Ainda hoje metade da população pratica os cultos tradicionais, fundamentada, especialmente, no culto aos antepassados (razana). Enterra-se e eleva-se um túmulo aos defuntos; e cada sete anos aproximadamente – a contar desde a morte do falecido – celebra-se uma festa muito popular, a famidhana em que se exuma de novo o cadáver e substitui-se a sua já consumida vestimenta (lamba, realizada à mão) por uma nova. Este rito e festa congrega de novo a família e convidados e os malagasios acreditam que até não se tenha consumido totalmente a carne do defunto a sua alma não pode integrar-se no reino dos antepassados e só após serem realizadas as cerimónias apropriadas.

“(…)Nas suas lendas, o Céu e a Terra foram divididos entre o Deus criador Zanahari e seu filho Andrianerinerina herói criador da linhagem dos reis Merina, imbuídos assim de força mística, hasina.(…)”

 

Uma lenda narra como estes povos receberam o alimento dos Deuses. Um dia uma mãe saiu a trabalhar para o campo com a sua filha e esta sentiu uma grande atracção por um grilo, que a mãe solícita, capturou para ela. Ao finalizar o dia o grilo tinha desaparecido e a filha, desconsolada, adoeceu e morreu. Os gritos de desespero da mãe chegaram aos ouvidos do Deus criador (chamado Zanahari ou Andriamanitra nome último que significa na sua língua “Senhor Perfumado”) no Céu, que disse à desgraçada que enterrasse o corpo da sua filha no pântano. Ela esperançada assim o fez e do corpo morto da sua filha brotaram uns grãos de arroz.

Nas suas lendas, o Céu e a Terra foram divididos entre o Deus criador Zanahari e seu filho Andrianerinerina herói criador da linhagem dos reis Merina, imbuídos assim de força mística, hasina. Pois este fogo sagrado, ou santidade, deriva de Deus, mas vive nas montanhas em bosques, fontes e lagos e geralmente todos os lugares onde são sentidas as invisíveis presenças da Natureza, nos verdadeiros governantes e na vestimenta sagrada funerária, lamba.

Destaca-se também o poema épico transmitido oralmente durante séculos na ilha, o ciclo de Ibonia, no qual este herói, “o de claro e ardente olhar” deve reconquistar a sua amada imortal, a “dadora de alegria” com a qual teria de casar-se, encontrando-se esta na matriz da sua mãe (“Bela Riqueza”) ao ser gerada. “Dadora de Alegria” foi raptada pela “Dificuldade Pedra” e para a recupera-la tem de superar toda uma série de provas, a primeira vencer um duelo verbal a “Grande Eco” que ao ser derrotado lhe indica por onde segue o caminho e os perigos que vai encontrar. Inclui abandonar a sua mãe que lhe oferece outras mulheres e leva-o a combater contra animais e adversários humanos que vence.

Deve, entre outros trabalhos, assumir a vestimenta de “Homem Velho” para estar junto à “Dificuldade Pedra”, que finalmente lhe presenteia a donzela após vence-lo numa competição de valiha (uma espécie de tradicional cítara de tubo realizada em bambu) e de fanorona (jogo também tradicional de estratégia semelhante ao xadrez, ou melhor, ao go japonês).

Numa das suas lendas narram como o Pai do Céu teve cinco filhos, os príncipes do Norte, do Sul, do Este, do Oeste e o Centro, mas que cansou-se do último por não desejar ter um filho. Finalmente, após muitas vicissitudes, dificuldades e provas, a sua esposa vai conceber um filho que é como o fogo, pois é uma encarnação do fogo celeste. É o Ibonia antes referido, o herói-iniciado.

 

“(…) Uma lenda de Madagáscar, muito semelhante ao mito de Pigmalião, narra como no início Deus criou dois homens e uma mulher que viviam separados sem que nenhum soubesse da existência dos outros. (…)”

 

A mitologia malagasia também menciona, e em algumas comunidades inclusive rendem culto, a um tipo de pigmeus que dizem ainda viver nos bosques. São chamados Vazimba e chegam a ser identificados com os antepassados, pois de facto, dizem ser os primitivos habitantes da ilha. A rainha-mãe do rei fundador da dinastia Merina, que governou toda a ilha; ou seja, a mãe do rei Andriamanelo, a rainha Rafohy tinha sido Vazimba.

Uma lenda de Madagáscar, muito semelhante ao mito de Pigmalião, narra como no início Deus criou dois homens e uma mulher que viviam separados sem que nenhum soubesse da existência dos outros. O primeiro esculpiu a imagem de uma mulher na madeira, em tamanho natural, e ficou tão rendido que passava o tempo inteiro a falar com ela. Para vê-la, enquanto trabalhava, deixou-a ficar ao ar livre onde, por casualidade, o segundo homem ao passear encontrou-a e ficou admirado.

Ao vê-la nua cobriu-a de jóias e belas roupas. Depois, apareceu a mulher a chorar a sua solidão e, ao ver a imagem, pediu de joelhos ao Criador para dar vida à estátua para que servisse de companheira e amiga. Deus prometeu que assim o faria se passasse toda a noite abraçada à imagem e assim o fez, pois de manhã a estátua de madeira inanimada estava viva, tinha-se convertido numa bela e graciosa rapariga. Nisto apareceram os dois homens que a reclamaram como fruto do seu trabalho. A mulher negou entregar a sua nova amiga e Deus teve de intervir e ditou o seguinte: o primeiro homem era o pai, pois havia esculpido a imagem; a mulher era a mãe, pois tinha-lhe dado vida durante a noite; e o segundo homem convertia-se em marido pois tinha-a vestido e adornado com todo o seu amor. Deste modo, o primeiro homem casou com a mulher e o segundo com a rapariga, vindo destas parelhas todos os homens da Terra. O primeiro homem é, pois, o antepassado de todos os escultores e da acção do segundo surgiu a obrigação de que os homens devem vestir e dar jóias às suas respectivas mulheres.

Outro mito diz que Deus tinha uma filha chamada Terra e esta divertia-se a fazer pequenos homens de barro. Um dia Deus viu os bonecos e, interessado, soprou neles dando-lhes vida. Disse à sua filha Terra que os chamara velo, “os vivos”. Estes começaram a multiplicar-se e não morriam, com o que, em pouco tempo a Terra prosperou, pois eles trabalhavam nos campos produzindo boas colheitas. Passou o tempo e, uma vez, Deus desde o alto de uma montanha viu surpreendido, e quem sabe envejoso, toda a riqueza da Terra e ordenou à Terra que lhe desse metade dos seus homens. Ela disse que apesar de tudo o que existia pertencer a Deus, ela, como mãe, não podia separar-se deles, pois além disso contribuía para a sua própria riqueza.

Deus, cansado, disse que lhes retiraria o sopro de vida que lhes tinha dado e assim o fez, a Terra chorou, gritando “O lo Velo” que significa “os homens estão a morrer”. E foi desde esse momento que os homens começaram a morrer.

 

José Carlos Fernández

Director da Nova Acrópole em Portugal