Glosas e Comentários

Autor

Nova Acrópole

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Segundo nos dizem os conhecedores da linguagem, glosar é explicar textos obscuros, e comentar é explicar algo para que se entenda melhor. Não pretendo colocar luz na escuridão nem entendimento onde ele não existe, mas apenas referir aqui e ali algumas frases do professor Jorge Angel Livraga, para me deter nelas.

A Filosofia sempre se empenhou em clarificar o conhecimento, e os filósofos têm seguido esta sigla, à procura de mil maneiras para expor as ideias que trazem preocupação ao ser humano. O que um filósofo diz ou escreve só é obscuro e difícil para aqueles que são pouco preocupados; ou também pode acontecer que não seja filósofo – pelo menos no sentido clássico do termo – mas mero malabarista de palavras e conceitos.

Em todo o caso, a singeleza e a profundidade do pensamento de Jorge Angel Livraga, necessita de poucos comentários. Se os faço é apenas para desfrutar do exercício e transmitir, de alguma foram, o mesmo prazer que obtenho ao penetrar no mundo de um pensamento claro, preciso, contundente e edificante para a alma.

Um verdadeiro filósofo não é aquele que sabe de cor as definições de Kant, Plotino, São Tomás de Aquino ou qualquer outro. Não! O verdadeiro filósofo é o homem simples, o homem que pode interpretar a natureza, o homem que caso não possuísse livros, poderia continuar a ler e caso ficasse sem a natureza á sua volta, poderia continuar a sonhar.

A nossa cultura – pelo menos neste século que acabou – centrou a aprendizagem na repetição e na memorização mecânica, na acumulação de dados, na análise e crítica de todos os que vieram antes de nós, seja para os elogiar ou os denegrir, no inventário temporal dos autores e das suas doutrinas. Mas a nossa cultura esqueceu (em nome da memória?) a formação interna e duradoura do homem; negligenciou o desenvolvimento dos seus valores potenciais para enaltecer as suas debilidades, transformando-as em virtudes. A nossa cultura tornou pequeno o homem simples, aquele que é o menos simples dos seres. Eliminou a linguagem universal da Natureza que fala a todos os que sabem entendê-la e, consequentemente, apagou a memória da alma que não precisa de livros ou imagens par apoiar-se neles, uma vez que captou as essências.

Ser filósofo não é uma profissão no sentido comum da palavra; é um atributo que a natureza nos deu e que nos diferencia dos outros seres vivos; é uma procura interna e externa. É uma atitude militante da alma que trata de captar as essências das coisas… Tentando intuir os motores duradouros que movem a vida e a nossa própria acção.

«(…)Há apenas duas coisas que o homem pode fazer e os animais não: sorrir e rezar; quando se perdem estas duas faculdades, a do humor e a da religião, o homem bestializa-se.(…)»

 

Seria maravilhoso que deixássemos de pensar na filosofia como uma profissão, para considerá-la como uma atitude perante a vida, como uma incessante busca dos por quês, de motores ocultos mas evidentes. E uma busca que vá ainda mais alem, tentando encontrar as respostas que a vida oferece àqueles que entendem as suas leis .

Há apenas duas coisas que o homem pode fazer e os animais não: sorrir e rezar; quando se perdem estas duas faculdades, a do humor e a da religião, o homem bestializa-se.

O riso, o humor, são o ver o lado lúdico das coisas sem perder nele a qualidade nem a profundidade, são dons decididamente humanos. Chorar, sofrer, expressar a dor, fazem-no todos os seres vivos de uma forma ou de outra; mas colocar no rosto a luz de um sorriso genuíno, é um rasgo de elevação acima do efémero.

Também a religião universal da oração não requere nomes nem definições específicas aprovadas por quaisquer autoridades. É uma atitude íntima de contacto com o sagrado, é a percepção do infinito e da forma mais eficaz de se ligar com ele.

É a descoberta do outro aspecto da Realidade .

Tal como dizia Jorge Angel Livraga, “se aprendermos a despersonificar Deus e não lhe atribuir os nossos sentimentos – que mudam de século em século – daremos um passo para o entendimento. Deus não é grande, nem pequeno, nem velho, nem jovem, nem bom nem mau à maneira humana. Todos esses atributos foram inventados pelos homens”.

No dia em que a humanidade se encontre com o destino que se desenrolou nos últimos séculos, quando sobre os olhos dos seus futuros líderes chover todo esse sangue, o destino das antigas religiões em cujos templos hoje pastam os animais, parecer-lhes-á uma sorte invejável e gloriosa…

 

«(…)O importante não é não ter medo, mas evitar que o medo nos possua. O homem deve ser o dono até das suas fraquezas.(…)»

 

Entre os muitos esquecimentos que afetam a memória mecânica, destaca-se a união inabalável que existe entre causas e efeitos. Em cada momento da história são lançadas sementes que inexoravelmente darão frutos com os mesmos atributos. Hoje, quer seja por ignorância ou maldade sabiamente maquilhada, o semear de horror e violência, de crueldade e injustiça, prevalece sobre as boas intenções que ainda florescem em algumas pessoas.

