Giordano Bruno e a física quântica

Autor

Nova Acrópole

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O professor universitário Franz Moser apresentou este artigo por ocasião da exposição itinerante realizada pela Nova Acrópole austríaca, sobre a vida e obra de Giordano Bruno, no quadro da abertura da Universidade de Graz, a 13 de Março de 1990. Agradecemos ao professor Moser ter-nos enviado o seu manuscrito para que o pudessemos publicar e assim facultar a um vasto público este texto no qual mostra como a concepção que Giordano Bruno tem do mundo, extraída da Tradição, e incompreensível até aos nossos dias, se torna clara à luz dos testemunhos da física do século XX.

Paradoxalmente, não foram os conflitos com a Igreja que tornaram Bruno interessante aos olhos dos seus admiradores – Spinoza, Leibniz, Goethe, Schelling e hoje nós próprios – mas sim a sua concepção do mundo. Bruno elaborou uma cosmologia e uma antropologia únicas, só comparáveis à sabedoria e às filosofias do Oriente. Por consequência, não nos surpreende que não tenha sido verdadeiramente compreendido até hoje.

PARALELISMO COM O SÉCULO XX

Porque é que as teorias de Giordano mantêm-se sempre tão actuais? Há duas razões principais:

  1. Vivemos numa época charneira que se assemelha à de Bruno. No fim do século XVI vivia-se o último período do Renascimento e a Contra-Reforma. Galileu (1564-1642) formulava as leis da gravidade (1602), descobria os satélites de Júpiter e dava a conhecer as teorias de Copérnico.

Foi, tal como hoje, uma época de transformação espiritual. O Renascimento permitiu ultrapassar a visão escolástica do mundo, a qual foi substituída pelas novas concepções mecanicistas de Galileu e de Newton, que hoje chegam ao seu termo.

Vivemos o desmembramento do mundo moderno mecanicista em todas as áreas da vida: científica, económica, política.

  1. As concepções de Giordano Bruno são mais actuais do que nunca. Pode-se mesmo dizer que viveu quatrocentos anos adiantado em relação à sua época. A ciência moderna e sobretudo a física quântica, confirmam as teorias de forma surpreendente. A minha intenção é demonstrar este facto.

Para isso, vou, partindo da noção de matéria, explicar o que são as duas substâncias de base e depois comparar as concepções de Bruno sobre o espaço e o tempo com a teoria quântica.

A COSMOGONIA DE BRUNO

A concepção que Bruno tinha era de uma modernidade espantosa, correspondendo bem à dos físicos quânticos, se a transcrevermos com a terminologia contemporânea. É evidente que isso implica abandonar totalmente a abordagem mecanicista, caduca, para se adoptar uma terminologia nova, a que não estamos habituados.

Actualmente, o nosso problema consiste, não em comparar a concepção do mundo de Giordano Bruno com a visão mecanicista de Galileu, Newton ou mesmo Einstein, mas com as teorias de Niels Bohr, Werner, Heisenberg ou David Bohm. Ora, estas últimas são para nós tão estranhas como a concepção de Bruno. Iremos neste artigo tentar relacioná-las entre si.

Comecemos pela noção de matéria em Bruno. É evidente que Bruno não dá a este termo o mesmo significado que nós. Ele fala de matéria “corpórea” e “incorpórea”, referindo-se nesses termos à Energia. Esta é uma formulação que não se usava na sua época.

Podemos assim admitir que Bruno considera todo o ser como uma forma de “matéria”, portanto de energia, segundo o sentido que hoje damos a esta palavra.

Em seguida, Bruno refere-se às duas substâncias básicas do ser: forma e matéria. Que quer ele dizer com isto?

Se nos detivermos com mais atenção na noção de “forma” em Bruno, constatamos que ela corresponde ao que hoje designaríamos pelo termo “informação” (informação). Ele distingue uma “causalidade de acção” e uma “causalidade de forma” (1). Esta causalidade ligada à forma transmite à matéria a sua consistência, o seu modelo ou informação, como diríamos hoje.

