Com Plutarco também aprendeu a dar uma forma «grega», ou seja, demonstrativa e racional, aos conhecimentos de Matemática e Geometria sagrada, além de utilizar exemplos claros, determinantes e que todos puderam entender como evidência ao ensinar estas matérias.

Um dia Plutarco perguntou-lhe, quase com violência:

Dá-me um exemplo rápido, que uma criança possa entender, de como na Geometria encontramos os elementos invariáveis, permanentes no meio da corrente da vida. Como Hipátia demorava alguns segundos, o próprio Plutarco deu a resposta:

Olha, os ângulos que os orifícios na cara humana formam são funcionalmente três triângulos isósceles. Os olhos e a boca, os ouvidos e a boca e os orifícios do nariz e a boca. Ligam o 7, ou seja, a Natureza ao 9, o Tempo, ou melhor, a Acção Consciente Nele. Também sabes que cada um destes orifícios está vinculado às influências estelares de um Planeta, mas tudo isto são doutrinas esotéricas.

Vamos ao evidente. Mesmo que alguém levasse uma máscara, não são estes triângulos os mesmos, maiores ou mais pequenos, mas os mesmos? Não é certo que teríamos dificuldade em reconhecer alguém que vimos em adolescente ou jovem, trinta ou quarenta anos depois ? E, no entanto, se sentimos a vida de cada triângulo, ou ao menos somos capazes de «vê-los», por mais que a pessoa envelheça, engorde, adelgace ou fique sem cabelo, estes triângulos estão ali, fixos e invariáveis, anunciando quem é a pessoa, como um selo perpétuo desde o berço à tumba.

Há que aprender a «ler», continuou, a geometria e a aritmética na vida para despertar assim, nos discípulos, um sentido de eternidade, quando ainda não têm asas para voar e viver, por si próprios, a vida destas Divinas Formas. É deste modo que a alma começa a recordar. Mas, um grande erro é querer encaixar à pressão a dinâmica da vida nas formas geométricas.

Encontramos, por exemplo, uma grande quantidade de flores com forma pentagonal ou de estrela de cinco pontas, mas se medissemos, comprovaremos que nunca é um pentágono exacto. O próprio desenvolvimento das flores segue uma espiral logarítmica áurea, de acordo com a sagrada sucessão de números que tu conheces e esta série, geometricamente, aproxima-se cada vez mais  dessa espiral, mas nunca chega a sê-lo perfeitamente.

Os números são mentais, dão o padrão mental de referência, a ideia oculta que está por trás da forma, mas não são distâncias. Permitem medir, mas não são medidas. Entre a dimensão mental pura e perfeita dos números e o fluxo sempre dinâmico da vida há um composto que é quem tece a natureza e as formas da vida. Platão tinha-o explicado muito bem no Timeu: o Mundo está feito de Um e do Outro.

Hipátia interrogava-se, «quem sabe se existirá um modo para que a matemática explique a versatilidade quase caótica da natureza, as formas das nuvens, as correntes de água ou de lava, o crescimento dos ramos das árvores ou a forma das veias por onde o sangue circula, as ondas do mar ou a forma das escarpas? Seria um modo de trabalhar com a mente na qual os números, os pontos, as linhas e os volumes, em séries interativas infinitas, estabeleceriam assim uma ponte entre a Mente (Número) e a Vida (Infinita, incapaz, portanto de ser medida na sua pureza absoluta).

Hipátia recordou, graças à explicação dos triângulos que Plutarco fez, aquilo que tinha aprendido no Egipto. Uma das formas de representar as Potências Divinas ou Neter eram os triângulos equiláteros, começando pelo Divino cujos lados são 3, 4 e 5, simbolizando, respectivamente, Ísis, Osíris e Hórus. O próprio Platão disse no Timeu que toda a geometria nasce dos triângulos rectangulares, de dois tipos:
O 3, 4 e 5, que repetido seis vezes origina o equilátero, e com este podemos construir os sólidos platónicos que representam o Fogo, o Ar e a Água.

“Entre a dimensão mental pura e perfeita dos números e o fluxo sempre dinâmico da vida há um composto que é quem tece a natureza e as formas da vida”

O de lados com valores 1,1 e raiz de 2, que é a metade de um quadrado, e que origina, portanto, o Hexaedro ou Cubo, símbolo da Terra.

Junto a Plutarco aprofundou também os seus estudos de astronomia e astrologia caldeia, aprendendo a divisão do Éter em 365 entidades ou potências, uma para cada dia do ano, e na Geografia Sagrada. Nesta disciplina aprendeu que as localizações dos santuários devem reunir condições telúricas, astronómicas e matemáticas muito estritas.

Os templos são como as estrelas no firmamento, mas na terra. Neles convergem correntes energéticas em forma de serpente que vêm do céu (estelares) e outras das profundidades (telúricas), além disso devem receber os raios do sol e da lua e de certas estrelas fixas em ângulos exactos em dias específicos, o que obriga a uma grande precisão em relação à latitude, no restante, as distâncias entre os santuários formam triângulos sagrados e outras figuras, e devem encontrar-se numa harmonia matemática e musical, de modo que as forças que irradiem sejam potenciadas e não anuladas.

Cada um no seu lugar atrai, em conjunto, determinadas influências estelares graças ao poder das formas geométricas, que funcionam como «sintonizadores», harmonizando assim o céu com a terra, a acção dos homens e a natureza com a dos Deuses.

Excerto de “Viagem Iniciática de Hipátia”, de José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole