeiras capacidades psico-mentais, o que seria como ser capaz de transferir a consciência em pleno para um plano de percepção superior, vendo a partir dessa forma ampliada de visão o mundo que agora percebemos a três dimensões.

Em O Plano Astral, C.W.Leadbeater afirma o seguinte: Contudo, reflectindo um momento, veremos que esta visão está mais próxima da verdadeira percepção do que a vista física. Assim, se olharmos à luz astral, as faces de um cubo de vidro, elas nos parecerão perfeitamente iguais, como realmente o são, ao passo que no plano físico vemos a face mais afastada em perspectiva, e portanto, muito menor do que realmente o é, o que evidentemente não passa de uma ilusão do sentido visual. É esta característica da visão astral que concorreu para que este tipo de visão tenha sido chamado “vista da quarta dimensão”.

“Depois de todas as experiências por que passou a personagem principal, acabou por desistir de todos os afazeres do seu quotidiano para se dedicar à contemplação do mundo e à reflexão para melhor integrar no seu ser tudo pelo que tinha passado.”

Após algum tempo assim e apesar dos perigos em que incorria (pena de morte ou prisão perpétua para todos aqueles que ponham em causa as leis estabelecidas) acabou por revelar toda a sua experiência e tentou explicar, em vão, a existência de uma terceira dimensão. Acabou sendo preso e condenado a prisão perpétua, símbolo de todo aquele que não se resigna perante a incompreensão geral e não tem medo de declarar a verdade que sabe possuir e que é útil para os outros, ainda que isso o torne incómodo ou sujeito a provações. Não se deixa de perceber um ou outro elemento platónico no que à procura da organização mais perfeita diz respeito, fazendo das leis da harmonia do conjunto mais importantes do que os interesses pessoais e uma analogia à alegoria da caverna que seria o mundo a duas dimensões.

A questão que nos resta colocar é se serão outras dimensões aquilo que nos espera vivenciar em planos mais elevados de consciência? Se sim, quantos mistérios não seriam resolvidos e quanta fé não seria transformada em conhecimento.

Daniel Oliveira
29 de Setembro de 2012

Este texto não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico

Não há plugins para instalar ou ativar. <a href=" %1$s"title="Voltar para o Painel">Voltar para o Painel</a>

Go to Top