O homem verdadeiro está mais além de nomes e formas, mais além de tempos e espaços e a única referência que temos dele é a consciência que projecta sobre o mundo, reconhecendo-o e estando intimamente unido a ele.

Difíceis são as sendas do homem. Difíceis porque não se apoiam em algo tangível. Existe um aforismo hermético que diz: “o verdadeiro Sol e a verdadeira Lua são tão invisíveis como o homem real”. O homem não é o corpo que habita, nem a sua maior ou menor vitalidade, nem sequer os diferentes estados emocionais que experimenta, umas vezes por gosto e outras por obrigação, nem sequer o tecido de quase infinitas formas e nomes dos nossos pensamentos, que formam um emaranhado caótico, um labirinto quase sem saída ou uma fortaleza de glorioso esplendor.

No entanto, os pitagóricos afirmavam a existência de um misterioso vínculo entre o difícil e o verdadeiro. Difícil é a verdadeira política, que ilumine e ordene com sua justiça os núcleos sociais. Difícil é a verdadeira mística que converta em estrela flamejante o coração do devoto e que alimente a multidão com um pão de bondade. Difícil é a verdadeira ciência que não se conforme em estudar os factos, organizando-os minuciosamente, mas que seja capaz de ler e entender as leis da natureza, fazendo do seu significado e vivência um caminho iluminado por um Sol de Verdade. E, também, difíceis são os caminhos da Arte que tentam expressar com jogos de luz, espaço (volumes e formas) e silêncio (onde os sons nascem e morrem tal como faz a espuma nas ondas do mar) o raio da eterna beleza, sempre viva e fecunda.

Mas assim, como não é fácil caminhar bem no invisível das ideias e das vivências, é certo que, em todos os momentos históricos, encontramos almas que abrem as suas asas de águia e elevando-se poderosamente traçam com o seu voo misteriosos caminhos, convidando-nos a percorrê-los. As suas palavras são tão belas tal como sublimes são as vivências das suas almas. Belas e fortes em significado, não estão aí para ser adoradas, nem a eles mesmos nem à sua mensagem; estão apenas para incitar a percorrer esses rumos invisíveis e intangíveis que, arrancando-nos da inércia e dos preconceitos levem-nos de retorno às fontes da verdadeira Vida.

Um deles, que passou, silenciosamente, através dos estertores do século XX é Jean Klein (1916 – 1998), musicólogo e médico que, iluminado pela sabedoria védica passou mais de 40 anos ensinando, com base em conversas sobre os Mistérios do Ser e sobre a beleza da vida que, fazendo vibrar as cordas mais íntimas da alma, faz nascer uma alegria sem causa e sem objecto, natural, simples e permanente como a própria vida.

Jean Klein nasce na Europa Central (pensasse que na Checoslováquia, apesar dele, raramente fazer, como o filósofo Plotino, referência ao lugar e data de nascimento), descendente de uma família de músicos. Estudante de violino, aos sete anos, converteu-se num musicólogo. Destacaram o seu carácter, desde adolescente, o amor pela liberdade e o intenso estudo das obras de escritores como Nietzsche, Dostoiévski e os ensinamentos espirituais de Sri Aurobindo, Gandhi, Krishnamurti, Lao Tse, Coomaraswami, Tagore, entre outros. Aos 17 anos, teve uma experiência espiritual que ele chamou «o meu próprio silêncio» ou «uma chispa de unidade ou auto-despertar»; uma vivência que começou a acompanhá-lo ao longo da sua vida.

Continuou a sua formação como doutor, até que, na década de 50, sentiu uma necessidade de ir à Índia. Apesar dele insistir que carecia de preconceitos sobre o que iria lá encontrar e que, por isso, não procurava um mestre encontrou o seu Guru num simples professor de sânscrito que o enfrentou cara a cara com a sua não-realidade. Este personagem era um mestre da Escola Vedanta Advaita e com ele aprendeu até atingir a iluminação, tendo sentido necessidade de educar no mundo ocidental, adaptando as suas vivências e aprendizagens em termos e metáforas que pudessem ser de algum modo acessíveis à mente analítica, tão nossa. Assim, nas suas obras, apenas vamos encontrar terminologia hindu (salvo as muito conhecidas de Maya, Ilusão e algumas outras), ou, pelo contrário, palavras muito simples. Existe na sua mensagem um ar da alma de Plotino, da profundidade de Sri Ram (um dos filósofos mais importantes do século XX, director internacional da Sociedade Teosófica de Adyar, 1953-1973), chispas de pensamento desconcertante, de Krishna­murti; e, claramente, percursor, de certo modo, do Poder de Agora de Eckhart Tolle, poder que deve ser procurado numa incessante vigilância interior, sem discurso mental.

