Hipátia e a Geometria da Luz

Dois dias depois Hipátia encontrava-se, em pé, frente a uma assistência numerosa que se tinha congregado numa das salas da Biblioteca; tinham-lhe proporcionado um grande quadro para fazer desenhos, com uns pincéis especiais para acompanhar as suas explicações. Médicos, sacerdotes e estudantes do Templo esperavam impacientes o discurso da jovem filósofa e maravilhavam-se pela graça, beleza e dignidade do seu porte… e também pela serenidade e perfeito domínio de si que manifestava perante tão grande audiência. Dos seus olhos parecia irradiar uma luz bondosa que estendia, como se fosse o mágico som da Lira de Orfeu, não só uma sensação de calma, mas também a sensação de que se tinha entrado num recinto onde o tempo e as preocupações já careciam de importância; como num banquete místico, como num bosque sagrado agitado suavemente por um vento de Eternidade.

— Agradeço a oportunidade que o vosso Sumo-Sacerdote, Olímpio, me deu — disse Hipátia dirigindo-se aos assistentes — para que juntos possamos nos interrogar sobre a Luz e examinar as sábias respostas que nos deram os filósofos do passado, bem como alguns ensinamentos que formam o maravilhoso legado das Escolas de Mistérios. Escolhi o tema da Geometria da Luz porque uma das exigências do nosso Deus Serápis é que sejamos luminosos nos nossos pensamentos, nas nossas intenções e nos nossos actos. A nossa mente é como um cristal, como um diamante que está a ser purificado, lavado do barro das sensações e da agitação febril das opiniões do mundo, para abrir passagem à luz, que é a nossa natureza interna. Sermos luminosos nos nossos actos é sermos eficazes, e que essa eficácia expresse a força luminosa da nossa vontade.

— Pois bem — continuou Hipátia — é-nos ensinado que tudo é luz e que tudo é número, que a luz é o caminho da Vontade de Deus, com ela se expressa no mundo e que a forma em que se expressa é a geometria, logo número. De um modo resumido e talvez demasiado vulgar, podemos afirmar que os números «cortam» a luz, que é a substância primordial vivificada pelo Espírito, e obrigam-na a assumir certas formas, a corporizar-se ou estratificar-se segundo um plano desenhado pela Inteligência Divina e seguindo uma lei cujos limites não pode transpor. Existe, portanto, uma Geometria da Luz, que no seu sentido mais amplo, é a plenitude de formas maravilhosas que a Natureza assume, pois repito, tudo é luz e esta encontra-se regida por números e formas. Tudo é luz, mesmo os nossos corpos e tudo aquilo que podemos agarrar com as nossas mãos é pura luz, quase detida, encarcerada na prisão da matéria, mas alguns de vocês já terão executado certos exercícios de imobilização da consciência e terão percebido como, efectivamente, os nossos corpos e tudo o que nos rodeia é pura energia, pura luz, e o que os nossos olhos físicos vêem é a sombra dessa luz.

Hipátia continuou a exposição:

— Todo o universo é um mar sem margens de luz e nele as estrelas, como o nosso sol, vogam incansáveis, e desta luz extraem a sua vida e obrigam-na a transmutar-se em diferentes tipos de energia nas suas matrizes, inclusive em elementos de uma matéria que depois se solidifica em Terra, Água, Ar e Fogo. Com este último elemento, de novo a luz é libertada da prisão da matéria e pode, embora nem sempre, voltar a viajar no seio puro do espaço a uma velocidade quase infinita. A essência da Luz, ou seja, a luz sem forma, que é a base de toda a existência, é imóvel, homogénea, elástica e plástica. Imóvel pois, para onde se vai mover se tudo é, na sua última essência, luz infinita? Homogénea pois a sua essência não pode ser condicionada por nada e as suas qualidades, ou melhor, a sua não-qualidade está presente do mesmo modo em toda ela. Elástica porque se expande e se contrai, sendo o ritmo desta expansão e contracção o ritmo da vida. A Vontade de Deus, no início do Universo, manifestou-se num átomo de Luz e a expansão desse átomo de Luz é o Universo inteiro. Por último, é plástica porque assume a infinidade de formas que a natureza apresenta.