O que se irá colher no futuro? É evidente: o resultado das nossas acções presentes. Talvez ainda estejamos a tempo de corrigir o rumo de tanta miséria com medidas certeiras e, acima de tudo, desinteressadas e altruístas. Talvez, então, os líderes do futuro possam construir em vez de chorar sobre as ruínas que já começam a proliferar, como manchas de óleo sobre a Terra.

O importante não é não ter medo, mas evitar que o medo nos possua. O homem deve ser o dono até das suas fraquezas.

É difícil evitar o medo; é uma emoção atávica que nos esmaga nas mais variadas ocasiões, especialmente quando nos deparamos com algo de novo e desconhecido, algo sobre o qual ainda não testamos as nossas forças. Sentir medo é normal, mas é preciso conhecer as raízes dos nossos medos para evitar a paralisia e continuar a agir, com o medo como companheiro, se necessário. O terrível está em tornar-se vítima passiva do medo, deixar-se arrebatar por medo a ponto de não mover um único grão de areia.

Conhecer as nossas fraquezas objetivamente é o primeiro passo para começar a vencê-las e dominá-las, substituindo-as por valores reais e efectivos.

A forma de envelhecer não é deixar que os anos passem; o envelhecimento é a auto- imolação dos sonhos, das esperanças, ainda que se seja jovem.

Quando terminará a triste crença de que os sonhos e as esperanças são coisas da juventude física? Será que as fontes do ser interior se terão inevitavelmente que esgotar perante a passagem dos anos, ou pelo contrário, tornar-se-ão mais abundantes?

 

«(…)O difícil é viver dia a dia, sem fugir covardemente perante as dificuldades, sem fechar os olhos perante a dureza da realidade, sem se afundar na indignidade bem decorada pela exibição de títulos e honrarias. O difícil é amar de verdade e trabalhar incansavelmente por um amor que muitas vezes não têm um alvo preciso, já que é nem mais nem menos do que toda a humanidade. O mais difícil é agir para todos e para ninguém sem pedir qualquer retribuição, sem estar ansioso de receber muito mais do que somos capazes de dar.(…)»

 

O facto de manter sempre acesa a chama da esperança, dos sonhos, dos objetivos a alcançar, das metas, que nos devolvem a energia todas as manhãs ao acordar é o que nos permite ser eternamente jovem. Confundir maturidade com a seca de esperança é uma maneira triste de saltar da juventude à velhice mais estéril, sem nunca ter passado pela verdadeira maturidade

A dor é um aviso; a dor alerta-nos em diferentes planos de consciência quando algo não anda bem. A dor é veículo de consciência, é aviso para retorno a um caminho previamente traçado.

Todos nós podemos aprender de tudo; curiosamente a felicidade adormece-nos na sua doçura e torna-nos lentos para colher experiências. Em vez disso, a dor com a sua ferida dilacerante, obriga-nos a reflectir. Se não nos deixarmos colher pelo sofrimento, daremos lugar à compreensão de quais são as leis ou os caminhos previamente traçados que abandonamos por inércia ou por ignorância.

Só o conhecimento da verdade torna livres os homens, e as várias seitas parecem competir na ignorância. É inútil mudar de jugo: o essencial é deixar de ser boi!

Estamos aqui perante dois difíceis e grandiosos conceitos: a Verdade e a Liberdade, dois faróis que nos atraem ainda que a nossa ignorância nos afaste daquilo mesmo que procuramos. No entanto, é essencial encontrar a Verdade, ou pelo menos uma parte da Verdade – para conquistar a Liberdade – ou pelo menos uma parte da Liberdade.

Onde está a verdade? Em todos os lugares… e em nenhum lugar . Não te martirizes com o que ignoras; cada passo no caminho vai fazer-te avançar mais um passo em direção ao horizonte.

O problema é que, longe da humildade e da paciência necessárias para ir passo a passo até à Verdade, a impaciência dirige-se para seitas de vários tipos (nem todas são religiosas) que impõem dogmas dos quais ninguém se pode afastar, a menos que se queira cair em descrédito de ir contra a corrente. Não é a ignorância que prevalece, mas a exploração deliberada da ignorância do povo e o desejo bem claro de não se permitir que ninguém se afaste das brumas da inexperiência. Nem tão pouco a mudança de colar nos fará mais sábios. As tendências actuais valorizam altamente a novidade; saltar de uma cor para outra, de uma aparência para outra, como se na mudança estivesse a verdade. Perdemos a visão esclarecedora, custa-nos muito discernir e escolher, para por fim permanecer nas verdades encontradas com o peso da própria experiência e dos seus próprios critérios, ainda que estes estejam garantidos pela sabedoria de todos os tempos.

Morrer é fácil… Mas viver, viver todos os dias tentando fazer um trabalho construtivo, é muito mais difícil do que morrer.

Apesar do medo que todos sentem perante a morte, expresso ou não, essa despedida da vida requere apenas um momento de coragem para dar um salto, e depois cada qual vai encontrar o que aprendeu ou o que sonhou.