Nas ciências não há unanimidade quanto ao sentido do termo “informação”. Os informáticos pensam nos “bits”, os biólogos pensam no modelo e os físicos pensam numa “medida da quantidade de forma”. Poder-se-ia dizer que esta quantidade de informação diferencia-se segundo os diferentes planos do ser (mineral, vegetal, animal) enriquecendo-se à medida que sobe na escala. Todo o ser que se organiza nos diferentes planos de existência, através de um conteúdo diversificado de informação, retorna à Energia. Ordem e informação estão igualmente ligados, como é possível verificar no segundo princípio da termo-dinâmica.

TODO O SER É CONSCIÊNCIA

Encontramos, assim, em Bruno estas duas substâncias básicas do ser, energia e informação. Como chama ele o laço que as une? Bruno fala de alma ou de substância: “Matéria e forma dão a substância”.

Hoje dir-se-ia: “energia e informação dão a consciência”.

Bruno diria: todo o ser tem uma alma; e nos nossos dias: todo o ser é consciente.

Existe aqui um problema de linguagem. Na nossa época, entendemos normalmente, pelo termo consciência, a consciência humana. “Ele perdeu a consciência” significa “ele desmaiou”.

Mas os físicos deram à noção de consciência um sentido lato e inusitado. Perguntaram a David Bohm: “Uma pedra tem consciência”? e ele respondeu: “Sim, uma pedra tem uma consciência”. No entanto, não se trata de consciência humana, mas de uma consciência que responde à definição “energia e informação dão a consciência” ou, segundo a formulação de Bruno “matéria e forma dão substância ou alma”.

Podemos agora compreender Bruno quando fala de uma alma do mundo ou ainda quando diz que “a totalidade da substância retorna à Unidade”. Isso quer dizer que todo o ser regressa à energia/informação, o que hoje também se compreende e aceita.

Até aqui está tudo certo, mas, e a seguir ?

Ao ler a obra “Causa, Princípio e Unidade” de Giordano Bruno, à luz da teoria quântica e da “auto-organização”, ficamos desorientados: pensaríamos estar a ouvir – basta mudar a terminologia -, um físico do século XX.

NOVAS DIMENSÕES DA MATÉRIA

Pode ler-se: “Segundo a visão do Nolano, é a razão que dá às coisas a sua existência: a matéria (energia) de que cada coisa se compõe – a alma (consciência), enquanto princípio formal que constitui e dá forma a todas as coisas.”

Na realidade, tal como falamos de um princípio de matéria constante e eterna, torna-se absolutamente necessário que consideremos de igual modo um princípio de formalização do mesmo tipo. Vemos na natureza todas as formas da matéria (energia) desaparecerem e a ela voltarem. Em consequência disso, acontece que nada é imutável e eterno.

Por outro lado, as formas não têm nenhuma existência fora da matéria; é ela que as engendra e é a ela que voltam. Emergem do seu seio e a ele retornam. É por isso que a matéria deve ser reconhecida como o único princípio substancial, enquanto que todas as formas, no seu conjunto, apenas devem ser consideradas como definições diversas da matéria, que vão e vêm, que acabam e se renovam; e é por essa razão que não as podemos considerar como um princípio. Concluindo, as formas não passam de acidentes e de definições da matéria”.

Bruno distingue uma forma “acidental” e uma forma “substancial” da matéria. O que é que isso significa?

Para o compreender, é indispensável ter em consideração dois princípios da física quântica, a saber, o paradoxo EPR e o paradoxo do gato de Schrödinger.

O que é que se deduz do paradoxo EPR ( 2)?

O princípio da mecânica quântica, formulado em 1935, só em 1982 encontrou a sua explicação experimental definitiva e a sua confirmação por Alain Aspect da Universidade de Paris. Entrar em detalhes a este respeito levar-nos-ia demasiado longe (podemos encontrá-los no livro de Franz Moser).