— A Luz é a Virgem do Espaço. Pura, pois nada a pode contaminar. Mãe, porque é a rainha de toda a vida. Por isso um dos significados da Deusa Ísis é a Luz, com ou sem atributos, a Esposa Divina de Serápis, que aqui é a Vontade que assinala o destino de tudo quanto vive. A luz reflectida no espelho de ilusão do mundo tem certas propriedades que podemos estudar. É rapidíssima, embora a sua velocidade não seja infinita e dependa do meio em que viaja. Por exemplo desde a Lua até à nossa morada e mãe, a Terra, demora o tempo de uma piscadela, mas desde as estrelas demora anos; e desde certos pontos de luz na noite, que na realidade são como nuvens de uma infinidade de estrelas, chega a demorar milhares e mesmo milhões de anos. Isto significa que se a nossa consciência ou pensamento pudesse viajar ou projectar-se sobre esta luz, veríamos como tinha sido o mundo há milhões de anos… embora creia que o melhor é não pensar nisso. A Luz no espelho do mundo está formada de partículas de energia infinitesimais que se movem em trajectórias rectilíneas, perfeitamente elásticas, que ricocheteiam nas superfícies dos corpos mas também penetram neles: a cor negra absorve a luz visível e o branco, por exemplo, reflecte-a. Em cada meio estas partículas têm uma velocidade e isto faz com que o rumo dos raios visuais varie.

Afirmou isto enquanto introduzia um dos pincéis num recipiente de vidro com água e todos viram como efectivamente, este parecia que se quebrava.

— Devem meditar bem nesta experiência — aconselhou Hipátia — pois a nossa consciência também é luz, só que infinitamente mais subtil; mas também ela se move, digamos, a uma velocidade mais lenta quando está encarnada no corpo e mais rápida fora dele, por isso a morte e o nascimento aparecem como um ponto de ruptura. Mas essa é uma ilusão óptica da nossa consciência, escravizada por identificar-se com as superfícies em que se reflecte, em vez de se abrir para a sua própria natureza e ser fiel à fonte de onde procede. Se a nossa consciência não se identificasse com o corpo nem com as emoções ou pensamentos com que se veste, atravessaria a vida e a morte como um raio de luz no espaço, sem nada que a aprisionasse. A nossa mente, em vez de contemplar a vida e as coisas como são, enquadra-as, comparando-as e dando-lhes valores que marcam relações; deste modo a mente transforma e modifica a verdade que a ela chega. Pensem em como se vê a lua quando sai no horizonte e como no alto do céu, sem nuvens, poderíamos jurar que o seu tamanho é o dobro do que no primeiro caso; no entanto, se estenderem o braço e a mão e medirem o ângulo, usando, por exemplo, o polegar, vão ver que o seu tamanho aparente é o mesmo: o facto de ser maior perto do horizonte é uma ilusão, mas não óptica, é uma ilusão psicológica, criada pela mente. Esta velocidade diferente da luz, segundo o meio em que se move, e o facto destas partículas não serem iguais e que cada uma delas é, digamos assim, de uma cor – sendo a ilusão da soma de todas elas a cor branca da luz – faz com que se a obrigamos a atravessar um prisma de cristal, umas partículas se desviem mais e outras menos, assim…

Hipátia fez com que um raio de luz, que entrava na sala, atravessasse um prisma de forma a que as sete cores do arco-íris se projectassem na parede.

— Cada um destes raios tem um poder calorífico e de acção química diferente; e cada um é, além disso, um símbolo vivo de cada um dos Sete Grandes Deuses Regentes, cujos corpos são os planetas que vemos na noite — disse Hipátia retomando o fio da sua exposição. Esta escala das sete cores repete-se desde o infinitamente grande até ao infinitamente pequeno. Se despertamos os sentidos subtis, como muitos de vocês já fizeram, vemos que existem outras cores, indescritíveis, que rodeiam o vosso corpo como uma aura de luz e que respondem aos vossos pensamentos e estados de ânimo. Além disso, cada criatura na natureza tem a capacidade de ver uma gama de cores própria e percebe-a de um modo distinto aos homens, por exemplo, os cães não distinguem as cores como nós fazemos, nem os gatos mas, no entanto,

às vezes perseguem «algo» que nos é invisível, geralmente um pequeno génio da natureza, que alguns de vocês podem ver. Ou seja, as cores que os nossos olhos físicos vêem projectados na parede são sete, mas há mais, uma infinidade deles, o que faz com que o universo seja, precisamente, um oceano de luz, da qual os nossos olhos físicos vêem somente uma parte infinitesimal. Para alguns deles, por exemplo, este prisma não existe, atravessam-no sem deixar nele uma pegada, nem se reflectirem nas suas faces; alguns são tão subtis que atravessam os nossos corpos, ou mesmo a Terra inteira sem chocar contra nada. A Terra inteira é permeável à sua penetração aguda, embora estes raios tão penetrantes não cheguem do Sol mas dos confins do espaço, como uma chuva de energia, ou como as ondulações de um Fogo Cósmico. Existem raios que são, no entanto, facilmente aprisionados, que são os de menor energia; estas partículas ou minúsculos seres de luz estão a evoluir ainda e têm que aprender a tornar-se mais subtis, senão estão condenados a converter-se em calor.