O difícil é viver dia a dia, sem fugir covardemente perante as dificuldades, sem fechar os olhos perante a dureza da realidade, sem se afundar na indignidade bem decorada pela exibição de títulos e honrarias. O difícil é amar de verdade e trabalhar incansavelmente por um amor que muitas vezes não têm um alvo preciso, já que é nem mais nem menos do que toda a humanidade. O mais difícil é agir para todos e para ninguém sem pedir qualquer retribuição, sem estar ansioso de receber muito mais do que somos capazes de dar.

Os conceitos e as ideias também são de certa forma, seres que nascem, se reproduzem e morrem, para voltarem a manifestar-se em períodos futuros, assumindo novos veículos formais.

Estamos tão acostumados a entender a vida apenas através de nossos corpos que dificilmente a concebemos vibrando nas pedras, nas plantas, nos animais, nas estrelas, no infinito. É difícil ver a vida num conceito, numa ideia entretecida de conceitos; é doloroso para a nossa vaidade aceitar que as ideias que hoje ponderamos, amanhã deixarão de existir. E mais complexo ainda é lançar-se para o futuro , imaginando a forma em que as velhas ideias voltem a tomar vida através de novas formas. Em todo o caso, esse foi o milagre do Renascimento e durante séculos conseguiu iluminar milhares de homens e as suas expressões culturais.

Se nos apercebermos deste processo, daremos cada vez mais consistência ás melhores ideias , às permanentes , às que alimentarão humanidades próximas e longínquas para que adquiram o poder da eternidade, em todo o caso, para voltar a insuflar alento sempre que a humanidade precisar recuperar a sua vontade enfraquecida.

A arte não só deve ser uma expressão do homem num determinado estado de consciência, mas também deve ser a captação de um mistério cósmico e um mistério humano.

Juntamente com as inumeráveis definições que existem sobre Arte, bem pode encaixar-se esta que se dirige melhor à inspiração. O homem que consegue um ” certo estado de consciência ” é um homem inspirado, assumindo que chegou a uma área de visualização ampla e límpida, que vai muito além da estreita óptica cotidiana e rotineira

Mas melhor ainda, se essa expansão da consciência permite ao artista um contacto com os mistérios da natureza humana e de todo o universo. É possível que seja um contato breve e pontual, mas suficientemente poderoso para infundir um raio de esplendor em toda a verdadeira obra de arte.

Não é o desenvolvimento tecnológico que degrada o homem, já que a sua deterioração moral é-lhe anterior, e é o que o inclina fatalmente a procurar nos bens materiais e no poder económico a única fonte de felicidade.

A questão não reside em colocar frente a frente como inimigos o desenvolvimento técnico e o desenvolvimento espiritual, ou por outras palavras, a vida exterior e a vida interior, mas em encontrar um justo equilíbrio que provém de uma moral sólida, sem afetações absurdas.

 

«(…)Sem amor não há conhecimento possível, sem amor não há possibilidade de utilizar de forma correta o conhecimento(…)»

 

O equilíbrio moral é o fiel de uma balança de que ninguém pode escapar, porque todos nós temos que fazer algo no estritamente técnico e no estritamente humano. Inclinar a balança dando total prioridade a um dos extremos é fatal para a harmonia.

Na verdade estamos a sofrer os resultados dessa falta de harmonia; hoje a história é escrita em termos de bem-estar material, claramente necessário, mas prejudicial quando é a única coisa que se ambiciona.

Sem amor não há conhecimento possível, sem amor não há possibilidade de utilizar de forma correta o conhecimento.

Outro enorme e imensamente atraente enigma, o Amor, que nas palavras de Jorge Angel Livraga, é uma tremenda força que une as coisas e as mantém.

Assim, como vínculo realmente indissolúvel entre todas as coisas e seres, o Amor é indispensável para alcançar o conhecimento e para aplicar o conhecimento com retidão. É impossível Saber se não se amar o que conhecemos, se não se unirem harmoniosamente as ideias e os conceitos. E Saber é impossível, sem se ser justo e prudente na hora de levar à prática os conhecimentos.

Como chamaríamos aos que conhecendo o que os outros não conhecem utilizássemos a sua ciência para escravizar a vontade dos ignorantes, sem os deixar sair da escura caverna em que vivem?

O homem tem o tamanho daquilo que se atreve a fazer.

Sim, por isso há grandes criminosos e grandes filósofos. Essa é a questão do tamanho. E é também a questão do ideal que move o homem a fazer grandes coisas. Há quem passe a vida destruindo e destruindo-se, e quem, arautos da verdadeira grandeza, cumprem diligentemente com um trabalho pouco espetacular, mas mágico; manter o próprio fogo aceso para educar, para dar Conhecimento e Vida. Esses são os Mestres, que guiados pela filosofia, sabem trilhar um Caminho simples, pelo qual todos poderão fazer sem tropeçar os seus próprios passos.

 

Delia Steinberg Guzman

Directora Internacional da Nova Acrópole

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