NA DEMANDA DOS ARQUÉTIPOS E DA IMAGINAÇÃO CRIADORA. Lima de Freitas, pintor, filósofo, ensaísta, alma renascentista, foi uma figura de relevo da cultura nacional que se destacou por uma capacidade surpreendente em captar as essências tanto do imaginário lusitano como do europeu, até ao universal. Os seus contributos mereceram os títulos de Chevalier et Officier de L’Ordre du Mérite, atribuído pelo Governo francês, e de comendador da Ordem de Santiago da Espada, em Portugal. A sua obra é uma clara fonte de inspiração para aqueles que procuram um novo paradigma assente nos símbolos e arquétipos universais. Foi este o sentido que levou a Nova Acrópole a organizar uma sessão de homenagem que teve lugar no Palácio dos Aciprestes, na passada quinta-feira, 11 de Outubro de 2018, vinte anos depois do passamento do homenageado. Para o efeito associaram-se a Fundação Marquês de Pombal, o Instituto Internacional Hermes, o Círculo de Estudos de Matemática e Geometria Sagradas “Lima de Freitas”, o Coro de Santo Amaro de Oeiras e a Câmara Municipal de Oeiras. O Vereador da Educação, Pedro Patacho, marcou presença no evento. A música abriu os seus portais de beleza pela mão do Coro de Santo Amaro de Oeiras com peças de Rutter, Mozart e Händel, estes dois últimos compositores preferenciais de Lima de Freitas. Na «Alleluia» de Händel definitivamente todo o salão totalmente lotado de público viajou na direcção da harmonia das esferas. A prestação do coro oeirense foi simplesmente magnífica. A apresentação do evento esteve a cargo de Antony Capitão, membro da Nova Acrópole, dando de seguida lugar à poesia, Luís de Camões e Fernando Pessoa, poetas sumamente ilustrados por Lima de Freitas, foram deixando a sua marca poética neste evento memorável. Fernando António Baptista Pereira, adjunto do Ministro da Cultura e antigo presidente do Conselho Científico da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, ressaltou na sua comunicação a genialidade de Lima de Freitas tanto como artista bem como pensador e homem de cultura. Um artista que sempre procurou transmitir conteúdos. Seguiu-se novo momento musical. Recordando que o homenageado também fora violinista na sua adolescência, Mercedes Cabanach, pianista e professora do Conservatório de Lisboa, e o jovem violinista Vasco Sequeira interpretaram as Czardas de Monti. Vasco Sequeira foi simplesmente sublime revelando-se, mais uma vez, como uma grande promessa. O violoncelista Luís Sá Pessoa juntou-se ao duo inicial para a interpretação de obras de John Williams, Astor Piazzolla e Harold Arlen, esta última, «Over the Rainbow», um brinde deste fantástico trio face à insistente ovação do público, após tão belos momentos musicais. Paulo Alexandre Loução, Director da Nova Acrópole Oeiras-Cascais e Coordenador do Círculo Lima de Freitas, destacou na sua comunicação o carácter prospectivo da obra e pensamento de Lima de Freitas, nomeadamente na sua valorização e expressão do pensamento simbólico, assim como na assunção de um novo paradigma que integra a ciência e a espiritualidade. Lima de Freitas, um português que colaborou activamente na revolução epistemológica do século XX, donde se conclui que a “vivência do sagrado” e a função da “imaginação criadora” são os elementos verdadeiramente identitários do Homo sapiens. A família do homenageado marcou presença: a sua esposa Helle Hartvig Freitas, irmã, filhos, e neto. José Hartvig Freitas, filho de Lima de Freitas, realizou um comovente discurso dando a conhecer algumas facetas menos conhecidas do pai, tal como o gosto pela Banda Desenhada e Ficção Científica. Por sua proposta, nasceu a colecção «Agornauta» com a chancela dos Livros do Brasil. Luísa Possolo, João Cruz Alves, Andreas Wolf, Luís Vieira-Baptista também transmitiram aos presentes o testemunho da sua relação com Lima de Freitas, todos eles focando o seu carácter fortemente humanista e uma vocação especial de uma pedagogia profunda, maiêutica e socrática. Luísa Possolo recordou a sua acção como fundador e professor no IADE. João Cruz Alves trouxe à memória o impacto “iniciático” que foi para Lima de Freitas o seu encontro com Almada Negreiros, primeiro fisicamente, depois, em sonhos. Andreas Wolf transmitiu como Lima de Freitas o iniciou na cultura lusitana, tão profundamente, que, assim, ele próprio se tornou português, e amante desta cultura que tem a capacidade de sintetizar tantas outras culturas. Por fim, o pintor Luís Vieira Baptista que trouxe uma das suas pinturas que esteve patente numa exposição colectiva na antiga Galeria Soctip organizada pelo homenageado, recordou a magnitude do pensamento de Lima de Freitas, citando-o: «Só os símbolos autênticos (aqueles que têm cobertura de ouro nos cofres do inconsciente profundo) podem propor-se instrumento de um pensar o impensável, por isso não só a geometria mas também a palavra, a imagem, o número, na sua mais alta intensidade se transformam em símbolo, tal como é o nível simbólico o que confere a validação decisiva a essa geometria, a essa palavra, a essa imagem e a esse número. Como abordar, na verdade, a união harmónica dos níveis do ser e da consciência, do homem com o todo ou, por outras palavras, do conhecido com o cognoscível e com o que está para lá de toda a possibilidade de humano conhecimento, a não ser através de uma “geometria” de analogias simbólicas? Porque toda a linguagem meramente denotativa falha na empresa e acaba por gerar monstruosidades filosóficas.» (Lima de Freitas) O evento finalizou com um Carcavelos de Honra e convívio fraterno entre os presentes.

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