— Há, portanto, uma Geometria da Luz — continuou — a luz reflecte-se sempre seguindo a trajectória de uma bola quando atinge o solo, mas penetra nos meios variando o seu ângulo mais ou menos segundo o meio e segundo a natureza deste raio de luz. Toda a Geometria da Luz está baseada na propagação em linha recta dos seus raios. Mas esta não é exactamente assim. Os filósofos indianos, e também os sábios egípcios nos Templos, dizem que o movimento da luz é como o das serpentes, ondulado; e é assim como representam os raios de luz, como serpentes. Para nós o seu movimento é sempre em linha recta, variando o ângulo ao mudar de meio, como por exemplo, do ar para a água. Mas em distâncias enormes do espaço, os raios de luz são atraídos pelo turbilhão energético e de matéria das estrelas, que são como Sóis, embora a sua velocidade seja tão grande que raras vezes se precipitam nestes sóis ou turbilhões de matéria, variando somente a direcção; isto faz com que o seu movimento seja como o das serpentes. Talvez os filósofos indianos também simbolizem os raios de luz como serpentes porque a luz tem, também, uma natureza ondulatória e o seu movimento é como o das ondas do mar, ou como o de uma corda que faço vibrar desta maneira.

E com ajuda de um discípulo do Templo, fez ondular uma corda para que todos retivessem na sua memória esta imagem. Depois desenhou a forma desta onda no quadro com pincéis e disse: — O que aconteceria se somássemos estas ondas desta maneira? Se as cristas são sobrepostas a luz aumenta de intensidade, produzindo o duplo luminoso; mas se forem dispostos desta maneira — e fez contrapor as partes altas da primeira onda com as baixas da segunda — produz escuridão. Ou seja, podemos conseguir que luz mais luz seja igual a escuridão. Pois bem, vamos examinar numa experiência como isto é assim.

E aproximou uma placa de metal com duas fendas paralelas muito próximas e outra mais afastada, fixou-a para que ficasse imóvel e todos puderam examinar, um a um, como se produziam, no ecrã, franjas intercaladas de escuridão e de luz, com mais intensidade do que se passasse pela fenda solitária.

— Isto acontece — disse Hipátia — porque cada uma das fendas converte-se num emissor de luz, ao reflectir aquela que lhe chega de fora. E os raios de luz, ondulantes, segundo se somem ou se anulem, formam tiras de luz ou de obscuridade; isto permitir-nos-ia, inclusive, fazendo cálculos, saber qual é o tamanho minúsculo dessa ondulação.

Murmúrios de assombro seguiam cada uma das experiências que Hipátia realizava para acompanhar os seus ensinamentos.

— De todos os modos a ondulação é tão minúscula, aqui — prosseguiu — ou tão grande, no espaço atraído pelos sóis, que nós podemos prescindir dela na hora de estudar o comportamento geométrico da luz. É muito importante compreender que os raios que nos chegam das estrelas, da lua, do Sol ou dos planetas, são raios paralelos porque ao estar tão longe, o ângulo de divergência é praticamente nulo. O facto de serem paralelos faz com que quando caminhamos junto ao mar vemos como os raios do Sol e da Lua parecem seguir-nos, pois somos nós que nos movemos: eles iluminam paralelamente reflectindo-se no mar e produzem o efeito óptico de nos seguirem. Mas, no entanto, as estrelas ao contrário dos planetas, cintilam, porque os seus raios de luz atravessaram diferentes meios, uns raios sim e outros não, absorvidos por uma matéria ténue do espaço ou lentificados ou ainda aumentada a sua velocidade neste meio, pelo que os raios chegam até nós, de tão longe, em feixes mais ou menos densos, o que provoca o efeito de cintilar, que atrai com força não só o nosso olhar mas também a nossa alma. Existem certas figuras geométricas que têm propriedades ópticas porque nelas o raio incidente e o reflectido seguem certos padrões: reflectem-se em ângulos rectos – as elipses – ou convergem penetrando ou reflectindo-se em focos ou divergindo em anti-focos – as superfícies geradas por uma parábola – ou seja, as lentes. Isto permite-nos obrigar os raios de luz a realizar determinadas trajectórias, o que faz com que as figuras se invertam, diminuam de tamanho, aumentem, etc, etc. Este é o verdadeiro objectivo desta conferência: ver como podemos geometrizar com a luz, entendendo, por exemplo, como trabalham os grandes espelhos que existem situados no alto do Farol – desenhados por Arquimedes – que permitem incendiar as frotas de barcos inimigos à medida que se aproximam. Podemos, além disso, saber a distância a que o dito barco está, medindo o ângulo em que é visível desde o farol próximo. Como sabemos a distância, com esta e dois ângulos determinamos o triângulo e, portanto, sabemos em que ponto e a que distância está o referido barco inimigo. Regulando os espelhos, podemos fazer com que o raio de luz convirja precisamente a essa distância num foco, e dado o grande tamanho dos espelhos do Farol, pode incendiar a madeira em questão de segundos. Este é o efeito.