O resultado deste paradoxo é o conceito de não-localidade.

Entende-se por localidade o carácter espacial da realidade, e por não-localidade, a não-espacialidade. Confirmou-se experimentalmente que há uma dimensão do ser na qual reina a não-localidade. Podemos dizer que existe uma dimensão do nosso ser na qual não há “espaço”.

Se não há espaço, e por conseguinte distância, não há tempo. Portanto, nesta dimensão, não há futuro nem passado, o que implica sincronicidade e simultaneidade. Esta dimensão é, pois, uma sincronicidade na não-localidade e, por isso, também uma a-causalidade.

Poderemos imaginar o mundo assim? Esta deveria ser uma dimensão metafísica. Teremos demonstrado, quem sabe pela primeira vez na história da humanidade, de modo experimental, a realidade de uma existência metafísica?

MUNDOS PARALELOS

Escreve a este propósito o filósofo Wolfang Stegmüller:

“Pela primeira vez na história das ciências, acontece que uma afirmação física e empiricamente verificável permite-nos estatuir sobre uma posição filosófica. Se o Realismo tem razão, a diferença de natureza existe; se a física quântica tem razão, não existe”.

As experiências dos físicos actuais e os métodos experimentais convergem no mesmo sentido, ou seja, que esta diferença de natureza não existe e que o Realismo está errado.

Se o Realismo não conta, é o Idealismo que impera, isto é, a existência de dimensões metafísicas. Por conseguinte, vivemos ao mesmo tempo em dois mundos, uma realidade e um mundo de consciência metafísica. Eis o resultado do paradoxo EPR.

Mas esta é também a posição através da qual podemos compreender melhor a concepção do mundo de Giordano Bruno.

A REALIDADE COMO FUNÇÃO DE PROBABILIDADE

O que se entende pelo paradoxo dos gatos de Schrödinger? A questão está em saber como nasce a nossa realidade. A física quântica demonstra-nos que este mundo é um mundo de probabilidades.

A equação de base pela qual os físicos descrevem a realidade, é a famosa função Phi de Schrödinger. É uma função de probabilidade que indica apenas a probabilidade do aparecimento das partículas de matéria, por exemplo, dos electrões, mas não a sua posição exacta.

É certo que a dita “redução”, ou a queda, desta função de probabilidade conduz a uma realidade concreta. A questão que se coloca prioritariamente hoje em dia é como se produz a redução da função Phi.

Actualmente há duas respostas:

  1. Não se sabe. É assim. É uma lei da natureza (segundo Kodennagen).
  1. A redução da função Phi é o produto de uma troca de informação de uma consciência para outra (segundo V. Neumann).

Se excluirmos a primeira explicação positivista que não nos satisfaz porque não nos traz nenhuma luz, só nos resta a segunda.

Mas esta última é sensacional, pois, mais uma vez, confirma o Idealismo. O mundo nasce, por outras palavras, é criado pela nossa consciência, qualquer que ela seja. Será que o mundo nasce das nossas representações mentais?

Qual é o grau de realidade da realidade?

  1. Maturana, biólogo chileno, um dos pais da teoria da auto-organização, diz: “Criamos o mundo no qual vivemos, vivendo-o”. Poderíamos acrescentar: “em função das nossas próprias representações”.

A milenar disputa: “Qual é o grau de realidade da realidade?”, ou “O que é a realidade?” parece ter chegado ao fim. Mas num sentido diferente do esperado pela maioria dos filósofos.

Voltemos a Bruno.

Quando se tenta compreender os escritos de Bruno a esta luz, conclui-se com espanto que ele já possuía estes conhecimentos. Só assim podemos compreender as suas palavras “obscuras”. Mas como é que elas podiam deixar de ser obscuras se ultrapassavam largamente a capacidade imaginativa do homem? Vivemos num mundo multidimensional de nove, ou doze dimensões, ou ainda mais. É esse o nosso problema!