Apesar de Jean Klein não ter escrito nenhum livro, os seus ensinamentos surgem, como diz, do silêncio e da situação; e, é difícil serem transferidos para fora deles numa linguagem escrita e quotidiana. Muitos dos seus diálogos filosóficos foram transcritos e podemos, facilmente, encontrá-los nos títulos, tais como:«Alegrias sem objecto», «Olhar Inocente», «A audição criativa», «A transmissão da Chama», «A simplicidade do ser», «Quem Sou Eu – a procura sagrada».

Neste último livro e no último capítulo, há um diálogo de grande beleza e, por vezes, inquietante, sobre a natureza da arte e a procura do seu ideal. A experiência intuitiva entrelaça-se com a indagação filosófica e a paixão de viver do artista: na conversa intervêm três personagens que são nomeadamente um filósofo, um que interroga e um artista. Não chegamos a saber se este diálogo teve lugar como tal ou é uma forma dinâmica de expor o pensamento de Jean Klein sobre a arte: tão pouco importa. Por momentos, enquanto lemos, perdemos a noção de que estamos no século XXI e parece-nos ouvir Plotino indagando sobre os caminhos do filósofo, do artista e do músico por detrás do seu ideal de beleza e verdade. Mas é evidente que Jean Klein não copia ninguém, o que diz é demasiado original e vivaz para ser, apenas, uma repetição ou uma composição de dois ou mais autores. Há sempre um perfume de autenticidade que capta as almas sedentas de Ideal, as almas abertas sem preconceitos aos ventos da Vida. Estes ensinamentos são fonte de águas límpidas para quem queira beber delas e entrar nas difíceis – mas sublimes – sendas da Estética Metafísica. Dialoguemos com aqueles que dialogaram sobre o significado da beleza.

E não esqueçamos as palavras que Jean Klein escreve no prólogo desta obra: «Só uma mente clara se atreve a entregar-se à sua Origem, aquilo que foi e sempre será».

A primeira questão que, todos os que meditam sobre a arte, colocam é: se a natureza é, como diziam os místicos medievais, um espelho de Deus, e se qualquer elemento ou matiz da natureza é um símbolo de uma qualidade do Pensamento Divino, o que acrescenta o artista a esta Natureza? A resposta de Jean Klein é clara: Todos os objectos, em última instância, são indicadores de verdade e beleza, mas existem objectos que, por excelência, devolvem-nos à verdade e à beleza. Estes são as obras de arte.

E a verdadeira arte liberta-nos do emaranhado do nosso egoísmo, da esterilidade dos nossos hábitos mentais repetitivos: O deleite das grandes obras de arte reside no facto de estas terem o poder de situar-nos face àquilo que somos, perante essa nudez e esse sentido lúdico do, simplesmente, ser livres de pensamento e de um excessivo sentido de nós mesmos.

A obra de arte, é a cristalização de um raio de beleza desse Reino de Inteligência em que tudo está em tudo, numa espécie de holograma. O homem quase se converte num Deus ao criar aquilo que é como a própria Natureza, uma imagem da unidade divina. Quando exploramos os detalhes de uma obra ponto por ponto, o sentido global permanece como fundo, e cada detalhe remete, espontaneamente, a ele. Deste modo, a atenção mantém-se expandida e nela os sentidos perdem a sua objectividade, e abrem-se (…) é o casamento, em gratidão, entre a admiração e a apreciação.

A verdadeira obra de arte é, em definitivo, uma oferenda de e para a Alma da Natureza. Os poetas, escultores, pintores, músicos, arquitectos oradores são os sacerdotes desta oferenda: A arte é um reflexo da harmonia do que nós somos em comum com todas as coisas e contém a globalidade em si mesma. A natureza é harmoniosa e o ser humano é parte da natureza.

Mas o que é essa harmonia: é simetria? É proporção? É equilíbrio? O Filósofo responde que é o todo, em que todas as coisas existem sem conflito. É o mesmo que beleza. A nossa verdadeira natureza e a verdadeira natureza da obra de arte são uma e a mesma coisa. A obra de arte é uma manifestação, um indício, desta unidade.

Na beleza pura já não há observador nem observado, é um retorno à unidade perdida: na totalidade não há sujeito nem objecto, assim como pode haver subjectividade ou objectividade? A beleza é única, mesmo que as suas expressões sejam muitas. Na beleza não há objecto, assim como pode haver um sujeito? É o mesmo êxtase em que se funde amante e amado.