E com um espelho parabólico fez convergir os raios de luz que entravam por uma janela num ponto que em segundos fez arder um pedaço de papiro.

— O efeito contrário, o das lentes, onde o raio de luz atravessa o meio é este.

E com um vidro em forma de lente, fez convergir os raios de luz até queimar outra vez o papiro. Depois prosseguiu:

— Vamos agora estudar as leis geométricas que permitem trabalhar com estes raios de luz, amplificando a luz paralela que nos chega de longe, e podendo ver o que está longe como se estivesse perto; ou, pelo contrário, fazer com que os raios divergentes de um objecto pequeno possam ver-se maiores, como no exemplo da lente.

E durante mais de duas horas realizou diagramas geométricos explicando a natureza das cónicas e como projectam os raios de luz, de todas as maneiras possíveis. Cada uma das deduções era acompanhada do simbolismo que esta imagem da natureza tinha, que verdade moral podíamos extrair dela, e que intuição espiritual nos tentava, com esta imagem, desde o infinito, como se fosse uma estrela.

Terminou a exposição dizendo:

— E não esqueçam que, na realidade, a luz é a própria vida, palpitando de alegria, e que a mente são as lentes, coloridas ou não, com as quais podemos trabalhar os raios infinitos e divinos desta vida. O filósofo ao tratar de descobrir a verdade que subjaz a esta vida está realmente a geometrizá-la, fazendo com que os seus raios convirjam ou divirjam para estudar a sua natureza, ou para que a luz da sabedoria, extremamente subtil, possa projectar-se, convergindo, na câmara oculta do coração, incendiando-o de amor, transmutando a alma inteira numa chama que se eleva até Deus. Recordem, também, a importância das curvas que derivam do cone: o círculo, a espiral, a elipse, a parábola, a hipérbole e as superfícies que estas geram. Elas são a própria Alma da Natureza que geometriza a vida; elas designam o ritmo evolutivo da vida e dizem por onde e como a Natureza se torna cada vez mais permeável a Deus. Gostaria de ler, também, um texto mistérico egípcio que traduzi para o grego e para a nossa forma de pensar, no qual incorporei algumas notas e que explica, como nenhum outro, a natureza ínti­ma da Luz:

«A Luz é o primogénito e a emanação primeira do Supremo, e a Luz é a Vida. Ambos são electricidade – o princípio de vida, o Anima Mundi – que impregna o Universo, o vivificador eléctrico de todas as coisas. A Luz é o Grande Proteu mágico, e sob a vontade divina do Arquitecto (ou antes, dos Arquitectos, os “Construtores” chamados colectivamente Uno), as suas ondas diversas e omnipresentes deram nascimento a toda a forma assim como a todo o ser vivente. Do seu seio eléctrico cheio brotam a Matéria e o Espírito. Nas suas radiações jazem os princípios de toda a acção física e química, bem como de todos os fenómenos cósmicos e espirituais; ela vitaliza e desorganiza; ela dá a vida e produz a morte, e do seu Ponto Primordial surgiram, gradualmente, para a existência miríades de mundos, os corpos celestes, visíveis e invisíveis. Na radiação desta Primeira Mãe, uma em três, foi onde “Deus”, segundo Platão, “acendeu um Fogo que agora chamámos o Sol” e que não é a causa nem da luz nem do calor, mas somente o foco, ou se quisermos, a lente através da qual os Raios da Luz Primordial se materializam, se concentram sobre o nosso Sistema Solar, produzindo todas as correlações de forças». (1)

 

Excerto de “Viagem Iniciática de Hipátia”


Notas:

(1) H.P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, Volume II, Capítulo 11

Não há plugins para instalar ou ativar. <a href=" %1$s"title="Voltar para o Painel">Voltar para o Painel</a>

Go to Top