Este problema é o mesmo de um cão incapaz de compreender as equações diferenciais. Estas fazem parte da realidade e, contudo, o cão vive muito bem sem elas. Não necessita delas nem as compreende. Vive na “sua realidade de cachorro” como nós num reducionismo positivista.

Assim, através das descobertas da mecânica quântica, a distinção estabelecida por Bruno entre formas substanciais e acidentais é bastante compreensível.

As formas substanciais são aquelas que hoje consideramos como funções de probabilidade (as funções Phi). São estados no mundo metafísico da consciência.

Através da interacção de diferentes consciências nascem as formas acidentais da matéria: a nossa realidade biológica.

Também podemos compreender Bruno quando diz “que a pluralidade não passa de acidente”, e mais adiante: “Assim compreende-se que tudo está em tudo, mas não integralmente em cada coisa, e de maneira diferente em cada nível”.

Vê-se assim como todas as coisas estão no universo, e o universo em todas as coisas, nós nele, ele em nós, tudo convergindo para uma unidade perfeita.

Pois esta Unidade é única, imutável e eterna. Sendo eterna, tudo o resto é orgulho, equivalente a nada.

Por conseguinte, este mundo, este ser, o verdadei-ro, o universal, o infinito, o incomensurável, está permanentemente presente em cada uma das suas partes”. (3)

POSSIBILIDADES DE VERIFICAÇÃO

Podemos perguntar: Como é que sabemos que a concepção do mundo de Giordano Bruno revela uma qualquer verdade, mesmo que ela coincida com os resultados da física quântica?

De onde extraiu Bruno as suas ideias?

Não poderemos supôr que as teorias e as descobertas da mecânica quântica estarão ultrapassadas daqui a alguns séculos?

Esta questão é fundamental e não é fácil responder a ela. A resposta exige uma visão global da evolução da humanidade, da evolução do homem desde os tempos pré-históricos, dos diferentes ensinamentos da Sabedoria e das suas aplicações nas religiões e filosofias do Oriente e do Ocidente.

A este respeito há uma grande confusão e inúmeras contradições que ao longo de milhares de anos têm dificultado esta visão global.

De onde é que nos vem o conhecimento da “verdade” da existência, na medida em que a podemos reconhecer?

Duas ideias nos parecem importantes:

  1. O conhecimento humano está submetido a um paradoxo. O homem vive num mundo (multidimensional) que não compreende perfeitamente. Contudo, ele deve incessantemente tentar compreendê-lo para sobreviver. Eis um paradoxo!
  1. O homem conhece a verdade do ser; por um lado através das ciências e por outro através dos ensinamentos da Sabedoria (Taoísmo, Hinduísmo, Budismo, Cristianismo e outros).

SÍNTESE ENTRE FÉ E CONHECIMENTO

O conhecimento científico pode evoluir: desde os Gregos, a nossa imagem do mundo não parou de se modificar. O conhecimento científico não é constante.

Além disso, existe a Philosophia Perennis, a filosofia eterna que nasce e se encontra em todas as sabedorias.

Daqui se pode deduzir que o conhecimento científico tem fortes probabilidades de indicar a verdade, quando, e apenas quando, está em conformidade com os princípios da Philosophia Perennis. É o caso da mecânica quântica.

Podemos supôr que nos encontramos perante uma síntese entre a fé e o conhecimento. A mecânica quântica e a Philosophia Perennis estão de acordo.

E como pôde Giordano Bruno conceber as suas teorias? Como já afirmámos, ele viveu quatrocentos anos avançado para a sua época. Onde é que os sábios vão buscar os seus conhecimentos, uma vez que é surpreendente o facto de todas as doutrinas convergirem nas suas ideias fundamentais? Existem desde há milénios afirmações sobre a realidade do ser que o homem não pode aceitar porque elas não correspondem à sua capacidade de representação. Quer isto dizer que não pode deixar de ser assim? Toda a história da ciência é a da concordância entre o realismo naïf – da confiança concedida aos sentidos – e a razão.

 

Franz Moser

 

 

 

 

 

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