Toda a obra de arte joga bem com a cor, o ritmo, o volume ou o som, mas não de qualquer forma, como diz este autor, a arte experimental é só, apenas, um jogo racional que expressa a mesma insatisfação de quem a cria e contempla. Nada tem a ver com a beleza. É um grito ou uma gargalhada irónica e angustiante que surge do vazio interior, da falta de unidade. Não de qualquer maneira, mas só quando o volume se concebe de forma a libertar o espaço, a cor libertando a luz e o som libertando o silêncio, pois as grandes obras de arte chamam-te , mediante distintas técnicas, à dimensão espacial intemporal e quando és devolvido à existência em luz, silêncio e espaço, estás na proximidade de ser, o que constitui o fundo de toda a manifestação que procede toda a existência.

A arte é uma chamada à nossa intuição, o relâmpago da beleza que ilumina o nosso mundo interior para o qual estamos quotidianamente cegos; «a arte deve fazer uma aparição súbita. Deve ser uma indicação. É, parcialmente, secreta e esse carácter é sagrado. O poder criativo das grandes obras de arte é a revelação do sagrado e essa é a nossa verdadeira natureza.

Dizíamos que a arte é uma oferenda e o artista um sacerdote da beleza, mas como nasce a necessidade de criar beleza na beleza?

Interrogador: Tem o artista um sentido da sagrada função do seu trabalho?

Artista: Oh, sim, mesmo que ele não lhe dê um nome. No artista há um sentimento original de plenitude que derrama em gratidão. Esta, por sua vez, deriva do desejo de oferecer ou compartilhar. O artista vive com o ardente desejo de compartilhar o sentimento original. O dito desejo é o fundo da sua vida. Esta oferenda procura expressão. Trata de fazer-se específico. Não é preciso ser um grande artista para sentir isso. É algo que pertence a todos os seres humanos. Mas, no artista, como efeito das suas aptidões há, em certo momento, uma condensação de energia. O desejo torna-se mais localizado. O artista luta para expressá-lo, para encontrar a representação apropriada, para torná-lo concreto na sua forma mais elevada. Esta concretização é a extinção do desejo, a consumação da oferenda. No momento em que se dá a representação há um relaxamento de energia.

A arte é uma chamada à nossa intuição, o relâmpago da beleza, ilumina o nosso mundo interior para o qual estamos quotidianamente cegos; «a arte deve fazer uma aparição súbita. Deve ser uma indicação. É, parcialmente, secreto e esse carácter é sagrado. O poder criativo das grandes obras de arte é a revelação do sagrado, essa é a nossa verdadeira natureza»

Bem, podemos dizer a respeito do artista como do Discípulo que quer fazer da sua vida uma obra de arte, uma oferenda, as palavras do Bhagavad Gita: «Assim como o sacrifício ao Eterno é símbolo do Eterno a que se oferece, assim se une a Mim aquele que em todas as suas acções pensa em Mim».

O artista fica maravilhado, tem um sentimento de realização e unidade com todas as coisas e, desta profunda gratidão, surge a necessidade de oferecer. É uma sagrada emoção, livre de todo o sentimento pessoal. A questão do sujeito não é mais do que um pretexto para expressar esta oferta no espaço e tempo.

O filósofo que faz música com a alma quando procura a sabedoria, o discípulo que se disciplina como uma oferenda ao Deus que vive dentro de si, o artista que se entrega à sua obra, à sua criação (poiesis) para depois a elevar como uma oferenda à fonte de toda a beleza; todos eles caminham no invisível, enobrecem a condição humana, recordam-nos que somos algo mais que sombras famintas, que sujos mendigos do prazer, que escravos dos nossos medos e desejos. Recordam-nos que é muito importante deixar pisadas que sirvam de referência aos que nos seguem, mas, mais importante, é não se deixar petrificar nessas pisadas, não ficar atado a um presente que já se converteu em passado, senão seguir caminho, aperfeiçoar, ainda mais, a obra, fazer novas oferendas cada vez mais luminosas.

Interrogador: Então, a obra em si não é importante para o artista?

Artista: O meio é só um canal para chegar à fonte criativa e a revelar. O que faz um grande artista é a sua capacidade de entregar a sua personalidade.

A obra expressa uma visão divina, é o seu símbolo, mas o artista sabe que não pode expressar a sua infinidade: as ideias não se enfatizam na arte, mas poderia dizer-se que a representação da harmonia, o que o artista entende por perfeição, é um ideal. Este ideal pode chamar-se «musa» mas não é uma aquisição cultural. Pertence ao sentimento ascético profundo. O ser capaz de representar este ideal depende da mestria artesanal. O artista sabe que nunca poderá exteriorizar, completamente, a sua visão, apenas pode aproximar-se dela. Isto pode criar sofrimento, mas não é a ideia de sofrimento, comummente, aceite.

Outro dos ensinamentos práticos deste diálogo sobre a arte é como estar frente à obra artística, qual deve ser a nossa atitude.

