Noutro dia eram os discípulos mais antigos que ouviam as palavras de Hipátia. O tema tratado era um dos ensinamentos secretos, conservados durante milénios no interior dos Templos e que saía à luz pela primeira vez nesse século conturbado. Hipátia explicara-lhes que nos momentos de crise e morte de uma civilização faz-se sempre um último esforço para convocar as almas despertas aos Mistérios da Sabedoria, revelando-se ensinamentos até então ocultos. Dizia-lhes insistentemente que a dureza dos tempos que estavam a viver era muito útil para as almas despertas e temperadas, e que eram nestes momentos que a compaixão da sabedoria entregava «armas mágicas» aos seus fiéis paladinos.

O que Hipátia decidira ensinar-lhes eram Mistérios da Alma da Natureza velados com símbolos e alegorias, numa série de imagens de enorme valor filosófico e até talismânico. Hoje, já vulgarizadas, chamaríamos Tarots, mas naqueles tempos eram uma roda de símbolos, associadas às «letras-número» com as quais o Demiurgo construiu esta mesma Natureza. Bem meditadas, portanto, permitem penetrar nos significados mais ocultos da vida e levantar uma ponta do Véu de Ísis. Usadas de um modo secreto que Hipátia não mostrou e aconselhou a não investigarem, salvo aos seus discípulos mais avançados, tornam possível penetrar na dimensão emocional desta Natureza, transformando-se estas imagens alegóricas nas suas portas secretas. Não é casualidade, tinha-lhes revelado Hipátia, que muitas das imagens dos sonhos (apenas daqueles simbólicos que sentimos que trazem uma mensagem velada) tenham relação directa ou indirecta com estas alegorias que são, dizia a Mestra, património da alma da humanidade e não de nenhuma cultura em particular. O primeiro comentário foi que nos Templos egípcios, tal como ela tinha aprendido em Philae, não se davam explicações sobre estes símbolos; cada um tinha que aprofundar os seus significados pelos seus próprios meios. «Observa e medita» era o que dizia o mestre ou o sacerdote encarregue da custódia destes símbolos sagrados. Também é certo que no Templo se cria um ambiente e um tempo interior que acelera as vivências da alma, enquanto no conúbio com as correntes e problemas do mundo é muito difícil encontrar o silêncio íntimo e a serenidade para desvelar sem ajuda a chave destas imagens sagradas. Assim ele ia empregar o método filosófico, racional e dialogado para ensinar-lhes estes «Selos sagrados»; mas eles deviam comprometer-se no esforço de, partindo da base destas ideias e reflexões, penetrarem ainda mais na sua sabedoria.

As imagens estavam no espaço interior deixado por uma corda ao ser atada de modo especial, o mesmo que usavam os egípcios para escrever no seu interior o nome de um faraó. Esta «corda» ou linha formava o hieróglifo Shen, «circundar», e designava o laço ou o sangue de Ísis, a Sabedoria. Também se interpretava como «Nome de Deus». Era, no fundo, um círculo mágico e o que se achava no seu interior era considerado, portanto,sagrado.

Desenrolou um papiro de quase um metro e meio de alto no qual estava desenhado a cores uma destas imagens, colocando-o na parede da sala em que se encontravam.

— O que é que vedes? — perguntou Hipátia.

— Uma roda que gira; uma esfinge — foram respondendo — uma lança; um deus Gato com asas e uma pequena chama sobre a sua cabeça; um monstro com cabeça de crocodilo, corpo de hipopótamo e asas de morcego, também com uma chama sobre a cabeça; duas serpentes como as que levam os faraós na sua fronte, entrelaçadas, sobre uma espécie de árvore geometrizada, com quatro divisões no seu tronco; uma flor aberta no centro da roda que gira.

— Bem — disse Hipátia retomando a palavra — o que esta imagem representa é a ascensão e queda de tudo o que existe, quer seja um indivíduo, uma sociedade, uma instituição, a Terra, nossa morada ou o Universo inteiro. Vedes como a Esfinge, que representa a Lei da alma da Natureza, pica alternadamente com a lança o Deus Gato e o crocodilo-hipopótamo, ou seja, o Deus Tifón, fazendo com que subam e desçam na Roda. Esta Roda é a da Vida. O Deus Gato que sobe é Mau, as forças luminosas e criadoras, o Bem, a abertura ao espiritual. Tifón é o vento destruidor da matéria e o caos, aquele que cega, o Mal.

Esta alegoria explica como a Lei – que é quem verdadeiramente marca o ritmo do que vive – faz com que na Roda da Vida se alternem a luz e a obscuridade, o Dia e a Noite, o predomínio dos valores da alma e os da matéria. No meio dessa alternância, dessa alegria e sofrimentos, aparentemente intermináveis, cresce a Árvore da Vida, lentamente, e nela as almas caminham para a realização do seu destino final, que não tem que ver com o giro da roda da existência mas sim com o desenvolvimento do Ser interior, o crescimento da alma; do mesmo modo que uma árvore cresce no Inverno e no Verão, de dia e de noite, com frio ou calor, ainda que segundo cada estação possa crescer com maior ou menor dificuldade. Junto a esta árvore crescem as serpentes dos poderes internos: uma delas representa a sabedoria e a outra o poder.

