Certo dia Hipátia e os seus discípulos conversavam sobre o que é a Jus­tiça no céu e a sua difícil aplicação no meio das correntes do mundo, ou seja, a Justiça de ouro e a de ferro. Ela tinha-lhes traduzido do hieroglífico um texto mistérico egípcio que fazia referência à Dupla Maat, ante cuja presença a alma do defunto tem que comparecer no Dia do Juízo. Maat é a Deusa da Ordem, da Verdade e da Justiça e essa con­dição de dupla refere-se, de certo modo, a esta Lei no mundo das cau­sas: governando as intenções, o motor oculto dos actos, por um lado, e aos factos do mundo objectivo, do outro lado do espelho da Vida. Os egíp­cios representavam-na como Duas Maat sobrepostas, ou como uma Maat com duas plumas (o seu símbolo por excelência) e, inclusive, nalgumas estátuas mágicas com a metade do corpo de ouro e a outra metade de ferro.

Hipátia disse-lhes que podemos pensar que a Lei é irradiada do Ser, do Logos; quer dizer, cada ser vivo tem, segundo a sua natureza, uma Lei que rege a sua existência e que determina o seu caminho a seguir. Nesse sentido, por exemplo, as Leis que governam o Sol e a sua Esfera de Vida – que abarca todos os planetas e muito mais além – são pró­prias deste Sol e não sabemos se as outras estrelas-sóis estão regidas pe­la mesma Lei. Mas sendo o Universo também um Ser Vivo, um Macróbios como dizia o filósofo neoplatónico Marcião, deve ter uma Lei ou umas Leis que fossem válidas em todo ele; e que depois se adap­ta­riam em cada um dos seres que vivem no seu seio, sejam nuvens de es­tre­las ou uma toupeira que se arrasta, cega, debaixo da terra. Esta Lei que governa de modo específico cada existência dizia-se, sim­bo­li­camente, que era filha de Ra, ou seja, do Sol, ou a Vontade encarnada de dito Ser. Mas este, por sua vez, está dentro de outro ser maior e as­sim até chegar ao próprio Universo cuja Lei-Una seria a encarnação des­ta mesma Vontade do Universo.

Mas, continuava a argumentar Hipátia, antes que o Universo en­car­ne no próprio Espaço, na sua máxima, pura e incondicional abstracção, co­mo forma de vida, como um gigantesco «Ovo de Ouro», deve existir uma Lei, prévia a toda a forma de vida, Eterna e imutável. Isto é o que a sabedoria egípcia chamava «a Lei antes de Atum», sendo este Deus Atum o coração oculto do Universo ou, como eles próprios expressam nos seus hieróglifos, o Não Ser que é o Ser de todas as coisas. Depois des­ta explicação, e embora fosse apenas parcial era necessária para que com­preendessem o texto que iria ler, começou a recitar com palavras e uma entoação que fazia vibrar as cordas mais íntimas da alma de cada um dos seus discípulos:

— Eu sou a Lei, Eu sou a execução e a lei executada, e o executador da lei. Sete ve­zes sete. Eu sou as Duas Senhoras [a Dupla Maat], eu sou uma nas duas e as duas em uma, ambas e a mesma. Não poderás conhecer-me pelo meu nome apenas porque sou invocada em ambas as direcções do espaço, eu termino quando começo. Sete vezes sete. Os Deuses concordam comigo, os homens temem-me e amam-me mas não me conhecem. Eu sou desconhecida para as regras dos homens. Eu não existo onde está o coração do homem, Eu não existo onde está a mente do homem, mas Eu sou Coração e Mente. Sete vezes sete. A mão direita feita de ouro puro, a mão esquerda feita de negro metal. Eu durmo sobre cada porta. O meu olho esquerdo é o de um pás­saro da noite. O meu olho direito é o de um gato. Eu sou a explicação ao que não pode ser explicado. Eu não posso dar nenhuma resposta porque não sou eu quem é questionada, Eu não sigo nenhum código porque Eu sou a Justiça e não o bem ou o mal. Eu não julgo mas Eu sou o juízo. Sete vezes sete. O meu nome não significa vin­gança, significa retribuição. A minha mão direita dá a vida e traz vida, a minha mão esquerda traz a morte e leva a vida. Nada me pode deter porque Eu dou nascimento a mim mesma sem rival. A minha Vontade vive no ser de Atum, o meu corpo protege a bondade de Atum. Atum é todo bondade e Eu sou Tudo. Sete vezes sete.

Um dos discípulos comentou:

— A expressão «sete vezes sete» é a mesma que Jesus usa nos Evangelhos quando lhe perguntam: «quantas vezes devemos perdoar?» e responde, precisamente, «sete vezes sete».

Ao que Hipátia respondeu:

— Isso quer dizer que devemos perdoar tantas vezes como a Justiça ou a Lei que rege o Universo executa a Lei: sete vezes sete, quer dizer sempre. Se alguém ao apanhar uma rosa o faz sem delicadeza e se fere é absurdo que diga à rosa «perdoo-te», pois o proteger-se com os seus es­pinhos faz parte da sua natureza. Se somos feridos por alguém, e que pen­samos injustamente, talvez devêssemos reflectir se não temos da­do, nem demos no passado – quiçá noutras existências – motivos suficientes à vida para que nos fira, usando uma ou outra pessoa como instrumento. De qualquer forma, como diz o hino, a Lei não é vingança mas sim uma retribuição, um regresso à harmonia, ao equilíbrio que foi per­tur­bado. Ser a encarnação da Lei, seus agentes, não é tarefa fácil. Tam­bém é certo que, sem ninguém que execute a lei, as sociedades hu­manas não se mantêm. Talvez por isso também se leia nos Evangelhos: «dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», ou seja, que Jesus estava a educar apenas a caminhar no Céu, criar uma Cidade Celeste no mundo interior subtil e nunca implantar um sistema de ordem no mundo.

 

José Carlos Fernandez

Director Nacional da Nova Acrópole

Excerto de “Viagem Iniciática de Hipátia”