A joalharia na Grécia, como em todas as antigas civilizações, esteve ligada à magia e ao conhecimento oculto das propriedades dos metais e das pedras preciosas. Isto é, não era – ou pelo menos não era unicamente – um ornamento e um elemento de poder e prestígio social. A maior parte destas jóias tinham um carácter alquímico e as que não tinham, possuíam sempre um conteúdo claramente simbólico, com formas copiadas da natureza ou lidas na geometria pura das ideias. O uso destas jóias co­mo braceletes, colares, pendentes, pulseiras, diademas ou coroas, estava relacionado com o conhecimento das energias psicossomáticas – que agora a Medicina moderna redescobre – e de como poderiam ser canalizadas por pedras e metais, que sempre foram trabalhados à luz ou influência de determinadas constelações.

Os metais trabalhados na joalharia foram o ouro, que evoca os raios do sol e tudo o que é nobre e luminoso; a prata, o espelho da lua, símbolo da natureza e Deusa-Mãe; o cobre, ligado sempre à Deusa do Amor – tanto que o próprio nome vem da palavra Cyprus, a ilha sagrada da Deusa Afrodite, o seu templo natural e onde se encontravam as minas mais importantes deste metal em todo o Mediterrâneo – e, ocasionalmente, o ferro. Os outros metais usavam-se em pequenas quantidades e para o fabrico de ligas e soldaduras. Um metal especialmente sagrado, usado primeiro no Egipto e que é criado pela natureza, ainda que, também possa ser elaborado pelo homem, é o electrum, uma liga de ouro e prata, segundo proporções diferentes de um ou outros, caso se pretenda obter umas ou outras características, como brilho, cor, etc; muito semelhante ao bronze.

Os gregos conheceram a magia e a utilidade das ligas metálicas que, entre outras propriedades ocultas, permitem modificar as características físicas dos metais ligados. Sabiam que o ouro em ligação com a prata ou o cobre era mais duro. Que também a prata se endurece com o cobre, com a qual geralmente o encontramos. As primeiras ligações do cobre foram com o arsénico e com o antimónio, mais tarde substituídos ao se descobrir o estanho, com o qual se gera o bronze. O chumbo outorga-lhe uma maior plasticidade e os romanos combinariam o cobre também com o zinco.

“o ouro, que evoca os raios do Sol, e tudo o que é nobre e luminoso; a prata, o espelho da lua, símbolo da natureza e Deusa-Mãe;o cobre, ligado sempre à Deusa do Amor”

Em relação às técnicas de fabrico que os gregos possuíam são, praticamente, as mesmas da nossa joalharia artesanal: Laminavam e repuxavam o ouro e a prata; talhavam com buris e punções; incrustavam uns metais nos outros; vertiam o metal fundido em moldes; trabalhavam com o sistema da cera perdida; faziam soldaduras eficazes e precisas; aumentavam e diminuíam, à vontade, o tamanho dos fios de metal, conseguindo obras primas em filigrana; granulavam – especialmente o ouro – com uma perfeição que surpreende qualquer joalheiro profissional; as suas micro-esculturas são simplesmente perfeitas e comovem pela sua beleza e, salvo excepções, não as faziam em cera, como nós as fazemos actualmente, mas directamente no metal ou nas pedras como a ágata, a sardónica e outras de grande dureza, incluído o quartzo; aplicavam banhos de prata e ouro – sem necessidade de electrólise – ou cobriam com precisão outros metais e madeiras com superfícies muito delgadas dos mesmos ouro e prata. Outras pedras que trabalharam foram a calcedónia, a cornalina, a ametista, o quartzo rosa, verde e fumado, o lápis-lazúli, as turquesas, a obsidiana, a turmalina, os granates, calcitas, cristalinas e o marfim. Recordemos a importância que também tinham, no Egipto, várias destas pedras, como o lápis-lazúli, que afirmavam ser a luz condensada de Nuth (o céu). Trabalhavam as policromias com esmaltes (misturas de pastas de vidro e pigmentos). Também nos comovem a beleza, a qualidade e o significado dos motivos e padrões que gravavam nas superfícies com punções especiais e nos arames com ferramentas confeccionadas para o efeito. Faziam, como nós actualmente, cadeias, entretecendo os fios de metal com a precisão e aparente facilidade de um bordado e finíssimas redes em ouro. E nisto não nos estamos a referir ao conhecimento que tinham das propriedades ocultas dos metais e a sua capacidade de vibrar e responder a determinados tipos de forças subtis; ou, por exemplo, à sua ciência alquímica que lhes permitia realizar proezas insuperáveis, como manter à pressão e a temperatura normais, ouro líquido no interior de um vidro. Aplicaram também, como em toda a sua arte, o conhecimento das proporções sagradas, das matemáticas que permitem vivificar e fazer vibrar com o seu significado as maravilhas que trabalhavam.

Os dourados aplicavam-se, geralmente, sobre um núcleo de prata ou de cobre; dissolviam o ouro com o mercúrio, resultando uma espécie de amál­gama fluida com a qual cobriam a superfície desejada.

Os gregos usaram, então, os mais apreciados e luminosos dos metais, o ouro e a prata, que evocam e cristalizam os raios do Sol e a Lua, para representar as mais apreciadas e luminosas das suas vivências e conhecimentos, e também, como fizeram os egípcios, a mais pura e viva das suas oferendas, a sua própria Alma.

 

José Carlos Fernandez

Director Nacional da Nova Acrópole