Hoje vi um caminho

Autor

Nova Acrópole

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Hoje vi um caminho…

Mentiria se dissesse que é a primeira vez que vejo um, nem sequer foi a primeira vez que vi este caminho de que falo hoje. Mas, na verdade, foi a primeira vez que o vi com estes olhos especiais que se podem traduzir em palavras e experiências.

Vi o caminho como uma linha sinuosa que se ar­rasta pela terra adaptando-se fielmente a todo o relevo, subindo e descendo, virando para um lado e para o outro, mas sempre rente a essa terra que lhe serve de apoio. Vi-o paciente e seguro, ele mesmo a transitar por outro caminho imponderável que é o tempo… contaram-me mil coisas deste caminho que serviu para suportar velhos iberos, valentes romanos, esforçados homens medievais e sonhadores renascentistas… e hoje, coberto com novo asfalto, liga-se a rápidas e modernas estradas, de homens também rápidos e modernos que dificilmente se detêm a contemplar um caminho…

No entanto valeria a pena deter-se e ver e escutar com sentidos subtis o ensinamento do velho caminho. Na sua fervente horizontalidade sugeriu-me a pergunta como contraparte: e onde estão os caminhos verticais, os que subindo da terra ao céu marcam as rotas da alma? Porque se o homem fosse apenas transeunte da Terra bastar-lhe-ia deslizar como uma serpe sobre os caminhos terrestres. Mas o homem caminha de pé: um extremo do seu corpo apoia-se na terra e daí ergue-se vertical apontando para cima. Não terá, então, caminhos essa alma que, sendo vertical, conseguiu verticalizar o corpo?

Certamente esses caminhos existem, mesmo que tão inadvertidos e desconhecidos para o mundo actual, que nos permitem sintetizá-los num só conceito, numa só palavra: CAMINHO. O caminho que me sugeriu o da terra que vi já não é de terra; tem a força ancestral do espírito que revolve e por isso levanta-se em tortuosos desfiladeiros que atravessam numerosos portos e encruzilhadas de evolução.

Não se vê mas sente-se; não se mede em quilómetros mas sim em tempo e aprendizagem. Deste caminho não existem mapas nem sinalizações que nos ajudem a percorrê-lo com certa segurança, mas é porque não aprendemos a linguagem desses novos sinais e mapas que, no entanto, poderíamos reconhecer. Em velhos sarcófagos egípcios, no próprio fundo do seu corpo de madeira, vêm-se complexos traçados de linhas que indicam o caminho do céu para aquele que já deixou a terra. Mas essas rotas nada dizem hoje ao profano, se bem que fossem a salvação para os entendidos.

Agora que tudo tende à comprovação científica e, em grande parte, à recuperação dos conhecimentos que os homens do passado já tiveram em muitos aspectos, deveríamos retomar a ciência do caminho. Não é uma nova ciência pois foi-me sugerida por um antigo caminho traçado na terra, por homens também muitos antigos. E já então havia uma intenção de duplo caminho, abaixo e acima pois, apesar do tempo percorrido, o caminho que vi fez brotar em mim a mais antiga pergunta de todos os tempos: de onde venho, quem sou, para onde vou?

Perguntei ao caminho… Sou um ser humano apanhado pela matéria que sulca o caminho horizontal. Sou uma alma imortal que vem desde o Infinito descendo por uma escala de tempo vertical para deter-se neste recanto da Vida a recolher experiências. Vou para o Infinito, novamente, pelo esforçado Caminho vertical que tomou a forma de uma espiral, juntando o horizontal ao vertical, o humano ao divino, o que é ao que deve ser.

 

Delia Steinberg Guzmán

Dir. Internacional da Nova Acrópole

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