“Se a princípio do século II, o filósofo Teón de Esmirna escreveu o livro “Matemáticas para entender Platão”, quase dois mil anos depois, desde esta mesma Nova Acrópole em Portugal, sentimos o seu mesmo entusiasmo, aprendemos das suas ideias e lançamos a nossa revista “Matemática para Filósofos” para os enamorados da beleza matemática, para os enamorados da Verdade.”

A Revista Matemática para Filósofos é inteiramente organizada por membros voluntários da Nova Acrópole Portugal.


Editorial: “Uma revista para promover ideias filosóficas através da Matemática”

Por José Carlos Fernández, Director da Nova Acrópole em Portugal

“Esta revista nasce com o interesse de dar ferramentas matemáticas aos filósofos. Entendemos por filósofos não só aqueles que tem a titulação académica ou os que gostam de ler Kant, Platão, Hegel, Confúcio ou qualquer dos gigantes do pensamento humano. Entendemos por “filósofos” aqueles que têm a tendência natural para perguntar-se pelo sentido intimo do que os rodeia e inclusive a si mesmos, os que dialogam na sua intimidade seguindo a luz de uma intuição, os que amam aprender, os que sonham ser flechas lançadas ao coração da sabedoria, para fundir-se, quem sabe, na eternidade com Ela no seu infinito que é a raiz de tudo que existe.

Não queremos que seja uma revista para eruditos, nem filósofos nem matemáticos só, mas que possam lê-la todos aqueles com a formação básica em números e geometria, pois o seu intuito é mais pedagógico do que de investigação. Poderíamos também tê-la chamado “Matemáticas para Poetas” pois é para aqueles que se enamoram dos números e das suas propriedades, que sentem a beleza do triangulo ou a dança silenciosa de uma cónica, que se estremecem diante do mistério de Pi (que move o universo inteiro com a sua transcendência) ou dos números primos (pois sentem-nos como estrelas de um firmamento mental); ou experimentam uma grande alegria interior estudando a Proporção Áurea (que governa a natureza e estabelece o vínculo desde o infinitamente grande ao infinitamente pequeno através da analogia ou de uma cadeia de semelhanças).

Os números são as cristalizações da mente, e deste modo, as portas tanto para a verdade como para a criação na matéria, e é evidente que todo o desenvolvimento humano até este, nosso século XXI, especialmente na tecnologia, não teria sido possível sem o crescimento exponencial das nossas ferramentas matemáticas. Mas não acreditamos que uma forma de fazer ou pensar matemática deixa a anterior obsoleta, e que por exemplo a geometria analítica torne
desnecessário a ler ou estudar a bela arquitetura de formas e raciocínios de Euclides. Pois estes ensinamentos e imagens não nos servem só para solucionar de forma exata um problema X, mas para aprender a pensar, para descobrir as analogias na Natureza e no profundo da alma. Pois como dizia Galileu, os números são o alfabeto com que Deus escreve em ambas.

As antigas civilizações expressavam os mistérios mais profundos com diagramas geométricos e operações numéricas, a única forma de simbolizar aquilo que está totalmente fora do alcance dos nossos sentidos e ainda quase da nossa imaginação. Que perfeição e claridade, que síntese tão cristalina, por exemplo, o ensinamento filosófico de Nilakantha Sri Ram (1889-1973) quando disse que a educação das crianças é uma elipse cujos focos são a escola e os pais! Milhares de palavras teriam explicado melhor isto, do que com esta bela e simples analogia geométrica? E assim com toda a infinidade de assuntos que a vida nos levanta, como equações que devemos solucionar. É casualidade que dois dos maiores filósofos e taumaturgos, como Proclo e John Dee tenham escrito vários volumes de comentários aos Elementos de Euclides? Ou que Platão disse que o universo é feito do idêntico e do diferente (isto é, do Um e do Outro, simbolizado pelo número 1 e 2, respetivamente)?

Nesta revista também desenvolvemos muitos dos tópicos da que hoje chamamos Matemática e Geometria Sagrada,
e a autores clássicos como Pitágoras, Platão, Plutarco, Boecio, Luca Pacioli, Cornelio Agripa… e desde logo a
sapiência de H.P.Blavatsky e o matemático e filósofo espanhol Roso de Luna; e também contemporâneos como Stephen Philips, com as suas profundas conexões entre a religião e a ciência usando o poder da Tetraktys pitagórica, Schwaller de Lubicz e os seus estudos de matemática egípcia, Matila Ghyka com o seu clássico Geometry of Art and Life e outras obras, aos filósofos e artistas portugueses Almada Negreiros e Lima de Freiras, entre outros.

Para Platão as Matemáticas não têm como finalidade dominar o mundo, submete-lo aos nossos desejos (por desgraça, o uso principal que lhe temos dado), mas abrir um caminho desde o mundo das sensações, caóticas, para a ordem inteligível, em direção ao reino luminoso em que vivem eternamente os Arquétipos. A escada que permitiria este acesso estava sintetizada nas vivências de Aritmética, Geometria, Ciência dos Volumes, Astronomia, Música e Dialética. Vários séculos depois incorporou-se a estas a Linguagem e o seu poder de transformação, e assim nasceu o Trivium (Gramática, Retórica e Dialética) e Quadrivium (Aritmética, Geometria, Astronomia e Música), as Sete Artes Liberais, cuja finalidade não era outra senão enobrecer a alma humana com as vivências do justo, do belo e do bom, ou seja afirmar a sua natureza filosófica, pois a matemática foi sempre para filósofos.

Se a princípio do século II, o filósofo Teón de Esmirna escreveu o livro “Matemáticas para entender Platão”, quase dois mil anos depois, desde esta mesma Nova Acrópole em Portugal, sentimos o seu mesmo entusiasmo, aprendemos das suas ideias e lançamos a nossa revista “Matemática para Filósofos” para os enamorados da beleza matemática, para os enamorados da Verdade.”