Este emblema místico — continuou Hipátia — é-nos muito útil para compreender a sociedade e a situação humana que estamos a viver. O Império Romano está – juntamente com tudo aquilo que resguardou, por exemplo a civilização grega e a egípcia – em franca decomposição; avizinham-se tempos de obscuridade e frio moral, mas a alma humana, se aproveitar bem as oportunidades, não deixa de crescer. Cresce mais ou menos, mas continua crescendo. Esta imagem alegórica também nos permite entender que não há que odiar e procurar culpados entre as sombras.

É evidente que o fanatismo religioso, a ausência de ordem moral, o desenfreio, etc…, são causas e todos recordamos a avalanche humana de fanáticos enfurecidos quando destruíram o Templo de Serápis. Mas estas sombras não são mais que causas e factores desencadeantes, a causa real é o nosso egoísmo, nossa ignorância, e é a Lei que faz girar a Roda, na verdade, para libertar-nos deste egoísmo e ignorância através da dor, abrindo a porta às sombras até que seja o momento outra vez da vitória da Luz, devido à graça divina sim, claro, sempre… e aos nossos próprios esforços.

A pequena chama que aparece sobre a cabeça tanto de Mau, o gato solar, como de Tifón, indicam que ambos são deuses. Quer dizer que tanto as potências criadoras como as destruidoras são deuses, forças inteligentes que cumprem um desígnio divino… e contra estes Decretos de Deus não se pode lutar. O que sim podemos — concluiu — é trabalhar para que a natureza solar, luminosa, o Bem se eleve outra vez na Roda da Vida… isto é, ainda que esta alternância de Luz e Trevas seja perene, não deixar de lutar, alienados nos exércitos do Céu.

Não devemos nem podemos impedir que os ventos do Norte, ou o poder desbocado de um tufão, arrastem uma árvore já morta e apodrecida; mas sim guardar, proteger, dar o calor da nossa alma e a água da nossa vida interior às sementes de uma nova árvore, a árvore de uma nova civilização, e é no coração humano onde se guardam estas sementes. Não temer nem odiar as trevas nem os seus sequazes, mas vencê-las acendendo uma luz. Não é à bastonada que se afastam as sombras mas sim abrindo caminho à luz.

Assim continuaram a debater sobre as ideias sugeridas por essa imagem alegórica, tão fértil em significados, durante meia hora e depois Hipátia substituiu este emblema por outro. Esta nova imagem do «Tarot» mostrava outra representação de Tifón, também com corpo de hipopótamo, asas de morcego, cabeça de crocodilo, braços humanos e mãos de homem e uma chama na cabeça indicando a sua condição divina. Caminhava sobre ruínas entre as quais dois homens com cabeça de carneiro avançavam, sigilosamente, acorrentados e realizando com as mãos um sinal de bênção solar. Estas duas figuras antropomorfas com cabeça de carneiro tinham também uma chama divina sobre as suas cabeças.

— Observai — disse-lhes Hipátia. — De certo modo esta imagem alegórica é a continuação da anterior. Representa um mundo em ruínas, governado pelos poderes do caos e pela luz espiritual invertida, reflectida nas correntes do mundo. Por isso leva um báculo cerimonial com o símbolo da circunferência sem princípio nem fim, isto é, a luz da eternidade mas projectada sobre um ângulo cujo vértice está virado para baixo e duas linhas horizontais. As figuras humanas com cabeças de carneiro representam as almas que transitam este ciclo obscuro. Têm cabeça de carneiro porque vão abrindo as trevas, são raios de luz, ou melhor raios do Espírito Universal.

O carneiro é um símbolo astrológico da luz da Primavera, a que desperta a Natureza do deus sono invernal, e também do Deus egípcio Amon, o vento espiritual que tudo anima. São também pequenos Deuses pois cada alma humana é, na sua mais pura essência, um Deus ainda que acorrentado no mundo. Estão unidas não como castigo mas para que não se percam, para que a sua força e resistência num mundo adverso seja maior.

Definitivamente todos nós somos, de certo modo, como essa figuras humanas com cabeça de carneiro, caminhamos unidos nas trevas deste mundo, queremos renová-lo e fazer com que das ruínas de um passado já morto possa ser construído um novo futuro, como se fosse a ave Fénix que ressurge das suas cinzas. Esta é, claro, uma interpretação psicológica e social; mas podeis encontrar muitas outras, mais subtis. Por exemplo uma alquímica. A luz que chega das estrelas e do Sol, quando penetra neste nosso mundo, pode ficar prisioneira nele, os seus raios são como uma chuva do céu que tudo fertiliza, mas eles ficam acorrentados na matéria vegetal, ou na própria energia da matéria (quer dizer, o reino de Tifón), animando-a, começando um percurso que no final os libertará e seguirão a sua peregrinagem, de estrela em estrela, até à consumação final do universo.

 

 

Excerto do livro “Viagem Iniciática de Hipátia”, de José Carlos Fernández

Director Nacional da Nova Acrópole

 

 

 

 

 

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