É importante dar-se conta da subtilidade do corpo, estar, suficientemente, sensível para saber quando a beleza se revela em nós e quando não. Toda a harmonia está em nós. Somos um microcosmo da harmonia universal, assim devemos ouvir o eco que há em nós. Quando ouvimos música ou vemos uma pintura ou nos encontramos num edifício devemos fixar em como este actua em nós, como reagimos na mente, no corpo e no sentimento.

É certo que cada época e cultura criam a sua própria arte, condicionada por um sistema de valores, por uma iconografia e sistemas de significados que lhe são próprios, mas, ainda assim, a verdadeira apreciação não está condicionada por ideias. Dado que todos somos feitos dos mesmos elementos fundamentais, as grandes obras de arte e natureza exercem uma atracção universal em qualquer século. A transformação alquímica que tem lugar quando o observador e observado se convertem em um, não está ligada ao tempo e lugar.

Há um modo de estar frente ao «feito artístico», o mesmo com que devemos contemplar a natureza. É um retorno ao puro e imaculado que vive no nosso interior. É necessário revelar essa forma de olhar, essa forma de ouvir e de viver em que o murmúrio da mente é deixado de lado, ou desaparece, sem mais, ao tornar-se transparente e forte como um diamante: deves explorar como faz uma criança abertamente. Isto só é possível quando o controlador, o ego, o propagador de visões está ausente. O ouvir não está fixado nos ouvidos, o olhar não está nos olhos nem o saborear na boca. De modo que, não ouças o som, deixa que ele te ouça. Não olhes essa flor, deixa que ela te olhe. No momento, em que estás receptivo, todos os sentidos se acentuam. Quando não há fixação numa faculdade sensorial é quando todas podem entrar em jogo. Um sentido não é senão um mero canal para o resto. O permitir a transposição de um sentido até à exaltação de todos é uma maneira de viver com os objectos.

Jean Klein diz-nos que não podemos «obrigar» uma obra de arte a dizer-nos o que já pensamos ou o que queremos ouvir, há que estar aberto, dar as boas vindas à mensagem da sua voz silenciosa, do seu gesto invisível. Como? Quando não há fixação, concentração ou direcção, os sentidos relaxam o seu modo de agarrar, o qual bloqueia a abertura espontânea de todo o corpo. O alerta sem foco convida o objecto a contar a sua história. A boa-vinda é atractiva e quando os objectos ficam livres da fixação dos sentidos vêem-se, espontaneamente, atraídos pela boa-vinda, como se fosse um íman. Em certo momento, há um movimento súbito e os resíduos da energia fixa, os resíduos das percepções, integram-se na consciência global, há uma reorquestração de energia.

Mas pode ser que o momento mais emotivo deste discurso seja quando Jean Klein diz-nos que o filósofo, o verdadeiro buscador da verdade e amante da sabedoria, pode converter em arte cada um dos gestos da sua vida, fazer da sobrevivência quotidiana uma magnífica arte de viver. Assim como o artista vive, constantemente, no seu meio, sabendo que este é a porta à fonte da criatividade, assim o buscador da verdade vive em todo o momento no meio da sua verdadeira natureza, a aberta boa-vinda. Quando vives como corpo, tudo aparece como corpo, quando vives como mente tudo aparece como mente, quando vives como artista tudo aparece em cor, som, espaço e forma, quando vives como um cientista tudo aparece como relação; quando vives na consciência tudo aparece como consciência.

Pois, no fundo, não há mais do que um Eros universal, que a todos lança os seus dados de fogo e amor, de necessidade de criar e abrir caminhos no invisível. O filósofo, o músico, o amante abrem a sua alma a estes dardos de fogo que nos imanam com tudo quanto alenta neste universo: rede mayávica e entretecida do Ser, véu em que percebemos a beleza de Deus.

Não é o desejo criativo o mais próximo que podemos alcançar para entender o Desejo Cósmico, do qual procede toda a criação? Será verdade que o processo da criação no artista é o mesmo que na criação do universo, com a diferença do desejo cósmico jamais chegar ao completo esgotamento porque a sua concretização é infinita? Este desejo permanece sem princípio nem fim: é o desejo arquetípico. A actividade de Deus, apenas, chega a descansar no conhecer como ser, onde a quietude encontra-se consigo mesma. A transparência do sábio permite ao ser encontrar-se consigo mesmo. O fogo extingue o fogo.

E termina este diálogo sobre a arte, com acordes finais semelhantes aos de uma sinfonia de Beethoven, essa nota exaltada, esse impulso da alma que quer arrastar-nos, novamente, ao manancial que verte as águas puras da vida interior.

A existência é a obra de arte em que tudo se une num festival de amor!

 

José Carlos Fernandez

Escritor e Investigador

Director Nacional da Nova Acrópole

In Revista Acropole nº 3

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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